JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A “CRISTA DE GALO” E O VRRRRUUUUM DA INHAMBU!

Pirão de farinha seca da “crista de galo”

Era habitual, antes de botar a tramela na porta do galinheiro, auxiliada com a claridade da lamparina, conferir se todas as galinhas e os três galos estavam ocupando seus devidos e tradicionais lugares. Isso, era o que faziam, pela ordem natural da vida, a minha bisavó Naname, minha avó Raimunda, e minha mãe Jordina. Tradição familiar.

E, naquele começo de noite, após a contagem, o caixa não fechou. Os números não batiam, haja vista que dois lugares estavam “desocupados”. Mas, pelo menos naquela noite, quem estivesse fora do galinheiro continuaria assim.

– Tá fartando duas galinhas, Zezim! Amanhã bem cedim a gente percura elas!

Recolhemos a lamparina, fechamos a tramela do galinheiro e depois a porteira do chiqueiro, e voltamos para casa – pois agora precisávamos forrar o estômago antes de dormir. Foi, na volta para casa, que descobri que Vovó trazia numa das mãos, três ovos que havia pego no galinheiro.

– Zezim vá dizê pro seu Avô prumode não drumir, que vou fazê o dicumê!

Ovo cozido com a gema mole

O “dicumê” a caminho da preparação, era a famosa “crista de galo”, alimento emergencial que se consome há tempos em muitas casas desse país. E, não é “alimento” apenas para os pobres. Bem preparado, tem a preferência de muita gente.

Panela (no nosso caso, panela de barro) no fogo. Água, sal a gosto, pimenta do reino moída, coentro e cebolinha picados, uma colher de sopa de banha de porco ou manteiga real, ou, ainda, manteiga de garrafa.

Tão logo começa a fervura da água, com cuidado coloca-se um ovo sem casca e espera-se que a clara cozinhe. Em seguida, retira-se o ovo com cuidado para não “espocar” a gema. Separa-se, e repete-se a mesma coisa com quantos ovos forem necessários.

Cozidos os ovos, faz-se o pirão (angu, para muitos) e serve-se ainda quente. No prato, sobre o pirão, acrescenta-se os ovos, em seguida “espoca-se” os ovos permitindo, aí sim, que a gema cubra o pirão. Sirva-se!

Inhambu – ave da roça

Ao amanhecer do dia, tão logo o galo começa cantar, a rotina diária da casa recomeça. Café preto para uns, com leite para outros, batata doce cozida, cuscuz com nata de leite, abóbora cozida, à qual se junta o leite “vaquino” – eu sempre preferi o leite “caprino” – e vamos à luta.

Terminado o café, foice na mão, bornal no ombro, chapéu na cabeça e é iniciada a procura das duas galinhas poedeiras pertencentes ao “rebanho” da matriarca. A gente sabe que, “rebanho” é mais usado para os bois.

Poucos minutos de procura, e já se percebe que uma chuva fina caiu durante a noite, formando um orvalho poético aos olhos de quem gosta do verde das folhas, em detrimento do amarelado propício às queimadas, possibilitando que a brisa refrescante massageie o rosto e faz aspirar aquele cheiro gostoso e inconfundível da terra molhada.

Repentinamente, aquele momento poético de tantos versos gonçalvinos é interrompido na primeira curva que a vereda do caminho oferece na direção do mato à dentro, e do açude novo.

– Vrrrruuuummmmm!

– Vrrrruuuummmmm!

Provocando um grande susto, mas avisando que ali existia vida, um belo casal de inhambu levanta voo, transformando as asas em poderosas turbinas movidas pela natureza da vida e do universo.

O casal de inhambus aproveitava algumas sementes ainda em flor, que a neblina e o peso do orvalho haviam derrubado e apareciam limpas no caminho.

Andamos procurando a manhã toda. As duas galinhas poedeiras da Vovó não foram encontradas, sem deixar dúvidas que, mais uma vez, a raposa se fartara na preservação das espécies.

Ficava a certeza que, a partir daquele dia, o dicumê noturno feito com “crista de galo” teria alguns ovos a menos.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O RELÓGIO DE ALGIBEIRA

Relógio de algibeira presenteado ao meu pai

Nasci no dia 30 de abril. Na minha família, também nasceram no mês de abril, meu irmão João Hélio, no dia 8; minha Mãe, Jordina, no dia 14; meu irmão caçula, Jorge Luiz, no dia 23. Depois, chegaram minhas duas filhas do primeiro casamento. Ana Karina, dia 20; e Annya Karênina, dia 15.

De todos da família, apenas eu recebia presente de aniversário. Explico: dinheiro sempre foi fartura entre nós. “Fartava” sempre para tudo, incluindo as necessidades domésticas básicas. E, dinheiro de pagamento salarial sempre chegava no último dia de cada mês. Dia 30. Entenderam, tenho certeza.

Meu Pai aniversariava no dia 26 de outubro, e não fazia muita questão de receber presente de aniversário, até por que, para comprar esse presente, tínhamos que ter dinheiro. E, o dinheiro que tínhamos, era sempre Ele quem nos dava. Por esse ou aquele motivo, era Ele quem nos dava.

Do dia 30 de abril, até o dia 26 de outubro, se passavam seis meses, ou quase isso. Como eu era o único que recebia presente do meu Pai, eu também era o único a presentear-lhe. Nada mais justo. E, como eu não trabalhava, para presenteá-lo, precisaria “juntar os trocados” que ele próprio me dava. Era, digamos, como se Ele estivesse “poupando”.

Ele até me dava o porquinho de presente, e, às vezes, até depositava algumas moedas, daquelas antigas de cinquenta reis, dois mil reis, dinheiro corrente daqueles tempos antigos.

Tudo mudou quando a adolescência bateu à porta. As doações do meu Pai rarearam e, juntar trocados ficou mais difícil. Eu precisava dar o meu jeito, pois a mentalidade da retribuição permanecia, e eu continuava ganhando meu presente todo dia 30 de abril.

Lá pelos meados do mês de setembro, eu dava aquela sacudidela no porquinho, e podia perceber que ainda eram poucas as moedas. Insuficientes para comprar a tradicional “caixa de lenços Premier” que, aparentemente, meu Pai gostava tanto. Corria e quebrava o porquinho de cerâmica. Só então descobria que precisava “fazer dinheiro”.

E agora, o “fazer dinheiro” seria diferente daquele dinheiro que fazíamos com maços de cigarros vazios que tanto usávamos na infância. Tinha que ser, e precisava ser “dinheiro mesmo”.

Pegava as moedas do porquinho, comprava dois cocos e duas rapaduras. Corria à fazer cocadas. Cocadas das pretas. Aquelas preferidas da maioria.

A primeira leva das cocadas não dava para quem queria e já havia provado. Era de uma doçura incomparável, comprovando que havia componente mais doce que o açúcar ou a rapadura.

Cofrinho de cerâmica onde eu juntava os tostões e os milréis

O dinheiro produzido com a venda tinha uma destinação. Parte serviria para cobrir a despesa do investimento – uma espécie de capital de giro – e outra parte voltava para novo custeio. O que configurava “lucro”, era depositado em algum novo lugar, até que um novo porquinho fosse comprado.

Mais cocos. Mais rapaduras. Mais cocadas e mais possibilidades de novo faturamento. Por alguns dias, meses e anos, fui considerado o “Rei das cocadas pretas” – título e reconhecimento pomposo e provavelmente merecido.

Entre uma porção de cocadas e outra, nunca foram esquecidas as obrigações escolares, nem a premiação dos momentos de lazer que toda criança ou adolescente faz jus. Estudar, trabalhar e brincar – literalmente nessa ordem.

Finalmente, o dia 26 de outubro se aproximava. Sem shopping, sem lojas de vitrines bonitas, a solução era esperar a chegada de um sábado (dia sem aulas) para, finalmente, comprar aquela caixa de lenços que ficava escondida em lugar inacessível pelo aniversariante. No dia tão esperado, aquela novidade que se repetia a cada ano, era mais uma vez praticada.

Cocada das pretas – minha primeira impressão de empreendedorismo

Mas, de acordo com o ditado popular, “não há mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe” – e aquela alegria momentânea, simples, coroamento da relação de um Pai com um filho, também estava com as horas contadas.

A adolescência trouxe junto, o compromisso de servir à Pátria, e a responsabilidade de pensar num salto maior nas obrigações escolares: o Vestibular, com a chegada do curso científico no Liceu do Ceará.

O tempo passou, e surgiu a primeira namorada. Aquela que precisava ser visitada na própria casa, com assento em lugar de destaque na sala principal. Namoro firme, e o início do conhecimento prático da vida. Continua correndo o tempo. Célere. Como se fosse uma competição olímpica e a necessidade de superar recorde.

O primeiro emprego remunerado. Não tão bem remunerado, mas a recompensa do esforço para alcançar uma aparente independência.

O ingresso no curso científico arregalou os olhos para o mundo, e aguçou a sensibilidade para o que realmente é a vida. Novos amigos, emprego novo e agora ganhando o triplo do que ganhava no emprego anterior. Novo horizonte e um mundo que, se não era colorido, tinha tons firmes e definidos.

O bom salário trouxe o engajamento com a política estudantil, e novas ideologias. A coragem de participar politicamente das coisas da vida, e a ingênua perspectiva de consertar o mundo. A eleição para compor a diretoria do Sindicato dos Telegráficos, e a politização ideológica, até o envolvimento total na prática diária.

Eis que chega o dia 31 de março de 1964. Tudo muda em pouco menos de 24 horas. Os céus ficam escuros e a chuva não cai. Nuvens negras. Nuvens pesadas.

Entre o dia 31 de março de 1964, e o próximo dia 26 de outubro, havia uma distância muito grande, e não havia mais dois cocos, duas rapaduras nem algumas boas cocadas das pretas. Com certeza, aquela caixa de lenços seria esquecida por algum momento.

Mudar para outro lugar, foi a ideia que veio à cabeça. Sem demora, um acordo para a demissão da diretoria do Sindicato, o que possibilitaria uma negociação com a Western, e o recebimento de todos os direitos trabalhistas. Tudo acertado e, enfim, um bom dinheiro na conta bancária.

Passagem terrestre comprada, pois não havia problema para uma viagem interestadual. Malas prontas, namoro desfeito, tudo encaminhado.

Era chegada a hora da despedida em casa. Uma lembrança forte e marcante substituiria aquela caixa de lenços. Fui a uma relojoaria e, com dinheiro suficiente, comprei um relógio de algibeira. Um dia antes da viagem, resolvi entregar o presente à quem só aniversariaria no dia 26 de outubro, muito distante. Mas a pressão das nuvens negras estava próxima.

Entreguei o presente e olhei firme nos olhos do meu velho Pai. Foi a primeira vez que vi lágrimas escorrerem pelos olhos dele, e a última vez que nos vimos e abraçamos fortemente.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O TREM QUE TRAZIA – E O ÔNIBUS QUE LEVAVA

O trem avistado desde a Estação Barracão

Quando chegava o mês de dezembro, os alunos que compunham a série do curso ginasial se alvoroçavam. Uns, vibravam de alegria pela aproximação das provas finais do ano letivo e o início das férias escolares, outros, que haviam estudado pouco ou quase nada aprendiam, ficavam apavorados com possíveis reprovações. Provas escritas e orais, exigiam o somatório da média 5. Abaixo disso, era “reprovação consumada” e a certeza da repetição de tudo no ano seguinte. Nunca repeti e sempre alcancei nota acima da média. Mas, muito longe de ser “top” entre os melhores alunos da classe.

A última prova oral do ano letivo, tinha ares de verdadeiro “chute na bunda” e, em seguida, pernas para que te quero.

Neste exato momento, quando estou escrevendo este texto (dia 25 de outubro de 2019), me veio à lembrança uma dúvida: não lembro se, naquele tempo o meu pai se dirigia ao colégio “para renovar a matrícula”, como é feito hoje. A “rematrícula” era automática, diferente das muitas inovações imprestáveis dos dias atuais.

No dia seguinte era fazer a pequena mala de madeira forrada e coberta com papel parede, colocar a escova de dentes, o creme dental Eucalol, a baladeira, o pião e o bornal de carregar pedras, uma latinha de Vick Vaporub e uma “roupa de ir à missa aos domingos”, comprar o bilhete do trem e esperar aquele maravilhoso apito da partida. Os trilhos, mesmo existindo algumas paradas programadas ou desvios, só levavam à um destino: a Estação de Barracão, lugar que jamais será apagado da memória de muita gente.

Estação Barracão em abandono após anos de utilização

Quando a máquina que conduzia os oito vagões de carga e passageiros se aproximava da estação, longe ainda, mas na última curva antes dos duzentos metros de reta, muitos punham as cabeças para fora das janelas na tentativa de identificar a parentada que, atônita, esperava na estação. Acenos mil, beijos muitos.

A alegria da chegada era transformada naquele “ruge-ruge” de abraços e encontros com bagagens e fardos de encomendas para esse ou para aquele. Um momento ímpar de alegria e contentamento pelo reencontro – ainda que por apenas dois meses das férias escolares.

Hoje, lembro bem, a ansiedade que enfrentávamos quando faltavam três ou quatro dias para o início das férias, fazia a demora parecer um século – e era diferente, também, com a duração dos dois meses de férias que, parecia ser menos de uma semana.

Baladeiras, passarinhos, banhos no açude, assar castanhas de caju, defecar trepado na mangueira ou cajueiro, tudo contava pontos naquela curta vivência das férias. Quando menos esperávamos, faltava menos de uma semana para o final daquele período marcante.

As aulas recomeçavam sempre numa segunda-feira (por que????) e, no sábado já tínhamos que estar de volta em casa para a preparação da volta às aulas: cortar o cabelo, provar e aprovar o fardamento se fosse novo, e encapar os livros e cadernos novos.

A sexta-feira, ainda no interior, era estafante e cansava mais que os quase dois meses de brincadeiras. Caminhar até o rodovia para tomar o ônibus que levava de volta à casa.

O ônibus da volta das férias era um verdadeiro luxo

Sem muita reclamação, a rotina das aulas no início do ano não mostrava diferença. Só mesmo nas caras dos professores, ou nas matérias que mudavam a cada ano. Química e Física só estudávamos a partir da terceira série ginasial e no científico. Antes, era Ciências Naturais. Cada final de mês, provas escritas. Provas orais só no final de cada ano, sempre após as provas escritas. E assim, aparentemente, tudo era igual até o final do ano. Exceção às férias do meio do ano, sempre em julho.

A ÚLTIMA: Minha santa Avó não era puta. É, puta, aquela que “renova o óleo masculino num cabaré” ou intramuros de quatro paredes. Mas, também não tinha nenhuma aproximação com a agora Santa Dulce dos Pobres. Mulher liberal e liberada antes mesmo do nascimento de Leila Diniz. E minha falecida e santa Avó tinha uma característica que, quiçá nunca tivesse sido só dela – ela, vovó, nunca usou calcinha, tampouco calçola. E, tirada da cabeça dela, tinha uma explicação para esse comportamento:

– “Calcinha ou calçola é algo que “guarda”. E por que diabos a gente tem que guardar alguma coisa que gosta e sente prazer em dar?”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

LICEU DO CEARÁ – 176 ANOS DE MUITA QUALIDADE

Liceu do Ceará chega aos 176 anos de existência

Fundado no dia 19 de outubro de 1843, o Liceu do Ceará é a quarta mais antiga instituição de ensino público do Brasil, país que já atingiu 519 anos desde a descoberta no dia 22 de abril de 1500.

De acordo com o livro “O Liceu do Ceará em Cem Anos”, do autor Hugo Vitor, a escola é a 4ª mais antiga do País, fundada no ano de 1843. A instituição foi criada pelo Marechal José Maria da Silva Bitencourt, que era “engenheiro militar e foi o 13º presidente do Ceará e Comandante das Armas”, e dessa fundação como legado, os muitos diretores que por ali passaram, mantiveram apenas a rigidez disciplinar para professores e alunos. Sem viadagens, sem baitolagens – aluno com “brinquinho” na orelha, não entra. Tem todo o direito de ser gay, mas vai ser gay fora do colégio.

Ainda hoje, usando a linguagem sem verniz, “o Liceu do Ceará é uma escola onde a frescura e a viadagem não entram”. É uma escola para macho. Disciplina rígida, sem aderir às frescuras atuais que permeiam na educação brasileira, o Liceu do Ceará é o principal formador de mais de 70% dos profissionais renomados do Ceará.

O primeiro diretor da escola foi o padre Thomaz Pompeu de Souza Brasil. Já o primeiro prédio do Liceu foi inaugurado em 1894, no Centro de Fortaleza, e lá permaneceu até 1937, quando se mudou para o seu atual endereço, na Rua Liberato Barroso, no bairro Jacarecanga. O diretor mais longevo e admirado por sua rigidez direcional, sem deixar de ser justo, foi Boanerges Cysne de Farias Sabóia. Admirado e respeitado até pelos mais “peraltas” alunos.

Professor Boanerges Cysne de Farias Sabóia com sua espoa – ele foi o mais longevo Diretor do Liceu do Ceará

Rigidez e disciplina suportáveis – Quem ler hoje nas redes sociais os pais que perderam o controle e o domínio sobre os filhos protestarem contra “escolas públicas com orientação militar” – sem que a matrícula de quem quer que seja venha ser algo obrigatório – reclamar da qualidade da escolarização apenas para
se parecerem “contra o Governo”, não tem a menor ideia de que um dia (e até hoje é assim!) foi a disciplina implantada no Liceu do Ceará.

Aluno que agride professor, no Liceu do Ceará, nunca foi “suspenso”. Sempre foi “expulso” e os pais nunca compareceram “armados de revólver” para reclamar isso ou aquilo. Dentro do colégio, a disciplina sempre foi rígida – sem ser “militarizada”.

Estudei no Liceu por 7 longos anos. Ali estudei Canto Orfeônico (Música), Latim, Desenho e até “Esperanto”, sem nunca ter sabido qual a utilidade dessa matéria. A média para “aprovação”, era 7. Quem ao final do ano, após as provas escritas e orais não alcançasse a média 7, estava “reprovado” e “c´est fini”!

Foto 3 – Veja a disciplina durante um café da manhã numa data comemorativa

A maioria que concluía o Terceiro Ano Científico (ou Clássico) no Liceu do Ceará, quase nunca era “reprovada” no Vestibular para qualquer universidade – por que, quem concluía, sabia o que fora ensinado. Estava preparado para enfrentar o Vestibular.

Por isso, nenhum pai saía de casa para agredir Professor, pois sabia que aquela rigidez tinha um objetivo: o aprendizado, sem frescuras, sem qualiragens.

Era terminantemente proibido a qualquer aluno de qualquer série, vestir o uniforme do colégio fora do horário de aulas. Quem fosse flagrado usando a calça (cáqui, com duas listas azuis em cada perna) com o objetivo de pagar meia passagem nos transportes coletivos ou nos cinemas, era punido.

Os “bedéis” – funcionários que fiscalizavam as possíveis indisciplinas de alunos pelas ruas nas saídas dos horários de aulas – eram temidos e respeitados.

Outros tempos!

Parabéns ao Liceu do Ceará pelos 176 anos de excelentes serviços prestados à escolarização do Ceará e do Brasil.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DIVIDINDO

Quando puderes dividir, divida!  Nunca mais te faltará nada.

Lamparina usada até hoje no sertão

Se existe um órgão em mim que funciona dentro de uma normalidade, esse é o cérebro. É nele que a minha memória deposita sua confiança, rememorando fatos e situações que aconteceram faz muito tempo.

Lembro nitidamente de um fato, quando ainda criança, morávamos na roça das Queimadas, um pequeno e escondido povoado de Pacajus. Era Pacajus por que pertencia territorialmente ao município, mas ficava mais próximo de onde hoje é Horizonte, município que recentemente foi incluído na RMF (Região Metropolitana de Fortaleza).

Pois, foi naquele clima que, a claridade da luz solar, assim de uma hora para outra começou a se esconder, e aos poucos, foi sendo substituída pela escuridão. Nuvens negras vieram juntas, reforçando ainda mais aquela pintura feita nos céus, parecendo um poema escuro, sem muita graça, pintado por Pablo Neruda e Van Gogh a quatro mãos.

As nuvens não eram apenas um prenúncio. Era a chuva chegando mesmo. Rápida e forte, como se pretendesse se fazer notar naquele momento. Aquelas nuvens negras, por segundos, pareciam se abrir para dar passagem às línguas amareladas dos raios que as dividiam, ao mesmo tempo que faziam estremecer a terra. Era uma tempestade, maior que qualquer uma que tivéssemos pedido, mas na medida que Deus sabe que podemos suportar.

De repente, na porteira que levava à casa da Vovó, uma voz tremida se fez escutar:

– Ô cumade Doca, segure seu cachorro. Sou eu, “Dasdores”, e já tô entrando!

– Apois intão entre, danisca!

Bradou Vovó, com a força que os pulmões envelhecidos ainda permitiam.

– Ô cumade, duma hora pra ôtra em fiquei sem gás. Num tem nem um tiquim prumode botar na lamparina, e alumiar a casa! Vosmecê me impresta só um tiquim, logo amanhã cedo mando comprá pra devolvê, visse!

– Mulé, tu tá parecendo mais uma galinha velha, toda moiada! Inté a “coisona” que tu carrega entre as pernas tá toda engilhada!

– Deixa disso, mulé! Me adjetora logo esse gás, que eu quero voltar num pé e noutro – apois tá é tudo escuro lá em casa!

– Avia, cadê a lamparina, mulé?

– Cumade Doca, quaje que ia me isqueceno. Me impresta tomém um pôco de pó de café, prumode eu fazê amanhã cedim pra quem vai trabaiá!

Secular forma de “passar café” na roça

Pois foi assim, rapidinho, que um anoitecer mudou de figura, com a chegada da noite trazida por uma forte tempestade, onde o vento destruiu e derrubou árvores naqueles lugares distantes em que as pessoas ainda vivem até hoje, e poucos se dão conta, porque a televisão não mostra no Jornal Nacional.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A VIDA COMO TEM SIDO E COMO TEM NOS LEVADO

Sem que possamos assegurar que a vida em sociedade teve algum tipo de progresso ou evolução, podemos garantir, isso sim, que muita coisa já não é como era cinquenta anos atrás.

Houve mudança, sim. Num somatório, algumas eram necessárias, outras nem tanto. Um exemplo perceptível, é que, com o progresso das pesquisas e da ciência em todos os mais evoluídos rincões do mundo, há quase um século se tenta descobrir a cura do câncer, e não se consegue.

A praticidade de algumas coisas melhorou. Alguns direitos foram conquistados – mas ainda não conseguiram descobrir “por que um ser humano precisa matar outro”. Os irracionais não se matam entre as espécies semelhantes.

Torçamos para que, pelos muitos dias que ainda teremos pela frente, as coisas e as relações humanas continuem melhorando.

Deixando a ansiedade de lado, trato hoje de dois momentos diferentes enfrentados pela sociedade vivente, que se dilacera, que se entretém das mais diferentes e estapafúrdias formas – mas diz ao mundo que se ama.

I – A CACIMBA

A cacimba e a tradição familiar da roça

Em muitos desses grotões interioranos Brasil à fora, uns chamam de cacimba, outros de cacimbão, e outros tantos de cisterna. Na realidade, é um buraco cavado no chão, que vai encontrar o lençol freático e um veio contínuo d´água. Me acostumei chamando de cacimba, embora Vovó quisesse que chamássemos “poço”. E ela “mandava” em nós. Sem reclamações, ou as frescuras atuais. Quem não obedecesse, estaria comprando uma briga que, no futuro, acabaria perdendo. Nem que fosse um gostoso pedaço de rapadura, ou algumas colheradas a mais, daquele gostoso caldo do almoço dominical , colocadas com carinho no prato de barro.

O que sabemos mesmo, era que, ficávamos horas e horas “puxando água” para encher os tonéis que os jumentos carregariam. Eram os “caminhos d´água” que tornavam o nosso trabalho uma poesia da eficiência, dizendo da nossa importância ao som do “roém, roém, roém” provocado pelo contato do breu com a madeira desgastada e da corda de sisal com o carretel (roldana).

Algum dia, na minha infância, puxar água para encher o pote de alguém, já foi uma forma de trabalhar para ganhar umas moedas de mil réis. Era comum faltar água em algum lugar, e as donas das casas da vizinhança nos pagavam para enchermos os potes. Com a merrequinha que ganhávamos, comprávamos revistas, íamos ao cinema, e comíamos pipocas antes do início da sessão da tarde. Era, digamos, o colorido da vida.

II – A DIFERENÇA – ÀS VEZES, “A FAMÍLIA” DESEDUCA!

Alojamento de um “Colégio Militar”

Volto a bater na tecla em caixa alta. Educar é uma coisa, e cabe à família. Entre as muitas tarefas pertencentes à família, está o “impor limites” (com o peso da palavra, mesmo: “impor”) e, nos dias atuais, os pais aprenderem e terem que dizer “não”.

As gerações passadas foram criadas de formas diferentes, sem a obrigatoriedade de dizer sempre o “sim”, como acontece nos dias de hoje. Era o “não” – e estamos conversados! Adota quem quer. Mas, quem não adotar, vai correr o risco de se dar mal. E, quase sempre, isso acontece.

Escolarizar compete à escola – neste caso, algumas escolas, inadvertidamente, estão tomando para si o papel de educar. E é aí que mora o perigo, e nisso residem os mais catastróficos conflitos no dia a dia do jovem.

Entre os primeiros sinais dessa tentativa de inversão dos papeis, está a quase imposição de que os jovens estudantes tratem as(os) professoras (es) como “tia” (tio). Ora, “tio”, é o irmão do pai ou da mãe – e nem vamos caminhar por ali, pois seria discutir a mediocridade ou o sexo dos anjos.

Quarto de dormir de jovens “educados” pelas famílias brasileiras

Mas, o que nos traz aqui, nestes poucos parágrafos é a acirrada discussão da sugestão e não da obrigatoriedade de matricular ou não, o(a) filho(a) numa escola com “orientação militar.” Como se isso estivesse sendo uma determinação. E não é.

Quem matricula o(a) filho(a) numa escola Adventista?

Alguém é obrigado matricular o(a) filho(a) numa escola adventista?

Sabe qual é mesmo o grande problema? É que a ideia vem do Governo Bolsonaro. E muitos que não votaram no 17, simples e ridiculamente, para mostrar que “são do contra”, estão tentando desconstruir a proposta. Repetimos: “proposta”! Não orientação.

É quase que a mesma babaquice (repito o termo chulo: “babaquice”) de ficar dizendo que “homossexualidade” é “orientação”, e não opção. Alguém orienta outrem para que escolha ser homossexual, para queimar a rosca?

Vai longe a pendenga. Duvido que, descumprindo as “regras” dos colégios com orientação militar, algum aluno se atreva a sair da cama sem deixa-la arrumada com os lençóis sem uma única rusga.

Diferente das camarinhas onde dorme e vivem os(as) filhos(as) de muitos dos pais atuais. Alguém vai querer exigir que o(a) filho(a) alinhe o quarto pessoal antes de sair de casa? Du-vi-d-ó-dó!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TRUNFO É COPAS – NO JOGO DE SUECA

Baralho de cartas COPAG o melhor mais tradicional

Parecia a repetição de uma peça teatral escrita por Plínio Marcos. Num cenário mental estabelecido, gravado até hoje. No alpendre lateral da casa, estavam armados uma mesa, quatro tamboretes com assentos de couro de bode, e, ao lado, o “reserva” balançava na rede, tocando o pé na parede para a tijubana pegar impulso. Esse “reserva” dificilmente entrava no jogo – a não ser que alguém precisasse ir ao banheiro e demorasse bastante.

– Corta!

Era o sorteado para embaralhar a primeira partida de sueca das dez ou mais, que seriam jogadas naquela tarde de domingo, logo depois da madorna pós-almoço, quem daria as cartas pela primeira vez.

– Qual é o trunfo?! Perguntavam os três jogadores.

– Copas!

Respondia o responsável pela distribuição das dez cartas para cada um dos jogadores.

Mancheia de “trunfos” (copas) – se fosse ouros tava lascado

A sueca é um jogo de cartas, jogado por quatro jogadores. À cada um serão distribuídas dez cartas. É hábito no Nordeste, jogar sueca em parceria de dois pares, e ganha o jogo, quem somar mais de 60 pontos – não entram no jogo as cartas 8, 9 e 10. A “sueca” é dada quando uma das parcerias não consegue somar nenhum ponto.

A cada início de partida, o baralho é “traçado” (misturado) e posto ao “corte” para que seja conhecido o “trunfo” – naipe que dará privilégios para “cortar” qualquer carta de alto valor que não seja “trunfo”. A ordem de distribuir cartas e cortar o baralho, é sempre no sentido horário.

O Às e o sete são as cartas de maior valor do baralho no jogo de sueca. Como “regra do jogo”, se não for do “trunfo”, o Às e o sete podem ser “cortados” até mesmo pelo 2 de trunfo.

Parcerias

Existem pessoas que gostam de jogar sueca em parcerias com outras. Na maioria dos lugares onde se joga sueca, essas parcerias não são aceitas, haja vista que, desconfia-se da prévia combinação de sinais no procedimento das jogadas. Tipo: coçar o olho direito; pigarrear uma ou duas vezes; fingir coçar o nariz, etc.

A sueca é um jogo secular, que mantém entretidos diferentes faixas etárias das famílias. Os idosos não são muito adeptos de jogar contra os jovens – preferem a seriedade dos da mesma faixa etária durante as partidas.

Mesa de idosos jogando sueca

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

SÃO COSME E SÃO DAMIÃO

Foto 1 – São Cosme e São Damião

Cosme e Damião

“Os Santos Cosme e Damião, irmãos gêmeos, morreram por volta de 300 d.C. Crê-se que foram médicos, e sua santidade é atribuída pelo motivo de haverem exercido a medicina sem cobrar por isso, devotados à fé. Na Igreja Católica sua festa é celebrada no dia 26 de setembro, de acordo com o atual Calendário Litúrgico Romano do Rito Ordinário, e no dia 27 de setembro, pelo Calendário Litúrgico Romano do Rito Extraordinário. Na Igreja Ortodoxa são celebrados no dia 1 de novembro e também em 1 de julho pelos ortodoxos gregos. Nas religiões afro-brasileiras, onde são sincretizados como entidades infantis, também são festejados em 27 de setembro.

Os gêmeos nasceram em Egeia (agora Ayas, no Golfo do İskenderun, Cilícia, Ásia Menor), e tinham outros três irmãos. O pai foi mártir durante a perseguição dos cristãos na era de Diocleciano. Cosme e Damião eram médicos que curavam os enfermos não só com seu saber mas através de milagres propiciados por suas orações. Seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. Sua mãe se chamava Teodata, e também é venerada como santa pelos ortodoxos.

Brasil – O culto aos gêmeos mártires foi trazido para o Brasil em 1530 por Duarte Coelho Pereira e tornaram-se padroeiros de Igarassu, em Pernambuco. No nordeste brasileiro passaram a ser invocados para afastar o contágios de epidemias. Os negros bantos identificaram Cosme e Damião como os orixás Ibejis em um sincretismo religioso.

Relação com as religiões afro-brasileiras – O dia de São Cosme e Damião é celebrado também pelo candomblé, batuque, xangô do Nordeste, xambá e pelos centros de umbanda onde são associados aos ibejis, gêmeos amigos das crianças que trazem bem estar por onde passam , possuem conhecimento de desfazer feitiços e auxiliam na cura de enfermidades e trazem alegria , deixando harmonia e felicidade no ambiente a sua volta ,(descarregando o ambiente de energias densas), trabalham na caridade , auxiliam principalmente , pessoas em situações de desamparo, fragilizadas , como crianças , idosos , enfermos e como trazem a energia alegre leve e inocente das crianças consigo , gostam de doces , frutas doces e guloseimas. O nome Cosme significa “o enfeitado” e Damião, “o popular”.

Estas religiões os celebram no dia 27 de setembro, enfeitando seus templos com bandeirolas e alegres desenhos, tendo-se o costume, principalmente no Rio de Janeiro, de dar doces e brinquedos às crianças que lotam as ruas em busca dos agrados. Na Bahia, as pessoas comemoram oferecendo caruru, vatapá, doces e pipoca para a vizinhança.

São considerados no Brasil os Santos padroeiros dos Farmacêuticos e Médicos. A bonita história de São Cosme e São Damião — que por sua vez é marcada por visões diferentes, dependendo da crença de cada religião — demonstra a complementaridade e interdependência que as profissões irmãs, a medicina e a farmácia, possuem. Talvez o sucesso atribuído às curas milagrosas dos irmãos gêmeos, na idade média, nada mais fosse do que a antecipação da divisão do trabalho, ocorrida apenas no século XIII, onde a farmácia foi separada oficialmente da medicina e considerada uma profissão.” (Informações transcritas do Wikipédia)

Pois sim. Dito e mostrado isso, a data serve de motivação para nos transportar de volta à infância, mais uma vez. E, como parte da nossa infância foi vivenciada ao lado dos avós, como poderia eu “deixar de fora” minha inesquecível Dona Doca Buretama?

Nossa casa, mais dela do que nossa – tanto que herdamos apenas os maravilhosos momentos vivenciados juntos – era grande e cheia de cômodos, cada um com sua utilidade. Eram mantidas duas “camarinhas”: uma, onde ela e Vovô dormiam e provavelmente faziam traquinagens antes de dormir; e outra, onde ela escondia as cumbucas cheias de ovos de galinha caipira, das patas e das peruas e nacos generosos de rapaduras.

Cocadas brancas e pretas – as verdadeiras cerejas do dia

A gente nunca sabia o motivo, mas via que, no dia 26 de setembro Vovó pegava alguns cocos, abria cada um em duas quengas, pegava o raspador manual (uma concha dentada) e se punha a preparar os ingredientes das cocadas. Para a cocada branca usava o açúcar branco e, para a cocada preta, usava a rapadura. Não dava para dispensar.

Em vez de distribuir senhas para entregar os doces, avisava aos gritos para que todos os netos e demais parentes viessem no dia seguinte, 27, participar da distribuição das guloseimas em comemoração ao dia de São Cosme e Damião. Eram para nós, santos desconhecidos, haja vista que, para aquelas bandas só se ouvia os nomes de São José, o santo das chuvas; São Francisco de Canindé, o milagreiro da cidade próxima; e, claro, Jesus Cristo, a quem adorávamos e até jejuávamos por uma semana na Semana Santa.

Adolescentes felizes com sacolas de bombons

A mudança para a chamada cidade grande não mudou muito nossa rotina quando se aproximava esse dia. Apenas perdemos o incentivo à curiosidade de tentar descobrir quantos pedaços de rapadura e quantas cocadas Vovó daria para cada neto. Nosso foco passou a ser uma tal distribuição de senha, um papelucho que nos garantia receber chocolates batom, maria-moles, pirulitos e jujubas.

Era uma correria danada e desenfreada no fim da tarde do dia 26. Os mais organizados e respeitosos formavam fila para a recepção da senha. Uma senha por família – não havia necessidade de enganar o benfazejo doador dos doces. Todos se respeitavam e se conheciam dos encontros de tantas tardes e noites brincando na ruas.

Em que pese ser o dia de São Cosme e Damião um festejo pagão que todos respeitavam, não se tinha notícia de missas ou outros tipos de celebrações. Era apenas a festa dos doces. Nada mais.

Maria-mole, uma verdadeira maravilha

Hoje, ao que se sabe, apenas as pessoas que frequentam candomblé, umbanda e outras crenças continuam distribuindo doces – mas há quem afirme que, em muitos locais onde há grande frequência, também se distribui, além de doces para as crianças, são postas fartas mesas de distribuição gratuita de comidas da culinária africana e nordestina.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A BOLANDEIRA, O CAITITU E A PRENSA

A “bolandeira” tocada a boi que movimenta o caititu

Na prática, tudo começava quando Zarraimundo metia a mão no bolso lateral da calça, e dele retirava um relógio de algibeira. Pontualmente às 07:30 horas, fazia soar em alto e bom tom o chocalho velho que fora retirado do boi Genaro, quando esse precisou ser sacrificado. Não conseguia mais andar, dando voltas, para movimentar a bolandeira e essa o cilindro do caititu.

Chegava a hora do trabalho. Oficialmente! Era verdade que, para a maioria que ali estava, o dia começara com o cantar do galo, por volta das 05:30 horas. Ainda escuro, quando todos se aprumavam nos lombos dos animais e partiam para a casa dos Albanos, onde acontecia a farinhada tocada pela cooperativa.

Zarraimundo, o leitor haverá de descobrir, na realidade era o José Raimundo, mas duvido que ele atendesse, quando alguém o chamasse assim. Pequena estatura, conformado com o seu 1,56m de altura e 0,80m de largura, tinha contra si a desproporcionalidade do pé. Calçava 46 ou 48 e nunca comprara sapatos em qualquer loja. Ninguém fabricava essas pontuações. Calçava alpercatas feitas sob encomenda. Vestia calças com suspensórios e usava na cabeça um chapéu de palha que matava qualquer mosca que, desavisada, pousasse ali. Um suor medonho, acumulado de meses e meses.

Mulher no “caititu” cevando a mandioca

Ao som do chocalho o dia começava. O estalar do chicote tangia o boi que conseguia dormir andando em círculos para movimentar a bolandeira e, essa o caititu. A mandioca começava a ser cevada (ralada, ou moída, para muitos) e, dali era transportada em cuias para um saco branco posto numa caixa da prensa. A mandioca ralada transformada em massa, era espremida e, dali saía a massa para peneirar antes de ir ao forno para ser torrada.

A “prensa” espremendo a massa da farinha antes de ir ao forno

Foi hilário quando Dilma Rousseff, inadvertidamente e demonstrando que jamais vira uma “mandioca” entrar no caititu para ser devorada, falou que o tubérculo poderia ser de grande valia para a economia nacional, ávida por mandiocas grossas, fortes e produtivas. É difícil o nordestino conviver sem a farinha. Farinha “soma” em tudo e não “diminui” em nada.

E por mais incrível que possa parecer, a mandioca precisa da água, do vento (o mesmo que a mesma Dilma pretendia ensacar para exportar) como sendo uma Trade Mark de nossa propriedade. As regiões Norte e Nordeste sofrem com a escassez d´água, em que pese o Norte ser rico em rios perenes, mas sem serem utilizados como “tocadores da agricultura”. Peixe é o que tem nos rios perenes da região Norte. E é difícil comer o peixe, sem a farinha.

A farinha – culminância de meses de cultivo e dias de trabalho digno do agricultor

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

ZÉ DE OSMINA – O HOMEM QUE MATOU ADOLF HITLER

Zé de Osmina dando uma pitada enquanto contava bravuras

– É mentira, Terta?!

– Verdade!

Corre mundo à “boca miúda” que, em qualquer lugar do Universo tem cearense. É uma raça que, igual pobreza ou riqueza, tem em todo lugar.

Da mesma forma, costumam dizer que, mentira tem pernas curtas, e não consegue ir muito longe. Mas, também há quem acredite que, uma mentira, por mais deslavada que seja, contada de forma repetida, um dia vira verdade. Daí muitos afirmarem que, tem gente que conta mentira com tamanha ênfase, que até ele próprio acredita que seja verdade.

Pois, foi no crocheteado município de Nova Russas, bem pertinho de Ipu, Ipueiras, Tamboril, Crateús e Monsenhor Tabosa que, no dia 30 de fevereiro de 1910, nasceu José Honorato de Oliveira, um menino gordo por natureza, gerado por Osmina Oliveira e Gertrudes Honorato.

Em Nova Russas, terra das vaquejadas que tem a sorte de ser banhada pelo rio Acaraú, cujo volume d´água provoca sono em quem, pesca de anzol e só acorda com a fisgada do peixe, e nas mulheres que passam a tarde inteira fazendo croché balançando na espreguiçadeira, para receber o vento que parece ter mãos de fada. Ali, quem se dava ao trabalho de procurar José Honorato de Oliveira, não encontrava nem que procurasse na própria residência do dito cujo. Agora, se procurassem por Zé de Osmina, podia preparar o tiro, que ia encontra-lo em qualquer roda de mentirosos.

Nunca se soube de outro lugar onde existisse tantos mentirosos quanto em Nova Russas – mas, com certeza, nenhum desses podia ser comparado com Zé de Osmina.

Cidade de porte médio do interior cearense com pouco mais de 30 mil habitantes, Nova Russas é mais uma das muitas cidades encravadas na caatinga cearense, que sofre com a escassez das chuvas, haja vista, grande parte da população viver da agricultura familiar.

Fartura é coisa rara em Nova Russas. Uma das cidades mais próximas de Nova Russas, é Tamboril, onde nasceram General Sampaio e, entre outros de igual fama, o ator e diretor de teatro Haroldo Serra.

De forma controversa para a má fama de Nova Russas, todo ano acontece o famoso “Festival Internacional das Mentiras”, batendo recorde de participantes a cada edição. E, os organizadores não precisaram pensar mais de uma vez, para dar nome ao “troféu” de vencedor em primeiro lugar: “Troféu Zé de Osmina”.

Até hoje Zé de Osmina é imbatível. Ninguém conseguiu mentir mais que ele. A mentira mais famosa pregada por Zé de Osmina aconteceu em 1945, quando, ainda nos seus 35 anos, foi conhecido e reconhecido como o homem que matou Adolf Hitler.

E, deixo para o próprio Zé de Osmina narrar os fatos ocorridos antes e depois da trágica morte de Hitler:

“Naquele tempo não era fácil viajar para os grandes centros. A gente precisava caminhar quase um dia para alcançar a rodovia que levava à Fortaleza. Certa noite eu escutei numa rádio da capital, que um certo Hitler estava apavorando o mundo, mandando matar muita gente e coisa e tal. Foi quando parei de maginar e arresolvi acabar logo caquela celeuma.

E aí pensei: vou já acabar com a farofa desse homem! Ora se vou! Como eu nunca tinha viajado de avião, resolvi que ia pegar o navio, o primeiro que parasse, prumode eu viajar. Mas, primeiro tive que pegar mesmo foi o pau-de-arara até Fortaleza, e a gente descia numa tal Cidade das Crianças, de onde precisava caminhar até o Mucuripe prumode pegar o navio e me mandar para onde tava acontecendo a guerra. E eu lá queria saber de guerra, siô! O meu negoço era com o tal Hitler. Era com ele que eu queria ajustar conta.

E eu me mandei na maior carreira para as bandas do Mucuripe. Quando cheguei na altura não sei nem de onde, de longe mesmo avistei aquele bando de fumaça sair do cano do navio. O bichão tava se movimentando para partir. Fiz sinal com as duas mãos, amostrei minhas armas, e aquele bichão deu marcha-ré para esperar que eu subisse.

A viagem num foi boa, não. Eu tava toda hora enjoando. Mas resolvi resistir até o destino final.

Depois de quase dois meses de viagem, quando escureceu, de longe, ainda no mar, a gente via as balas incendiarem os olhos da gente. Era uma bala encontrando a outra, e se atracando, e se envolvendo. Foi debaixo daquela saraivada de bala que o navio atracou. A gente desembarcou, e eu me avexei prumode cumprir minha missão, derna que saí de Nova Russas.

E foi aí que me apressei, inté que encontrei o lugar onde o tal do Hitler se escondia. Ele já tinha começado se esconder, pois tava perdendo a guerra e soube num sei como, que eu tava indo matar ele. Cheguei no lugar, dei uma pesada na porta, percurei ele, num encontrei. Fui noutro lugar, dei outra pesada e arrebentei a porta, sempre com a minha espingarda bate-bucha na mão.

Foi aí que eu vi, aquele homenzinho todo tremendo, tremia inté aquele bigodinho debaixo das ventas, e ao me ver, foi logo pedindo penico, dizendo:

– Zé de Osmina, tu por aqui, meu amigo?!

Foi aí que eu nem precisei atirar. Ele se tremia tanto cum medo de mim, e do que ia acontecer, que caiu durim, durim!”

* * *
Na verdade, o que aconteceu foi que Zé de Osmina nem chegou a embarcar. No mesmo dia que ele chegou em Fortaleza, a Segunda Guerra tinha acabado, e o navio que saía do Mucuripe estava era levando trigo moído para Belém.

Para parecer que estava mesmo vindo da guerra, Zé de Osmina resolveu ficar quase um ano perambulando pelas ruas de Fortaleza, deixando a barba crescer. Foi numa loja que vendia roupa militares e, três meses depois, usando sempre a mesma roupa, resolveu voltar a pé para Nova Russas.

Nem esperou anoitecer e já foi para a praça contar o acontecido para os amigos, que nunca confirmaram se acreditavam nele. E logo disse:

– Aquela guerra tinha que acabar mesmo. Foi só eu disparar uma carga nos peitos do Hitler, mandando ele para a cidade dos pés juntos, que resolveram acabar a guerra.