JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NO BRASIL

Ao ver milhares de brasileiros na Esplanada dos Ministérios, tangidos como bois para as prisões, velhos e mulheres entre eles, como se fossem um rebanho, a imagem lembra dos campos de concentração. Que assim eram recolhidos, naqueles tempos, opositores do governo. Depois o Supremo ainda os distinguiria com penas superiores a 17 anos, num julgamento sem paralelo no Brasil, um horror, mas essa é outra história.

Assim, meio sem sentir, me vejo de volta aos tempos de Segunda Guerra. Aproveito e conto essa história a partir de um amigo querido, que de alguma forma fez parte dela, Mickel Sava Nicoloff. Em O Recife e a II Guerra Mundial, Rostand Paraiso diz “grupo de tripulantes de um corsário alemão, afundado em nossas costas… seria enviado para um campo de concentração existente, ninguém sabia onde, no Nordeste”.

Rostand teve, mais tarde, “a confirmação de que aquele campo havia, realmente, existido; funcionando, de novembro de 1942 a maio de 1945, em terras da Fábrica de Tecidos Paulista, de propriedade dos Lundgren”. Mas o que liga Mickel a esse campo de concentração?, eis a questão. Para responder, é preciso voltar no tempo.

A trajetória do eminente advogado Mickel Sava Nicoloff resulta (quase) inacreditável. Seu avô por exemplo, general Sava von Nicoloff, era ajudante de ordens do marechal Hindenburg na Primeira Guerra.

Depois, Hindenburg foi Presidente da Alemanha (Hitler era só primeiro-ministro). Sendo hoje mais conhecido, assim quis o destino, como nome de um Zeppelin movido a hidrogênio (um gás altamente inflamável) que, em 6/5/1937, pegou fogo e matou 35 pessoas na base naval de Lakehurst – em New Jersey (Estados Unidos).

Finda essa guerra, o filho do tal general Sava von Nicoloff, batizado Mickel (mais tarde pai do amigo Mickel, que me contou essa passagem de sua vida), decidiu viajar, por quase dois anos, pelo mundo inteiro. Dando-se que, nessas andanças, acabou se apaixonando por morena de Caruaru, Maria das Graças. O coração tem razões…

Depois, casados, voltaram a Berlim. O pai do nosso Mickel ligou para sua mãe, Sicha. E ela, em vez de abraça-lo correndo após ausência tão longa, acertou encontro entre eles com data e hora marcadas – para dois dias depois, na sua casa, às 16 hs. As culturas são mesmo diferentes. Aqui, qualquer filho iria direto ver a mãe, sem nem avisar, e ela o receberia rindo e feliz. Paciência.

Chegaram. Lá estavam mãe, tios, primos, todos perfilados à sua espera. Como se fosse uma Corte Marcial. Ou um pelotão de fuzilamento. O pai de Mickel entrou na sala com um cigarro aceso, entre os dedos. A mãe lhe disse, contrariada, “Parece claro que você nasceu para se juntar com uma índia” (assim qualificou a mulher que o pai de Mickel tinha do lado). “Mas, em casa de pessoas de bem, ninguém entra fumando. Saia, jogue o cigarro fora e venha me dar um beijo”.

Saíram. Já na calçada, o futuro pai de Mickel jogou na rua o guimba. Foi quando sua futura mãe disse ao marido “Se você entrar nessa casa, de novo, nunca mais vai me ver”. O pai respondeu que não fazia mesmo questão. Pegou no chão a ponta do cigarro ainda aceso, deu uma tragada e foram embora. Aquele beijo não seria dado.

Depois a mãe Sicha foi morar na Bulgária e nunca mais se viram. “Acima dos Deuses o Destino é calmo e inexorável” – escreveu, em uma Ode (sem título, sem data), Ricardo Reis (Fernando Pessoa).

O amigo Mickel nasceu em Berlim, numa Alemanha que já se preparava para a (Segunda) Guerra. O pai ganhava o pão de cada dia se exibindo, nos circos, em espetáculos de luta grego-romana; tendo, como parceiro, um dos 7 (ou 8) filhos, Mickel não me disse qual era, de Floriano Peixoto – segundo presidente do Brasil (1891-1894), morto em 1895. Mas sabemos, pela internet, que era José Floriano Peixoto, conhecido como Zeca Floriano.

Assim se deu até quando, ante a proximidade da guerra e com uma criança para criar, decidiram seus pais que melhor seria voltar ao Brasil.

Aqui, viveram bom tempo sem problemas. Até o dia em que policiais bateram na porta da casa em que moravam; e pediram que o pai de Mickel, alemão de nascimento só para lembrar, os acompanhasse. A mãe levou o marido até a porta e lhe deu um derradeiro beijo. Seria o último nas suas vidas.

Em seguida voltou, entrou no quarto, e saiu vestida de preto. Preto de luto. Nunca mais ninguém a viu com outras roupas. Nem outras cores. Usou preto, sempre, até morrer. E o pai de Mickel nunca mais voltou. Como a prisão se deu em Pernambuco deve ter entregue a Deus, sua triste alma, por aqui mesmo.

Depois a madrinha de Mickel, dona Marieta Lyra de Azevedo, oficial do Registro Civil de Caruaru, providenciou uma outra certidão de nascimento para ele. Por esses novos papéis, Mickel deixou de ser alemão e passou a ter nascido em Caruaru. Seus mais de dez nomes familiares, porém, foram abandonados. Ficou só Mickel, como o pai; Sava, como o avô; e Nicoloff, sem o von, como nome de família.

Voltando ao que interessa, imagina-se que seu pai terá sido encaminhado a algum campo de concentração. Nunca se soube exatamente onde terá sido. Nesse ponto, e considerando o silêncio constrangedor de nossos livros de história sobre o tema, o leitor amigo perguntará se terá mesmo havido algo assim, no Brasil.

Abro aqui parênteses para dizer que se trata de instituição bem mais comum do que se pensa. A primeira experiência em campos de concentração ocorreu com a Grâ-Bretanha, na Guerra dos Bôeres (que findou em 1902), quando os britânicos ainda ocupavam a África do Sul. Depois com alemães, numa colônia do Sudoeste Africano (atual Namíbia). O episódio é hoje conhecido como primeiro genocídio do século XX, contra rebeldes Hererós e Namaquas – entre 1904 e 1907. E a França, em sequência, respondeu por 3,5 milhões de mortes em 25 campos africanos próximos das atuais fronteiras com Iraque, Síria e Turquia.

Não só lá. União Soviética (entre 1923 e 1961, sobretudo nos tempos de Stalin), teve seus Gulags (Sibéria). China, com Laogais, até 1990 (no total, chegou a abrigar 50 milhões de chineses). Aqui mais próximo, na Argentina, durante a ditadura militar (de 1976 a 1983), os Centros Clandestinos de Detenção (CCD). E no Chile, durante a ditadura de Pinochet, o Estado Nacional e a Villa Grimaldi. Além de muitos outros lugares – Espanha, França, Itália, Japão, Portugal.

Sem esquecer a Alemanha nazista, com os mais famosos deles (Auschwitz-Birkenau, Buchenvald, Treblinka, tantos mais) em que se estima terem sido 8 milhões de pessoas encarceradas nesses espaços que eram sobretudo de extermínio. Nos Estados Unidos, quando estudei lá (em Harvard), um professor disse terem sido 17. Entre esses um, no deserto da Califórnia; em que os presos, estimulados a escapar, morriam de sede naquelas areias quentes.

Sem mais dados a informar. Nem comprovações disso. Faltando lembrar campos ainda hoje existentes: em Guantânamo (Cuba), sob responsabilidade dos Estados Unidos; e na Coréia do Norte (com mortalidade elevada), de um ditador (Kim Jong-un) do século XIX em pleno século XXI.

Sem contar, nessa relação de tragédias, o Brasil. Os números oficiais indicam que tivemos, na Segunda Guerra, 12 campos de concentração para manter presos cidadãos nascidos em Alemanha, Itália e Japão. Entre eles um famoso, no Pico da Bandeira. Sem outros detalhes. Só que, tudo sugere, foram mais.

Segundo registros, o de Pernambuco ficava em local conhecido como Chã de Estevam – hoje, Araçoiaba. Talvez o pai de Mickel tenha ido para lá. Ou mesmo para o de Paulista, citado por Rostand. Junto da fábrica de tecidos da família. Onde aliás naquele tempo trabalhou o alemão Fritz Theodor Hemprich (tio do amigo Tota Faria), casado com Gracinha, irmã do dr. Agadir Faria.

Seja como tenha sido, imagino que o pai de Sava morreu de morte natural; que, segundo o mesmo Rostand, eram “campos mais de confinamento que de concentração”.

Saudades de Mickel Sava Nicoloff. Fique em paz, amigo querido. No céu, provavelmente. E findo com um lamento pelos que perderam (ou estão perdendo) nas prisões, confinados como os de Brasília, pedaços inteiros de suas vidas. Deus tenha pena deles todos.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (47), CHARLAS PORTUGUESAS (1ª Parte)

Já de volta. Ir é bom mas voltar é melhor. Muito. E seguem mais conversas, agora sobre Portugal e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Homenagem, hoje, às Charlas (conversas) Portuguesas, romance epistolar de Soror Mariana Vaz Alcoforado e seu amor impossível com o cavaleiro francês Noel Bouton, Marquês de Chamilly, na Guerra da Restauração. Publicado, em 1669, por Lavergne de Guilleragges.

ALDEIA DE PIAS, freguesia de Monção (Alto Minho). Primeira página do Jornal de Notícias (Porto) fala em evento gastronômico que iria realizar-se, nos dias 17/18/19 de março de 2023, com essa manchete

‒ Monção quebra jejum de 3 anos e reedita Feira da Foda.

A localidade, hoje quase sem habitantes (76 hab/km2), voltou em 2021 a ter Código Postal; e, novamente, a constar dos mapas, de onde havia desaparecido. Só para lembrar, seu nome não vem dos túmulos que se veem à borda de um caminho local, sob arcos imemoriais, e sim de um convento de mulheres pias (piedosas) que havia no local, tornando ainda mais estranho esse nome da Feira. Nela, prato mais famoso é o cordeiro assado ao forno, servido sobretudo na Páscoa. Para evitar mal-entendidos, bom lembrar que a cidadezinha fica bem distante de outra, Cu de Judas, sem habitantes, na Ilha de São Miguel (Açores), perdida no meio do Oceano Atlântico.

Almirante AMÉRICO THOMAZ, 13º presidente de Portugal, último do Estado Novo; o mesmo que, logo depois da Revolução dos Cravos, acabou exilado no Rio. Se o Brasil teve um presidente (Jair) Messias, Portugal se gaba de um (Américo) Deus. Em conversa com o generalíssimo Franco, da Espanha, disse

A mi me gustam las cazadas (de animais, queria referir).

O espanhol não entendeu que caçada, na sua língua, é caceria. E tentou responder, a partir do que imaginou,

Ah, si? E las solteras, non?

ANA MARIA MACHADO, da ABL. No elevador da Rua de Santa Justa, que liga o antigo Convento do Carmo à baixa de Lisboa, fotografou bilhete que lhe deram quando pagou a passagem. Com Instruções para Viagem

– Ao viajar de pé, afaste as pernas e tenha-as bem plantadas. Segure-se com firmeza, sobretudo nas arrancadas e nas curvas.

E ficou sem entender. Que não havia bancos, no local, todos teriam mesmo que “viajar de pé”. E “curvas”, num elevador?

ANTONIO CEZAR PELUSO, ministro do Supremo. No Tavares Rico, mais antigo restaurante de Portugal. Um café de bilhar fundado (1784) por Nicolau Massa, convertido em restaurante (1823) pelos irmãos Joaquim e António Tavares. Lá se reuniam escritores da Geração de (18)70 – António Cândido, Carlos Félix, o Conde de Sabugosa, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, no grupo intitulado Os Vencidos na Vida. Liderado por Eça de Queiroz, que o definia como um Grupo Jantante. Todos sonhando influenciar o rei D. Carlos na construção de um novo Portugal. Até que veio o Regicídio (em 01/02/1908) quando tombou, D. Carlos, no terreiro do Paço, sob as balas de Manoel (dos Reis da Silva) Buíça e Alfredo (Luís da) Costa. Após o que seu grupo se desfez. Estavam o ministro e o desembargador (de São Paulo) Luiz Carlos Azevedo, com suas mulheres. Recebeu cardápio e, querendo agilizar os pedidos, perguntou ao maître

– O senhor teria outro?

– Não.

Apontou um, em mesa próxima,

– Estou vendo aquele ali.

– Pois é o mesmo.

ANTÓNIO COSTA, primeiro-ministro. Em Lisboa (às vésperas das eleições gerais de 30/01/2022) vi, num poste, cartaz com esse aviso aos motoristas

‒ Cuidado, zona de acidentes a 2.000 m.

Por baixo outro cartaz, com foto de António Costa e seu lema de campanha

‒ Continuamos a avançar.

APÓCRIFO DO POETA ALEIXO. Apócrifos são citações que não tem autenticidade comprovada. Assim é conhecido um do poeta popular (António Fernandes) Aleixo (1899-1949), guardador de rebanhos e cantor de feiras,

‒ Quando os olhos cansam
As pernas dançam
As peles crescem
Os colhões descem
O nariz pinga
E a piça minga
Deixa-te de bazófias
Que a missão está finda.

* * *

Igualmente do poeta Aleixo, está em Este livro que vos deixo, usando gerúndio (algo raro, num português), é essa quadrinha

‒ Há tanto burro mandando
Em homens de inteligência
Que, às vezes, chego pensando
Que a burrice é uma ciência.

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NOTÍCIAS DE PORTUGAL

Lisboa. Seguem mais notícias da terrinha que, de alguma forma, lembram o Brasil.

ACESSIBILIDADE. O governo português anunciou grande programa para adaptar imóveis, seus, às necessidades dos que têm carências específicas. A findar em dezembro deste ano. O jornal Publico deu, na primeira página, o resultado de pesquisa que fez, até hoje, sobre a eficiência estatal:

– Em quatro anos, obras de acessibilidade chegam a dez de 1500 edifícios públicos.

Quase nada, então. A cara de nosso país.

APOSTAS. Manchete do Publico:

– Nunca se apostou nem se perdeu tanto dinheiro no jogo, em Portugal.

Não é só no Brasil, pois. Apenas no ano passado foram torrados na jogatina, por aqui, 24 bilhões de euros. Quase 140 bi em reais.

BALEIAS. Um grupo de Orcas atacou veleiro que naufragou, ao largo da Costa de Caparica, em Almada. E outra embarcação quase segue o mesmo destino, na Baia de Cascais. O portal “orcas.pt” já registrou mais de 70 ataques, só este ano. Uma espécie de vingança, parece, pela morte de companheiras em outros mares.

CABEÇAS. O português João Paulo Silva Oliveira, 56 anos, divulgou nas redes sociais vídeo em que diz:

‒ “Cada português que trouxer a cabeça de um brasileiro, desses zukes que vivem aqui em Portugal, estejam legais ou ilegais, cada cabeça que trouxer eu pago 500 euros”.

A reação foi rápida. Por pressão dos clientes, boa parte deles brasileiros, foi demitido da padaria em que trabalhava. E já está preso pelo Departamento de investigação e Ação Penal (DIAP) de Santa Maria de Feira, Aveiro. Apesar de tudo sugere-se, aos brasileiros que estiverem por aqui, ficar longe dele.

CELULARES, TELAS, PAPEL E CANETA. O ministro da Educação esclarece que “a proibição do uso do telemóvel é para alunos do público e do privado”. O que parece caracterizar uma tendência, em todos os países. Apesar disso, por aqui, segue um debate intenso. Primeira página do Publico diz:

– Diretores reagem a sanções: proibir não rima com educar.

Dentro, em longa matéria, “Diretores preferem sensibilização”. Indicando, ainda, que “Escolas vão definir sanções para alunos que usem smartphones”. Luiza, neta que estudou na Inglaterra, tinha marcado pela direção da escola os (poucos) horários em que podia usar. Vai acabar sendo assim, por todo o planeta. Agora, no Publico, se vê declaração do ex-ministro da Educação da Suécia (até junho), Johan Pehrson:

– “Fomos ingênuos”.

Seu país, pioneiro na digitalização, para ele deve ser uma “zona livre de smartphones e redes sociais”. E está a voltar, nas escolas públicas, papel e lápis. Como dinossauro, que não usa computadores e gasta uma caneta por semana, vejo isso com alegria.

CHAGPT. Portugal vai ter o seu que se chamará Amália. Só que o governo já deu ciência, aos da terrinha, que vai faltar um monte de aplicativos. Como Caixa de mensagens. O modelo será usado só em algumas aplicações da administração pública. Consternação geral, para os usuários.

COVID. O jornal eletrônico TSF anuncia preocupação do governo com “nova versão do vírus da Covid-19”. Deus do céu, não tem mais fim?

EDUCAÇÃO. O mesmo TSF dá manchete:

– Quase metade dos adultos portugueses só consegue compreender textos simples e curtos.

Por essas e outras o professor Carlos Ceia propõe a criação de um Partido da Educação. Segundo ele “um lugar seguro, civilizacional, capaz de transcender divisões ideológicas e reenquadrar o debate nacional”. Cristovam Buarque vai, creio, gostar dessa notícia.

ELEIÇÕES. Domingo ocorreram as eleições autárquicas. Para escolher prefeitos, no país todo. Aqui se chamam “Autarcas”. Não há Câmara de Vereadores, somente Conselheiros Municipais. Que custam nada. O mais impressionante, para brasileiros, são as apurações. No Brasil a grande vantagem das urnas eletrônicas, assim se diz, é que não temos que esperar dias pelos resultados. O que justifica a fortuna gasta em cada eleição. Pois bem. Aqui, os votos são nas células. Em papel. E, à noite do próprio domingo, já se tinha todos os resultados. Pode acreditar, amigo leitor.

GORDURA. Segundo El Pais, citado pelo Publico:

‒ Existem já mais de 100 novos candidatos a medicamentos para tratar a obesidade em testes.

O objetivo agora, em vez de injeções, é “um fármaco oral para emagrecer”. Que venham logo, nós gordos agradecemos.

GREVE. Nunca se viu isso, por aqui. O Publico anuncia, em primeira página, que

– Magistrados do Ministério Público anunciam greve de cinco dias.

Só para lembrar, e diferente do Brasil, grevistas em Portugal (como no resto do mundo) não recebem salários pelos dias não trabalhados. E trata-se de longo tempo, num país em que greves nunca passam de um dia.

HOSPITAIS. Segundo o TSF, “todos os hospitais passam a poder internar doentes em casa”. Chama-se, por aqui, Hospitalização Domiciliária. Só ano passado foram 110 mil internamentos. Os hospitais públicos têm equipes médicas que vão até os doentes, em suas casas. O sistema começou no Hospital Garcia de Orta (médico português), em Almada, e seus resultados são muito positivos. Unindo conforto do ambiente familiar, redução no risco de infecções hospitalares e melhorias na qualidade de vida dos doentes. Vale a pena ver isso melhor, para aplicar (ou não) no Brasil.

JOVENS. O Público dá manchete, em primeira página, que preocupa:

‒ Número de jovens até os 20 anos, nas prisões, subiu 45% desde 2019.

LIVROS. Miguel Esteves Cardoso dá, em sua coluna do Publico, receita infalível para quem tem que ler muito:

– Abro um ou dois livros, leio as primeiras duas páginas, mais duas páginas do meio, a última, e limito-me a verificar se fiquei com vontade de ainda ler.

Sugiro, a todos, cumprir esse roteiro.

MORTES. O Publico LX mostra estatística:

– Homens mais velhos com taxas mais altas de suicídio.

São, em média, 3 por dia. E a Coordenação da Saúde Mental até já divulgou telefone, para quem estiver deprimido, número 1411. Na frente dos casos está o Alantejo onde cresceu, em um ano, 9%. A taxa nacional em Portugal é de 9,8% casos, para 100 mil habitantes. Maior que a de nosso Brasil, só de 8%. Mas está por aqui também crescendo, em 2021 era só de 7.2%. Seja como for, Deus tenha pena dessas almas.

ORÇAMENTO. José Manuel Ribeiro, presidente da delegação portuguesa no Comitê das Regiões, dá declaração no TSF que bem poderia ser lida em Brasília:

‒ Especializamo-nos muito em como gastar. Agora temos que nos especializar em como competir.

OUTDOORS. Lisboa acaba de proibir cartazes políticos. Segundo o Autarca de lá (Prefeito no Brasil, como vimos), Carlos Moedas, trata-se de “poluição visual absolutamente indesejável”. Políticos se queixam de que seria “um ataque à liberdade democrática”. Será mesmo? Ou só prova de bom senso e bom gosto? Não acabou de todo ainda, nestas eleições de domingo passado, mas já diminuiu muito.

PIANISTA. A consagrada pianista portuguesa Maria João Pires, 80 anos, acabou de ganhar o grande Prêmio Europeu Helena Vaz da Silva 2025. Pena que teve um AVC. Está se tratando e deu, a seus admiradores, bela explicação do que iria fazer a partir de agora:

– Lamento informar-vos que terei de me afastar dos palcos por algum tempo. Surgiu-me um problema de saúde cerebrovascular, que encaro como um sinal, talvez aviso. Vou dedicar este período a reencontrar o equilíbrio entre o corpo e o espírito, e a encontrar a alegria em me retirar, ler, meditar e aprender com as lições que a vida me quiser ensinar.

SANGUE. Descoberto, depois de 15 anos de pesquisas, um novo grupo sanguíneo – o Gwada Negativo, que só uma pessoa tem no planeta. Trata-se de mulher francesa nascida em Guadalupe, no Caribe. Os jornais daqui sugerem que faça um estoque grande, nos bancos de sangue; que, se por acaso precisar numa operação, não teria quem lhe doasse. Parece uma boa ideia.

ÚLTIMA NOTÍCIA, FUTEBOL. Jornais e televisões daqui dizem que José Mourinho, novo treinador do Benfica, é “o melhor do mundo”. E dizem também que “jogo do ano” se deu último sábado, em Alvalade (estádio do Sporting), quando Portugal venceu a Irlanda no fim da prorrogação, por 1 x 0, com gol de Rubem Alves. Depois de Cristiano Ronaldo, pouco antes, perder um pênalti.

Duas notícias erradas. Uma, porque maior técnico do planeta não é Mourinho, mas Hélio dos Anjos. Que deveria estar na seleção brasileira. Viva Hélio!!!

E jogo do ano foi outro, Náutico x Brusque, quando voltamos à série B. Um jogo épico. A verdadeira Batalha dos Aflitos. Por tudo, então, Viva o Timba!!!

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O QUARTO DE FERNANDO PESSOA

Lisboa. Semana passada falei do amigo Fernando Pessoa. E como estamos na sua cidade, para ele só “uma eterna verdade vazia e perfeita” (Lisbon Revisited I), já digo que, durante os 10 anos que consumi escrevendo as 800 páginas de Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, fui a Lisboa (exatamente) 30 vezes.

Nada a reclamar, ao contrário. Foi sempre bom. E trata-se do livro, sobre Pessoa, mais vendido e mais traduzido no mundo (12 países). Digo só para me gabar, deve ser a idade.

Nessas idas e vindas, deram-se fatos pitorescos. Relato aqui só um, entre muitos. Quando pretendi visitar o quarto em que viveu, ainda criança, no Largo de São Carlos.

O endereço do apartamento era número 4 de polícia, assim se diz ainda hoje, quarto andar esquerdo (de quem sai do elevador ou da escada). O edifício pertencia, então, à Fidelidade Mundial Seguros. Cheguei na portaria, mostrei os rascunhos do livro e pedi para subir. O porteiro, Fernando José da Costa Araújo, respondeu sem nenhuma simpatia

‒ Não tenho autorização para deixar o sr. dr. subir.

‒ Por favor, gostaria de falar com o diretor da empresa ou sua secretária.

‒ O sr. dr. deve se dirigir à Sede.

‒ Por favor, informe o telefone.

‒ Não tenho autorização para isso.

‒ Pode emprestar (apontei) as Páginas Amarelas?

‒ Não.

Ocorre que, precisamente após sua última frase, abriu a porta do elevador. Bem na minha frente. Então lhe disse

– Por favor chame a polícia para me prender que, sem sua autorização, estou subindo ao quarto andar.

E subi mesmo. Para ver o Tejo brilhando em duas janelas de seu quarto. E o sino da minha aldeia tocando, em frente, no outro lado da Rua Serpa Pinto. Pessoa lembra dele em poema famoso (sem título, sem data):

‒ Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Nenhuma dúvida de ser aquele mesmo. “O sino da minha aldeia é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado” (Pessoa, carta de 11/12/1931 para Gaspar Simões, amigo e depois biógrafo). Única que conheço onde os sinos ficam não à frente, mas nos fundos. Ao sair do elevador, na volta, o segurança estava com cara de poucos amigos

‒ O sr. dr. subiu sem minha autorização?

‒ Foi.

‒ E agora, o que hei de fazer?

‒ O sr. chama a polícia, vou sentar, esperamos e ela decide se me prende. Ou o senhor me deixa ir.

‒ Não sei, sr. dr.

‒ Eu sei.

Dito isto, lhe dei boa tarde e fui embora. Deu tudo certo. Graças. Adeus.

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REGRAS DE VIDA

Lisboa. Já que ando por aqui, na terrinha, lembro que na Revista de Comércio e Contabilidade, que dirigiu com o cunhado Cetano Dias (6 números), o poeta Fernando Pessoa constatou que “estão cheias as livrarias de todo o mundo de livros que ensinam a viver”.

Apesar da ironia com que trata textos assim, em numerosos papéis escreve suas próprias Regras de Vida ‒ reproduzindo escritos, sobretudo religiosos, que professam os caminhos do bom proceder. Ou antecipando Manuais de Auto-Ajuda que tanto sucesso fariam, mais tarde. Como essas:

1. Trabalhar com nobreza.

2. Esperar com sinceridade.

3. Sentir as pessoas com ternura.

4. Não tenhas opiniões firmes, nem creia demasiadamente no valor das tuas opiniões.

5. Sê tolerante, porque não tens certeza de nada.

6. Não julgues ninguém porque não vês os motivos, mas sim os atos.

7. Espera o melhor e prepara-te para o pior.

8. Não mates nem estragues, porque não sabes o que é a vida, exceto que é um mistério.

9. Não queiras reformar nada, porque não sabes a que leis as coisas obedecem.

10. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles.

No Desassossego diz “Para que um homem seja distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral”. Cumprindo, então, “reduzir as necessidades ao mínimo, para que em nada dependamos de outrem”. Talvez porque “o escrúpulo é a morte da ação”.

A sobrinha-neta Isabel Murteira França testemunha: “O Fernando era assim; tinha sempre mil planos, mil ideias, esboços e, realmente, muitos não chegava a concretizar. O seu espírito, tantas vezes quase frágil, perdia-se na amargura de seu desassossego interior”.

Confirmando, Pessoa diz pertencer à seita dos adiistas e ser autenticamente futurista no sentido de deixar tudo para manhã” (talvez referência à seita dos adeistas ‒ segundo a qual os muitos deuses seriam figuração de um único deus, maior e superior). Num texto inédito até 1979, em inglês (publicado na revista História, de O Jornal), mais rules of life (regras da vida) vão surgindo (traduzo e resumo):

1. Faça o menos possível de confidências. Melhor não as fazer mas, se fizer alguma, faça com que sejam falsas ou vagas.

2. Sonhe tão pouco quanto possível, exceto quando o objetivo direto do sonho seja um poema ou produto literário.

3. Estude e trabalhe.

4. Tente e seja tão sóbrio quanto possível, antecipando a sobriedade do corpo com a sobriedade do espírito.

5. Seja agradável apenas para agradar, e não para abrir sua mente ou discutir abertamente com aqueles que estão presos à vida interior do espírito.

6. Cultive concentração, tempere a vontade, torne-se uma força ao pensar de forma tão pessoal quanto possível, que na realidade você é uma força.

7. Considere quão poucos são os amigos reais que tem, porque poucas pessoas estão aptas a serem amigas de alguém. Tente seduzir pelo conteúdo do seu silêncio.

8. Aprenda a ser expedito nas pequenas coisas, nas coisas usuais da vida mundana, da vida em casa, de maneira que elas não o afastem de você.

9. Organize a sua vida como um trabalho literário, tornando-a tão única quanto possível.

10. Mate o assassino.

Essa última regra se refere a passagem que traduziu num livro de Helena Petrovna Blavatsky (A voz do silêncio). É que, para madame Blavatsky, “a mente é o grande assassino do real”; pregando, ao fim, que “o discípulo mate o assassino”.

Em resumo, para ele, “cada um de nós, a sós consigo no seu silêncio de ser um ser, tem uma personalidade inexprimível que nenhuma palavra pode dar, que o mais expressivo dos olhares não interpreta”; e, assim, “repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-me. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou”. E era, sem dúvida possível, um gênio absoluto. Por isso, e para sempre, viva Pessoa!!!

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (46) ‒ JORNALISTAS

Lisboa. Seguem mais conversas, hoje só com jornalistas e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

BARBOSA LIMA SOBRINHO, presidente da Associação Brasileira de Imprensa. Sempre que nos encontrávamos, o diálogo era

– Como vai?, dr. Barbosa.

– Como um velho, meu filho, desejando que todos os órgãos envelheçam ao mesmo tempo.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG, jornalista. No Clube dos Ingleses (São Paulo), depois do tênis, os jogadores conversavam. Ele

– O homem precisa de mulher para tudo.

Betina, do grupo, completou

– Até pra ser corno.

DIÁRIO DE IGUAÇU (Paraná). Em 03/05/2016 deu essa manchete, na capa de sua edição,

‒ Gerência de Saúde afirma que não vai faltar vagina.

Calma, leitor amigo; que, segundo a gerência, não vai faltar.

DUDA GUENNES, filósofo. Numa entrevista, sobre Pernambuco (onde nasceu) e o Brasil, declarou que

1. Está poeticamente provado que o Mundo começa em Pernambuco, depois é que principia o resto da Geografia.

2. O Brasil é a melhor de todas as invenções portuguesas, incluindo aí o bacalhau da Noruega.

3. O Brasil é o melhor País do Mundo pra sentir saudade.

* * *

Inauguração do supermercado Pingo Doce, no Rato, pertinho de seu apartamento na Rua da Alegria. Foi cobrir o evento, como jornalista de A Bola, e o diretor do estabelecimento

– O que está a achar?

– Muito bom, porque tem tudo que não preciso.

EVALDO COSTA, jornalista. Clonaram seu celular. E soube disso quando recebeu mensagem, no zap,

– Favor mandar 500 reais que estou precisando. Ass., Gustavo Dubeux.

Respondeu

– Agora não posso, que acabei de emprestar 50 mil a João Carlos Paes Mendonça.

FERNANDO MENEZES, jornalista. Anotou, em Lisboa, grafite comparando António Salazar com Santo António de Lisboa (e de Pádua)

– Lisboa cidade bela
Que dois Antónios disputa
Um é o filho da fé
O outro… não é.

* * *

Na fila preferencial do Bradesco, esperava sua vez. Até que uma jovem, descabelada e com olhos arregalados, entrou na sua frente com um monte de boletos para pagar. Fernando, educadamente, perguntou

‒ Idosa, vejo que a senhora não é. Por acaso está grávida?

‒ Sim. Estou. Não sei quem é o pai. E, se não me der sua vez, vou causar aqui um escândalo.

Ele, cauteloso, preferiu esperar mais um pouco.

* * *

Praia da Piedade. Conversava, na frente de nossa casa, com o jornalista Garibaldi Sá. Chega um jovem e pergunta

– O senhor é o gordinho que sabe nadar?

– Acho que sou.

– Aquele ali (Menezes) mandou buscar nosso amigo que está morrendo afogado.

Olhei, o rapaz estava bem longe da praia, tinha feito isso já duas vezes antes e sabia qual a técnica. Meia hora depois, afinal, cheguei de volta com o jovem quase morto (mas ainda vivo), depois de beber meio mar. E Fernando, com água na cintura (que nem nadar sabe),

– Agora, deixe comigo.

Pôs os braços do quase afogado no pescoço dele e o arrastou até a areia da praia. Uma pequena multidão bateu palmas. Agradeceu, acenando com as mãos, parecia candidato a prefeito. Corpo no chão fez massagem, braços e pernas, afinal o rapaz reviveu. Levantou e abraçou, comovido, seu salvador. Mais palmas. Após o que Fernando voltou, satisfeito, para o mar (onde permaneci). Ao chegar

– Ainda bem que salvamos uma vida.

– Salvamos?

– Foi. Se não mandasse, você não ia pegar ele.

– Tá certo.

– Melhor de tudo é que o rapaz pediu meu nome e prometeu que, até morrer, iria rezar por mim todas as noites.

– Muito bem, mas por acaso disse que houve mais alguém no salvamento?

– Esqueci. Mas, quando ele rezar, fica implícito que você está incluído.

Pois é.

GERMANO SILVA, jornalista do Porto (Portugal). No Jornal de Notícias, redigiu matéria de homem esfaqueado por dama que atuava na Rua do Souto, famosa por suas casas de meretrício. Pediu na redação, para ilustrar a matéria, uma foto qualquer da responsável por aquela tentativa de assassinato. Assim se deu. E nem se preocupou em conferir. Dia seguinte foi publicada, tal foto, com essa dedicatória

‒ Ao querido Alfredo, que tanto me consolou da cinta para baixo.

IMPRENSA PORTUGUESA. Algumas manchetes estranhas, só uns poucos exemplos

No Jornal de Notícias

‒ Carro capota com quatro pessoas e uma mulher.

‒ Morreram 430 mortos nas estradas portuguesas.

Legendas na televisão CMTV

‒ Acidente na A1, três viaturas feridas.

‒ Dois mortos em fuga.

Na CMTV, essa notícia

– “Português em Braga engravidou a esposa e a sogra”.

Comentário, na matéria, de um telespectador

– Foda-se!!! Ele agora vai ser pai, avô, marido, genro e sogro!

Também nela, para encerrar, esse comentário

– Portugueses, a pedidos de muitas famílias preocupadas, decidem estender a lista de palavrões oficialmente proibidos, passando a incluir: breca, caga-foices, caraças, coa, credo, cruzes, cuncatano, fónix, macacos me mordam, raios e coriscos, trambelóquio, Naturalmente essas regras não se aplicam ao Norte do país, onde podem continuar a dizer que caralho vos apetecer.

JORNAL DO COMMERCIO do Rio de Janeiro, edição de 18/03/1931, pág. 4. Num tempo em que falsear a verdade valia dinheiro

‒ Fugiu no dia 17 do corrente, da chácara da Barreira, no caminho da Glória, ao pé do chafariz, um molecote de nação monjolo, por nome Digue, acostumado a vender quitanda da chácara; é espigado, magro, anda ordinariamente com a boca aberta e mostra os dentes, que são grandes e muito brancos; é muito ladino, fala e mente perfeitamente.

JOSÉ NÊUMANNE PINTO, jornalista, do Penn Club. Chegou para conversar com o paraibano (como ele) José Amer… Aqui um problema, que todos se referem a esse grande escritor apenas como Zé 3 Pancadas, dado que pronunciar seu nome completo é prenúncio de catástrofe. Toda gente conhece a praga. Se o amigo leitor ainda não sabe de quem se trata basta procurar, na internet, o autor de A bagaceira. Nêumanne

‒ Como nasceu essa relação entre você e o azar?

‒ Acho até graça. O avião caiu no mar e eu já quase cego, e aleijado, fiquei sentadinho na asa. Enquanto Antenor Navarro, campeão de natação, afundou (na verdade nadou, na direção contrária à praia, sem que seu corpo tenha sido jamais encontrado). E o povo diz, ainda, que sou azarado…

‒ Não, Zé, dizem que você dá é azar aos outros.

‒ Aí pode ser.

MARIA LUIZA BORGES, jornalista. No Vaticano, sala Paulo VI, ela e a mãe, a grande Marieta Borges (em sua cadeira de rodas). Para ver Francisco. Um funcionário da Cúria informou que os cadeirantes iriam para a primeira fila. Seus acompanhantes receberiam laços vermelhos e ficariam de lado. Dando-se que o presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco apossou-se da cadeira de Marieta e disparou, até a frente, na esperança de bater foto com o Papa. Foi quando Maria Luiza saiu desesperada correndo atrás dele, aos berros,

– Devolva minha mãe!, devolva minha mãe!!

Condessa MAURINA DUNSHEE DE ABRANCHES PEREIRA CARNEIRO, dona do Jornal do Brasil (depois da morte do marido, em 1954, o conde papal pernambucano Ernesto Pereira Carneiro). No Campo das Princesas o comendador Jordão Emerenciano, secretário do Governo (Cordeiro de Farias), tentava adular a grande dama da imprensa brasileira. Quase um tonel e horrorosa, bom lembrar. Com aquela voz dele, bem fininha, começou

‒ Que fazeis, divina Condessa, para manter tanta formosura?

Ela, irada com o que considerou fosse gozação, não contemporizou

‒ Três coisas, senhor comendador: beber todo uísque do mundo, não deixar merda azedar e manter escovado o bucetão.

Perdão, amigo leitor, mas foram precisamente essas as palavras – a partir do depoimento de muitos que presenciaram a cena.

NELSON CUNHA, jornalista. Na praia, foi testemunha da cena. Criança, com mais ou menos cinco anos, pergunta a um salva-vidas

– O senhor não viu por aí uma mulher gorda sem uma menina como eu de lado?

OLBIANO SILVEIRA, jornalista e editor. Seu avô, Vicente Januário, tinha uma bodega na periferia de Mossoró (RGN), especializada em fumo de rolo. Certo dia chegou por lá dona Etelvina, cliente antiga,

– Seu Vicente, o sinhô tem fumo dos forte?

O velho entregou um pedacinho para ela provar

– Descurpe, tem mais forte?

Outro

Só que, depois de mastigar, soltou um pum daqueles históricos, monumentais. Como se não fosse a responsável, continuou

– Será que tem ainda mais forte?

– Não, senhora, o de cagar já acabou.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VERÍSSIMO !!!

Somos hoje um Brasil radicalizado, fraturado, cada vez mais longe do país cordial sonhado por tantos. Urbi et orbi, o mundo inteiro segue nessa trilha. Mata-se nos Estados Unidos e celebra-se essas mortes, por aqui, alegremente. Rindo. Um escritor gaúcho até dá parabéns, aos dois filhinhos do finado, que não vão mais precisar conviver com ele nos próximos anos. Médicos, que tem a função de salvar vidas, celebram a pontaria do atirador.

Dou uma pausa, nesse tempo de horror, para falar sobre pessoas. De quem quero bem. E já lamento, amigo leitor, essa procissão de mortos. Não é justo. Alguns na terra, mais pertinho de nós, e essas perdas doem como um punhal no peito. Outros longe, que não víamos sempre, e nem por isso menos queridos. Pena. Por isso decidi, aqui, só lembrar de amigos. Lembranças tristes, mas boas.

Primeiro Jaguar, já falei nele. Agora Silvio Tendler. Nos últimos tempos, com enormes barbas brancas, mais parecia um Papai Noel. Com cadeira de rodas, em vez dos tradicionais trenós. E, entre as duas perdas, Veríssimo. Uma trindade santíssima. Saudades deles. Permitam, nestas páginas, algumas palavras sobre o gaúcho.

Luis Fernando Veríssimo, entre muitas qualidades raras, escrevia como um semi-Deus. E era um saxofonista de grandes méritos. Até creio que esse último elogio lhe deixaria mais feliz que os anteriores. Para além, e sobretudo, tratava-se de uma pessoa boa. De índole boa. Fraterno. E que sabia rir. Alguém muito especial, enfim. Sem par. Impar. Único. Calado quase sempre mas, e se algo assim for possível, de um silêncio muito inteligente. Genial.

Todos já falaram sobre ele. Falta, por aqui, esse pobre devoto seu. E o faço, agora, com o coração ainda em sangue. Por se tratar de amizade antiga, tornando a dor dessa perda maior ainda. E já digo que, à memória, vem lembranças.

Como nos tempos em que Paris era Paris, uma espécie de centro cultural do mundo. Estava disponível, por lá, um velho edifício de 6 andares e Luis Fernando inventou de juntar 6 amigos na empreitada. Já tinha 4 comprometidos: ele, Millor, Chico Caruso (se a memória não falha) e nós. A ideia era, em seguida, reformar tudo – energia, elevador, água; para, em seguida, sortear as alturas. Só que houve problemas com os vendedores, não deu certo, pena.

Depois, inspirado na sua ideia, até que tentei sozinho comprar o segundo andar do Les Deux Magots (Duas Estatuetas Chinesas, nome esquisito para nome de um Café). Em frente à igrejinha da Saint-Germain-des-Prés. Onde todo fim de semana tem, com orquestras de câmara, música barroca das boas com Vivaldi, Pachelbel, Scarlati; além, claro, Bach (maior de todos).

Não a mais rica, nem a mais famosa, só que (assim considero) a mais charmosa de Paris. Bem perto da encantadora Praça de Furstenberg, tão pequena que é mais conhecida como Placette (pracinha). No Quartier Latin, coração do 16ème. Também não deu certo, paciência, dona Lecticia vetou. Preferia Lisboa e, hoje, até agradeço por isso.

Teve mais sorte Luis Fernando, com ajuda que veio do jornalista Reali Júnior. E acabou comprando, sem parcerias, um apartamento na Rua Fresnel – que começa na Av. Albert de Mun e acaba nas escadarias da Rue de la Manutention, por trás da Embaixada do Iran. Perto da Torre Eiffel, uma bela vista. Parabéns para Lúcia, querida Lúcia, e toda a família.

Várias vezes perguntei a razão de não querer entrar na Academia Brasileira de Letras. Creio que tudo se deu por conta de seu pai, o grande Érico Veríssimo ‒ autor da trilogia O tempo e o vento e, mais, dezenas de outros grandes livros. Dando-se não ter o velho admitido, algum dia, ir para lá. Não por falta de insistência dos confrades, claro.

Historinha curiosa ocorreu quando Vianna Moog, cadeira 4 da ABL, pegou avião e foi até Porto Alegre insistir para que fosse candidato. Quando esgotaram os argumentos de recusar, foi ao extremo e respondeu “Só se for na sua vaga”. Fim do convite, que não era tão grande assim o desejo do amigo.

Certo que, sem dúvida possível, todos nós na Casa receberíamos Luis Fernando de braços abertos. E como candidato único, caso se inscrevesse, que ninguém seria doido para disputar com ele. Um Príncipe das Letras!!! A versão que deu, para essa não inscrição, foi cômica. Dando-se ter descoberto que a espada entregue para pendurar no Fardão, durante a cerimônia de posse, não poderia ser levada para casa. Teria que ser devolvida. E isso, para ele, seria inaceitável. Só mesmo Luis Fernando…

Durante muitos anos, todos os janeiros, passava temporadas em nossa casa de praia na Lagoa Azul. Junto com amigos. Pena que esses tempos hoje se foram, retidos hoje só no coração. Recordo uma dessas vezes, quando fomos jantar no Beijupirá (em Porto de Galinhas); e o então presidente da Câmara dos Deputados, por sinal pernambucano, ao ver o gaúcho entrando gritou

– Luis Fernando Veríssimo, amigo velho, o que há de novo?

Silêncio absoluto. Todas as mesas pararam suas conversas, na espera da resposta. Dava para ouvir as moscas. E nosso grande escritor, que como já se disse antes não gosta de falar, deu resposta criada, na hora, depois muito usada por toda gente

– O que há de novo, Deputado, é essa nossa amizade.

Com palmas gerais. Agora, depois desse derrame que o levou à UTI, tudo ficou mais difícil para ele. Lúcia, querida Lúcia, companheira por 61 anos (invejas, que Maria Lecticia e eu temos só 54), nos contou que o trombo comprometeu sua fala.

O que é injusto. Alguém que viveu a vida entre palavras não conseguir mais falar. Como foi educado nos Estados Unidos, sendo alfabetizado em inglês (até dizia ter lido mais livros, nessa língua, que em português), no hospital pediram que pelo menos tentasse dizer algo em inglês. Para ver se haveria resposta. Em vão. Tristeza tanta.

Como despedida, lembro texto que Millor Fernandes escreveu para os Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Sales, em que falava nele (e em todos nós):

“A última vez em que estivemos juntos (com Ariano Suassuna) foi o momento mais extraordinário. Na casa de nosso comum amigo José Paulo Cavalcanti Filho, jornalista, escritor e causídico (a ordem é a do leitor), numa praia de quatro quilômetros de extensão, em Porto de Galinhas. Ficamos lá horas, conversando dentro d’água, num mar indizível mas que vou tentar dizer.

“A meu lado, dentro das águas claras, a presença absolutamente surreal de Ariano, secundado por (apertem os cintos!) Luis Fernando Veríssimo. E eu ali, galera, me boquiabrindo diante da loquacidade brilhante de Ariano Suassuna e me boquifechando diante do mutismo perturbador de Veríssimo, mostrando, como sempre, que não é homem de jogar conversa fora. Ao redor a meteorologia, no seu melhor, enviando leves pancadas de chuva em momentos preciosos e vento sempre fresco, com dezoito nós e alguns laços ‒ os da amizade”.

Adeus, amigo querido. Esse laços da amizade permanecerão, para sempre. Nos veremos, algum dia, em algum lugar que ainda não sei.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A INQUISIÇÃO NO BRASIL

Na última semana vimos, aqui nestas páginas, como nasceu o Tribunal do Santo Ofício na França (em Orleans, 1022); e como se espraiou, primeiro para Espanha (em 1478) e depois a Portugal (em 1536). Registramos também como funcionava, em Autos de Fé que semearam o terror nessas terras.

Eram tempos duros, amigo leitor. Em que os tribunais estavam a serviço nem sempre da religião católica, também atendendo à política e a interesses econômicos privados. Como se cada inquisidor tivesse bolsos recheados e corações empedernidos. Mais grave é que, nas suas sentenças, nada lembrava o Deus em nome de quem diziam agir. Os documentos daquele termo não deixam qualquer dúvida. Falta ver, agora, a continuação disso tudo. E como atingiu o Brasil, inclusive nosso Pernambuco.

Condenados, na Inquisição, eram divididos entre Reconciliados ‒ aqueles que, depois das penitências, voltavam a frequentar a Igreja, explicitando o domínio da fé sobre a heresia; e Relaxados ‒ condenados que eram com frequência executados, com a morte se dando por garrote ou na fogueira. Todos obrigados a usar um Hábito Penitencial chamado Sambenito, com imagens de fogo que variavam: chamas para cima, no caso dos Reconciliados; e para baixo, no dos Relaxados.

Apenas entre 1543 e 1684 foram condenados, em Portugal, 19.247 infiéis, dos quais 1.379 acabaram indo antecipadamente para o inferno. Só não era função do Santo Ofício punir crimes comuns, como homicídio ou roubo, que continuaram permanecendo responsabilidade da Justiça Secular. Ao Santo Ofício cabia, somente, os considerados heréticos.

A partir de 1560, a Inquisição estendeu seus braços além das terras continentais portuguesas, para atingir todos os seus territórios ultramarinos. Especialmente colônias africanas, entre elas destaque para Goa (Índia) e o Brasil, lugares onde foi tão atuante como em sua sede europeia. Mesmo não chegando, o Santo Ofício, a criar Tribunais de Inquisição fora de Portugal.

Responsável pelos processos, nesses outros lugares, continuou sendo sempre o Tribunal de Lisboa. Enquanto, no Brasil, tudo se operava com visitações de missionários Jesuítas que tinham a missão de fazer inspeção para observância da fé e dos bons costumes. Primeiras expedições de Visitadores, ao Brasil, ocorreram em 1591 e 1595 ‒ envolvendo Bahia, Goiás, Paraíba e Pernambuco.

Esses Visitadores, ao chegar, concediam 30 dias para que os moradores locais apresentassem denúncias ou se declarassem arrependidos. Eram fixados, nas portas das igrejas, Monitórios com informações detalhadas sobre os crimes que deveriam ser denunciados ‒ bigamia, blasfêmia, feitiçaria, islamismo, protestantismo, sodomia, solicitação (assédio), quaisquer outros atos que ofendessem a fé cristã e, sobretudo, judaísmo (desses delitos, o mais rentável à coroa portuguesa).

“Monitório do Inquisidor Geral, per que manda a todas as pessoas que souberem d’outras, que forem culpadas no crime de heresia, e apostasia, o venhão denunciar em termo de trinta dias”; e “se algumas pessoas, ou pessoa, tem livros, e escrituras, para fazer os ditos cercos, e invenções dos diabos, como dito he, ou outros alguns livros, ou livro, reprovados pela Sancta Madre de Deus”.

Não apenas monitórios, também vários Éditos, pelos quais os visitadores obtinham informações que pudessem embasar seus processos. Entre eles, sobretudo, Éditos de Graça, listando uma série de heresias que poderiam ser confessadas pelos habitantes locais; e Éditos de Fé, com descrição de práticas a serem denunciadas. Em todos os casos, prevendo penas brandas para os acusados. Sendo comum que os locais aproveitassem esse tempo, concedido pelos Éditos, para fazer confissões espontâneas; evitando, assim, os riscos de excomunhão ou confisco de bens.

Confissões aconteciam perante os Visitadores, aos quais deveria dizer “tudo o que souberem de vista ou de ouvida, que qualquer pessoa tenha feito, dito ou cometido contra a nossa Santa Fé Católica”, sob pena de “excomunhão maior”.

Na Bahia, sobretudo, a um Visitador conhecido apenas como Heitor (o padre Heitor Furtado de Mendonça), por vezes com a presença de autoridades locais, como o bispo António Barreiros, o provincial dos jesuítas Marçal Beliarte e o reitor do colégio, padre Fernão Cardim.

Enquanto, em Goiás, o Visitador conhecido mais simplesmente como Alexandre (o padre Alexandre Marqueza do Valle) decidia tudo sem ouvir ninguém.

Quando veio ao “Estado do Brazil” (Bahia) o já referido Visitador do Santo Ofício Heitor Furtado de Mendonça instalou-se, na sociedade local, um clima de angústia e pavor. Ao longo dessa visitação muitos dos habitantes, em sua maioria cristãos-novos, foram denunciados ou confessaram seus pecados. E acabaram sofrendo penas duras.

Às casas de morada desse Visitador chegou inclusive, para se autodenunciar, Bartolomeu Fragoso, primeiro poeta do Brasil. Ele, e não Bento Teixeira com sua Prosopopeia, como consta (até agora) em nossos livros de história. Com a intenção de ter os benefícios indicados nos Éditos, por estar “dentro do Tempo da Graça” ‒ o prazo de um mês posterior à chegada do Visitador do Santo Ofício, como vimos. “E por dizer que queria confessar sua culpa, recebeu o juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão direita, sob cargo de prometer confessar a verdade”.

A Bartolomeu “foi logo perguntado pela doutrina cristã e disse o credo e o padre nosso”. Ali, “fez confissão inteira e verdadeira, mas antes negou e calou, as ditas blasfêmias com certeza, mantendo, ainda, sua palavra, mas não disse quando blasfemou”. Já como réu, acabou sofrendo penas, segundo os códigos da época em razão de serem “as denúncias que sofreu provas suficientes de incidir no crime de heresia”. E, condenado ao exílio, nunca mais se ouviu falar dele.

A Inquisição, pouco a pouco, ganhou autonomia em nossas terras. Denúncias eram enviadas, pelos missionários jesuítas, diretamente ao Tribunal de Lisboa; e depois de analisadas retornavam para, fosse o caso, a expedição dos correspondentes mandatos de encarceramento. O que ocorreu só poucas vezes. Que as mais importantes e numerosas prisões continuaram sendo feitas por Visitadores, membros do clero locais, comissários e seus familiares, sem nenhum critério ou limite, ausentes quaisquer determinações de além-mar. Em decisões individuais (monocráticas, hoje se diria), sem ser possível qualquer revisão. E, nos casos todos, com a generosa complacência da Coroa.

Em Pernambuco, estima-se (não há documentos oficiais, para atestar os números exatos) terem ocorrido cerca de 700 denúncias e 200 prisões. Em tudo se revelando não apenas o poder sem limites do Inquisidor, como também de seus mandados, os visitadores.

Essas perseguições perduraram até quando chegou ao poder o secretário de estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, depois secretário do Reino (correspondente a um primeiro-ministro), Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.

Foi ele quem aboliu a escravatura, em 1761 (mas só no Portugal continental, sem se estender ao Brasil e outros domínios portugueses). E impôs, em 1774, o Estatuto do Tribunal da Coroa ‒ suprimindo processos sigilosos, torturas, excomunhão com uma única testemunha, bem como a inabilitação dos condenados, não mais se devendo fazer distinções entre cristãos-velhos (tradicionais famílias da terra) e cristãos-novos (como eram conhecidos os judeus). Passando o Santo Ofício, a partir de então, a ser considerado apenas como um tribunal régio e nada mais. Afinal extinto, em 1821, às vésperas da Independência do Brasil.

Um olhar sereno sobre esse tempo vai permitir avaliar se tanto ódio, “o mais longo dos prazeres” segundo Byron (Don Juan); violência, um “fogo que se consome depressa” segundo Shakespeare (Ricardo II); e nenhuma disposição para perdoar, mesmo sabendo que “perdoar o vencido é o triunfo da vitória”, segundo Lope de Vega (O piedoso aragonês), fez bem a Portugal e ao Brasil. Por se sentir, nos dias que correm, ser grande a tentação dos atuais usuários do poder em reproduzir esse passado infausto.

Os inquisidores do passado, mesmo aqueles elogiados ou endeusados por alguns de seus pares na época, estão nos livros atuais em meio a duras críticas, reprimendas e maldições. E estamos todos (muito) curiosos para ver como serão lembrados esses de hoje, no futuro. Porque, na lição do padre António Vieira (Sermões), “Quem faz mal, foge da luz, e não quer que o vejam”.

Encareço vênia para encerrar esse texto, triste, com uma visão otimista. Lembrando os Evangelhos. Quando ensinam que “não há mal que dure para sempre” (Apocalipse 21.4.27), “nem noite que nunca se acabe” (Salmos 30.5). Bom não esquecer disso, leitor amigo. Tudo passa. Homens bons, gestos generosos, virtudes, tudo passa. Mas também poderosos, a maldade humana, os sentimentos mais vis, tudo passa. Podem confiar.

* * *

DR. ARMANDO. Ontem (11/09) o dr. Armando Monteiro Filho, pai de Maria Lectícia, estaria fazendo 100 anos. A data foi comemorada com missa na Madre de Deus. Uma homenagem merecida, por todos os seus méritos. Dado ser uma pessoa generosa, doce e convergente sempre, nas mais variadas situações. E reto no proceder. Não apenas grande empresário, provou também dr. Armando que é possível ser homem público sem ocupar cargos públicos (mesmo tendo sido secretário de Viação e Obras Públicas em Pernambuco, Deputado Federal e ministro da Agricultura de João Goulart, quando apresentou projeto de avançada Reforma Agrária). E mostrou que ainda se pode atuar nesse campo, aqui no Brasil, com ética. Por mais raro que seja, nos dias de hoje. Um exemplo a ser copiado. Para sempre seja louvado, pois. Saudades dele.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O TRIBUNAL DO SANTO OFÍCIO

Começou esta semana, em Brasília, um julgamento com sentença já redigida. Sem qualquer suspense ou dúvida, sabemos todos como terminará. Só um teatro. Revelando ao mundo a cara de um país fraturado, como o nosso, que aposta numa radicalização mais ampla. E insensata.

Levando, cada vez mais, a que nos afastemos do país fraterno de que falava Sérgio Buarque de Holanda em sua tese clássica sobre nossas raízes, Brasil, um país cordial. Em vez de falar sobre isso, por acaso me veio à mente um episódio marcante de nossa história. Que fala de Inquisidores e da Inquisição. E finda por repercutir, como se verá, no país que somos hoje. Espero que o amigo leitor aprecie.

Começo lembrando que os primeiros prenúncios de um maior conservadorismo na Igreja Católica se deram com o Tribunal Público Contra a Heresia, em Orleans, por volta de 1022. A partir daí o movimento dirigiu-se, depois da França, para a Espanha; quando, em 1478, o papa de Sarvona Sisto IV emitiu a bula Exigit sincerae devotionis affectus, permitindo a instalação de um Tribunal da Inquisição em Castela. O que levou a enorme imigração de judeus e hereges, que lá viviam, para terras lusitanas.

Os mesmos que passaram a ser perseguidos, também ali, a partir do Édito de Expulsão de 1496. Ocorre que a Inquisição instalou-se, em Portugal, só bem depois; talvez por não demonstrar, o país, tanto poder junto à Santa Fé. Valendo lembrar que a igreja teve apenas um papa português, e bem antes, Pedro Julião Rebolo (1215 ‒ 1277), nomeado João XXI e mais conhecido como Pedro Hispano.

Em 1515 o rei D. Manuel I, O Venturoso, requereu um tribunal similar ao papa florentino Leão X, para cumprir compromisso que contraiu no casamento com Maria de Aragão. Sem sucesso. Depois da morte do monarca, em 1521, o trono português passou a ser ocupado por D. João III, e aquela solicitação foi reiterada ao papa do Lácio Paulo III. Para dar força ao pedido, que fez em 1524, havia permitido que judeus pudessem abandonar Portugal em paz. Novamente sem sucesso, no pleito. Mas a preparação avançava.

Em 1531, ocorreu grande sismo em Lisboa, prenúncio daquele gigantesco de 1775. Tido, pelo povo, como culpa do criptojudaísmo. Tudo conspirando para que o papa florentino Clemente VII finalmente autorizasse a fundação do Santo Ofício, em Portugal, com a bula Cum ad nihil magis (publicada em 22/10/1536). Logo nomeado, como Inquisidor-Mor, o frei Diogo da Silva, bispo ceuta e não por acaso confessor do Rei D. João III.

O primeiro Livro de Denúncias, iniciado em Évora, continuou em Lisboa. A partir de janeiro de 1537, para onde se transferiu a Inquisição, instalada no local onde hoje está o Teatro D. Maria II. Até que, a partir de 1541, foram sendo criados novos tribunais em Coimbra, Évora, Lamego, Porto. O domínio espanhol em Portugal, a partir de 1580 (findaria só em 1640), não alterou a maneira de agir da Inquisição, que tinha grande atuação no país vizinho.

O Regimento de 1640, em um Portugal já liberto, determinava que cada tribunal do Santo Ofício deveria ter uma Bíblia; um livro de Direito Canônico; o manual dos inquisidores, Directorium inquisitorum, do inquisidor catalão Nicolau Aymerich; e De catholicis istitutionibus, do bispo espanhol Diego de Simancas. O Inquisidor era considerado um Sanctificatus Master. Centenas de servidores lhe prestavam serviços, mantidos seus nomes em segredo. Oficiais da Inquisição, quando não faziam parte do clero, eram conhecidos como Familiares do Santo Ofício.

Membros da nobreza exerciam enorme poder, até mesmo para efetuar prisões. Informantes eram bem recompensados, inclusive com isenção de impostos. As denúncias acabavam todas aceitas, inclusive cartas anônimas (desde que “a serviço de Deus e ao bem da fé”), simples boatos ou declarações feitas em severos interrogatórios (só não se podendo ouvir o acusado, nas sessões públicas, “mostrando sinais de torturas”).

Diferentemente da espanhola, que perseguia protestantes, essa Inquisição portuguesa pouco se interessou pelos crimes por lá mais comuns de bruxaria e sodomia. Alvos em Portugal eram, sobretudo, judeus, depois de suas conversões religiosas tidos como cristãos-novos.

Presos tinham seus bens confiscados e transferidos para depósito, num processo considerado Sequestro, com base no princípio do confisco automático. E eram vendidos, em hasta pública. Garantindo, para além dos emolumentos pelos serviços em nome da fé, recursos gastos no custeio das despesas do processo (salários, visitas, viagens), afora a parte da Coroa ‒ usada para manter equipamentos das frotas e despesas de guerra.

Certo que posterior declaração de inocência, dos tais acusados, quase sempre correspondia a que não recuperassem aqueles bens, posto que já transferidos a terceiros. Francisco Carvalho Rosado (A Inquisição em Cascais) até diz serem “processos motivados mais por motivos econômicos do que propriamente por razões religiosas”.

A inquisição, em Portugal, se cumprira pelas mãos dos inquisidores. Muitos. Enquanto, no Brasil, por visitadores. Mais famosos destes, por aqui, foram os conhecidos como Heitor e Alexandre. Na capitania da Baia de Todos os Santos, o padre Heitor Furtado de Mendonça (de Montemor-o-Velho). E, na capitania de Goiás, o padre Alexandre Marqueza do Valle (sem local de nascimento conhecido), célebres os dois pela violência com que combatiam todos os que se opusessem à sua fé. E a seus interesses.

Os poderes atribuídos a esses inquisidores não tinham limites, alcançando inclusive a censura de todas as publicações ou a proibição de imprimir a Bíblia em quaisquer outras línguas afora o latim. Podiam prender e julgar, quando e como quisessem. Com autoridade sem limites, incontáveis vezes castigavam quem não merecia.

Os meios de levar os presos a confessar eram reconhecidamente severos; com frequência usando-se, nos interrogatórios, torturas. Sobretudo a cura da água (nome piedoso para o waterboarding), uma simulação de afogamento, depois com aplicação generalizada no mundo inteiro; o strappato (ou polé), quando as mãos da vítima eram amarradas por trás das costas e o corpo suspenso pelos pulsos (algumas vezes com pesos nos pés), numa roldana presa ao teto, deixando cair o corpo com violência, sem tocar o chão; e o potro (ou cavalete) em que o corpo, preso por oito cordas (duas para cada membro), acabava esticado, por manivela, sobre uma espécie de mesa de estrutura retangular, até deslocar as articulações do infeliz.

Julgamentos eram secretos, sem admissão de recursos. Com sentenças executadas em sessões públicas denominadas Autos de Fé, que se sucediam por toda parte ‒ do Terreiro do Paço ao Terreiro do Trigo, na frente dos curtumes ou nos interiores das igrejas. Com destaque para a de São Domingues, famosa desde os tempos da Peste Negra que se espalhou pela Europa a partir do século XIV ‒ nascida junto com o comércio das especiarias que vinham, de Constantinopla, em navios infestados com pulgas e ratos.

Não foram poucos os escritores atingidos por ela todos processados, sentenciados ou presos. Com destaque para o padre António Vieira, em 1665. Consta ser de Vieira o livro Notícias reconditas do modo de proceder a Inquisição de Portugal com os presos, que teria sido por ele entregue ao papa romano Clemente X. E talvez não seja coincidência o fato de ter a Igreja interditado a Inquisição, entre 1674 e 1681, sem mais registros desses fatos.

Mesmo na sua fase final, continuaram as perseguições; atingindo, entre outros autores famosos, António José da Silva (O Judeu), o padre Francisco Manuel do Nascimento (mais conhecido por seu nome arcádico de Filinto Elísio) e Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Penitências privadas iam de açoites a prisões (temporárias ou perpétuas). Penas mais frequentes eram o confisco de bens e castigos físicos: açoitamento, condenações às galés, desterro, trabalhos forçados. Além do degredo, aplicado nos casos de blasfêmia, bruxaria, criptojudaísmo, injúria e sodomia. Homens e mulheres degredados, conhecidos como Modestos, no Brasil passaram a ser em maior número que os imigrantes voluntários. Nosso país acabou virando refúgio para perseguidos pela inquisição, sobretudo aqueles descendentes de judeus.

Arrependimentos eram aceitos pelos inquisidores em alguns casos, quando aquelas almas eram salvas do inferno. Algo cada vez mais frequente que, para escapar dos sofrimentos físicos, quase sempre os acusados se confessavam culpados. Sentenças, nos julgamentos, eram decididas pelo voto de maioria; sendo necessário ao menos cinco votos, num colégio formado por três inquisidores mais advogados, promotores, notários e outros funcionários. Penas médias variavam de 5 a 10 anos; mas milhares morreram, nas prisões, à espera de julgamento.

Em tudo se destacando a figura do Inquisidor que, ao menos em questões de fé, se mostrava com o mais poderoso homem do país. Um poder, literalmente, sem nenhum limite. Terá deixado herdeiros?, eis a questão.

PS. Na próxima coluna, em “A Inquisição e o Brasil”, conclusão do tema.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (45) E JAGUAR

ADVOGADOS (Final). Agora, o complemento da coluna anterior. Dedicada, em seu mês, aos advogados, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Antes, bom lembrar como tudo começou: “Lei de 11 de agosto de 1827. Dom Pedro Primeiro por graça de Deos e unanime Acclamão dos povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Brasil fazemos saber a todos os nossos Sudditos que a Assembleia Geral Decretou e Nós Queremos a Lei seguinte: Art. 1. Crear-se-hão dous Cursos de Sciencias Juridicas e Sociais, hum na Cidade de S.paulo e outro na de Olinda, e nelles no espaço de cinco anos e em nome Cadeiras, se ensinarão as matérias seguinte:… Dada no Palacio do Rio de Janeiro aos onze dias do mez de Agosto de mil oitocentos e vinte-sete. Sexto da Independecia e do Imperio”. Pois é, foi assim. E vamos logo às conversas:

MARCELO NAVARRO RIBEIRO DANTAS, ministro do STJ. Cerimônia de entrega do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, em que fui um dos seis membros. Marcelo disse, de minha gravata,

– É a mais bonita que já vi.

Entreguei, na hora. E ele

– Vou guardar para usar em sua posse na Academia Brasileira de Letras.

E usou mesmo (em 2022), oito anos depois, trata-se de um vidente.

* * *

O barzinho que frequenta, na Praia de Pirangi (RN), tem nome curioso (mandou foto), Comeu Morreu ‒ bar, lanchonete e bodega. Nele, esta placa (outra foto)

‒ Pão na chapa:
Com manteiga, 2,50.
Com margarina, 2,00.
Sem manteiga, 1,50.
Sem margarina, 1,00.

* * *

Também mandou foto de cartaz em outro bar, daquela mesma praia, que dizia num português castiço

‒ Horário:
Abrimos quando chegarmos
Fechamos quando sairmos
Se vier e não estivermos
É porque não chegamos ou já saímos.

* * *

Outra de barraca por ele vista, em suas andanças matinais na praia,

‒ Horário de funcionamento:
Nós abrimos às 8:00h ou 9:00h, às vezes às 10:00h.
Fechamos às 18:00 ou 19:00, às vezes às 20:00h.
Às vezes, nem abrimos!

* * *

E mais uma, de certo Bar Cu do Mundo. Perguntei se ficava na sua terra e respondeu, como poeta,

‒ Se for, erraram no título, que deveria ser Barco do Mundo.

* * *

Ao pensar nas dores da alma, escreveu

– Amargura?
Amar cura.
Solidariedade?
Só lhe dar a idade.
Morri?
Amar, ri.
Sentimento?
Sem ti minto.
Jamais?
Já, mas…

RAMADA CURTO, advogado e dramaturgo. Na Primeira República, deputado e ministro das Finanças. Em Portugal, esteve presente nos mais célebres processos-crime de seu tempo. Neste caso um cliente havia dito ser, o autor da ação, um filho da puta. E Ramada começou a fala chamando atenção para o fato de que, muitas vezes, utilizamos essa expressão como se fosse um elogio

‒ Ganda filho da puta, és o melhor de todos!

‒ Dá cá um abraço, meu grande filho da puta!

E concluiu suas alegações dizendo, ao juiz do feito,

‒ Até aposto que, neste momento, V.Exa. está a pensar o seguinte: vejam algo que este filho da puta não se havia de ter lembrado, só para safar o seu cliente!

Na hora de ler a sentença o juiz, olhando para o réu

‒ O senhor está absolvido, mas bem pode agradecer ao filho da puta do seu advogado.

ROBERTO ROSAS, advogado. Lembrou que perguntaram ao Ministro Orozimbo Nonato, do Supremo,

– O senhor foi juiz?

– Fui.

– E quando largou o apito?

RUI BARBOSA, advogado e homem público. Ruy usava um tipo de óculos diferente, sem hastes, pendurado no nariz. E, com esses óculos, também marcava a páginas dos livros que estava lendo. Com frequência, fechava o dito livro e lá se perdia mais um. No inventário de sua biblioteca, depois de sua morte, acharam mais de 40. Certa vez aquele homem culto, fundador (em 1897) da Academia Brasileira de Letras e seu Presidente (em 1908/19, até ser sucedido por Carlos de Laet), considerado Águia de Haia na II Conferência da Paz (1907), por não encontrar os ditos óculos, perguntou à gorda cozinheira que estava no ponto

‒ Que ônibus é esse?

E ela, olhando aquele velhinho com dó,

‒ O senhor me desculpe mas eu também sou analfabeta.

* * *

A única gravação que se tem, com sua voz, é homenagens à mulher. Trecho

‒ A mulher foi, tem sido e será sempre, um bálsamo para todas as feridas do coração. Um raio de sol que nos alumia, nas trevas cerradas de uma existência atribulada. A estrela que nos aponta para o Norte, nesta pedregosa senda da vida. Enfim, o consolo para todos os desalentos, o alívio para todas as dores, a mão que nos sustenta quando, já exaustos, corremos a precipitar-nos no abismo da morte ou da degradação moral.

No Senado, ante críticas feitas por um partidário do presidente Hermes da Fonseca que o acusava de ser velho, respondeu

‒ Que nada, tenho ainda muita força.

O que levou seus inimigos a distribuir, pelas ruas do Rio, maldosa quadrinha implicando a mulher de Ruy

‒ Ao ouvir-lhe a gabolice
Maria Augusta se abrasa
Se tem tanta quanto disse
Por que não gasta em casa?

SIGMARINGA SEIXAS, advogado e homem público. Redigi, para o governo (FHC), o Decreto 3.551 (publicado em 4 de agosto de 2000); que, atendendo recomendação da UNESCO (1985), instituiu o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial. Até ganhei da UNESCO uma comenda, por isso. E decidimos comemorar no primeiro desses patrimônios escolhidos, um Quarup ‒ ritual, em homenagem aos mortos ilustres, celebrado pelos povos indígenas do alto Xingu. Na hora da viagem houve imprevisto e não pude ir. Na volta, Sig disse como foi

‒ Durante o dia, mil mosquitos em nossa volta. E, de noite, dois mil. Não dava nem para respirar. Você foi sábio, ao correr de lá.

SOBRAL PINTO, advogado. Miguel Arraes (governador de Pernambuco) estava em Fernando de Noronha, preso. Sobral requereu Habeas Corpus para ele ‒ negado, claro, pela justiça da Ditadura. José Almino (da Casa Rui Barbosa), filho mais velho, perguntou quanto seriam seus honorários e Sobral

‒ Nada, não recebo dinheiro de comunista.

SYLENO RIBEIRO, advogado. Dayse de Vasconcelos Mayer, amiga antiga, indo ensinar Direito em Portugal o procura e diz

‒ Vim me despedir, Syleno, por ter certeza de que vou morrer muito cedo.

E ele, famoso por sua sinceridade absoluta,

‒ E não acha muito tarde para morrer cedo?

* * *

SAUDADES DO AMIGO JAGUAR. Luiz Gravatá mandou, no zap, um desenho do ratinho Sig (criação do cartunista) chorando. Foi a senha. Mais um entre tantas mortes de amigos queridos. Mais uma. Lembrei de Pessoa (Passos da cruz),

“Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Num crepúsculo de espadas.
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas…

Todas essas perdas entre tantas bandeiras desfraldadas do passado. E como despedida lembro, triste, duas historinhas (entre muitas) dele de que fui testemunha:

1. Indo para Petrópolis, na frente do carro, Jaguar. Atrás, no meio, Nássara. Gênio. E surdo. Faziam as perguntas, Jaguar escrevia num caderno, mostrava e ele ia respondendo. Falou quase duas horas, sem parar. Já chegando, Jaguar arrancou do caderno as folhas com perguntas, fez um bolo, abriu a janela e disse

‒ Isso é que eu chamo jogar conversa fora.

E jogou mesmo.

* * *

2. Na Lagoa Azul, fiz as apresentações. Ele

– Muito prazer, dona Lectícia. Por falar nisso e o Thomas?

– Thomas? Que Thomas?

– Eu tomo o que tiver, mas prefiro cachaça.

Previdente, Jaguar deixou escrito quais eram suas últimas vontades. E tudo (muito) natural. “Já que a minha vida é uma bagunça sem remédio, pelo menos resolvi planejar direito a minha morte. Para começar, decidi ser cremado e que as cinzas sejam espalhadas pelos bares que bebi. Vai faltar cinza, foi o comentário de Chico OPF. Se acharem que é muito bar para pouca cinza, basta incinerar um pangaré velho para inteirar”. Viva Jaguar!!!