O presidente do TSE, ministro Nunes Marques, determinou sozinho a “suspensão da divulgação de pesquisa eleitoral do Instituto AtlasIntel” realizada em 19/05/26. Decisões monocráticas vem sendo a regra (não são mais tribunais, TSE e Supremo, passando a ser feudos onde cada qual manda como quer). Diferente das anteriores 27 pesquisas, essa foi precedida por um questionário. Qual a razão?, só eles poderão explicar.
Certo é que, antes das perguntas, o dito Instituto afirmava que um dos candidatos tinha “esquema” com o banqueiro Daniel Vorcaro. Perguntava se o eleitor viu vídeo de encontro, entre os dois, após o que lhe apresentava o tal vídeo com legenda nos diálogos. Para, só depois, começar a pesquisa em si. Tudo muito discutível. Estranhíssimo. Deletério. E sem efeitos práticos, na decisão, que todos os meios de comunicação já haviam noticiado a tal pesquisa.
O caso mereceu editorial do jornal O Globo, em 10/06, dizendo que “veto a pesquisa agride o direito à informação”; que a decisão “agrava uma tendência… restritiva à liberdade de informação”; e, por fim, marcando sua posição “não é assim que se protege uma democracia”.
Curioso é que não se trata do primeiro caso. Em 01/11/2024, por exemplo, o ministro Flávio Dino, também numa decisão monocrática, determinou “a retirada de circulação de 4 livros”.
Afrontando nossa Constituição que prevê (art. 5º, IX, §2º) a “livre expressão de atividade intelectual… independentemente de censura ou licença”; e, também (art. 220), “é vedada toda e qualquer censura”. A Constituição não vale nada, para o Supremo de agora. Só que o fato passou em branco, nos editoriais de O Globo.
Assim também se deu com as censuras feitas pelo ministro Alexandre de Moraes, na condução de um inquérito absolutamente ilegal (nº 4.781), secreto, dito do Fim do Mundo, que já vai para 8 anos. Desde tirar do ar o “X” à proibição de funcionamento de sites conduzidos por ativistas que não aprecia. Quantos? Google diz ser um “número estimado em mais que 120”. Creio serem bem mais que isso. Novamente, sem editoriais de O Globo.
Fakes estão por todo lado. O que é (muito) ruim, claro. Para ficar num só caso, escolho o deputado André Janones (Rede, MG), hoje operador digital da campanha do presidente Lula. Que, em conferência recente, disse “Estou me lixando se falarem que é de baixo nível”. E completou dizendo que se sente à vontade para ir “além de todos os limites”. Inclusive éticos, fica subentendido. Essa prática tem que ser enfrentada, punindo com vigor os autores, mas sem recorrer à censura.
É difícil entender como tantos que antes aplaudiam (ou silenciavam sobre) dita censura, a partir de um viés ideológico, agora critiquem a mesma censura por favorecer o outro lado. Como no brocardo romano tantas vezes reproduzido por Molière, ridendo castigat mores (rindo se castigam os costumes).
O fato me incomoda, particularmente, por uma razão íntima. O de ser, decididamente, contra qualquer tipo de censura. A de Dino. As reiteradas de Alexandre de Moraes. E, agora, essa do Nunes Marques. Simples assim.
Os Estados Unidos resolveram faz tempo essa questão com a primeira das 10 primeiras emendas à Constituição Americana (de 17.09.1787), mais conhecidas como Bill of Rights (Declaração de Direitos, de 15.12.1879), Congress shall make no law… Vedando qualquer censura. Punem, depois. Mas punem sempre, essa a diferença. E duramente. Deveríamos copiar. Abaixo a hipocrisia, senhores. E viva a liberdade!!!
Mais histórias do passado. Já começo lembrando que Dom Hélder chegou, em 12/04/1964, para ser arcebispo de Olinda e Recife. E logo criou, por aqui, o Banco da Providência, reprodução de experiência no Rio. Para ajudá-lo, convidou as assistentes sociais Ana Maria Moraes e Lilia Guaraná, só que não tinha dinheiro para contratá-las. Dom Lamartine, seu anjo da guarda, encontrou-se casualmente com Paulo Guerra
– Dr. Paulo, o Arcebispo veria com muitos bons olhos a contratação dessas duas funcionárias, pelo governo, para ficar à disposição do Banco.
Guerra (PSD) foi eleito vice de Miguel Arraes (PST), em 1962, até quando a Redentora prendeu Arraes em Fernando de Noronha. O general Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, em seu livro de memórias escreveu
‒ Arraes socialmente confinado em seu palácio, já quase impossibilitado de nos trazer perturbações… O instinto herdado de meu pai, um caçador de onças, fez-me ver nele, desde a primeira hora, um inimigo… Declarei-lhe guerra desde que o conheci. E isolei-o, afinal, na solidão de um penhasco perdido no meio do Atlântico (a ilha de Fernando de Noronha).
Guerra, governador, desejava muito atender o Dom. Por ver, ali, uma chance de alargar suas relações com as oposições. Mas sabia da dificuldade representada pelo tal Justino, à época todo-poderoso em Pernambuco. Que mandava na própria sombra.
O amigo Carlos Moreira, advogado e poeta, estava batendo ponto no Bar do Valdemar (Recife antigo, toda gente sabe onde é) quando ele entrou para espanto dos presentes. Testemunha do fato foi o jornalista Aldo Camerino Paes Barreto.
Moreira pediu um papel a Aluízio Falcão e deixou registrado:
“‒ Cidadão guarda teu bolso Comerciante a vitrina Cachorro esconde o osso Garçom feche a cantina.
Mas se tens o que perder E ainda te resta tino Bota as pernas pra correr: Que está chegando o Justino!”
Dia seguinte, Guerra o foi procurar.
– Dom Helder está pedindo que eu contrate 20 assistentes sociais, general. Mas essa gente eu trato no pau e não vou contratar ninguém.
– Muito bem, governador.
Conversaram a manhã toda. Já indo embora, e como quem não queria nada, virou-se para ele
– Sabe o que estou pensando?, general. Que esse comunista sem-vergonha fez o pedido só prá gente negar e ele se dizer perseguido. O que o senhor acha de contratar duas, em vez das 20? Ele não iria poder falar em perseguição, afinal contratamos essas duas. Mas é o senhor quem manda.
– Grande ideia, governador, pode contratar.
No fim da tarde, um magote de meganhas veio reclamar. E o general, nos altos de sua vaidade,
– Fui eu que mandei.
Saudades de um tempo em que política, tão diferente do jogo bruto de hoje, ainda se fazia com engenho e arte.
Mais (duas) histórias do passado que passou. Na transição (1985), entre a ditadura e a Democracia que vinha.
1. Teatro Casa-Grande (Rio), lotado. Ato para celebrar o fim da censura. Naquele dia, liberamos os últimos livros ainda proibidos: Aracelli meu amor, de José Louzeiro; Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, autor do premiado Ainda estou aqui; e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, hoje confrade na ABL. Além de um caminhão de músicas de duplo sentido, quase todas feitas para o público do Nordeste brasileiro. Depois de 20 anos de governos autoritários, afinal, o ministério da Justiça se limitava a indicar a faixa etária dos filmes. Sem mais censurar músicas, peças teatrais ou livros.
O público recebeu todos os discursos com palmas. Chegou a vez do ministro Lyra. Foi ele falar no presidente Sarney e se ouvir a primeira vaia. Grande. Injusta, no meu olhar. Por star conduzindo bem sua missão principal – a de operar sem traumas, numa quadra histórica complicada, a transição. Da ditadura para uma Democracia florescente. As manifestações eram ainda reflexo do tempo em que foi presidente da Arena e, depois, do PDS. Lyra começou a defender Sarney:
– Minha gente, vocês não o conhecem. Ele é do Maranhão, verdade, mas tem uma boa visão do mundo. Esteve junto aos militares, também verdade, mas agora está conosco.
E o público indócil. Fernando aumentou a voz:
– Ele foi da Banda de Música da UDN. Sei que a UDN é o atraso. Mas Sarney tem consciência do futuro e está muito à frente disso tudo. É a Vanguarda do Atraso.
O teatro veio abaixo, com aplausos ensurdecedores. A fala era um elogio. Para dizer que Sarney seria um avanço, em relação ao passado. Mas acabou recebida como crítica. E, até o fim do seu governo, virou mantra ‒ A Vanguarda do Atraso.
* * *
2. Na morte de Tancredo, Fafá de Belém cantou nas tvs o Hino Nacional sem nenhum instrumento acompanhando. Com muita emoção. E queria fazer o mesmo num disco. Ocorre que não podia, segundo a gravadora, a partir de interpretação equivocada para a Lei 5.700/71. Dei parecer autorizando. Porque a exigência de “andamento metronômico de uma semínima igual a 120, em tonalidade si bemol” (art. 24) era só para “Sessões Cívicas” (art. 25). E o disco saiu, dedicado a mim, beijos Maria de Fátima.
Fevereiro de 1986, transmissão do cargo de ministro da Justiça. Tomaria posse Paulo Brossard, para Brizola um “Rui Barbosa em compota”. Lyra gostava daquela gravação e deu ordem:
– Na hora da posse, bota o disco de Fafá.
Entrei na conversa:
– Perdão, ministro. Mas seu último ato, no ministério, não pode ser uma ilegalidade, que a transmissão do cargo é uma Sessão Cívica.
– Lá vem você, de novo, botando gosto ruim.
– Desculpe.
– Mas Sarney e Brossard vão ficar putos.
– Será ruim, para você.
Pensou um pouco e disse:
– Deixe comigo.
– Fernando…
– Confie.
Todos em seus lugares, o locutor convocou autoridades para a mesa: presidente da República, ministro que sai, ministro que entra, outros ministros, Procurador Geral da República. Só então anunciou:
– Formada a mesa, e ANTES de se iniciar esta Sessão Cívica, vamos ouvir o Hino Nacional cantado por Fafá de Belém.
Todos de pé. Ouve-se o Hino, em disco, e o povo chorando. Em seguida:
– Começa, AGORA, a Sessão Cívica da transmissão de posse. E Lyra, rindo,
Mais conversas, hoje só com políticos e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Estamos bem perto do fim, volto a dizer. E ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço.
DINARTE MARIZ, governador do RN. Em Jucurutu, era promotor da cidade Nelson Queiroz, amigo do ministro do STJ Marcelo Navarro (que contou essa história). Dando-se que Nelson, no palanque, saudava o grande político potiguar:
‒ Dinarte, apesar de sequer ter concluído o curso primário, tornou-se grande empresário, senador da República e governador do Estado. Imaginem o que poderia ser?, caso tivesse estudado.
O velho achou que era demais e interrompeu sua fala dizendo, no microfone
‒ Eu seria promotor em Jucurutu.
ERNESTO SOUSA VILAÇA, comerciante, mais conhecido como Ernesto Babão. Indignado com os vereadores das cidades atendidas por seu posto de gasolina (que não pagavam as contas do combustível usado) e, no meio de uma carraspana, recitou versos que acabaram famosos na região:
‒ Jupi é terra de corno Calçado de perdição Já Lajedo é de viado Canhotinho, de ladrão.
FLAVIO BIERRENBACH, ministro do STM. O governador (de SP) Franco Montoro era famoso por trocar o nome daqueles com quem conversava, e sempre o chamava de Flávio Bierrembrahms (que contou essa história). Até que, um dia, não aguentou:
‒ Governador, tem certeza de que meu nome é esse?
‒ Sim. Uma homenagem ao famoso compositor Johann Sebastian Brahms.
JOSÉ MÚCIO MONTEIRO, da Secretaria de Relações Institucionais, ministro do TCU e da Defesa. Candidato (1986) a governador de Pernambuco, em disputa com Miguel Arraes. Na cidade de Petrolina (ele próprio confirmou essa história), depois de comer buchada, precisou desesperadamente ir ao banheiro da casa. Estava ocupado. Um assessor bateu na porta e ouviu, dentro, voz feminina:
– Num tá vendo que tem gente?
– Saia logo que o governador precisa usar o sanitário.
– Dr. Arraia tá aí? – É o governador Zé Múcio.
– Agora é que eu num saio mermo daqui.
JOSÉ SARNEY, Presidente da República. Ao fazer 95 anos, mandou mensagem para o grupo de confrades na Academia (ABL):
‒ O segredo de viver muito é seguir um velho provérbio chinês: comer pouco, dormir muito e não discutir com a mulher.
MÁRIO SOARES, presidente de Portugal. Num jantar lembrei como Voltaire definia sua relação com Deus, “cumprimentamo-nos, mas não nos falamos”, e perguntei:
– Acredita em Deus?, presidente.
– Não.
– E como conseguiu ser eleito, num país tão conservador?
– É que dei uma explicação bem simples, na televisão, e os eleitores aceitaram. Disse que se Deus é onipotente, e quiser que eu acredite nele, basta estalar os dedos. Como não fez isso, acredito preferir que eu continue sem acreditar.
Dona RUTH CARDOSO, Primeira-Dama. Na Lagoa Azul, se dirigiu a Maria Lectícia:
‒ Belo chapéu, Lectícia.
‒ É seu, dona Ruth. Mas cuidado para que não se diga estar, a senhora, fazendo caridade com chapéu alheio.
TANCREDO NEVES, presidente da República. Perguntaram
‒ Quais as 10 melhores qualidades de um bom político?
Seguimos no exame do caso JK que, segundo Comissão nomeada pelo atual governo do Brasil, teria sido assassinado. Eleições são capazes de tudo. Começo dizendo que era domingo e JK voltava, para casa, já quase escuro. As colisões dos veículos ocorreram numa reta próxima de Resende (Rio). Primeiro, entre o Opala de JK e um Ônibus da Viação Cometa (com quem se chocaria, inicialmente), indo na direção SP/Rio; enquanto na outra pista em direção contrária, Rio/SP, vinha um caminhão SCANIA carregado com 30 toneladas de gesso. Foi ele o responsável pelas mortes de JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, numa segunda colisão.
Era plana, gramada e sem guard-rails, a área de separação entre as duas pistas. E também planos os acostamentos e as áreas adjacentes (mais de um quilômetro), em ambos os lados. Certo que, fosse mesmo um atentado, certamente o local escolhido para isso iria ser outro. Provavelmente uma curva, junto a precipício.
E, para quem planeja um atentado, último veículo do mundo que se utilizaria para provocá-lo seria um ônibus. Lento. Em velocidade menor que a do Opala. E cheio de passageiros (40), testemunhas oculares da tragédia. O acidente se deu com o Opala de JK invadindo a faixa da esquerda, por onde trafegava o ônibus (há fotos com marcas das tintas, provando essa batida). Talvez um cochilo do motorista. No chão ficaram as marcas dos pneus, prova inequívoca do desvio que teve o veículo da sua rota normal. Basta ver as fotos.
Dito Opala, dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, se desgovernou após esse primeiro abalroamento. Ultrapassou o canteiro central e avançou pela pista contrária. Dali, em situação normal, seguiria em frente, em uma área plana e de mato baixo.
Mas o que ocorreu?, eis a questão. Provavelmente deu-se que seu motorista, passado o breve instante de torpor com o abalroamento no ônibus, terá reagido virando à direita. Para impedir que o veículo entrasse naquele mato. Com risco de furar um pneu. E no desejo de retomar sua viagem, normalmente. Passaria à esquerda do caminhão pelo acostamento, assim pensou, e voltaria depois à sua pista. Era o que desejava. Só que por azar, muito azar, chocaram-se, a parte frontal direita de seu Opala, com a parte frontal direita da carreta Scania, que vinha em sentido contrário. Por pouco, muito pouco, não conseguiu. É pena.
Já envenenamentos não produzem efeitos repentinamente. Caso ocorresse, o motorista começaria a passar mal e teria parado. Já a versão de um tiro de precisão, na cabeça do motorista de JK não se sustenta.
Primeiro, porque o crânio de Geraldo Ribeiro, se vê nas fotos da época (apresentadas no Laudo), não tinha qualquer lesão. Segundo porque, caso tivesse o motorista sido atingido por uma bala no crânio, e jamais poderia ter depois alterado conscientemente a trajetória do veículo em que estava. Como fez. Quem tiver maior interesse no caso basta acessar, pela internet, o site da CNV, com a íntegra do Laudo e seus anexos.
A história tem suas tramas. Seus designíos. E seus mistérios. Claro que o Regime Militar ficaria feliz em ver morto JK. Um risco a menos. Mas é como se o destino, esse “Deus sem nome” como queria Fernando Pessoa (carta a Henry More), tivesse agido antes. E, no fim, tudo se resumiu a só um acidente automobilístico. Às vésperas ou não de eleições, essa é a verdade.
P.S. Minha seleção seria o time inteiro do Náutico (ver o último 6 x 2). Acostumado a ser HEXA.
Vésperas de eleição, no próximo outubro, e era mesmo de esperar. Requente de bolo, em um confronto desnecessário. Ano passado, todos os grandes jornais do país já diziam “O governo Lula decidiu reabrir o caso” (Globo e, em manchetes quase iguais, todos os outros, inclusive o JC).
Nessas matérias se via que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (do Ministério dos Direitos Humanos), com militantes do PT nomeados pelo governo em Brasília, estava correndo o país a fazer audiências públicas e tentar reabrir o caso, indicando a possibilidade de “sabotagem mecânica, tiro ou envenenamento do motorista”.
Para lembrar em 22/4/2014 apresentamos, Pedro Dallari e eu, no CCBB (Brasília), laudo da perícia que fizemos na Comissão Nacional da Verdade. Com 139 páginas. Firmado por 5 renomados peritos (os melhores, segundo a PF), que trabalharam nele desde 2012. Examinando 23 outras perícias e afins, já antes realizadas. Mais 298 negativos de fotos referentes a imagens do caso. E realizando novos exames.
Acompanhei pessoalmente os trabalhos, no caso, por uma razão de foro íntimo. A de ser padrinho em nosso casamento. E por muito gostar dele. Tanto que sempre nos encontrávamos, quando íamos ao Rio.
Fato curioso é que, quando estávamos nos preparando para essa apresentação ao público, alguns jornalistas da FolhaSP informaram que a Comissão da Verdade de São Paulo acabava de apresentar laudo próprio, indicando que JK teria sido assassinado. As mesmas pessoas de agora. E os mesmos argumentos. Considerando que estávamos divulgando nosso laudo naquele momento, e se quisessem mesmo apurar a verdade, o mínimo que se deveria esperar é que PRIMEIRO estudassem nosso laudo; para DEPOIS, e já considerando tudo que dissemos, apresentar o deles. Aceitando ou rejeitando aquele nosso. Mas preferiram divulgar alguns minutos antes…
Agora vem a notícia, em toda Grande Mídia, de um “parecer” da historiadora Maria Cecília Adão, relatora, daquela mesma comissão. Para esta senhora, teria sido um atentado político: “o veículo perdeu o controle em razão de uma ação externa, como sabotagem mecânica, disparo de arma de fogo ou até envenenamento do motorista”. A mesma tese de antes. Requentada.
Suspeitas são até naturais, no imaginário coletivo. Posto que morreram em pouco espaço de tempo, menos de um ano, as três maiores lideranças civis da oposição à ditadura, no Brasil: JK, 22/08/1976, no Rio; João Goulart, 06/09/1976, em Mercedes (Argentina); e pouco depois Carlos Lacerda, 21/05/1977, no Rio.
Com relação a Lacerda, sua família sempre acreditou que a morte se deu por conta de um câncer que o roeu, sem piedade, por quase três anos. Numa cama de hospital. Tanto que nem autorizou qualquer investigação. Para esses familiares, ninguém perderia tempo na eliminação de um já quase cadáver.
Jango morreu com enfarte, algo até esperado em obeso com largo histórico de problemas cardíacos. E nenhum depoimento que coletamos, na Comissão Nacional da Verdade, teve mínimos de seriedade capazes de nos levar a considerar respeitável essa hipótese. Falta ver o caso JK (o que faremos na próxima coluna).
Em 1992, na eleição contra o então presidente dos Estados Unidos George H.W. Busch, o estrategista–chefe da campanha de Bill Clinton, James Carvílle, disse frase que acabou famosa “It’s the economy, stupid” (É a economia, estúpido).
Queria referir, para aquela eleição, ser mais relevante a situação da economia do país; que, depois da guerra do Golfo, sofria recessão severa. Daí o vício de alargar seu sentido para dizer que tudo no mundo se resume à economia, foi um pulo.
Nesse artigo, pretendo afirmar algo diferente. Que os países se explicam por uma espécie de caldo de cultura que corre dentro deles. No sangue. No coração. Por dentro da alma. Na linha da definição de Ortega y Gasset (Rebelião das massas), para quem essa cultura seria um “o sistema de ideias vivas que cada época possui”.
Mais amplamente dizia Pessoa (texto sem título e publicado, em 1926, na Revista de Comércio e Contabilidade), ser “uma interpretação artística e filosófica das sociedades, quando os povos atingem seu ápice”. Isso, o “ápice” dos países. Aqui, comparo nosso amado Brasil a dois outros. Vamos juntos.
* * *
1. SUIÇA. Em 05/06/2016 realizou-se referendo, por lá, para que a população definisse uma questão. É algo comum, no país. Entre os últimos referendos, por exemplo, tivemos a definição pelos eleitores dos horários em que hotéis poderiam fechar suas portas, à noite. Ou idade mínima para o serviço militar.
Agora se decidiria sobre uma “Renda Mínima”, que seria garantida a todos os suíços e também aos estrangeiros residentes no país. Trata-se de uma ideia antiga, pela primeira vez lembrada por Thomas Morus no seu livro Utopia. Depois Morus perdeu a cabeça, literalmente, mas essa é outra história.
O que se discutia, no parlamento suíço, era uma desassociação entre o trabalho e a renda, algo que para muitos será inevitável no futuro. A partir da tecnologia que, pouco a pouco, irá substituir a atividade humana, começando pelos países desenvolvidos. Nesse quadro, a Suíça seria o primeiro país a sagrar a tal “Renda Mínima”. Depois, acreditavam, outros a seguiriam.
A proposta era de 2.500 francos suíços (9 mil reais) para cada habitante do país. Crianças, 625 francos (2.300 reais). Argumento contrário é que a medida seria cara demais, exigindo aumento de impostos, desorganizando a economia e desencorajando a população de trabalhar.
Seja como for cada suíço deveria dizer, no tal referendo, se o governo lhe deveria pagar, todo santo mês, quase 10 mil reais. Resultado, 76,9% votaram NÃO à medida. Indicando que recusavam essa dádiva.
Volto ao Brasil e pergunto qual seria o percentual do SIM, por aqui. E já respondo, quase 100%.
* * *
2. JAPÃO. Finda a Segunda Guerra, era um país destroçado. O general Douglas MacArthur, Comandante Supremo das Forças Aliadas entre 1945 e 1951, liderou sua reconstrução. E fez muito. Implantou uma Reforma Agrária avançada (ela e a do México, pouco depois, foram as últimas vistas no mundo; sem contar a do Brasil, mais tarde), definiu novos direitos para as mulheres (incluindo o do voto), desfez os poderosos Zaibatsus locais (conglomerados industriais), legalizou os sindicatos. Mas faltava uma nova Constituição.
Não há registros históricos de quem a redigiu. Conta-se que foi um amigo de MacArthur, professor de Harvard. Quando estudei nessa universidade tentei saber qual seria seu nome, sem sucesso. Não há registros históricos por lá do feito, pois.
Certo é que, em 03/11/1946, acabou aprovada pelo parlamento japonês a tal Constituição trazida, dos Estados Unidos, por MacArhur. Substituindo a antiga Constituição Meigi, de 1889. Entrou em vigor logo depois, em 03/05/1947. Entre seus artigos estranhos o 9º, pelo qual o país renuncia à guerra. Tanto que não pode, até hoje, ter forças armadas, único país do planeta em que isso ocorre.
E esse Japão, um país arruinado pela guerra, é agora uma das 5 maiores potencias do mundo. Mas o que aconteceu à sua Constituição?, eis a questão. Nada, é a resposta. Não foi tocada, nesses 80 anos contados desde sua promulgação.
Nem um artigo solitário. Trata-se da única Constituição, do mundo, que não teve uma só alteração a partir da Segunda Guerra.
Penso no Brasil. E logo imagino líderes populistas, de parte a parte (da direita ou da esquerda), em discursos nacionalistas e inflamados, que já teriam exigido uma nova Constituição. Em defesa da soberania, diriam. E da Democracia. Só que o Japão não precisou disso, para se desenvolver.
* * *
Nos dois casos, subsiste uma razão simples e fundamental. O de haver, dentro desses dois países, o tal caldo de cultura que vai além das regras formais. Um sentimento coletivo do que é, e não é, importante para o país. Do que realmente precisa ser feito. E do que não deve ter mudado. Suíça e Japão sabem. O Brasil, algum dia, saberá?
Lisboa. Hoje, notícias sobre Portugal que fazem lembrar (um pouco, ou muito) nosso Brasil.
BURCA. O Parlamento português acaba de aprovar lei que “proíbe o uso de burca e outras vestimentas que ocultem os rostos em espaços públicos”. O que vale, inclusive, para funcionários públicos. Em defesa da “dignidade da mulher”. Na linha de outros países europeus como Áustria, Bélgica, Dinamarca, França e Holanda. Multas, para quem descumprir, podem chegar a 25 mil reais.
EUTANASIA. A espanhola Noelia Castilho, 25 anos, depois de longa batalha judicial, conseguiu autorização para fazer. A Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha confirmou que atendia a todos os requisitos da lei, por ter “uma doença crônica e irreversível” e “sofrimento crônico e debilitante”. O Supremo Tribunal de Madrid confirmou seu pedido. E o Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) de Estrasburgo não se pronunciou, quanto ao mérito da questão. Desde quando aprovada essa lei, ao final de 2024, já 1.123 pessoas sofreram eutanásia na Espanha. Noélia morreu no hospital catalão de Sant Pere de Rieles, próximo de Barcelona. O que mais doeu foi sua derradeira frase, dita antes de partir,
– Quero morrer em paz agora, parar de sofrer. É só isso.
Descanse em paz, pobre menina.
GÊNERO. Nos últimos 7 anos, 3.290 pessoas trocaram de gênero em Portugal. Homens que deixaram de ser, e mulheres idem. Ocorre que, em 2018, mudou a lei, que passou a incluir menores com 16/17 anos. E, desde então, já 323 deles mudaram de gênero. Tão cedo? Isso está certo?
INDENIZAÇÕES. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), considerou que numerosas celas nos presídios portugueses são consideradas “desumanas”. Janelas sem vidro, água escorrendo pelas paredes, percevejos, pulgas. Os presos têm que por garrafas d’água tapando buracos, que servem como latrinas, para evitar que ratos entrem à noite. A condenação é de mil euros por cada mês de detenção em tais celas. O que já obrigou o governo a pagar 1,5 milhões de euros (10 milhões de reais) a 14 condenados. Preocupação é que o Tribunal tem ainda, por julgar, 850 queixas pendentes. Se o sistema for aplicado no Brasil…
OMBUDSMAN. O jornal Público é o primeiro, em Portugal, a ter um ombudsman, João Garcia. Por aqui se chama “Provedor”. E sua primeira coluna, este ano, foi sobre o personagem francês de band designer, Asterix. Prova de que tem bom gosto.
PRESOS. Em Portugal, podem votar. Informando-se, apenas, com TV e Rádio. Sem mídias sociais. Mas o desinteresse é grande. Apenas 2.900 se inscreveram para as eleições presidenciais de 18 de janeiro deste ano, que elegeu Seguro.
SUICÍDIO. O Publico LX trás notícia curiosa, com título
– A estranha tese de suicídio de um banqueiro português.
Trata-se de Pedro Ferraz Correia dos Reis, administrador do Banco BCI. Morto, em Maputo (capital de Moçambique), com facada nas costas “à entrada da casa de banhos do Hotel Palama”. Além de apresentar múltiplos cortes de faca nas mãos, no pescoço e numa coxa. Mais próprio de alguém que lutou, com terceiro, tentando se defender. Segundo o Serviço Nacional de Investigação Criminal local, “não há nenhuma dúvida sobre ter sido suicídio”. Foi mesmo??? Faltando explicar como conseguiu dar essa facada nas próprias costas!!!
SUPREMO DO BRASIL. Local, farmácia do Chiado, na Rua Garret. Dia, uma sexta-feira. Hora, 11:30hs. Lá estávamos para que Maria Lectícia, com receita na mão, pudesse comprar Monjaro. Soares, conhecido nosso de muitos anos, estava atendendo um cliente à nossa frente, na fila. Virou-se para o tal cliente, e disse
‒ Não estou a entender (portugueses não gostam de gerúndios).
‒ Estou a falar é do … (e deu nome de um ministro do nosso Supremo).
‒ Perdão, senhor, mas o que aconteceu?
‒ Critiquei o judiciário brasileiro (não nos disse a razão), me chamou de “filho da puta”, meti as mãos no seu peito, caiu, fui pra cima dele e seus seguranças vieram por cima de mim.
‒ Então?
‒ Confusão danada, acabamos todos na Delegacia.
‒ E como foi, por lá?
‒ Depois de algum tempo, o policial disse não haver “testemunhas idôneas” – nem do “filho da puta”, nem da agressão, e nos mandou embora.
Fim do registro, dito Manoel saiu. Fosse no Brasil, e mesmo sem testemunhas, teria sido processado pelo Supremo e condenado a 17 anos de prisão, pelo menos. Após o que recebemos o medicamento, pagamos, nos despedimos do amigo Soares e fomos na direção da Havaneza, bem perto, em busca de charutos cubanos. Verdade ou fake? essa história pelo cidadão contada, eis a questão. Só as partes poderão confirmar. Mas os diálogos na farmácia, com certeza, foram esses. Estranho só é que nada saiu na Grande Mídia brasileira.
VATICANO. Manchete, no Publico, diz “Vaticano dá puxão de orelhas nos bispos portugueses”. Porque, passados três anos do Relatório Final (nomeado Dar voz ao Silêncio) que revelou abusos sexuais de crianças por mãos de membros da Igreja Católica no país, só agora começaram a ser pagas indenizações às vítimas, fixadas por uma comissão de Fixação de Compensação (CFC). Engraçado é que o IRS (o Imposto de Renda daqui) já avisou que, antes dos pagamentos, deve ser retido o tributo, por constituir “indenização por danos patrimoniais”. O leão do fisco é o mesmo em todos os lugares.Vamos ver como acaba.
VINHOS. Nuno, empresário de Famalicão, comprou em leilão uma garrafa de Romanée‒Conti Grand Cru, de 2016, por 33 mil euros (200 mil reais). Só que a corretora, Deno-Future Limited, quebrou. Apavorado, requereu à London City Bond informações sobre se sua querida garrafa por acaso sobreviveu nos estoques da corretora. E não são poucas. Lá estão, hoje, 168 mil garrafas. Não tenho pena do tal Nuno. Aqui, para pagar essa fortuna, só grandes empresários, donos de Sindicatos que exploram velhinhos do INSS, donos de resort amigos de Vocaro ou advogadas mulheres de certos Ministros.
Lisboa. Mais conversas, hoje só com religiosos e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Volto a explicar. Estamos bem perto do fim. Os originais do livro já estão com a editora Topbooks, no Rio. Para revisar a ortografia (escrevo ainda pela velha), preparar o índice onomástico, definir capa, essas coisas de sempre. Ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço.
Dom AGNELO ROSSI, cardeal. Foi visitar Fortaleza e o Bispo local perguntou
‒ Vossa Eminência está cansada?
E ele, que jamais teve familiaridade com as concordâncias do português,
‒ Morta…
ALBERTO TRABUCCHI, presidente do Círculo dos Juristas Católicos da Itália e ministro do Tribunal de Justiça da União Europeia. Ao ver homens procurando comida, no lixo da feira de Jaboatão (Pernambuco), me perguntou
– O Brasil é um país católico?
– Claro, professor, maior país católico do mundo.
E ele, sem alterar a voz, repetiu
– O Brasil é um país católico?
– Não.
Dom BASÍLIO PENIDO, Abade (o título vem do hebraico abbá, pai) do Mosteiro de São Bento (Olinda). História contada por Irmão José. Um frequentador da igreja reclamava das famílias de pedintes que ficavam assediando os fiéis ao chegar nas missas, mostrando filhos pequenos e dizendo que teriam doenças graves
– O pior, Dom Basílio, é que eles mentem muito.
– Não é tão grave, meu filho.
– Como?
– É que mentem para comer.
Padre EDWALDO GOMES, da paróquia de Casa Forte. Numa festa da Vitória Régia por ele fundada em 1978, tão popular que hoje é Patrimônio Oral e Imaterial do Recife. Luciana, nossa filha menor, depois de ouvir uma fala sua, decidiu elogiar
– Arretado!
– Cuidado com esse palavreado, Lulu.
– Padre Edwaldo, arretado pode?
E ele, depois de pensar um pouco:
– Poder pode, minha filha. Pode até mais. Pode arretado, merda, bosta, porra e puta que o pariu. Mas só isso, viu? Que, passou daí, é pecado.
* * *
No Hospital Memorial São José, parecia estar bem disposto
– Maravilha, pastor. Parabéns.
– Por quê?, amigo, estou aqui cheio de fios…
– É que o senhor passou a vida inteira se preparando para encontrar o Pai Eterno. E agora, quando isso é iminente, deve ser o homem mais feliz do planeta.
– Vade retro, José, que não tenho pressa.
E se benzeu Pai, Filho, Espírito Santo.
Dom HÉLDER CÂMARA, arcebispo de Olinda e Recife. Algumas vezes ligava convidando para falar sobre algum tema que ainda não conhecia bem. Por querer sempre saber mais. Já em seu quartinho na Igreja das Fronteiras, e antes de entrar no assunto daquele dia,
– Pois é, meu filho, o homem troca de time de futebol mas não de opinião.
Achei graça porque se alguém havia mudado de opinião, pela vida, era o próprio Dom. Mas isso não disse, por muito gostar dele (tanto que celebrou nossas Bodas de Prata). Fosse pouco, também nunca vi ninguém trocar de time. Por isso, preferi observação mais amena
– Diga assim não, dom Hélder. Diga que o homem troca de mulher, mas não de opinião.
– O problema, meu filho, é que de mulher eu não entendo.
– O problema, meu dom, é que o senhor não entende nem de mulher, nem de futebol.
* * *
Pedinte bateu na sua porta, querendo roupas, que as dele estavam rasgadas. Dom Hélder lhe deu uma calça. Zezita, que foi sua guardiã (por toda vida), o censurou
– Mas dom Hélder, o senhor tem só duas calças.
– E o pobre, Zezita, que não tem nenhuma?
* * *
Esperando conferência que fariam no Porto Digital (Recife), os dois foram encaminhados a uma saleta. Dom Hélder disse estar cansado e pediu licença para cochilar um pouco. Acabou dormindo mesmo, e tão profundamente, que foi difícil de acordar. Silvio Meira, que não dorme fácil, pediu que dissesse como conseguia. E a explicação foi
‒ Fecho os olhos e penso no dedão do pé esquerdo. Em seguida, nos outros dedos. O mesmo no pé direito. E vou subindo. Quase nunca chego no joelho.
Se o amigo leitor quiser experimentar, fique à vontade.
JESSIER QUIRINO, poeta. Toda vez que vê avisos nos murais das igrejas, vai anotando. Segue relação que mandou de algumas dessas conversas paroquianas
‒ Para todos que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.
‒ O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, que vamos tentar derrotar o Cristo Rei!
‒ Na sexta-feira, às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.
‒ Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam seus maridos!
‒ Assunto da catequese de hoje, Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã, Em busca de Jesus.
‒ O coro dos maiores de sesse nta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.
‒ O mês de novembro finalizará com missa cantada por todos os defuntos da paróquia.
‒ O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui as refeições.
‒ Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem sejam lembrados.
JESUS DE RITINHA (mãe) DE MIÚDO (pai), doutor em Ciência Política. Igreja (hoje Basílica) Nossa Senhora da Guia de Acari (RGN). Em sermão dominical na grande seca de 82/83, o padre Deoclides de Brito Dinis levantou as mãos para o céu e gritou
‒ Deus, eu peço que o Senhor mande uma chuva que cada pingo seja uma lata d’água.
Foi quando o sacristão, João da Mata, puxou na batina dele e disse baixinho, só que perto do microfone e toda igreja ouviu,
‒ Padre, seria um dilúvio!
E o padre Deó
‒ João, eu tô dizendo que é uma lata mas bem pequenininha, de Vick Vaporub.
Aquele remédio vendido para congestão, dores musculares e tosse.
Padre JOÃO PUBBEN, da Igrejinha das Fronteiras. Prometi uma caixa de vinhos e ele escolheu um português, Periquita. Mandei, junto com esse bilhete
– Todo homem de valor Se revela pecador Quando apreciador De coisa boa e bonita. Mas me causa estupor Ver alguém como o pastor Que é quase um Monsenhor Sendo admirador Dessa tal de periquita.
Dom JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, que, em Lisboa, celebrou nossas Bodas de Ouro. Dia seguinte à sua posse, como cardeal, no Vaticano, ofereceu almoço para os amigos que lá estavam. Preparei discurso que começava assim:
– O treinador do Flamengo (à época), Jorge de Jesus, é também português. E hoje, no Brasil, Jesus é Deus. Os amigos de Tolentino são bem mais modestos. Não querem vê-lo como Jesus nem, muito menos, Deus. Para nós, basta que um dia ele seja Papa.
LILI FALÂNGOLA, empresária. Convidou uma parente, Madrinha Neiça, para festinha na sua casa. E a outra
‒ Sabe quando eu vou?, no dia de São Nunca.
Passa o tempo e Lili, num 1º de novembro, preparou churrasco pantagruélico. Chamou os amigos e, primeiro a chegar, foi a tal Madrinha
‒ Oi, e você não disse que só vinha no dia de São Nunca?
‒ Verdade, e é hoje, Dia de Todos os Santos.
Dom LUCIANO MENDES DE ALMEIDA, secretário-geral da CNBB. Ligou
– José Paulo, estou aqui (na CNBB) com uns sem-terra que querem conversar com o senhor. Os recebe?
– Claro, dom Luciano.
– Mas eles estão em camisas de mangas curtas, será que podem entrar no ministério (da Justiça) assim mesmo?
– Antes de responder, dom Luciano, me tire uma dúvida eclesiástica.
– Qual?
– Dar banana para bispo é pecado?
– É e você já pecou, meu filho.
– Como?, se não fiz nada.
– Pensamentos, palavras e obras, é a lei da Igreja. E acabei de receber uma banana, em pensamento.
– Mas lei tão antiga?, dom Luciano, ainda vale?
– Claro. E você por acaso pensa que a lei da Igreja é como a dos homens, mudando toda hora?
* * *
De nossos almoços, todas as quartas, guardo só lembranças boas. Como refrescos de laranja bem gelados. Ou o Bliss, que tomava sempre dom Ivo Lorscheiter no seu corpo de atleta. Ou a comida simples, com sabor caseiro
– Uma das coisas que não entendo na Igreja, dom Luciano, é a restrição à Gula. Como pode coisa tão boa, que é comer, ser pecado? E logo mortal?, um dos sete capitais.
Ele, com sua imensa capacidade de consensualizar, argumentou
– Você não conhece a Santa Gula?, meu filho.
– Que história é essa?
– É assim. Quando você come muito, e não quer que mais ninguém coma, é pecado. Mas quando você come, e quer que todo mundo coma tanto quanto você, é virtude. A Santa Gula.
MAURO MOTA, da ABL. Dona Santinha, sua irmã, tomava conta de outro irmão, Dom Mota, arcebispo de São Luís (Maranhão). Carola, quando escrevia cartas para Mauro começava dizendo
‒ São Luiz, cidade pagã…
Confessava-se todos os dias. Já meio surda, gritava seus pecados; e, o padre, a penitência. Para evitar constrangimentos acertaram que ela entregaria, no confessionário, papel com a relação dos pecados mortais cometidos na véspera. E o padre lhe mostraria placa onde estava sua pena ‒ sempre três Padres Nossos e três Ave Marias. Dando-se que certo dia Mauro furtou (subtraiu, talvez fosse melhor), de seu missal, os tais pecados e nos mostrou. Eram três
Lisboa. Tudo começou em um 14 de abril como o dessa terça-feira, só que no ano de 1969. Foi quando os militares pediram, gentilmente (nem tanto), que não estudasse mais no Brasil. E em nenhum outro lugar, se possível (mais tarde, ainda me proibiriam de ensinar). Mesmo estudando com bolsa, dada pela Universidade Católica, por ter as melhores notas de lá.
Mas era presidente do Diretório Acadêmico na Faculdade de Direito, está explicado. Mais ou menos, vá lá. Eram anos doentes, amigo leitor. Sombrios. Pedir mais Democracia, naquele tempo, não era muito salutar. Conto o que se passou, a seguir.
Cheguei triste, em casa, e o velho perguntou por quê. Disse que ele sabia qual a razão. E jamais esquecerei o que me disse, naquele momento,
‒ Não fique triste, filho; que, um dia, você ainda vai por tudo isso no seu currículo.
Ocorre que havia ganho Bolsa de Estudos para Harvard (Estados Unidos), com tudo pago. Meu problema era o passaporte, já que não conseguiria ter por conta da Folha Corrida. Foi o que lhe contei. Dr. José Paulo não falou nada. Manhã seguinte, bem cedinho, foi bater na Rua da União. Onde ficava a Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco (hoje, Secretaria de Defesa Social).
Pediu para conversar com o secretário, sem nem saber quem era. Só chegaria por volta das 8 horas, informaram, e ficou sentado à espera. Até quando apareceu, por lá, seu maior amigo de infância. Vizinho de muro na Rua Fernandes Vieira e companheiro de peladas, todas as tardes, no campinho em frente ao hoje Teatro Valdemar de Oliveira. Passaram a lembrar o passado. Até quando Môa perguntou
– Tás fazendo o quê por essas bandas?, amigo.
– Esperando o secretário.
– Então vamos para a sala dele.
– Ficou doido?, vou ficar é aqui fora.
– Deixe disso, homem.
E levou meu pai, aos empurrões, para lá. Chegando, sentou na cadeira do secretário.
– Sai daí, Môa, que você vai acabar preso.
– Acho que não, Zé, olha aqui a placa Moacir Sales – Secretário.
– O secretário é você?, Môa.
– Está falando com ele, amigo, o que lhe trouxe aqui?
Meu pai explicou. Môa chamou, no fim da sala,
– Cabo, prepare aí um Nada Consta para o filho de meu amigo.
O cabo levantou e já ia saindo quando Môa o interrompeu
– Inda que mal lhe pergunte, Vossa Excelência está indo fazer o quê?
– Buscar a Folha Corrida do rapaz.
– Ô doutor cabo, eu mandei o senhor buscar a Folha Corrida ou bater um Nada Consta?
– O doutor mandou bater um Nada Consta.
– Quem vai assinar é você?, ou eu.
– É o doutor, claro.
– Pois sente na porra dessa cadeira, prepare o porra do Nada Consta, ponha na porra de minha mesa e desapareça da minha frente.
Assinou, entregou a meu pai e ficaram conversando sobre os bons tempos. De noite, ele
– Taí, pode viajar.
A ditadura brasileira, de vez em quando, funcionava desse jeito. As boas relações, as velhas amizades, o compadrio…
* * *
Mas ainda faltava o visto do Consulado Americano. Pedi e, quando fui buscar, o funcionário explicou
‒ O Cônsul quer falar, antes, com você.
Deus do céu, estava tão perto… Dia seguinte, disse presente. Entrei na sua sala, ele ainda não havia chegado. Na mesa, vi um currículo. Era o meu, com certeza, reconheci mesmo de longe por conta das notas. Pouco depois, surgiu no recinto e foi direto
‒ Vamos escolher uma Faculdade, nos Estados Unidos. Oferecemos apartamento e um contrato de sete anos, com garantia de mais sete, a depender de você. Dividimos o salário dos sete anos iniciais por nove. Assim você começa a receber, nos dois anos que faltam para se formar.
Conhecia minha vida, incrível. A explicação que tenho, para iniciativas como essa, é de ser à época uma política do país. A de recrutar pessoas. Era mesmo natural. Quando estudei em Harvard, soube que 51% dos professores de lá não são nativos. Estrangeiros, como se daria no meu caso. E imagino que tentações assim resultariam irresistíveis, naquele tempo, para a maioria dos estudantes brasileiros em minha situação.
Fosse outro, o cenário, e com certeza iria. Lá faria amigos e me casaria, sem mais voltar ao Recife. E viveria só para estudar. Ocorre que estava noivo. E trabalhava no escritório de meu pai. Tinha uma vida já traçada, por aqui. Não fosse isso e aceitaria, com certeza. Agradeci e disse não. Com visto na mão, viajei e deu tudo certo. Ainda bem. Graças. Adeus.