A BOLANDEIRA, O CAITITU E A PRENSA

A “bolandeira” tocada a boi que movimenta o caititu

Na prática, tudo começava quando Zarraimundo metia a mão no bolso lateral da calça, e dele retirava um relógio de algibeira. Pontualmente às 07:30 horas, fazia soar em alto e bom tom o chocalho velho que fora retirado do boi Genaro, quando esse precisou ser sacrificado. Não conseguia mais andar, dando voltas, para movimentar a bolandeira e essa o cilindro do caititu.

Chegava a hora do trabalho. Oficialmente! Era verdade que, para a maioria que ali estava, o dia começara com o cantar do galo, por volta das 05:30 horas. Ainda escuro, quando todos se aprumavam nos lombos dos animais e partiam para a casa dos Albanos, onde acontecia a farinhada tocada pela cooperativa.

Zarraimundo, o leitor haverá de descobrir, na realidade era o José Raimundo, mas duvido que ele atendesse, quando alguém o chamasse assim. Pequena estatura, conformado com o seu 1,56m de altura e 0,80m de largura, tinha contra si a desproporcionalidade do pé. Calçava 46 ou 48 e nunca comprara sapatos em qualquer loja. Ninguém fabricava essas pontuações. Calçava alpercatas feitas sob encomenda. Vestia calças com suspensórios e usava na cabeça um chapéu de palha que matava qualquer mosca que, desavisada, pousasse ali. Um suor medonho, acumulado de meses e meses.

Mulher no “caititu” cevando a mandioca

Ao som do chocalho o dia começava. O estalar do chicote tangia o boi que conseguia dormir andando em círculos para movimentar a bolandeira e, essa o caititu. A mandioca começava a ser cevada (ralada, ou moída, para muitos) e, dali era transportada em cuias para um saco branco posto numa caixa da prensa. A mandioca ralada transformada em massa, era espremida e, dali saía a massa para peneirar antes de ir ao forno para ser torrada.

A “prensa” espremendo a massa da farinha antes de ir ao forno

Foi hilário quando Dilma Rousseff, inadvertidamente e demonstrando que jamais vira uma “mandioca” entrar no caititu para ser devorada, falou que o tubérculo poderia ser de grande valia para a economia nacional, ávida por mandiocas grossas, fortes e produtivas. É difícil o nordestino conviver sem a farinha. Farinha “soma” em tudo e não “diminui” em nada.

E por mais incrível que possa parecer, a mandioca precisa da água, do vento (o mesmo que a mesma Dilma pretendia ensacar para exportar) como sendo uma Trade Mark de nossa propriedade. As regiões Norte e Nordeste sofrem com a escassez d´água, em que pese o Norte ser rico em rios perenes, mas sem serem utilizados como “tocadores da agricultura”. Peixe é o que tem nos rios perenes da região Norte. E é difícil comer o peixe, sem a farinha.

A farinha – culminância de meses de cultivo e dias de trabalho digno do agricultor

8 pensou em “A BOLANDEIRA, O CAITITU E A PRENSA

    • Manoel: com certeza sou mais antigo, e, provavelmente, onde nasci (Ceará) e quando nasci, ainda era assim: tangido a boi. Detalhe: o dono do boi pedia para que não batessem nele (no boi), pois o coitado ficava hora e hors rodando no mesmo limite.

  1. José Ramos, imenso cronista:

    Suas reminiscências me levaram à Casa de Farinha do Seu Joca, velho companheiro de Papai, morador a uma légua do Sítio São Francisco.

    Eles e os filhos se levantavam às cinco da matina, a hora do galo de capoeira cantar feliz da vida por comandar um harém de galinha poedeira.

    Até hoje me pressiona a capacidade do Seu Joca no manejar a bolandeira, guiada por dois bois “taludos.”

    A infância nos traz grandes recordações que o grande cronista nos relembra em suas belas crônicas de reminiscência.

      • Grande Zé Ramos!!! Primeiro não dá pra juntar seu nome como Zarraimundo se não fica Zeramos e com você não se zera nada. Uma lição. Uma grande lição. Meu avô materno tinha uma terrinha, nos arredores de Tabira, chamado Caititu. Meu tio Elias, que morreu aos 14 anos, quando chovia em Tabira gritava “chova, Deus! Amanhã no Caititu!”. Abraços

Deixe uma resposta