JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CRONOS

Em 07/02/25 o eminente articulista do Jornal do Commercio (Recife), Igor Maciel, escreveu coluna sobre o mito grego de Sísifo ‒ que empurrava grande pedra até quase o topo de um monte para vê-la rolar, depois, ladeira abaixo. Obrigado como castigo a fazer isso, todos os dias, até a eternidade.

Na parábola de Igor, Sísifo seria nosso (então) ministro da fazenda, Fernando Haddad, com sua reiterada promessa, aos anjos, de cortar gastos em um governo perdulário que está se lixando para isso. Seguindo nessa trilha da mitologia grega, lembro também Cronos, filho mais novo de Urano (o céu) e Geia (a terra), pertencentes à primeira geração dos deuses ‒ anteriores, portanto, aos Olímpicos.

Senhor do Tempo (daí vem cronômetro), e Rei dos Titãs, podia tudo. E desposou Reia, uma irmã. Ocorre que seu pai, Urano, previu que seria destronado por um de seus filhos. Como acontecera com ele, a seu turno destronado pelo filho Cronos. Razão pela qual, para evitar perder o poder, passou Cronos a devorar todos os filhos que teve, à medida em que iam nascendo.

Até quando Reia, gravida de Zeus, desejou ter um filho que permanecesse vivo. E decidiu parir bem longe de casa, em Dicter. Depois, envolveu uma pedra em panos que Cronos engoliu pensando ser seu filho recém-nascido.

O final dessa lenda é que, adulto já, Zeus levou Cronos a beber uma droga que fez devolver, ao mundo, todos os filhos que tinha devorado antes – Héstia, Deméter, Hera, Plutão, Posseidon. E estes juntos, confirmando o vaticínio de Urano, acabaram derrotando o pai cruel.

Voltando ao Brasil, por aqui esse mito dos caudilhos soberbos existe por toda parte. Vamos a só dois exemplos, em Brasília. Primeiro é Lula da Silva. Nenhum filho ou agregado teve, tem, ou algum dia terá vez como seu herdeiro político. E ninguém jamais vai prosperar, no seu espectro. Como Átila o Huno, conhecido como O Flagelo de Deus, o chão em que pisa não nascerá mais grama.

Foi candidato três vezes, antes de ser presidente; e, em todas elas, acabou derrotado. Sem sequer admitir que algum companheiro de partido pudesse pensar em disputar seu lugar. Como ele perdeu, outro poderia ganhar. Que nada… A vez era dele e de mais ninguém. Até que veio 2002 e, enfim, teve sucesso (repetido em 2006).

Já na eleição de 2022, precisou que o Supremo o descondenasse para ser candidato. Algum dia, professores de Direito tentarão (vai ser difícil) explicar a seus alunos como se deu isso. Apesar da idade avançada, ou por pressão de sua jovem consorte, nem passa por sua cabeça ver algum outro personagem candidato em seu lugar. Ou ele ou o dilúvio.

Do outro lado, acontece a mesma coisa. Bolsonaro, preso, não pode ser candidato. Sabia, era evidente, que a oposição ao PT poderia ganhar a eleição de outubro. Com um nome novo, claro, escapando dessa radicalização agônica, insensata e triste que hoje degrada e deprime a política brasileira.

Há 5 governadores bem avaliados, na oposição, que poderiam ser esse candidato (de Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e, mais óbvio de todos, São Paulo). Escolhesse qualquer um, e a chance de ganhar seria enorme. Que nada…

Prefere disputar com um filho, Flávio. Egocêntrico, e mesmo perdendo, em sua visão obliterada vai sair ganhando. Com votos, dados em seu sobrenome, como um espólio, a ser depois usado em favor dele (ainda sonha com isso) ou alguém da família.

Resumindo, amigo leitor, mitos gregos como os de Sísifo ou Cronos aqui estão para nos ensinar. E nem sempre tendo final feliz. Como o dos que sonham com uma terceira via, longe do fel de nossa vida pública atual, e vão ter que esperar para outro dia. Num futuro incerto, que poderá vir ou não.

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JANJA x DONA RUTH

Numa controversa entrevista para o portal UOL (em 13/07/2026), no programa Frente a Frente, dona Rosângela (Janja) Lula da Silva declarou que o Brasil “nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente”. O que só agora se dá, comigo, talvez estivesse pensando. Fosse pouco, sobre dona Ruth Cardoso, disse ter ela recebido tratamento diferenciado da mídia “por ter mestrado e doutorado”; por fim reclamando sofrer “preconceito de classe”, dado não ter maiores estudos.

Em respeito à sua relevante função, e para ficar dentro dos limites da boa educação, deixo de fazer maiores comentários sobre o estilo exótico de nossa atual primeira-dama, seus gostos extravagantes, os inadequados pronunciamentos fora da hora ou gastos excessivos nas opulentas viagens que faz, paremos por aí. Sem nenhuma relação com sua modesta escolaridade. E longe de qualquer preconceito, claro. Mas me sinto obrigado a contestar essa opinião que deu.

Sobre dona Ruth cumpre, antes de tudo, reconhecer que era diferenciada e não por ter doutorado, sobretudo por conta de suas ações sociais. Listo, aqui, só algumas. Como a criação da Comunitas, para desenvolver programas sociais mais eficientes. Ou a Comunidade Solidária – que reunia governo, empresariado e ONGs, sobretudo no Combate à pobreza extrema.

Desenvolveu o programa Universidade Solidária, com o qual estudantes e professores participavam juntos no desenvolvimento de comunidades específicas. E levou a educação básica para milhões de jovens em cidades carentes do país – na linha de Paulo Freire (Política e Educação), “Não há mudança sem sonho, como não há sonho sem esperanças”.

Faltando lembrar o Bolsa-Escola, um programa de renda mínima buscando garantir educação e futuro às novas gerações, que depois se converteu no Bolsa-Família. Com certeza bem melhor que o atual, assistencialista e eleitoreiro. A ironia é que quando seu marido elogia o Bolsa-Família, dona Janja, e diferentemente da senhora, está na verdade elogiando é nossa dona Ruth, que criou o programa.

Aproveito e segue um pouco de história para dizer como nos conhecemos. Em fins de 1998, telefonou assessor, ela queria falar comigo e marcamos almoço no Hotel Glória (Rio). Explicou que deveria desenvolver projeto da UNESCO para fazer uma nova legislação de regulação do Terceiro Setor (ongs e afins); espraiando em seguida, o resultado, para a América Latina. Perguntou o que achava do tema.

‒ Nada (respondi), nunca pensei nisso.

‒ “Mas se não tem ideias, doutor, qual o motivo de estamos aqui perdendo tempo?”

‒ Talvez, dona Ruth, porque saiba redigir uma lei assim. Como fazíamos no Ministério da Justiça.

– “Por favor explique”.

– Pegávamos 10 países. Estados Unidos, Canadá e Austrália por serem fisicamente grandes, como o Brasil; também os 6 mais importantes da Europa (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Portugal); e, por fim, um da Escandinávia, qualquer, as legislações são muito parecidas.

Continuando,

– Depois, púnhamos as 10 leis na frente. O art. 1º era igual, em todas, então copiávamos. Sem inventar nada. Art. 2º, idem. Art. 3º, era diferente. Em vez de copiar, tentávamos entender a razão dessas diferenças. Após o que redigíamos artigo novo, com base em nossas características. E assim por diante, até o último artigo. No fim, o projeto básico da lei estava pronto, faltando só complementos que considerássemos importantes para os fins desejados.

Aparte para dizer que, curiosamente, não pude usar o sistema ao redigir o Decreto 3.551/2000, para o governo Fernando Henrique Cardoso, que criou o Programa Nacional do Patrimônio Oral e Imaterial brasileiro. Atendendo recomendação da UNESCO, de 1985. Por não haver ainda, em nenhum país, uma normativa assim. Esses outros copiaram, depois, reproduzindo o nosso. E até recebi medalha da UNESCO, por isso. Voltando à conversa, ela

‒ “É tão fácil assim?”

‒ Creio que é.

Pensou um pouco. Então, virou-se para um assessor em mesa próxima,

– “Augusto (de Franco), por que perdi tempo ouvindo tantos especialistas?”

E concluiu,

– “O senhor coordena esse projeto para nós?”

Assim se deu, por quase dois anos, qualquer dia conto isso com mais detalhes. Contratamos consultorias pelo mundo, editamos alguns livros importantes, dei curso em Harvard; e fizemos diversas normativas, entre elas o Decreto 3.100/1999 que criou as OSCIPs.

Para encerrar, segue historinha divertida de uma das vezes quando foi passar tempos em nossa praia. Elogiou chapéu de palha usado por dona Lectícia, então lhe disse

– É seu, dona Ruth. Cuidado só que vão dizer estar, a senhora, fazendo caridade com chapéu alheio.

Pelo exposto, pois, devemos todos confirmar ter sido uma pessoa muito especial. Que sempre colocou o interesse coletivo acima dos partidários ou pessoais. Que pensava, antes de dar qualquer entrevista. E com cuidado, no falar, para não ofender ninguém. Com mil perdões à nossa atual primeira-dama, e em vez de críticas, merece é ser louvada. ‒ Viva dona Ruth!!!

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OS GATOS E O BRASIL

Começo essa conversa com uma história real que se deu na Rua Maria Ramos (Olinda). José (o interessado pediu para omitir seu nome) tentava viver noites calmas na casa que acabara de construir. Ocorre que vizinha, dona Mirian, era amante de gatos. Alimentando, regularmente, 20 deles.

Aqui, vênia para lembrar felinos que viviam na casa do mestre Edson Nery e ficavam enroscados em nossas pernas, quando íamos lá. Ou o amigo Fernando Pessoa que, inspirado em Bocage, escreveu poema (sem título, sem data) sobre eles, dizendo “Gato que brincas na rua/ Como se fosse na cama/ Invejo a sorte que é tua/ Porque nem sorte se chama”.

Recordo por fim os “Fortes gatos suaves”, como a eles se referia (em Flores do mal) um dos precursores do simbolismo, Charles Baudelaire. Curioso é que seu livro, assim que lançado, foi considerado “imoral”. Não era. Mas essa é outra história, com outros personagens, e fica para outro dia.

Certo é que, tão logo construída, passaram os gatos de dona Mirian a fazer Assembleia Geral no telhado da casa – uma placa de concreto, como o dessas casas modernosas – do referido José. E tão grande era o barulho da gatalhada que não dava para ninguém dormir.

Dona Miriam parada, não era problema dela. Assim pensava. E assim dizia, quando reclamavam. Foi quando os pedreiros Chico Muafa (de Passira) e Cleber (de Currais Novos) decidiram ajudar seu amigo e chegaram com a solução.

Em tigelas de plástico, puseram Sardinhas Coqueiro, molho de tomate e cuscuz, tudo misturado com cimento. Enquanto, nas outras, água. Espalharam no telhado, antes de chegarem os gatos. Resultado, no dia seguinte, morreram 19 deles (escapou só um que, adoentado, ficou preso em casa pela dona). Como se tivessem uma parede de concreto armado nas suas barrigas duras, coitados. Bem duras. E daí?, amigo leitor. Daí que crimes, se ocorridos, já prescreveram. José vendeu a casa e não mora mais por lá. Enquanto dona Miriam, ignora-se o que aconteceu com ela.

O episódio lembra nosso Brasil. Onde os escândalos se sucedem e fica tudo por isso mesmo. Como o Petrolão, que pôs muita gente ilustre na cadeia – tesoureiros de partidos, políticos (muito) influentes, ricos empresários. Até que o Supremo anulou tudo, com base em tecnicabilidades (muito) discutíveis. Difícil de entender esse tipo de proceder, uma espécie de prêmio para a corrupção. Devolvidos todos às ruas, proclamam agora terem sido “inocentados”. Só mesmo rindo…

Depois os aposentados, coitados, miseravelmente assaltados. Até um funcionário de nossa casa, Bigode; que sem sucesso reclamou dessa expropriação, por 9 meses, no INSS. Nem CPI o Sistema permitiu. Nenhum dirigente de Sindicato está sendo investigado. Nem parentes de políticos ilustres. A conta? Pagamos nós, com nossos impostos.

Depois o Master. Não morreu, ainda, só por conta do bravo ministro André Mendonça. Mas tudo conspira contra ele. Os poderosos do Brasil estão em ação, para encerrar o caso. Ministros do Supremo (alguns) à frente, claro. Assim, e por confiar no passado, Vorcaro nunca fará Colaboração Premiada. Confia no passado e espera ser solto, em breve, para se juntar a sua turma boa.

Voltando a nossa historinha, para encerrar. Se culpado houve, creio ser quem deveria cuidar dos gatos. E pena, mereciam melhor destino. Eles e hoje, permitam os leitores, todos nós brasileiros.

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DAVI E GOLIAS

A história todos conhecem. Reunidos em Socó de Judá, cada qual em uma colina no vale de Elá, estavam filisteus e, com tropas menores, israelitas. A guerra estava por começar. Foi quando o campeão dos filisteus desafiou Israel para combate individual, com a vitória de um significado qual exército se tornaria servo do outro.

Esse guerreiro era Golias (em hebraico exilado), da cidade de Gate, com cerca de 3,51 metros (6 côvados e 1 palmo) de altura. Usava malha de bronze que pesava 57 quilos (5 mil ciclos), caneleiras de bronze, um grande escudo e lança cuja ponta pesava 6 quilos.

Por estarem com medo, todos os soldados, seu opositor acabou sendo Davi ‒ um jovem pastor ruivo e mirrado, irmão mais novo de Eliabe, Abinadade e Samá. Recusou a armadura que tentava o rei Saul lhe por, dado que com ela quase não podia se mover. Indo, ao combate, armado só com seu cajado e uma funda, a mais primitiva das armas de arremesso da humanidade, que usava no pastoreio contra leões e ursos que ameaçavam suas ovelhas; além de 5 pedras lisas que apanhou num rio próximo e guardou no alforge.

Ao se aproximarem, Davi usou sua atiradora e atingiu Golias de tal modo que a pedra ficou encravada em sua testa. Caindo, esse gigante, com a face na terra. Mas ainda vivo. Por pouco tempo. Que Davi usou então a espada, que tinha na cinta o gigante, cortando sua cabeça. E, com ela, entrou triunfante em Jerusalém. Mais tarde governou Israel por 40 anos, sendo sucedido por seu filho Salomão, mas essa é outra história.

Uso essa quase parábola ao refletir sobre a Copa do Mundo. Porque vimos jogos que lembravam o que aqui se contou. Com seleções que, por dinheiro e tradição, eram gigantes como Golias. Enquanto outros países, pequenos Davis, ali estavam apenas pela honra de defender suas bandeiras, o que os tornou muito especiais.

Para uma ideia das distâncias, o prêmio que Cabo Verde concedeu ao goleiro Vozinha, por sua participação na Copa, foi de apenas 10 mil dólares (dos quais 5 mil logo doados para instituições de caridade).

Só que, diferente da história bíblica, os fortes aqui vencem (quase) invariavelmente. No jogo contra a Argentina, o Egito teve anulado gol pois seu jogador teria pisado, 3 minutos antes, no pé de um argentino. A mesma jogada que já antes havia acontecido, umas 40 vezes, e nem faltas foram marcadas.

Em outro jogo, a Suíça empatava com a Inglaterra. Dominava e todos sentiam iminente o gol da vitória. Até que, em jogada no meio do campo, um jogador suíço se jogou no chão. Longe da área, sem perigo de gol, a bola já saindo pela lateral. E foi expulso. Por simulação. Dá para acreditar? O sistema é forte. Duvido que decisões como essas acontecessem no sentido contrário. Em favor dos Davis, contra os Golias.

Comparando com o Brasil, e para ficar só em um exemplo, nosso Supremo é guardião da Constituição. Deveria ser. Mas vejam o que diz o art. 37, XI: “A remuneração… da administração pública… não poderá exceder o subsídio mensal dos ministros do Supremo”. Pode haver dúvida? Quem quiser enriquecer, vá para a iniciativa privada.

Pois bem. O Supremo acaba de autorizar penduricalhos corporativos em até 35% a mais que esse limite. Mas, se era limite, como pode ser ultrapassado? E a Constituição?, senhores. Que se lixe!, parecem sugerir, com suas decisões monocráticas, nossos bravos ministros. Tornando atual a frase de Valery (Caderno B), “O poder sem abuso não tem charme”. A turma de Golias por aqui se considera virtuosa, invulnerável, eterna e onipotente. Deus, que protegeu Davi, tenha pena dos brasileiros.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (53)

Tristeza, esta semana. Perdemos Wal, amigo queridíssimo, em quem votei nos últimos 30 anos (pelo menos). E a Copa. Shakespeare dizia (Cimbelino) que “algumas dores são passíveis de cura”. Wal, com saudades. A Copa, daqui só há 4 anos, se Deus quiser. Para alegrar o ambiente, nesse entretempo, seguem conversas.

ANÚNCIO DE JORNAL. Na grande cheia do Recife, em 1975, algumas vias (ou trechos delas) ficaram cobertas por dois metros de água ou mais. Como a Avenida Caxangá. Depois o proprietário de casa lá situada fixou cartaz, no portão, que ganhou a primeira página dos jornais locais:

– Vende-se essa merda.

* * *

Por falar em anúncios me mandaram esse, que seria de um jornal impresso:

‒ VENDO IMÓVEL.

Em ótima localização
Te vi passando. Pela primeira vez
E à primeira vista
Fiquei assim, sem reação:
Vendo, imóvel.

Só que em verdade eram, conferi depois, versos de Bruno Félix (na série Poemas classificados).

GORDO, boleiro no tênis. Eram gêmeos, iguais nos rostos mas diferentes nos caminhos. Daniel, crente, quase um santo. Enquanto Samuel, com extensa folha corrida na polícia, estava para ser preso a qualquer momento. Só que morreu Daniel, difícil entender os desígnios do Senhor. Pouco depois falei com seu irmão Samuel, o Gordo,

– Lamento.

– Não foi tão ruim, dr. José Paulo.

– Como?

– É que enterrei ele com meu nome. Quem morreu fui eu. E já avisei, na delegacia, para cancelar os processos de Samuel. Resumindo, agora sou Daniel.

Incrível é que tudo acabou bem. Os processos já prescreveram. Não lhe aconteceu nada. E ele acabou mudando mesmo de vida, passando a ser (um pouquinho) mais parecido com o mano Daniel.

MARIA, empregada de Margarida Cantarelli. Em Londres, fazia todas as compras. Por ser quem cozinhava, na casa, sabia do que precisaria. Ninguém acreditou pudesse conseguir, dado não falar uma palavra de inglês. Mas nunca teve qualquer problema, incrível. Há quilos de histórias, com ela. Vai só uma, da primeira feira que fez. Quando acabou, somou os preços e pagou:

‒ Está tudo aqui.

O vendedor da feira entendeu pelos sinais, contou o dinheiro e confirmou na sua língua

‒ Paid (pago).

Na volta, chegou de cara fechada. Dizendo que foi destratada. Margarida quis saber:

‒ Como é?, Maria.

‒ Pois imagine que o homem, no fim, teve a cara de pau de me mandar peidar.

PORCO, encordoador de raquetes. Trabalha na sala da casa, onde fica seu equipamento. Encontrou Maria Lectícia e confessou

– Dona Letícia, estou vivendo um inferno.

– Que aconteceu?, Porco.

– Silvana tirou 30 dias de férias.

– Para você ver a importância das mulheres, na vida dos maridos.

– A senhora não entendeu, dona Lectícia. Ela está passando férias é dentro de casa.

* * *

Apareceu com uma tatuagem na perna, da família Chaves, aquele mexicano que passa no SBT. Ao ver essa coisa ridícula, não resisti

‒ Agora tatue a frase Eu sou um idiota.

‒ Só se for em grego antigo, doutor. Escrevi num papel

‒ Pronto, pode tatuar. E fique tranquilo que ninguém vai saber o que está escrito.

‒ Mas EU vou saber, doutor.

‒ Não tem problema, Porco, porque VOCÊ é mesmo um idiota.

WHITES ONLY, Washington DC, 1969. Estava indo para encontro com o educador Paulo Freire. Dentro do ônibus, placa dizia que na primeira metade só poderiam ficar brancos; e, no fundo, negros. Em protesto, sentei atrás. Longe dos brancos (até porque, em Harvard, era o mais escuro da classe). Sou trigueiro, assim está no Certificado de Reservista. Um velho negro tocou no meu ombro

– Posso lhe dar um conselho?

– Pois não.

– Vá para a frente, que é seu lugar.

– Perdão, fiz de propósito, sou contra essa discriminação.

– Por favor, vá para a frente.

– Prefiro não ir.

Dois outros (armários, enormes) se levantaram, com cara feia, e insistiram – Volte para seu lugar. Voltei, claro, que doido não sou.

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TODOS JUNTOS, VAMOS…

Fernando Pessoa tinha um corpo anêmico, apesar da ginástica sueca de todos os dias. Uma cor sem sol e o mesmo peito chato de tuberculoso do pai, que morreu um mês depois que o filho fez 5 anos: “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto” (Aniversário).

Até escreveu um Tratado de Luta Livre, Método Yvelot, com destaque para “rasteiras” e “pontapés” que lembram nossa capoeira. E não apreciava esporte nenhum. Mas gostava de ver… futebol. Mistérios. Pois é…

Dois alemãs esquisitos até passaram anos pesquisando as razões que levam gente como nosso poeta a gostar do jogo. E chegaram a conclusões curiosas. “Porque cria situações irrepetíveis, e portanto fatais”. “Porque, durante 90 minutos, o indivíduo deixa de ser apenas um, passando a ser parte de algo maior ‒ a massa”.

“Porque é tão simples que põe qualquer um na condição de perito” – sendo o único assunto em que um cirurgião e seu motorista são capazes de discutir, de igual para igual. “Porque é plasticamente belo”. “Porque identifica o homem e o mito”. E mito, não custa lembrar, “é o nada que é tudo”, dizia o mesmo Pessoa (em Ulisses, de Mensagem).

Passa o tempo e chegamos a 3 de junho de 1970. A Copa do Mundo começava. Jogamos 5 partidas em Guadalajara, capital do estado de Jalisco (México), antes de ir à capital do país para a final no Estádio Asteca. Era como um Silicon Valley. E berço de sua Cultura, com murais famosos de Rivera, Orozco e Siqueiros; mariachis, tequilas, sombreros; e uma dança de inspiração árabe conhecida como Jarabe Tepatio, mais conhecida como Dança do Chapéu, a dança nacional do México.

Havia, em Santiago do Chile, dois grupos de brasileiros. Os ilustres, que trabalhavam nas Nações Unidas e outras entidades internacionais; e, esses, assistiam os jogos confortavelmente nas televisões (ainda caras, naquele tempo) de suas casas; e os comuns, todos os outros, que viam a Copa do Mundo em pé, na calçada de uma loja de televisões que ficava exibindo os jogos para quem estava por ali.

Naquele tempo, minha irmã Maria Lia vivia um exílio branco no Chile. Antes do primeiro jogo da Copa, os como ela fizeram assembleia geral na rua. Decidindo os brasileiros que, para o bem da revolução popular, melhor seria que nosso Brasil não ganhasse a Copa. O jogo de estreia foi logo contra a Tchecoslováquia, um país comunista. Todos torceriam por ela. E tudo começou (muito) bem.

Festa enorme no gol de Ladislav Petras. Até que Rivelino fez um, e ouviu-se um tímido grito de goool!, no local. Que é isso?, companheiro. E logo Pelé, Jair e Jair fizeram dois, três, e quatro. Carnaval fora de época, naquele frio andino.

Então fizeram outra assembleia geral, agora de autocrítica, para corrigir esse desvio burguês. Dando-se que acabaram aprovando por a política de lado e cair na farra. A democracia brasileira esperaria um pouquinho mais. Todos juntos, vamos, pra frente… No México, no Chile, no Brasil.

Passa o tempo. Ele passa, irremediavelmente e sempre. Depois da Copa o tal Petras acabou treinador de futebol. Enquanto aqueles exilados seguiram seus caminhos. Veio Pinochet e Maria Lia foi para Paris onde, mais tarde, acabou Diretora da Comunidade Europeia ‒ responsável pela aplicação de recursos comunitários, pelo mundo inteiro, em atividades sociais.

Agora temos uma nova copa. Como todo mundo, estou vendo na CazéTV, longe das televisões tradicionais. Por ser tudo mais leve e divertido. O Japão já foi, arigatou gosaimasu e sunimasen. Domingo será a Noruega. Pra frente Brasil, Brasil…

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DOM LUCIANO

Mais fatos que se deram na transição. De uma ditadura triste para a Democracia que desabrochava.

E começo logo dizendo que padres eram atores importantes, naquele tempo. Para uma ideia, no ministério (da Justiça), pedi para mapear quantos conflitos agrários havia no país. Eram, então, cerca de 2 mil. E quantos tinham poderes no meio? Todos. Em vez do MST, era a Igreja que atuava no campo. Precisava conversar com Dom Luciano Mendes de Almeida, secretário-geral e quem comandava a CNBB, sobre isso. Conto, aqui, como nos conhecemos.

Procurei dom Lamartine, queridíssimo amigo, nos Manguinhos. Era quem articulava tudo para dom Hélder. Pedi agendasse encontro com Dom Luciano para definir ações comuns entre Igreja e o ministério que iríamos assumir. Dias depois, avisou:

– Tudo certo. Disse quem você era. Está esperando. Mas se prepare que, quando acabar de falar, ele vai pedir para autorizar a entrada, no Brasil, de 81 padres vetados pelo Governo Militar.

Grande Lamartine. Por saber o que ocorreria passei, antes, no SNI. Para conversar com o ministro Ivan de Souza Mendes e acertar como iríamos trabalhar, naquele tempo novo que começava. Perguntou:

– Você tem sugestão?

– Sim. – Qual é?

– Cumprir a lei. – Para mim, está bem.

– Só tem um problema, ministro. É que, por ela, quem define a entrada de estrangeiros, no Brasil, não é o SNI, como vem sendo até agora. Mas o ministério da Justiça.

– Assim seja. Mas você vai precisar de mim.

Figura extraordinária, o ministro Ivan, a Democracia brasileira muito lhe deve. E tinha mesmo razão. Depois, encontramos uma forma de trabalhar juntos, no controle dos estrangeiros, com a colaboração da Interpol. Mas só em relação a crimes, drogas, por aí. Sem mais ideologia, no meio. Certo é que, depois, fui encontrar dom Luciano. Quando acabei de falar, e como preveniu dom Lamartine, voltou-se para uma escrivaninha, tirou de lá papel com 81 nomes e disse:

– Doutor, então comece por trazer meus padres.

Já consequência da conversa no SNI, escrevi nele:

– Ao DPMAF (órgão responsável por essa admissão). Autorizo a entrada, no país, dos religiosos abaixo indicados.

Assinei e fiz menção de pôr no bolso. Dom Luciano deu um bote (a descrição do gesto é fiel), ágil como um gato, pegou o papel da minha mão e perguntou:

– É para valer?

– Claro.

– Perdão, mas vou trocar. Essa lista era da ditadura, depois mando outra.

Semana seguinte recebi, com só 40 nomes, que os restantes estavam já noutros países. Concedemos vistos a todos. Palavra dada, palavra cumprida. Inclusive ao padre belga Joseph Comblin, apesar de enorme oposição do Itamaraty, por razões até hoje para mim pouco claras. O mesmo que, em 2011, morreu na cidade de Simões Filho (Bahia), com 88 anos, em paz.

A partir daí, ficamos cada vez mais próximos. Inclusive com almoços, todas as quartas, comida boa e caseira. Junto Dom Ivo Lorscheiter, com seu corpo de atleta. E sempre tomando Biss. Saudades desse tempo. Saudades do amigo Dom Luciano.

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CENSURA NUNCA, MAS…

O presidente do TSE, ministro Nunes Marques, determinou sozinho a “suspensão da divulgação de pesquisa eleitoral do Instituto AtlasIntel” realizada em 19/05/26. Decisões monocráticas vem sendo a regra (não são mais tribunais, TSE e Supremo, passando a ser feudos onde cada qual manda como quer). Diferente das anteriores 27 pesquisas, essa foi precedida por um questionário. Qual a razão?, só eles poderão explicar.

Certo é que, antes das perguntas, o dito Instituto afirmava que um dos candidatos tinha “esquema” com o banqueiro Daniel Vorcaro. Perguntava se o eleitor viu vídeo de encontro, entre os dois, após o que lhe apresentava o tal vídeo com legenda nos diálogos. Para, só depois, começar a pesquisa em si. Tudo muito discutível. Estranhíssimo. Deletério. E sem efeitos práticos, na decisão, que todos os meios de comunicação já haviam noticiado a tal pesquisa.

O caso mereceu editorial do jornal O Globo, em 10/06, dizendo que “veto a pesquisa agride o direito à informação”; que a decisão “agrava uma tendência… restritiva à liberdade de informação”; e, por fim, marcando sua posição “não é assim que se protege uma democracia”.

Curioso é que não se trata do primeiro caso. Em 01/11/2024, por exemplo, o ministro Flávio Dino, também numa decisão monocrática, determinou “a retirada de circulação de 4 livros”.

Afrontando nossa Constituição que prevê (art. 5º, IX, §2º) a “livre expressão de atividade intelectual… independentemente de censura ou licença”; e, também (art. 220), “é vedada toda e qualquer censura”. A Constituição não vale nada, para o Supremo de agora. Só que o fato passou em branco, nos editoriais de O Globo.

Assim também se deu com as censuras feitas pelo ministro Alexandre de Moraes, na condução de um inquérito absolutamente ilegal (nº 4.781), secreto, dito do Fim do Mundo, que já vai para 8 anos. Desde tirar do ar o “X” à proibição de funcionamento de sites conduzidos por ativistas que não aprecia. Quantos? Google diz ser um “número estimado em mais que 120”. Creio serem bem mais que isso. Novamente, sem editoriais de O Globo.

Fakes estão por todo lado. O que é (muito) ruim, claro. Para ficar num só caso, escolho o deputado André Janones (Rede, MG), hoje operador digital da campanha do presidente Lula. Que, em conferência recente, disse “Estou me lixando se falarem que é de baixo nível”. E completou dizendo que se sente à vontade para ir “além de todos os limites”. Inclusive éticos, fica subentendido. Essa prática tem que ser enfrentada, punindo com vigor os autores, mas sem recorrer à censura.

É difícil entender como tantos que antes aplaudiam (ou silenciavam sobre) dita censura, a partir de um viés ideológico, agora critiquem a mesma censura por favorecer o outro lado. Como no brocardo romano tantas vezes reproduzido por Molière, ridendo castigat mores (rindo se castigam os costumes).

O fato me incomoda, particularmente, por uma razão íntima. O de ser, decididamente, contra qualquer tipo de censura. A de Dino. As reiteradas de Alexandre de Moraes. E, agora, essa do Nunes Marques. Simples assim.

Os Estados Unidos resolveram faz tempo essa questão com a primeira das 10 primeiras emendas à Constituição Americana (de 17.09.1787), mais conhecidas como Bill of Rights (Declaração de Direitos, de 15.12.1879), Congress shall make no law… Vedando qualquer censura. Punem, depois. Mas punem sempre, essa a diferença. E duramente. Deveríamos copiar. Abaixo a hipocrisia, senhores. E viva a liberdade!!!

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DOM HELDER E O GENERAL

Mais histórias do passado. Já começo lembrando que Dom Hélder chegou, em 12/04/1964, para ser arcebispo de Olinda e Recife. E logo criou, por aqui, o Banco da Providência, reprodução de experiência no Rio. Para ajudá-lo, convidou as assistentes sociais Ana Maria Moraes e Lilia Guaraná, só que não tinha dinheiro para contratá-las. Dom Lamartine, seu anjo da guarda, encontrou-se casualmente com Paulo Guerra

– Dr. Paulo, o Arcebispo veria com muitos bons olhos a contratação dessas duas funcionárias, pelo governo, para ficar à disposição do Banco.

Guerra (PSD) foi eleito vice de Miguel Arraes (PST), em 1962, até quando a Redentora prendeu Arraes em Fernando de Noronha. O general Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, em seu livro de memórias escreveu

‒ Arraes socialmente confinado em seu palácio, já quase impossibilitado de nos trazer perturbações… O instinto herdado de meu pai, um caçador de onças, fez-me ver nele, desde a primeira hora, um inimigo… Declarei-lhe guerra desde que o conheci. E isolei-o, afinal, na solidão de um penhasco perdido no meio do Atlântico (a ilha de Fernando de Noronha).

Guerra, governador, desejava muito atender o Dom. Por ver, ali, uma chance de alargar suas relações com as oposições. Mas sabia da dificuldade representada pelo tal Justino, à época todo-poderoso em Pernambuco. Que mandava na própria sombra.

O amigo Carlos Moreira, advogado e poeta, estava batendo ponto no Bar do Valdemar (Recife antigo, toda gente sabe onde é) quando ele entrou para espanto dos presentes. Testemunha do fato foi o jornalista Aldo Camerino Paes Barreto.

Moreira pediu um papel a Aluízio Falcão e deixou registrado:

“‒ Cidadão guarda teu bolso
Comerciante a vitrina
Cachorro esconde o osso
Garçom feche a cantina.

Mas se tens o que perder
E ainda te resta tino
Bota as pernas pra correr:
Que está chegando o Justino!”

Dia seguinte, Guerra o foi procurar.

– Dom Helder está pedindo que eu contrate 20 assistentes sociais, general. Mas essa gente eu trato no pau e não vou contratar ninguém.

– Muito bem, governador.

Conversaram a manhã toda. Já indo embora, e como quem não queria nada, virou-se para ele

– Sabe o que estou pensando?, general. Que esse comunista sem-vergonha fez o pedido só prá gente negar e ele se dizer perseguido. O que o senhor acha de contratar duas, em vez das 20? Ele não iria poder falar em perseguição, afinal contratamos essas duas. Mas é o senhor quem manda.

– Grande ideia, governador, pode contratar.

No fim da tarde, um magote de meganhas veio reclamar. E o general, nos altos de sua vaidade,

– Fui eu que mandei.

Saudades de um tempo em que política, tão diferente do jogo bruto de hoje, ainda se fazia com engenho e arte.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A VANGUARDA E O HINO

Mais (duas) histórias do passado que passou. Na transição (1985), entre a ditadura e a Democracia que vinha.

1. Teatro Casa-Grande (Rio), lotado. Ato para celebrar o fim da censura. Naquele dia, liberamos os últimos livros ainda proibidos: Aracelli meu amor, de José Louzeiro; Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, autor do premiado Ainda estou aqui; e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, hoje confrade na ABL. Além de um caminhão de músicas de duplo sentido, quase todas feitas para o público do Nordeste brasileiro. Depois de 20 anos de governos autoritários, afinal, o ministério da Justiça se limitava a indicar a faixa etária dos filmes. Sem mais censurar músicas, peças teatrais ou livros.

O público recebeu todos os discursos com palmas. Chegou a vez do ministro Lyra. Foi ele falar no presidente Sarney e se ouvir a primeira vaia. Grande. Injusta, no meu olhar. Por star conduzindo bem sua missão principal – a de operar sem traumas, numa quadra histórica complicada, a transição. Da ditadura para uma Democracia florescente. As manifestações eram ainda reflexo do tempo em que foi presidente da Arena e, depois, do PDS. Lyra começou a defender Sarney:

– Minha gente, vocês não o conhecem. Ele é do Maranhão, verdade, mas tem uma boa visão do mundo. Esteve junto aos militares, também verdade, mas agora está conosco.

E o público indócil. Fernando aumentou a voz:

– Ele foi da Banda de Música da UDN. Sei que a UDN é o atraso. Mas Sarney tem consciência do futuro e está muito à frente disso tudo. É a Vanguarda do Atraso.

O teatro veio abaixo, com aplausos ensurdecedores. A fala era um elogio. Para dizer que Sarney seria um avanço, em relação ao passado. Mas acabou recebida como crítica. E, até o fim do seu governo, virou mantra ‒ A Vanguarda do Atraso.

* * *

2. Na morte de Tancredo, Fafá de Belém cantou nas tvs o Hino Nacional sem nenhum instrumento acompanhando. Com muita emoção. E queria fazer o mesmo num disco. Ocorre que não podia, segundo a gravadora, a partir de interpretação equivocada para a Lei 5.700/71. Dei parecer autorizando. Porque a exigência de “andamento metronômico de uma semínima igual a 120, em tonalidade si bemol” (art. 24) era só para “Sessões Cívicas” (art. 25). E o disco saiu, dedicado a mim, beijos Maria de Fátima.

Fevereiro de 1986, transmissão do cargo de ministro da Justiça. Tomaria posse Paulo Brossard, para Brizola um “Rui Barbosa em compota”. Lyra gostava daquela gravação e deu ordem:

– Na hora da posse, bota o disco de Fafá.

Entrei na conversa:

– Perdão, ministro. Mas seu último ato, no ministério, não pode ser uma ilegalidade, que a transmissão do cargo é uma Sessão Cívica.

– Lá vem você, de novo, botando gosto ruim.

– Desculpe.

– Mas Sarney e Brossard vão ficar putos.

– Será ruim, para você.

Pensou um pouco e disse:

– Deixe comigo.

– Fernando…

– Confie.

Todos em seus lugares, o locutor convocou autoridades para a mesa: presidente da República, ministro que sai, ministro que entra, outros ministros, Procurador Geral da República. Só então anunciou:

– Formada a mesa, e ANTES de se iniciar esta Sessão Cívica, vamos ouvir o Hino Nacional cantado por Fafá de Belém.

Todos de pé. Ouve-se o Hino, em disco, e o povo chorando. Em seguida:

– Começa, AGORA, a Sessão Cívica da transmissão de posse. E Lyra, rindo,

– Viu como é?