JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

LEI DE SEGURANÇA NACIONAL

O Congresso Nacional se prepara para revogar a Lei da Segurança Nacional –LSN, 7.170/83 (ainda mais dura que a legislação anterior da Ditadura, Lei 6.620/78 e Decretos 898/69 e 314/67). Com base no conceito de uma Segurança Nacional que vem desde as Ordenações do Reino (livro V, título VI), é verdade, com o Crime de Lesa-Majestade. Mas que ressurge com nova roupagem, na Constituição de Getúlio (1934), agora em favor do Estado. Os jornais, hoje, dizem que o primeiro projeto propondo essa reforma teria sido apresentado, em 1991, pelo querido mestre Hélio Bicudo (tendo a ele apensados, agora, outros 22 projetos). Com o texto presente, sinto-me no dever de fazer um resgate da história.

Começo lembrando que essa ideia de uma ampla reforma legislativa nasceu com a redemocratização, em 1985, no Governo Sarney, sendo Ministro da Justiça Fernando Lyra. Para tanto criamos, no Ministério, programa pela imprensa logo batizado como Remoção do Entulho Autoritário. Com destaque, nele, para a substituição desse mostrengo da LSN. Como Secretário Geral coordenei, pessoalmente, comissão formada pelos mais destacados penalistas brasileiros da época. Inclusive estando presente em todas as reuniões que fizemos, por muitos meses, todas as quartas-feiras. No Rio, por ali residirem 3 dos membros de comissão formada por Evandro Lins e Silva e Antônio Evaristo de Moraes Filho, ambos falecidos já faz algum tempo. René Ariel Dotti, falecido em fevereiro deste ano. Mais, ainda em plena atividade, Nilo Batista.

O resultado desse trabalho foi projeto de uma Lei de Proteção do Estado Democrático publicado, em 21/01/1986, no Diário Oficial da União. Bem antes daquele projeto do amigo Bicudo, pois. Para compreensão de seu conteúdo indico haver, nele, também numerosas regras de caráter processual. E refiro que se estrutura em cinco eixos principais, a saber:

1. SOBERANIA E INTEGRIDADE TERRITORIAL DO ESTADO. Em que se trata (pela ordem como são postas, no texto) de Guerras de Conquista, Movimentos Separatistas, Traição, Espionagem, Atentado, Revelações de Segredo de Estado. São as únicas situações julgadas pela Justiça Militar; sendo, todas as outras, pela Justiça Civil.

2. NAÇÃO E NACIONALIDADE. Em que se trata de Genocídio, Terrorismo, Organizações Para-Militares, Sabotagem, Apoderamento de Aeronave, Desaparecimento de Pessoas, Tortura, Ultraje ao Sentimento Nacional, Proteção à Bandeira e Símbolos Nacionais.

3. EXERCÍCIO DO PODER LEGÍTIMO. Em que se trata de Insurreição, Golpe de Estado, Conspiração, Atentados contra Chefe de Poder, Coação a Autoridade.

4. EXERCÍCIO DAS LIBERDADES POLÍTICAS E VOTO. Em que se trata de Atentados a Partidos Políticos, Impedimento de Eleição, Fraude Eleitoral, Coação Eleitoral, Abuso do Poder Econômico, Constrangimento contra Autoridade Eleitoral.

5. EXERCÍCIO DA CIDADANIA E JUSTIÇA. Em que se trata de Perseguição a Minorias e Obstáculos à Justiça.

Para uma compreensão mais ampla dessa visão inovadora, basta ver o início de sua Exposição de Motivos: “O texto proposto realiza uma inversão na concepção, prevalente nas leis anteriores, de defesa do Estado. Que não se confunde com a defesa do aparelho de Estado contra os movimentos sociais, e se exprime na defesa dos elementos históricos e jurídicos que caracterizam o Estado: a nação, a integridade territorial e a soberania. Operada essa inversão, uma Lei de Defesa do Estado Democrático deve ser sobretudo apta para conviver com as mudanças institucionais que derivem do pluralismo político-partidário e da alternância do poder. Um poder legitimamente constituído que se defende porque tem como única fonte, no Estado de Direito Democrático, a vontade do povo”.

Pela qualidade do texto, e em honra aos que trabalharam nele, sugiro seja imediatamente incorporado aos demais projetos, em exame no Congresso Nacional, tudo na direção de um Estado de Direito que seja verdadeiramente Democrático.

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CONVERSAS DE MEIO MINUTO (7)

Numa sexta-feira dita santa, melhor tirar férias do Brasil. Por isso continuo com histórias, leves, de livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

ANDERSON BOCÃO, Presidente da Câmara de Vereadores do Cabo. No tênis apostou que, se não ganhasse, voltaria para casa a pé. E perdeu feio.

– Foi ruim, Bocão. Depois você manda alguém pegar o carro.

– Eu? Tá doido? Vou pra casa é nele.

– Mas você deu sua palavra, quando apostou.

– E vocês ainda acreditam em palavra de político?

* * *

FERNANDO LYRA, Ministro da Justiça. Um eleitor pergunta:

– Ministro, esse seu Lyra é com I ou com Y?

– É com L, meu filho.

* * *

HUGO CARVANA, ator. Meio-dia, barzinho do Baixo Cobal. Na mesa, os de sempre – Chico Caruso, Eliane, Gravatá, José Lewgoy, Millôr, Técio. Nisso vem vindo, como se estivesse numa passarela, mulher distintíssima. Cerca de 40 anos. Pintada como se fosse para festa, colar e brincos. Naquele calor, um ser de outro planeta. Hugo não se conteve. Foi até perto dela, se ajoelhou, e disse

– Bela princesa. Se por acaso gostar de pau mole, estou em condição de lhe levar à loucura.

Me preparei para ouvir um carão. Mas o Rio é o Rio. Ela sorriu (compreendendo ser um elogio), disse apenas

– Muito obrigado,

e seguiu adiante. Sem dar bola para o pobre amigo.

* * *

JANETE COSTA e BORSOI, arquitetos. Olinda, casamento deles, depois de viverem juntos por décadas. Terminada a cerimônia, o juiz de família Clicério Bezerra fez discurso em homenagem aos recém-casados. Quando acabou,

– E agora, pelos padrinhos, vai falar o dr. José Paulo.

Surpreso com essa incumbência, que não foi combinada, me limitei a dizer o que estava pensando:

– Estamos, aqui, vendo um conto de fadas do contrário. Nas histórias dos livros, um príncipe encontra sua princesa, se casam e são felizes para sempre. Aqui, um Rei e sua Rainha se encontram, vivem felizes para sempre e, no fim, se casam.

* * *

MIGUEL ARRAES, governador. Em 1998, dr. Arraes perdeu eleição de governador para Jarbas Vasconcelos. O filho, escritor José Almino (da Casa Rui Barbosa), conta que, dia seguinte, os jornalistas o procuraram para uma entrevista. Como sempre, no portão por trás da casa na Rua do Chacon. Primeira pergunta:

– Dr. Arraes, como o senhor explica sua derrota?

– Faltaram votos.

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VIVA A DEMOCRACIA

A “Operação Castelo de Areia” antecipou a “Lava Jato”. Nela, ficou provado que a Camargo Correia fraudou grandes obras públicas (2009). E que transferiu grana, pelo doleiro Kurt Paul Picker, para partidos e políticos – entre eles Kassab, Palocci, Sérgio Cabral, Skaf, Valdemar Costa Neto. O ministro Cesar Asfor Rocha (STJ) foi mentor nas articulações para seu desmonte. Não gostou de ser citado em artigo que escrevi. E pagou empresa de São Joaquim da Barra, interior de São Paulo, para redigir artigo firmado por cidadão que alega ter 137 seguidores. E se assina como “jornalista que lê os processos que comenta”. Deve ser piada. Com o texto em mãos, o ministro pediu a grandes empresários de sua terra (Ceará) que requeressem resposta (Viva a Demagogia, Jornal do Commercio desta segunda). Nada contra. Democracia é confronto de ideias. Embora seja injusto opor quem recebe grana, para dizer o que lhe mandam, com os que (certos ou não) acreditam no que escrevem.

Questão central no caso é saber se investigações, como as da Camargo Correia, podem ser feitas a partir de denúncias anônimas. A jurisprudência de todos os 33 casos do STJ, até então julgados, assentava que sim. Na linha do que se dá, nos Estados Unidos, com a Foreign Corrupt Practices. Mas a Relatora, na turma, decidiu que não. Um voto estranhíssimo. Mas “esperadíssimo” (se é que me entendem), palavras de um ministro seu colega. Já o revisor (em 56 belas páginas), ministro Og Marques, divergiu. Foi quando o ministro Asfor Rocha, em liminar, suspendeu o processo. Na colaboração premiada de Antônio Palocci, vem a notícia de que teria recebido propina, para isso. Verdade ou não, dirá o futuro. E ainda bem que, enquanto perdura essa dúvida, decisão judicial determinou que as provas não fossem destruídas. Ano e pouco depois, surgiu a chance, e foram convocados dois juízes substitutos. Por quem? Ora por quem, meus senhores. Por Asfor Rocha! Sempre ele. Um de São Paulo, outro do Ceará, sua terra. Escolhidos a dedo. E votaram com a relatora, claro, não seriam indicados fossem votar diferente. Cesar Asfor Rocha é a cara de um Brasil que não queremos.

Por fim, confio só que o amigo leitor saiba separar os verdadeiros demagogos, aqueles que embolsam grana suja ou alugam suas penas, dos que apenas sonham (apesar dos revezes) com um país mais limpo. É isso.

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A ARTE DE FAZER “O PODER”

Mestre José Nivaldo pede artigo para seu Jornal. Isso não é pedir. Manda quem pode (ele). E obedece quem tem juízo(eu). Ou pensa que tem, o que dá é uma alegria, receber notícias dele. E uma honra, merecer um pedido assim. Não dá para recusar. Aproveito então para refletir sobre pessoas que se dedicam à Arte de Escrever. Como José Nivaldo, sucesso editorial no mundo todo (já vi livros seus na Romênia). E que lançam nessa aventura sem tamanho que é fazer um jornal como esse.

Para começar, lembro que os capitéis dos templos romanos eram povoados por figuras animais que vieram das páginas do Apocalipse. Expressando-se nessas figuras receios, remorsos, virtudes, o mel e o fel que habitam o indeterminado cidadão comum. Avançamos no tempo. Até (Friedrich) Nietzsche. Que fez seu bestiário baseando, na moral, a busca de poder que eleva o Übermensch (em tradução livre, o Novo Homem).

Inspirado nesses capitéis, representava o homem com figuras animais. O camelo, com a moral pesada do eu devo. O menino, com a moral simples do eu sou. E o leão, com a moral onipotente do eu quero. Nesse zoológico de símbolos, será legítimo perguntar qual animal deveria representar a imprensa. Mais amplamente, os meios de comunicação. E, se assim for, talvez devêssemos escolher o camaleão. Por sua infinita capacidade para mudar sempre. Com a moral ambígua do eu me adapto. Sobretudo hoje, quando a Grande Mídia já desistia de fazer jornalismo.

A verdade é um mistério. E nula. Fernando Pessoa até dizia (O Marinheiro), “isso é tão estranho que deve ser verdade”. E tudo vem de longe. Nos livros, um exemplo, sempre se diz que tudo começou com (Johannes) Gutenberg (1398 – 1468). Só que não é bem assim. Os tipos móveis não foram inventados por ele. Já sendo usados, na China e na Coréia, milhares de anos antes. Feitos em porcelana, madeira e metal. O título de Pai da Imprensa, que lhe é atribuído, se deve ao fato de que teria editado o primeiro livro. A Bíblia de Gutenberg, assim se diz. Problema é que essa Bíblia de Gutenberg nunca existiu. Trata-se de uma história inventada. Como tantas outras.

Para pagar dois empréstimos de 800 florins, cada, o coitado foi obrigado a entregar, em 1455, ao banqueiro Johannes Fust, materiais e obras em preparação. Entre elas, o projeto de uma Bíblia de 42 linhas. Apenas projeto. Que acabou depois realizado, inteiramente, por Peter Schöffer. Quando veio a público a Bíblia de Shöffer e Fust, em 1456, já Gutenberg havia voltado ao anonimato em que sempre viveu. Sem que se conheça um único livro impresso por ele. Nem havendo sequer um retrato seu. Nada. Ficou apenas o anúncio, alardeado por ele nos bons tempos, de que estaria fazendo uma Bíblia. Que nunca fez, mais uma vez se diga. Apesar disso, e por força das repetições, continuamos a falar na Bíblia de Gutenberg. Um caso claro em que a adaptação camaleônica de uma mentira, em ver sua repetição, continuada, finda por se converter em verdade.

Escrever, adaptando bem conhecida sentença de Guimarães Rosa, é muito perigoso. Se partirmos da ideia de que o fundamento de todas as liberdades é a da consciência, vamos ter que reconhecer duas exigências básicas. Uma, antes, é não ter censura. Nenhuma consciência livre se forma sob o peso da censura. E outra, depois, o poder dizer tudo que se quiser. Fora isso, de que valeria ter uma consciência livre? Só que não é assim. Ao menos por enquanto. Tanto que projeto de um Libel Reform Act, elaborado pelo Annemberg Institute (de NY), quase chegou a ser aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos. E, nele, “opiniões, charges e fotos opinativas” poderiam ser livremente editados. Sem risco de processo. Um dia será assim, no mundo todo, podem acreditar.

Voltando a nossa conversa, e para muito além dos símbolos, dando à arte de escrever alguma dignidade, ela deve se fazer a partir de alguns compromissos básicos – com sua consciência, com sua circunstância e com seu tempo. Ao menos deveria ser assim. É o que fazem os que se comprometeram na grande aventura que é fazer o Poder. E viva o Poder. O jornal Poder, é claro.

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CLEPTOCRACIA

É evidente que a Lava Jato não estava nos planos dos poderosos. Era um plano perfeito. Mas não combinaram com os russos. E ficou tumultuado. A Lava Jato revelou o que? Pelas contas do novo orçamento da Petrobrás, 6,8 bilhões destinaram-se a propina. É fácil disputar a eleição com isso. A campanha da presidente Dilma custou 350 milhões. Eles têm dinheiro para disputar as eleições até 2038. E deixariam uns caraminguados para os demais partidos, era uma forma fácil de se eternizar no poder.

Na verdade, o que se instalou no país nesses últimos anos, e está sendo revelado na Lava Jato, é um modelo de governança corrupta. Algo que merece o nome, claro, de Cleptocracia. Vejam o que fizeram com a Petrobrás. Vejam o valor da Petrobrás, hoje. Por isso que defendem com tanta força as estatais. Não é por conta de dizer que as estatais pertencem ao povo brasileiro, porque pertencem a eles. Eles que tinham se tornado donos da Petrobrás. Esse era o modo de governança. Infelizmente para eles, e felizmente para o Brasil, deu errado. Isso revelou que nós estivemos, nesse caso, em uma governança corrupta. Um método de governança Cleptocrata.

P.S. Antes que o amigo leitor forme algum juízo sobre este pobre autor, informo que o texto não é meu. Mas do Ministro do Supremo Gilmar Mendes. E a transcrição é fiel – ao contrário daquelas da IntercePT, fraudadas, como provou perícia no Caso Mari Ferrer. O mesmo Gilmar, que tanto elogiava a Lava Jato, agora é seu maior carrasco. O que faz lembrar Machado de Assis (Soneto De Natal), “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. Mudou ele. Já longe de quem foi, agora é seu contrário. Reproduzindo O Médico e o Monstro, de R.L. Stevenson; quando convivem, num só corpo, Dr. Jekyll e seu alter ego demoníaco, Mr. Hyde. Há palavras que, uma vez ditas, não podem ser esquecidas. Como essas. E fica muito feio, depois de tão pouco tempo, esquecer a “governança corrupta” ou a “Cleptocracia” (do grego kleptein, roubar, mais cracia, governo), para premiar seus responsáveis – que tem, ele sabe, as mãos sujas. É (quase) impossível acreditar. Terá razões respeitáveis para mudar de posição? Só a história dirá, um dia. Enquanto isso, prefiro ficar com o amigo Fernando Pessoa; que, numa carta a sua mãe (dona Maria Madalena Pinheiro), parece resumir esse episódio ao dizer que “Mudar é sempre mau, é sempre mudar para pior”.

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VIVA A IMPUNIDADE?

No começo da humanidade, a deusa Iustitia reinava. Nessa Idade do Ouro, deuses e mortais andavam juntos em banquetes e festas. Homens não conheciam a velhice. Quando chegava o tempo de morrer, simplesmente adormeciam. Em paz. Mais importante é que “nada tinham a esconder e o roubo não existia”, lembra Pierre Grimal (Dicionário da Mitologia). Já não é assim. Ao menos por aqui, hoje.

A história se repete, e nem sempre como farsa, razão tinha mesmo Maquiavel (O Príncipe) no seu debate com Marx (18 Brumário). Em 2009, na Operação Castelo de Areia, 4 diretores da Camargo Correia foram presos. E muitos poderosos corriam risco de lhes fazer companhia. Até que entrou em ação Marcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça de Lula. E o ministro do STJ Cesar Asfor Rocha encerrou o processo usando um argumento pífio, de serem anônimas as fontes da denúncia. Sem se incomodar com o fato de que as investigações confirmaram haver mesmo corrupção, grande, no governo de então. Palocci depois confessou que o PT premiou Asfor com grana, muita, isso ainda veremos algum dia. Ou não, tudo é mistério.

Há só duas consequências importantes, nesse HC 193.726 de agora. O mais são detalhes. 1. Prescrição. Lula não voltará à prisão. Todos sabem disso. Que, com mais de 70 anos, prazos se contam pela metade. Está livre. Pode comemorar. 2. Ficha limpa. Lula poderá ser candidato; o que, para a democracia, é sempre algo bom. Como ensina Grândola, Vila Morena, de José Afonso, “o povo é quem mais ordena”.

Na essência, uma Corte de Justiça respeitável teria que decidir o que é importante para o Brasil. E deveria ser o combate à corrupção. Mais que tudo. A decisão de Facchin baseia-se numa tecnicalidade discutível. A grana do triplex era da OAS, que tinha vários focos de atuação. Pode-se sustentar que veio da Petrobrás, e a Vara certa seria a de Curitiba. Ou não haver certeza disso, e iria para Brasília (domicílio de Lula). Sabendo que o preço de uma decisão assim corresponderia à desmontagem de todo o trabalho de combate à corrupção no país, e jamais a decisão da Corte poderia ter sido a que foi. É desalentador.

Voltando à lenda romana, sabemos que a deusa Iustitia, por conta de crimes que passaram a ocorrer, foi obrigada a abandonar a terra. E se refugiou no céu, onde acabou sendo uma constelação – a de Virgem. O céu. Bom lugar para se estar, agora.

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CONVERSAS DE MEIO MINUTO (6)

Continuo com histórias de livro que estou escrevendo (título da coluna). Como os amigos leitores parecem ter apreciado as da terrinha, seguem outras.

* * *

DUDA GUENNES, filósofo. No elevador, só uma velha horrorosa. E Duda com cigarro na mão. Apagado. Ela, mostrando placa de Proibido Fumar, protestou:

– Não está vendo que é proibido fumar?

– O cigarro está apagado, minha senhora.

– Para mim, é a mesma coisa.

– Quer dizer que se estiver com um rolo de papel higiênico, na mão, eu estaria a cagar? E, se estivesse com um durex (no Brasil seria camisinha), nós estaríamos a fazer amor?

* * *

FLÁVIO BIERRENBACH, Ministro do STM. No restaurante A Severa, estavam ele e o Ministro José Carlos Dias com suas mulheres. Vendo chouriços com batatas ao murro, na mesa vizinha, pediram ao garçom:

– Queremos aquele prato.

– Lamento, mas não poderá ser, pois aquele já está servido a outros clientes.

* * *

JESSIER QUIRINO, poeta. Anotou propaganda de uma ótica, em Lisboa, com dois homens conversando:

– Vai fazer o que?, amanhã de manhã.

– Vou comprar óculos.

– E de tarde.

– Vou ver.

* * *

JOÃO RAMADA, com antiquário no Alvalade. Em sua terra, Trás-os-Montes, o padre da freguesia começou assim um sermão:

– Caros fiéis. Juro, pela felicidade dos meus filhos, que nunca pequei nessa vida.

* * *

Padre REIS. Na igreja de São Mamede (onde casou, em segunda núpcias, a mãe de Fernando Pessoa), bem pertinho de nosso apartamento, um cartaz dizia: “Até sempre, Sr. Padre Reis. Bem-vindo, Sr. Padre Ismael”. Perguntei a um velho, sentado na entrada,

– Que aconteceu ao Padre Reis?

– Foi-se.

– Morreu?

– Não, senhor, ainda não morri não.

* * *

RENATINHO MAIA, empresário. Hospedado no Lapa Palace (Lisboa), acordou com uma dor de cabeça monumental. Desceu e perguntou, ao porteiro,

– Há farmácias?, aqui perto.

– Sim, senhor, logo após virar a esquina.

Agradeceu, foi e estava fechada. Voltou irritado e interpelou o homem. Para ouvir,

– Mas o senhor queria saber só se havia alguma farmácia. Não perguntou se estava aberta.

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AS GRAVAÇÕES

A Segunda Turma do Supremo, por maioria de 3 votos (Gilmar, Lewandowski, Nunes Marques) a 2 (Carmem Lúcia, Fachin), vai anular a condenação de Lula no caso Triplex. E o deixará, como na sentença de Millôr, “livre como um taxi”. Com fundamento em supostas conversas gravadas, por hackers da The IntercePT Brasil, entre o procurador Deltan Dallagnol e o juiz Sérgio Moro. Em nosso escritório, tivemos acesso ao Caso Mari Ferrer, em que perícia judicial demonstrou terem sido fraudadas transcrições feitas pela mesma IntercePT. Não tenho como saber se alguma perícia ocorreu, agora. E é sempre possível que mais uma fraude tenha novamente acontecido. O uso do cachimbo faz a boca torta. Sendo bom lembrar que o voto decisivo, nesse julgamento, vai ser do ministro indicado, recentemente, pelo Presidente da República. O mesmo que, quando candidato, tinha um discurso de moralização do país. E que jamais poderia ter levado, ao Supremo, alguém que é contra Prisão em Segunda Instância e contra a própria Lava-jato. Seus eleitores foram traídos, senhor Presidente. Não esqueça disso, por favor, quando se sentir tentado a repetir a promessa em alguma eleição próxima.

Gravações valem como prova, para acusar, quando autorizadas pela Justiça. Assim diz a Lei 9.296/1996. E clandestinas (assim está no texto), como as da IntercePT, só para defesa. Ocorre que desde 1996, com voto condutor do Ministro Carlos Velloso (AP nº 307), o Supremo já definiu que gravação clandestina “é a realizada por um dos interlocutores, sem conhecimento do outro”. Nada sequer remotamente assemelhado a essas gravações. Não havendo, juridicamente, como beneficiar acusados (Lula, empreiteiros) a partir de gravações fora dessa regra. E, bom lembrar, o art. 10, da Lei diz assim: “Constitui crime realizar interceptações… de informática ou telefônica…”. O que ocorreu, claro, e dá cadeia. Só que o senador Renan Calheiros, em 10/2/2021, apresentou projeto para anistiar os hackers da IntercePT. Só o nome do autor do projeto já representa uma condenação, para essa gente. E é até coerente. Os iguais se atraem, imitando um imã.

É como se estivesse em curso uma articulação para anular tudo que foi feito, até aqui. E absolver uma tropa enorme de condenados por corrupção, que vão de políticos famosos a grandes empresários. Tanto que o ministro Gilmar fala, premonitoriamente, em “desdobramentos”. Reproduzindo o que aconteceu, antes (1993), no caso Odebrecht/Lei do Orçamento. Ou (2009) na Operação Castelo de Areia, encerrada por canetada do ministro Asfor Rocha. Depois denunciado, por Antônio Paloci, de ter recebido alta remuneração (não declarada no I. Renda) por esta sentença. Aqueles 3 ministros da Segunda Turma preparam, na verdade, uma tese mais ampla, de que a suspeição de Moro contamina tudo. Sem nenhum receio do que possamos pensar deles. É preciso coragem, digamos assim. Em um Carnaval fora de hora, com todos os condenados longe das grades. Sem tornozeleira. E comemorando, com uísque envelhecido e vinho caro. Que, então se verá, o crime compensa. Mais grave é que a decisão de Moro, como Juiz de Primeira Instância, foi depois confirmada, por 3 x 0, no TRF 4, de Porto Alegre. E também, por 5 x 0, pela 5ª Turma do STJ. Esses julgadores poderiam ter alterado a decisão inicial, caso a considerassem viciada. E não o fizeram. Por ser correta. Sem nenhuma indicação de que 3 Desembargadores Federais, mais 5 Ministros, sejam também suspeitos. Em resumo, para o indeterminado cidadão comum do povo, resta somente a indignação represada por ver, novamente, o triunfo da impunidade. E, longe, o sonho de um país limpo.

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CONVERSAS DE MEIO MINUTO (5)

Continuo com histórias de livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, poeta. Mandei foto de barco batizado com verso do Poema de 7 Faces. E um bilhete.

– O barco vai navegar
“Mais vasto é o meu coração”
Será livre como o mar
Generoso como o pão
Quem quiser me encontrar
Enquanto a estrela brilhar
Até o dia raiar
Nele serei capitão.

Drummond agradeceu:

– Meu verso num barco – haverá maior prêmio para um poeta? É comovidamente que digo obrigado!!!.

* * *

DIVANE CARVALHO, jornalista. Manhã de Domingo, seu aniversário, ligo bem cedo:

– Parabéns, Divane. Desejo que tenha um dia esplendoroso.

– Acho meio difícil, Zé Paulo. Que estou no Necrotério, esperando o corpo de meu marido, para enterrar ainda hoje.

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Padre EDWALDO GOMES, da paróquia de Casa Forte. Numa festa da Vitória Régia. Luciana, minha filha menor, diz:

– Arretado!, padre.

– Cuidado com esse palavreado, Lulu. E logo na frente de um pastor.

– Padre Edwaldo, arretado pode?

E ele, depois de pensar um pouco, responde:

– Poder pode, minha filha. Pode até mais. Pode arretado, merda, bosta, porra e puta-que-o-pariu. Mas só isso, viu? Que, passou daí, é pecado.

* * *

Dona MARIA LIA, minha mãe. Publicou livro (Recordar é Viver), com 92 anos. Uma repórter veio lhe entrevistar.

– Dona Maria Lia, o que é a velhice?

– A velhice, minha filha, é uma merda.

* * *

PAULO FREIRE, educador. Exilado em Washington (1969). No seu apartamento.

– O que há de novo? no Brasil.

Respondi.

– Estão ensinando OSPB nas escolas, mestre. Moral e Cívica, como por lá se diz.

– Então a coisa tá preta. Nada é mais importante, para o futuro, que a formação das crianças. E os militares, pelo visto, já perceberam isso. Tanto que estão fazendo a cabeça delas, desde pequenas. Essa ditadura vai durar muito. Pelo menos 20 anos.

Acertou até nos anos.

* * *

P.S. Feliz ano novo, amigo leitor. E agora é mar. Até depois do Carnaval, se Deus permitir.

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NATAL DE LUVAS

Natal é tempo de contar histórias. Como esta, de Meyer Michael Greenberg. Um homem simples que trabalhou na Revlon (Nova Iorque) até se aposentar, em 1990. Não era rico. Nem tinha prestígio no mundo social da cidade. Mas ficou famoso por algo que fazia, sempre, no inverno congelante da cidade. Ele distribuía luvas de lã. Ao morrer, Greenberg mereceu generoso obituário no New York Times, escrito por Lawrence Van Gelder. E acabou mais famoso que (quase) todos os milionários da Wall Street. Prova de ter razão, Matinas Suzuki (O Livro das Vidas), ao dizer que “é mais negócio ter um bom obituário no NY Times do que ir para o céu”.

Certa vez, ao dar um par de luvas, disse-lhe um velho: – “Não posso aceitar. Nunca ninguém me deu nada. O que você quer de mim?”. Greenberg queria só um aperto de mãos. E insistiu até quando, 15 minutos depois, o homem aceitou. Ainda jovem, foi figurante da Metropolitan Opera. E admirava o primeiro tenor, que brilhava, enquanto ele ficava nos fundos, segurando uma lança. Mais tarde o reconheceu, esmolando na rua. E lhe deu um par de luvas que o antigo parceiro agradeceu, comovido. Sem a menor ideia de que, no passado, estiveram juntos num palco. Ele, como estrela. Greenberg, como ninguém.

Um repórter, certa vez, acompanhou suas andanças. E perguntou se sabia quanto custava cada par. – “Sei. Custa um aperto de mão” – “O senhor é rico?”. – “Sim, claro”. – “E a quanto monta sua fortuna?” – “O senhor não está entendendo. Minha riqueza não está no dinheiro. Mas em trazer alegria para quem precisa”. Greenberg sabia que poderia entregar luvas em abrigos, que as distribuiriam. Mas escolheu fazer isso ele mesmo. E ia procurando, nas ruas, quem mais precisasse. – “Prefiro aqueles que evitam o olhar. Não é tanto a luva, mas dizer para as pessoas que elas importam”. No fim da vida, repetia sempre uma frase que seu pai vivia dizendo, – “Nunca se prive da alegria de doar”.

O amigo Fernando Pessoa um dia escreveu, no Cancioneiro (Natal), “Nasce um Deus. Outros morrem…/ Temos agora outra eternidade,/ E era sempre melhor a que passou”. Que neste Natal brasileiro, em tempos de pandemia, a lição se espalhe. E que, no coração de todos e cada um de nós, esteja presente, sempre, a disposição para doar. De ser solidário. De compreender bem dentro, no coração, o espírito desse tempo. Bom Natal, amigo leitor.