JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

ONDE ARDE AO RUBRO

É sempre bom ver os problemas, sobretudo em um país complicado como o Brasil, a partir das três dimensões do tempo – passado, presente e futuro. E já começo lembrando a frase admirável de George Orwell (em 1984), “quem controla o presente, controla o passado; e quem controla o passado, controla o futuro”.

Aproveito e lembro, também, a talvez frase mais copiada do mundo, escrita por Teixeira de Pascoaes (Cantos indecisos, publicado em 1921), “tenho, às vezes, saudades do futuro”. É o caso de muitos de nós (imagino), ao querer deixar para trás esse momento deprimente que vivemos hoje, em nossa história. Com saudades de um futuro que, todos esperamos, venha logo e seja benfazejo.

O passado, ensina o mestre Diógenes da Cunha Lima em livro memorável (Aforismos, talvez), “sabe esperar”. Será mesmo? Seja como for essa ideia de começar o texto falando no passado veio do fato de que, como no domingo passado (só que muitos anos atrás), tomaria posse, como presidente da República, Tancredo Neves. Voltemos a essa data, com um pouco de história, começando no dia anterior.

14/03/1985. Véspera da posse que seria de Tancredo, chegamos no aeroporto de Brasília e a Polícia Federal me esperava (fora da programação)

– O ministro (Fernando Lyra) pediu para ir direto ao gabinete de Dornelles.

Maria Lectícia e os pais, dona do Carmo e dr. Armando, foram para o hotel; e, eu, para a Esplanada. Gabinete de Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo, futuro ministro da Fazenda e homem forte do seu governo. Perplexidade no ar, pelas incertezas do momento.

Na sala de espera se amontoavam assessores, militares, quase todos os futuros ministros. O baiano Carlos Santana (da Saúde) ficava olhando para o alto, imóvel, como se estivesse congelado. O gaúcho Pedro Simon (da Agricultura) rodava em volta dele mesmo, como um peru, sem parar. E Fernando

– Vai assumir (a presidência da República) Ulysses (Guimarães), como presidente da Câmara dos Deputados.

– Não pode, Fernando (como a doença de Tancredo era pública, já tinha examinado as questões jurídicas). Sarney presta compromisso como Vice-Presidente, perante o Congresso. Tancredo não, que está no hospital e tem 10 dias para isso. Até mais, por haver “motivo de força maior” (Constituição da época, art. 78). O Congresso declara momentaneamente vago, seu cargo, e assume o vice. Esse o caminho.

– Mas assume Ulysses.

– Então pode escolher outro para meu lugar (o de Secretário Geral), amigo. Que nosso primeiro gesto, no Ministério, seria uma ilegalidade. E não farei parte disso.

Algum tempo depois, Dornelles chamou cinco ou seis para reunião na sala dele (já com muitos outros personagens, por lá). O resto ficou onde estava. Na saída, Fernando contou como foi. Dornelles

– Affonso Arinos disse haver um antecedente, com Rodrigo Alves; que, doente, assumiu seu vice Delfim Moreira. Brossard e Saulo Ramos defendem a mesma tese. Fosse pouco, o próprio Ulysses prefere Sarney, repetindo sempre “é isso que a Constituição manda”. E Leitão de Abreu (que coordenava a transição por João Figueiredo, último presidente militar) garante que Sarney assumirá sem contestações.

O futuro ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, pediu a palavra.

Aqui, paremos um pouco a narrativa dessa reunião para falar da natureza daquela transição, de uma ditadura sombria para a Democracia florescente com que todos sonhávamos.

Tudo foi negociado, amigo leitor. Inclusive os votos no colégio eleitoral. Em verdade se diga num estilo que, mesmo agora, continua vigendo. Essa relação com as elites políticas foi até simples. Incluindo troca de votos, no plenário, com ministérios e órgãos públicos.

Cito só um caso, como exemplo de negociação, no terraço de apartamento na Avenida Atlântica (Rio). Em que deputado pediu a SUDAM, já prometida a outro, e aceitou a SUFRAMA (Zona Franca de Manaus). Tancredo fazia isso bem. E Maluf dançou, graças.

Já com relação aos militares, as conversas foram mais complicadas. Que pediam algo não tão fácil de atender. É que o Congresso havia aprovado projeto, do presidente João Figueiredo, preparando a transição imaginada por Golbery do Couto e Silva.

De um lado com perdão a todos os condenados por crimes políticos (parte deles presos), alguns até em prisão perpétua, inclusive com o retorno dos exilados (entre os quais Leonel Brizola e Miguel Arraes). Nessa troca, seria garantida impunidade para os agentes do Estado responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos forçados. E assim se deu com a Lei 6.683, de 28/08/1979, aprovada por um Congresso que não era capaz de dizer não.

Ocorre que o atentado no RioCentro se deu só mais tarde, em 30/09/1981. Segundo me confessou o ministro do SNI, general Ivan de Souza Mendes, obra de tenentes, capitães e majores, sem autorização ou conhecimento prévio de patentes superiores. A ver isso melhor, algum dia. E muitos dos que usavam fardas poderiam ser ainda punidos. Os militares queriam uma nova anistia, incorporando todos os fatos ocorridos a partir da tal lei.

Tancredo entendeu que voltar à Democracia valia o preço pedido e assumiu esse compromisso. De alguma forma, com isso, garantindo a transição. E Sarney o cumpriu, em seu lugar, com a Emenda Constitucional 26, de 27/11/1985 (art. 4º). Votada por um Congresso livre. O mesmo que elegeu Tancredo/Sarney.

Não houve apenas uma Lei de Anistia, portanto. Foram duas, amigo leitor. Bom lembrar disso. A segunda, incorporada na própria Constituição. Cumprindo ainda lembrar que nossa transição ocorreu de maneira bem mais tranquila que a de nossos vizinhos, no continente americano.

Agora, voltemos à reunião no Gabinete de Dornelles. Estava dizendo que o General Leônidas pediu a palavra. Era comandante do 3º Exército – conhecido como “Divisão Encouraçada”, situado no Rio Grande do Sul. E contava com o apoio incondicional de parte muito expressiva das Forças Armadas. Mostrou uma Constituição cinza, edição de bolso (quem viveu em Brasília, naquele tempo, sabe qual era) e falou

– Devemos seguir o que diz esse livrinho.

Fernando Lyra

– Meu Secretário-Geral também diz que deve assumir Sarney, como vice.

Muitos outros confirmaram esse entendimento. E Leônidas, depois de dar um tapa forte na mesa,

– Então está resolvido, assume Sarney. Alguém é contra?

Silêncio na sala

– E não se fala mais nisso.

Ninguém teve disposição, ou coragem, para contradizer. A palavra das forças armadas, numa hora dessas, é forte. Mais tarde, já na casa de Sarney, a transição seria sacramentada em ata por todos assinada. Dia seguinte, assumiu Sarney sem nenhuma contestação. E morreria Tancredo, em paz, alguns dias depois (21/04/1985).

Esse o passado. Já nosso triste presente revela que o autoritarismo trocou de mãos. Escândalos se sucedem e os responsáveis se sentem inatingíveis. Como se deu, antes, com os militares. Nesse quadro incluindo o próprio Supremo, com ministros se considerando homens castos, puros, acima do bem e do mal. Não acham nada demais, por exemplo, enriquecer por conta do cargo. Talvez até considerem ter direito a isso. Que mereçam mesmo a grana hoje nas contas deles e de seus familiares.

Pior é que tudo se dá com o apoio explícito de parte das elites políticas, no Congresso. Entre elas o presidente do Senado, que simplesmente se recusa a por em votação os pedidos de impeachment de ministros do Supremo que se amontoam na sua mesa. Como se fosse parte interessada, nesse deixar para lá. Como se também tivesse responsabilidade, nos fatos. E com direito de usar o cargo para proteger, e blindar, a si mesmo e a seus parceiros.

Nossa Rachel de Queiroz chegou a dizer (Crônicas escolhidas) que “a grande chaga de nosso tempo é não se contar com o futuro”. Mas o futuro existe, senhores, podem acreditar. E devemos contar com ele. Com novos tempos que serão sem dúvida melhores e mais promissores que nossos passado e presente recentes. Evoé!!!

Faltando só dizer que o título desse texto vem de como Pessoa (Caeiro, O guardador) via o Ocidente, “Onde arde ao rubro/ Tudo que talvez seja o futuro/ Que eu sem conhecer adoro”. Viva, então, esse futuro que o Brasil merece.

P.S. Segunda-feira passada, minha mãe teria feito 100 anos. E como dói, ainda hoje, essa perda. Saudades de dona Maria Lia.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A ARTE DE MENTIR

Mário Quintana (Sapato florido) dizia que “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. E Camus (O verão), poético, “a mentira é um belo crepúsculo”. Só que nestes casos se tratam de mentiras inocentes, literárias, que não incomodam ninguém.

Ocorre que há, por dentro dessa, uma outra mais dura, cruel, sem nenhuma poesia. O padre António Vieira, para Fernando Pessoa “Imperador da língua portuguesa”, no seu Sermão da Sexagésima até disse que “A mentira hoje, no mundo, é mais poderosa que a verdade”. Longe de amadores e cínica, no Brasil de hoje requer ausência dos mais elementares sentimentos morais, um acendrado amor pelo dinheiro e total falta de vergonha na cara.

François de La Rochefoucauld até nos deixou bela frase (Reflexões ou sentenças e máximas morais) em que desdenhava do tal cinismo; ao preferir a hipocrisia que para ele, ao menos, “é uma homenagem que o vício presta à virtude”.

O ministro do Supremo Alexandre de Moraes está, hoje, no centro desse debate sobre a mentira. Em, ao menos, duas dimensões. Uma bem mais óbvia, que tem por trás grana. Sobretudo grana. Muita grana. Até agora, gerado nas sombras, um belo contrato de 129,6 milhões, pagos por um bandido hoje na prisão, beneficiando mulher e filhos. Trata-se de um bonus pater famílias, assim diriam os romanos. Sem que se saiba direito se contratados são eles ou o próprio ministro. Como esse tema está em todos os jornais, o deixemos por hora de lado.

Aqui, pretendo falar do ato de mentir propriamente dito. A partir de uma dimensão ética. E já começo lembrando que caso mais notório de implicações jurídicas, sobre essa mentira, se deu nos Estados Unidos.

Em 1972, o presidente da República Richard Nixon foi candidato, à reeleição, contra o democrata George MacGovern. Venceu, esmagadoramente, em 49 dos 51 estados americanos, perdendo apenas em Massachusetts (Nova Inglaterra) e no Distrito de Columbia – onde, aliás, fica a Casa Branca.

Ocorre que, durante essa campanha, houve fato com grande repercussão na mídia; que foi espionagem, por homens ligados à campanha de Nixon, no complexo dos edifícios de Watergate – Virginia Avenue 2.600, bairro de Foggy Bottom, em Washigton D.C. Sendo cinco pessoas presas ao tentar instalar gravadores no local e fotografar os participantes de reunião que ali se realizava.

O caso, que passou a ser conhecido como Watergate, ganhou destaque a partir de reportagens de Bob Woodward e Carl Bernstein para o jornal The Washington Post. A partir de informações repassadas por um misterioso Deep Throat (Garganta profunda); que, depois se soube, era Mark Felt, um agente do FBI, mas essa é outra história.

Nixon negou, sempre, que soubesse do que se passou por ali. Nem que tenha autorizado qualquer ação. E, de alguma forma, essa fiscalização acabava sendo natural. Pois Watergate não era sede oficial do Partido Democrata. E o governo poderia ter legitimamente interesse em comprovar o que ali faziam aqueles homens, tão tarde da noite, em salas comerciais alugadas por pessoas comuns.

Ocorre que depois se soube de algumas fitas, gravadas pelo governo, supostamente com envolvimento do presidente. Nixon se recusou a exibi-las. Até que, em 24/06/1974, a Suprema Corte o obrigou a tornar públicas tais gravações.

A Suprema Corte dos Estados Unidos é bem diferente do nosso Supremo. Até por não haver, nem lá e nem em nenhum outro tribunal do planeta, decisões monocráticas. Elas são tomadas pelo próprio tribunal. Como um conjunto. Como um tribunal. Também por sua independência, em relação às elites políticas do país. E, no caso, votaram contra o presidente da República todos os ministros (Justices, assim se chamam, para diferenciar dos Judges, que seriam os demais magistrados do país), inclusive os indicados pelo Partido Republicano. Unanimidade.

Nenhum deles se sentiu constrangido para dar apoio ao presidente da República do partido que os indicou. Outra diferença, e grande, na comparação com o Supremo daqui.

O caso, afinal, chegou à House of Representatives (a Câmara dos Deputados de lá). E o House Judiciary Committee (equivalente a nossa Comissão de Legislação e Justiça) aprovou três recomendações que poderiam levar ao impeachment de Nixon, a saber: Obstrução de Justiça, Abuso de Poder e Contempt of Congress (algo como Desrespeito ao Congresso).

Principal acusação era de que o presidente mentiu, ao dizer que de nada sabia. Mentira que restou provada pelas fitas. Seus advogados argumentaram que mentir não é crime. Nem no título 18 do Código dos Estados Unidos, conhecido como 18 U.S.C., que seria o Código Penal Federal do país; nem nos 51 Códigos Penais Estaduais. Ele não teria cometido crime, ao mentir.

Problema, para Nixon, é que o impeachment não é tratado por lá em uma lei específica (como o do Brasil, Lei 1.079/1950), mas na própria Constituição, já no artigo primeiro. E ocorre em três situações: Treason (traição), Bribery (suborno) e, no caso interessava especialmente, High Crimes and Misdemeanours – que poderia ser traduzido por um comportamento incompatível com a dignidade do cargo. O que, para todos os americanos, teria ocorrido.

Não cometeu crime, em resumo, disserem seus advogados. Mas corresponde à dignidade do cargo mentir? Foi quando teve, Nixon, a convicção de que o impeachment seria aprovado, em sequência, pelo Senado.

Então pesaram, para ele, as regras determinadas pelo Former Presidents Act – FPA, de 1958, que garantem benefícios para ex-presidentes como: pensão vitalícia; segurança, pelo Serviço Secreto, para mulher e filhos (até 16 anos); escritório mobiliado e equipe de apoio; viagens; tratamento médico, biblioteca presidenciável, funerais de estado com honras militares. Não quis correr o risco de perder tudo isso. E preferiu renunciar, em 09/08/1974. A mentira lhe custou caro, afinal. Vão-se os anéis…

Isso nos Estados Unidos, claro, em que só o ato de mentir torna indigno aquele que mente. E o desqualifica, moralmente, para exercer qualquer cargo público. Faltando agora só conferir se essa mentira, no Brasil, tem significação equivalente. Ou se seria algo até rentável, para os que mentem. Economicamente compensador. Pelo menos em relação a ministros do Supremo, que se apegam fervorosamente a seus cargos. Equivalendo, ao mentir, o calar. O não explicitar situações que deixem mal os ministros. Ou, quando for possível, impor sigilo nos seus processos.

Protegidos esses ministros por um corporativismo indecente que macula as tradições do Supremo, em que todos se consideram semi-deuses castos e puros, elegantes e benditos, desprovidos de pecados ou culpas. Serão mesmo?, eis a questão.

Para encerrar, imagino que ao olhar no espelho, todas as manhãs, o tal ministro se veja como um ser superior. Acima das contingências terrenas. Do errado e do certo. Do bem e do mal. Da lei e dos pobres mortais que somos todos nós. E talvez até pronuncie alguma frase, pensando na história, para expressar avaliação tão positiva.

O que lembra passagem com outro membro da família, este aqui de Pernambuco, não sei se seu parente, o amigo Pessoa de Moraes. Sociólogo importante, encerrou programa que tinha na TV Universitária do Recife (Supremum Organorum) olhando para as câmeras e dizendo algo que nosso ministro brasiliense (trocando o pre-nome) creio também diria,

– O Brasil precisa de Pessoa de Moraes.

Dia seguinte, mandei bilhete para ele

– Desculpe, mestre, mas discordo. O que o Brasil precisa, mesmo, é de pessoas de moral.

Nas ruas, nas escolas, em todas as casas, em todos os lugares. No Brasil popular e profundo de nossos interiores ou da periferia do país. E sobretudo em Brasília, onde está o poder real. Por sua dimensão institucional, num momento relevantíssimo para todos e cada um, especialmente para o Supremo. Isso o que desejamos, com o coração. Em vez de gatunos, gente de bem. Em vez pompa e garbo, mulheres e homens decentes. Em vez de milionários empoderados e presunçosos, pessoas de moral. Só isso.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (49) ‒ ARTISTAS

Mais conversas, hoje só com artistas e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Num fim de ano que, temos fé, será de melhores dias. E já me despedindo por algum tempo dos leitores, seguem:

BADEN POWELL, músico. Depois do jantar, na casa do primo Romildo Souza (Recife), pegou no violão. E, antes de começar a tocar, lembrou que Caymmi, nesses casos, dizia sempre

‒ Agora vou pagar minha janta.

CAETANO VELOSO, músico. Estava o amigo Zé Cláudio posto em sossego quando ligou. Queria conhecer nosso grande pintor. Marcaram encontro às três da tarde na casa do próprio (que me contou essa história), em Olinda (Pernambuco). Mas chegou tarde, já escuro, e encontrou lá somente Cícera

– Zé Cláudio está?

Aqui, parêntese para dizer quem é Cícera, personagem de romance. Soberana, em sua cozinha. Tanto que se alguém chegar, e não for logo cumprimentá-la, está perdido. Zé Cláudio pede para servir cafezinho, ela traz só um e diz

– Esse é do senhor. Seu amigo sirvo não que ele é muito mal-educado.

Está explicado, pois. Mais ou menos, vá lá. Voltando à pergunta de Caetano, Zé Cláudio está?, Cícera respondeu sem maiores preocupações

– No dentista.

– Posso esperar por ele aí dentro?

– Não.

E voltou a se preocupar com sua sopa. Uma resposta natural, para ela. Pouco antes, por exemplo, não deixou entrar Chico Buarque. Só que Chico se conformou logo, pedindo apenas o acesso à casa para uma dama que precisava fazer suas necessidades

– Ela que faça aí fora mesmo.

Nesse ponto da conversa bom dizer que a casa fica no alto de um morro, a quase 10 minutos da rua em que passam táxis. E o músico teve a infeliz ideia de não ficar com aquele no qual chegou. Já se preparando para descer o ladeirão, com risco até de ser assaltado, insistiu

– A senhora, pelo menos, diz a ele que estive aqui?

– Claro.

Desconfiado, e sem certeza de que seu recado seria mesmo transmitido por aquela mulher tão estranha, fez uma última pergunta

– A senhora desculpe, mas sabe quem sou?

– Sei, é Caetano Veloso, mas eu prefiro Tarcísio Meira.

CAPIBA, compositor. Consultório de tio João Suassuna (cirurgião plástico, irmão de Ariano), vizinho do nosso escritório de advocacia no então edifício Brasil. Secretária dele era Zezita, com quem depois Capiba casou e foi feliz para sempre. Quase toda tarde ia lá pra namorar. Numa dessas vezes

‒ Seu Zé Paulinho, entrar na conversa dos outros não é coisa boa.

E deu esse exemplo

‒ Fomos, ao aeroporto dos Guararapes, buscar aquele que vinha para ser o chefe de nosso departamento no Banco do Brasil. Avião atrasado. Sem ter o que fazer fiquei perambulando e, de repente, vejo cidadão que dizia

‒ Já tentou amicacina, canamicina, penicilina e não resolveu.

Foi quando Capiba sugeriu

‒ E por que não experimentou tomar no cu?

Resumindo, quem usou aqueles medicamentos foi a mulher (que acabara de falecer) do tal chefe, o mesmo que passou a lhe perseguir até o dia em que se aposentou. Ficou a lição.

CHICO ANYSIO, humorista. Disse que não conseguia viver sozinho, por isso casou tantas vezes. E nos contou episódio de quando se encantou por conhecida jogadora de basquete, da seleção (disse o nome). Como iria fazer show na cidade onde morava, telefonou

– Querida, aqui é Chico Anysio. Queria convidá-la para jantar. Por favor não ria, mas estou perdidamente apaixonado por você. E quem sabe, nesse encontro, algo possa nos unir.

– É um prazer, Chico. Mas já digo que não tenha esperanças porque nós dois gostamos da mesma fruta.

FLÁVIO CAVALCANTI, apresentador de televisão. Em seu programa, Um Instante Maestro!, quebrava discos e dizia o diabo do cantor. Para delírio do público. Um dos mal-amados preferidos era o gaúcho Vítor Mateus Teixeira, para seu público Teixeirinha. Que fez sucesso, nos anos 1960, com a canção Coração de luto. No mundo real, uma história trágica. Que a mãe do Teixeirinha, por sofrer de epilepsia, teve uma convulsão e desmaiou sobre fogueira que fazia para queimar alguns livros. E foi, literalmente, incinerada. Razão pela qual Flávio passou a chamar a música, e assim ficou mais conhecida no Brasil todo, como Churrasquinho de Mãe. Passa algum tempo e liga, para ele (relato de Flavinho, filho do apresentador), o próprio Teixeirinha

– Amigo Flávio, estou numa fase ruim, saí da mídia, não faço mais shows e preciso muito de sua ajuda.

– O que posso fazer por você?, amigo.

– Queria só que, no seu programa, você quebrasse mais uns disquinhos e falasse mal de mim. Seria um grande favor.

GENINHA ROSA BORGES, atriz. A Primeira-dama do teatro pernambucano me convidou para contracenar, com ela, no auditório da Cultura Francesa (era, então, diretor de lá). Num dia 21 de junho, seu aniversário (em 2022, completou 100 anos bem vividos). Tratava-se de um poema que recitaria em francês, Déjeuner du matin, de Jacques Prévert (nome daquele auditório). E o papel que me reservou era simples, sem falas. Na mesinha, tomando chá, ela falaria de suas mágoas. Quando fizesse um sinal lhe serviria chá, colocaria um chapéu, vestiria capa e iria embora (assim diziam os versos). Para que, sozinha, pudesse continuar sua encenação dramática. Não tinha como dar errado. Só que, novato no ramo, fiquei encantado com seu talento. E não prestei atenção nos gestos. Ela parou de falar, fez mil sinais e nada. Foi quando pegou a xícara, levantou até a altura dos olhos e entregou na minha mão. Surpreso disse no palco, em português mesmo,

– Desculpe, Geninha. esqueci.

Um desastre. A plateia passou rindo cinco minutos. E, eu, constrangidíssimo. Servi o tal chá, pus o tal chapéu, levantei para vestir a tal capa e desaparecer da cena. Tudo providenciado por Maria Lectícia. Era uma de chuva, Burberry, com 28 botões. Atacados, todos. Tive que ir desabotoando, um por um. O tempo correndo e Geninha, calada, esperando minha saída. O público desatou a rir, de novo, agora por conta da minha visível angústia. Foi quando entendi que deveria me justificar

– Os senhores por favor desculpem, mas a culpa é de dona Lectícia (apontei), que deveria ter-me entregado essa capa já pronta.

Foi pior. A plateia trocou risos discretos por gargalhadas. Até que, já vestido com a dita capa, me despedi da atriz com uma reverência e saí de cena, para que Geninha pudesse continuar sua trágica história. No fim do espetáculo, fui falar com ela

– Geninha, desculpe. Mas não subo de novo, num palco, até o fim da vida.

– Faz bem, Zé Paulo, faz muito bem.

E, agora, quem começou a rir foi ela.

JOSÉ CLÁUDIO, pintor. Quando fez 71 anos, respondeu pergunta do Jornal do Commercio (O que é fazer 71 anos?) com as duas primeiras frases dessa décima, sem nem perceber que tinham a métrica das cantorias de nossos interiores nordestinos. Completei os versos, no próprio papel do jornal, e mandei para ele

– “71 é desgraça
A pior coisa do mundo”
Nosso corpo vagabundo
Se arreia em qualquer praça.
Mas Zé Cláudio sua graça
Atente ao que vou dizer
Se alternativa é morrer
Ir para lugar nenhum
Pior que 71
Na verdade é nem fazer.

ROBERTO CARLOS, cantor. Dona Lectícia faria 60 anos. E era (ainda é) sua maior fã. Pensei lhe fazer uma surpresa. Na noite da festa de seu aniversário RC apareceria na sala, de surpresa; e, apenas ele mais seu violão, cantaria Parabéns pra você. Só. Pedi ao amigo Saulo Ramos, que era seu advogado, para saber qual seria o preço. Resposta do astro

‒ Nunca fiz isso na vida. E, se Deus quiser, vou morrer sem fazer.

SÍLVIO CALDAS, cantor. E autor (junto com Oreste Barbosa) de Chão de Estrelas. Em 1950, assinou contrato exclusivo com a Rádio Excelsior (São Paulo) e veio comemorar no Recife. Véspera da estreia do programa e nada, onde andaria Sílvio? Seus contratantes pediram a Esmaragdo Marroquim (diretor de redação do Jornal do Commercio) que o localizasse para que viajasse. Ele escolheu seis bares, onde acreditava poderia estar, e mandou um jornalista para cada. No Maxime (Pina) foi Rui (Amélio) Cabral, que encontrou o cantor (já cheio de batidas com cachaça) e avisou que deveria pegar um avião. Silvio lhe deu algum dinheiro e pediu que enviasse telegrama para seus patrões, esse

– Impossível retornar, safra cajus começando.

ZIRALDO, artista plástico. Estávamos com as crianças no hotel, em Buenos Aires, voltando de Las Leñas

– Lectícia, sabe de quem deu saudades?

– Não.

– Ziraldo.

– Telefone para ele.

Tudo bem prático, as usual. Liguei. Fone do escritório sem atender, liguei para o da casa

– Ziraldo está?

– Não.

– E Vilma?

– Também não.

– Quando voltam?

– Não voltam, estão fora do país.

Só para saber

– Onde?

– Buenos Aires.

Inacreditável coincidência

– Hotel, por favor.

– Hotel não, hospital.

Digo, a Lectícia,

– Vamos ver nosso amigo.

– Não dá, tenho que ficar com as crianças.

Fui sozinho. Estava se tratando de um pneumotórax, algo assim. No quarto, depois das conversas, disse que voltaria no dia seguinte e perguntei

– Precisa de alguma coisa?

– Uma garrafa de uísque.

Vilma

– E outra, para mim.

Na portaria do hospital, disseram que álcool e fumo não podiam entrar, mas amigos são para essas coisas. Consegui duas garrafas de Passport, escondi no casaco e entrei no quarto com elas. Zira pegou a dele, jogou a tampa fora e bebeu metade, no gargalo, em 15 minutos. Cowboy, como se diz. Nos despedimos. O resto deve ter bebido logo depois. Dia seguinte, antes de viajar, liguei para me despedir. Atendeu uma enfermeira, no quarto dele,

– Ziraldo, por favor.

– Teve uma piora inesperada e está na UTI.

– Tícia, vai ver que matei Ziraldo.

Felizmente escapou. Viva Zira.

* * *

PS. E 2025 se vai, amigo leitor. Um ano a mais, ou a menos, dependendo de como se veja. Aproveito a coluna para desejar que seja venturoso, e que corresponda a tudo que seja razoável esperar dele. Abraços fraternos (sem distinções, e com o coração), a todos e cada um. E paro por aqui, agora, de escrever. Algo bom. Que o leitor, imagino, já não aguentava mais. Só que, como todo bem não dura para sempre, volto depois do carnaval. Para nosso encontro semanal. Até a volta, se Deus quiser. E, espero, Ele vai querer.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O FUTURO DAS UTOPIAS

Thomas Morus escreveu em latim sua Utopia, em 1516. A inspiração veio ao ler Mundus Novus (1504), de Américo Vespúcio, um navegador experiente que sabia escrever. Talvez o primeiro best-seller do mundo, com mais de 40 edições. Tanto sucesso fez que quando quiseram dar nome ao novo continente, que surgiu para o mundo em 12/10/1492, em vez de Colômbia (que seria o natural, por conta de Cristóvão Colombo), escolheram América (pela crença de ter sido uma descoberta dele, Américo Vespúcio).

Nesse livro, relata Vespúcio que 24 homens, mulheres e crianças, presos em uma feitoria de Cabo Frio, seguiriam como degredados para uma ilha – aquela que, depois, teria nome de um italiano que quase acabou com o pau-brasil do nosso Nordeste, Fernan di Norogna ‒ hoje, Fernando de Noronha. Daí veio a ideia, do inglês, para conceber uma outra ilha, a de Utopia.

Só que Morus logo depois, em 1535, perdeu a cabeça. Literalmente. Sem nem saber que aquelas pessoas sequer chegaram a viajar; e encontraram seu destino, longe da ilha que sonhou, pelas mãos de índios Termiminós chefiados por Arariboia. Mais tarde, 500 anos depois de sua morte (em 1935), Morus foi canonizado e virou santo, mas essa é outra história.

A partir dele, muitas outras utopias foram sendo criadas. Quando o mundo era maior, concebidas como um lugar distante – Anidro, Acórea, Eldorado, Ilhas Afortunadas. Mais tarde, passou a ser apenas um outro tempo – a sociedade dos homens de bem, de Proudhon; a Nova Atlântida, na ilha de Bensalém, do filósofo Francis Bacon; a sociedade sem regras, de Bakunim; a sociedade sem classes, de Marx e Engels.

Bom lembrar, por fim, a da igreja católica. Mais competente de todas, que promete um outro lugar (o Paraíso) em um outro tempo (depois do Juízo Final). Aldo Moflley contou prá lá de duas mil delas. “Dolorosas utopias de todos os filósofos do mundo”, segundo Raul de Leôni em seu poema Crepuscular (do livro Luz mediterrânea).

No capítulo das utopias brasileiras, mais conhecida é a de Bandeira, sua Pasárgada – em que há camas e mulheres a escolher. Mas, apesar de muito apreciar o poeta do Recife, prefiro a utopia que Guilherme de Figueiredo concebeu em seu Viagem a Altemburgo. Dando-se então que, por muito gostar desse curioso conto, não resisti à tentação de reescrevê-lo. E tantas vezes o fiz que já nem sei, hoje, de quem é cada pedaço. Faz mal não, o que prestar é dele e o resto meu.

Seja como for, nesse país imaginário, tudo funciona bem. Militares por exemplo, que sempre querem chegar ao poder, em Altemburgo começam as carreiras como Marechal. A partir daí, para cada vez que tentarem ser Presidente da República, ou depois de cada ato de bravura praticado, perdem um posto, até findar suas carreiras como soldado raso. Pra aprender a ficar quietos.

Criminosos violentos e irrecuperáveis, outro exemplo, são obrigados a tomar uma “injeção de bondade”; após o que passam a viver em santidade, com vidas castas e puras de dar inveja a Madre Tereza de Calcutá. Até que, no máximo em quatro anos, acabam todos mortos. De tédio.

Nesse lugar perfeito, cumpre ver também a solução encontrada para os males da saúde. Simples e prática, como tudo em Altemburgo. Médicos, por lá, são os profissionais mais bem remunerados. Com direito a resolver tudo, na vida dos seus pacientes. Inclusive recomendando regimes cruéis e exercícios insensatos – como o das esteiras, em que se anda mais de hora pra chegar onde já se está. Por conta de lipídios e colesteróis, dizem sempre, como se fosse uma desculpa respeitável.

Voltando aos médicos, remédios apenas quando os pacientes precisem. Poucos, de preferência. E operações, apenas se forem mesmo necessárias. Problema é só quando morre um desses pacientes; posto que então, e simplesmente, eles não recebem o salário do mês. Assim se explicando porque nos velórios, algumas vezes até mais que as viúvas, médicos sempre choram desconsoladamente.

E com tantas utopias no mercado, em um fim de ano como este em que estamos, não resisto em dizer a minha. Um lugar que não é imaginário, como Pasárgada ou Altemburgo, mas real. Nosso querido Brasil. E a utopia é ver esse país majestoso se reencontrar com sua história.

Um país menos radicalizado. Mais parecido com aquele habitado por “homens cordiais”, como sonhado por Sérgio Buarque de Holanda (no seu Raízes do Brasil). Em que possamos conviver bem, mais fraternalmente, respeitando as opiniões dos que nos são próximos e não pensam como nós.

É o presente que desejo receber nesse Natal. Algo impossível? Talvez. Mas devemos seguir nessa trilha. E lembro do amigo Eduardo Galeano que vivia repetindo uma definição de Fernando Birri

‒ A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Essa é a utopia que sonho. Um caminhar que não finde nunca. Para que possamos construir e reconstruir, sempre, nosso futuro. Na linha dos Provérbios e Cantares, de Antonio Machado, poeta do rio Guadalquivir,

‒ Caminhante não há caminhos, caminhos se fazem no andar.

Bom Natal, amigos. Caminhando, sempre em frente, na direção de um Brasil parecido com o de nossas raízes. Mais decente. Sobretudo mais solidário. E mais fraterno. Abraços, então, para todos e para cada um.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

POR UMA CORTE CONSTITUCIONAL, JÁ!!!

O Supremo Tribunal Federal tem dois problemas graves, um por dentro do outro, um estrutural e outro conjuntural. A eles, em breves linhas:

PROBLEMA ESTRUTURAL. O Supremo julga casos demais, quando o que deveria era seguir a regra das Cortes Constitucionais importantes no Primeiro Mundo. Basta ver como julgaram, no ano passado: Estados Unidos, 80 casos; França, 80; Inglaterra, 82; Alemanha, 90; Canadá, para muitos o melhor sistema judiciário do mundo, ainda menos, 44. Com a Supreme Court of Canada se reunindo em janeiro, abril e outubro, para julgar apenas causas revestidas de public importance ‒ segundo Gentili (Protective Rights in a Worldwide Rights Culture).

Enquanto isso no Brasil, segundo a internet (com indicação “dados do STF”), são “aproximadamente 114 mil”. O CNJ deveria fornecer um número exato, afinal sua função é exercer algum tipo de controle sobre essa atividade, mas ninguém tenha esperança nisso. Que, no seu site, apenas se vê “cerca de 110 mil”.

A consequência nefasta desse número pantagruélico de casos é o excesso de decisões monocráticas tomadas pelo Supremo. Simplesmente porque não funcionaria, sem elas. O CNJ não sabe quantas foram. Ou não diz. Algo ruim, nos dois casos. Como se tivéssemos que escolher entre inércia (não se dar a esse trabalho) e prepotência (o considerar que isso não interessa a ninguém).

Por sorte o Ministro Barroso nos salvou ao dizer em discurso recente, numa espécie de Prestação de Contas por sua gestão na presidência da Casa, terem sido no ano passado exatos 92.805 casos.

Grave, aqui, é que decisões monocráticas existem só no Brasil. E em nenhum outro dos 193 Estados Membros da ONU. Vale explicar um ponto. É que nos Estados Unidos e na Grã-bretanha, em situações de extrema gravidade e urgência, quando não esteja reunida a corte, pode o ministro plantonista decidir. Mas essa decisão fica sem aplicação, até que seja convocado o plenário para deliberar sobre o caso. E vale, apenas, se a maioria (usualmente a totalidade) da Corte aprovar.

Ninguém decide sozinho, pois, essa é a regra de ouro para todos os tribunais do planeta (menos em nosso Supremo, talvez por se considerar melhor que os outros). Dado não fazer sentido, numa Democracia moderna, tanto poder concentrado em apenas uma pessoa. Devendo as decisões nesses outros países serem todas, sempre, coletivas. Não de um Ministro, apenas, mas do Tribunal como uma coletividade.

Sem contar que o Supremo, nos tempos atuais, deseja ir ainda mais longe. Faz pouco, por exemplo, enviou ofício a todos os tribunais recomendando que, “nos feitos representativos de controvérsia, ainda que se vislumbre questão meramente infraconstitucional, seja admitido o Recurso Extraordinário”. A fim de permitir o pronunciamento do Supremo sobre a existência, ou não, de matéria constitucional em cada caso. Eventualmente, com Repercussão Geral. O que significa mais casos. E mais decisões monocráticas.

Agora, vamos à outra questão.

PROBLEMA CONJUNTURAL. Tudo começou com Prudente de Moraes e Ruy Barbosa, ao redigir a Constituição de 1891. Preocupados com o fim caótico do Império, e o início também caótico da República, decidiram recriar o Poder Moderador, até então exercido por Pedro II – que, com seu enorme bom senso, garantiu estabilidade ao país naquela quadra histórica conturbada. Esse papel foi por eles atribuído ao Supremo. Que, além de decidir questões da Constituição, também passou a ser instância revisora do Poder Judiciário. Como se dava com Pedro II; quando, por exemplo, comutou todas as condenações com penas de morte depois do caso Mota Coqueijo.

Fosse pouco ainda se auto-outorgou o Supremo, bem além disso, o papel de Poder Legislativo. E de Poder Executivo. Todos sabemos, tantas foram as decisões, nem será preciso dar exemplos. E as últimas, senhores, são estelares.

O ministro Dias Toffoli, por exemplo, decidiu que o caso do Banco Master é dele ‒ a partir de uma filigrana, pouco séria, de que haveria contrato do banqueiro com um Deputado, no meio da papelada, o que garantiria Foro Privilegiado. Quando esse Deputado nem investigado é. Qual contrato?, ninguém sabe. O que diz?, também ninguém sabe. Nem saberá; que paira, sobre o processo, um estranhíssimo “Sigilo Absoluto” decretado pelo ministro. O mesmo que anda era jatinhos particulares do Banco Master, em conversas secretas com Augusto Arruda Botelho, advogado de Daniel Vorcaro, dono do jatinho e do Banco.

Fosse pouco, o ministro Gilmar Mendes não aceita que o povo requeira no Senado o impeachment dele e de seus colegas, como regulado na Constituição (art. 52, II) e na Lei 1.079, de 10/04/1950 (arts. 6º e 7º). E o dito art. 52, quando se use a sua mirabolante interpretação, nos leva a uma impossibilidade absoluta. Que ministros do Supremo, Advogado Geral da União e Procurador Geral da República estão, no tal artigo de nossa Constituição, indissoluvelmente juntos em casos de impeachment. Agora, segundo o ministro, só poderão ser julgados pelo Senado se um deles (o PGR) aceitar denunciar qualquer dos três. Inclusive o próprio. Não é uma interpretação séria, amigo leitor, perdão. Como ensina o Eclesiastes (1.2.), “Tudo é vaidade”.

Fosse pouco, há também outros problemas. Como o espiral de um poder absoluto que passou a habitar o mais íntimo de cada um dos Ministros, convertendo o tribunal em um conglomerado formado por 11 capitanias hereditárias independentes. Que decide o que quiser, como quiser, e sem nenhum limite. Num crescendo. Virou regra. Com todos protegidos pelo corporativismo, onde nenhum Ministro admite questionar decisões dos demais. Garantindo, assim, que suas próprias decisões também não o sejam.

Sem contar que em vez de irem ao Supremo os mais respeitados juristas do país, o que vemos hoje é uma procissão enfadonha de advogados e amigos íntimos do Presidente, integrando aquela Casa sobretudo para lhes emprestar apoio político, em evidente falta de respeito a seu passado.

Só para não esquecer, falta uma notícia de arrepiar. Que a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, informa haver contrato prevendo “pagamento de R$ 129 milhões em 3 anos ao escritório da mulher e dos filhos de Alexandre de Moraes”. E todos no Supremo acham isso natural. Ser ministro é algo bom, financeiramente, para a família (e o próprio ministro, claro). E nem apenas com ele, que muitos dos outros ministros tem também seus próprios escritórios por trás. Perdão, senhores, mas isso, em uma dimensão ética, também não está certo.

COMO FAZER PARA SUPERAR ESSES DOIS PROBLEMAS? Antes de seguir no tema é preciso recusar, veementemente, proposta (que vem sendo apresentada por alguns grupos) de fechar o Supremo, recorrendo à força, o que nenhum espírito democrático pode admitir, pois nada seria pior que a volta da Ditadura. A questão, então, passa a ser a de buscar uma solução adequada, madura, para o Brasil de hoje. E o curioso é que ela existe.

Fazer com que o Supremo seja semelhante a todas as demais Cortes Constitucionais democráticas do mundo. Simples assim. O que nos remete somente a dois pontos que deveriam ser alterados:

PRIMEIRO PONTO. O Supremo passa a ser apenas uma Corte Constitucional. Como todos os demais tribunais similares, nos países democráticos. Julgando menos casos, somente os que interfiram na Constituição. Deixando de ser instância revisora de outros tribunais. E sem admitir mais decisões monocráticas, claro.

Claro que podemos ter problemas. Com o Supremo declarando que as novas regras, definidas pelo Congresso para a Constituição, seriam inconstitucionais. E não valeriam. Não seria caso único, no mundo.

Na Índia, por exemplo, e apesar de a Constituição estabelecer que o presidente deve indicar os ministros da Corte Suprema, foi ela quem decidiu, há mais de 20 anos, que um collegium formado pelo Presidente da Corte e pelos quatro ministros mais antigos é que escolheria seus novos membros. Proposta de um colegiado mais plural chegou a ser aprovada, pelo Parlamento, em 2014. Mas foi derrubada, um ano depois, pelo próprio Supremo. Que a considerou “inconstitucional”. Qualquer semelhança com o Brasil não se deve ter como coincidência. Mas será que nossos ministros iriam ter coragem de nos converter em uma nova Índia?, eis a questão.

SEGUNDO PONTO. A partir de quando for uma Corte assim, última instância das causas infraconstitucionais passa a ser o STJ. Inclusive nos casos de Habeas Corpus. Com enormes vantagens para o funcionamento da Justiça, no país. Diminuindo a duração dos processos e reduzindo uma instância, para início do cumprimento das penas. Reduzindo a impunidade que virou regra, em nosso país. E permitindo que o Supremo passe a se ocupar apenas da Constituição, função típica de uma Corte Constitucional.

O CNJ e o Supremo deveriam zelar para que a Constituição fosse respeitada. Mas, como dizia um antigo presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos. Charles Evans Hugues, Constitution is what the judge say it is (Constituição é aquilo que o juiz diz que é).

CONCLUSÃO. Importante é que mudança como essa, aqui proposta, para funcionar requer apenas alteração da Constituição (via PEC). Vontade política. E pode ser feita sem maiores problemas, ainda quando os poderosos Ministros do Supremo não gostem e tentem trazer para seu curul (aquela poltrona em que sentam) alguns partidos políticos que se acostumaram a lhes usar nas suas demandas. Que contra egos, ou questões menores, o interesse coletivo deve prevalecer. Sempre. Em resumo, pode ser feito. E deve. Por ser o melhor, sem dúvida, para nosso Brasil.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (48) ‒ CHARLAS PORTUGUESAS (Final)

Mais conversas, novamente sobre Portugal e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Homenagem hoje, como já dito, às Charlas (conversas) Portuguesas, romance epistolar de Soror Mariana Vaz Alcoforado e seu amor impossível com o cavaleiro francês Noel Bouton, Marquês de Chamilly, na Guerra da Restauração. Publicado, em 1669, por Lavergne de Guilleragges.

Ministro MARCELO NAVARRO RIBEIRO DANTAS, do STJ. Pastelaria Alcoa, do Chiado. Na mesa do lado, viu brasileiro pedir

‒ Um expresso, por favor.

E os demais, com ele,

‒ Dois.

‒ Três.

Após o que chegou o garçom com seis cafés (1 + 2 + 3 = 6), uma conta para ele matematicamente correta.

* * *

Cardápio do ótimo (segundo ele) restaurante Manjar do Douro (Lamego) tem, na capa,

‒ O melhor tempero é a fome.

Reproduzindo Cervantes (D. Quixote)

‒ La mejor salsa del mundo es el hamble.

Ou mesmo Cícero que, nos seus discursos, repetia o provérbio latino

‒ Optimun condimentun fames, positionis sitis.

MARCO PINA, político. Em campanha, seu lema foi

‒ Marco Pina por ti.

No Brasil não teria graça; mas, sim, na terrinha. Que pina, em português de lá, quer dizer fode. Ficaria, então,

‒ Marco Fode por ti.

Aqui, com esse lema, não ganharia eleição nem para síndico.

MARCOS BORGES, professor. Ao sair do tradicional Hotel do Chiado perguntou, ao motorista,

– Podemos ir à Fundação Calouste Gulbenkian?

– Claro.

Era perto e o táxi logo chegou. Marcos

– Está fechada, o senhor sabia disso?

– Sim, é terça-feira.

– E por que não disse antes?

– Porque o senhor não perguntou.

MARIA LECTÍCIA. Apontando, ao maître Gomes, prato no cardápio do Grémio Literário (Rua Ivens), com bela vista sobre as colinas de Lisboa e do próprio rio Tejo

– Eu gostaria de experimentar esse Bacalhau à Braz.

– Gostaria? E por que não experimenta?

MURO EM FOLGOSINHO (SERRA DA ESTRELA). Joaquim de Barros escreveu Serenata a uma pretensiosa com versos assim

– Nas tuas unhas condiz
Teu modo de ostentação
Por fora sobra verniz
Por dentro falta sabão.

Naquele muro vi o último quarteto desse longo poema

– Nem sempre uma linda cara
Traduz encanto no mundo
Ha mil fontes d’agua clara
Cheias de lôdo no fundo.

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, da Universidade de Brown (Estados Unidos). O professor Aníbal Pinto de Castro, catedrático na Universidade de Coimbra, queria saber se leu um livro qualquer

– Não.

– Pois é, Onésimo. Você se preocupa só com livros de alto gabarito intelectual!

– Ó Aníbal, não diga isso, você sabe que já li toda sua obra!

* * *

Num restaurante da Madeira perguntou ao escritor Baptista-Bastos, jornalista e amigo próximo de Saramago,

‒ Dá-me licença que tire uma foto do casal?

‒ Claro, mas deixe-me pôr um ar inteligente na face.

‒ Não se preocupe, depois retoco a foto.

* * *

No Teatro Sá da Bandeira (Porto), o Primeiro Ato da peça correu muito mal e grande parte do público se foi assim que encerrou. Artur Ribeiro, compositor de Amália (é dele o Nem às paredes confesso) e ator contou, a Onésimo, que começou o Segundo Ato a dizer

– Aqui estou, aqui estou, aqui estou!

Só para ouvir, na plateia, um espectador

– Também eu, mas muito arrependido!

* * *

Na ilha Terceira (Açores), esporte preferido são touradas à corda. Uma grande festa, 250 por ano, em ilha com apenas 70 mil habitantes. Visitando familiares, Onésimo encontrou amigo com perna e braço quebrados e a explicação que recebeu dele foi cômica

– Vi o touro correr para mim; mas, como eu ‘tava c’os copos, vi dois touros. Fui esconder-me atrás de uma árvore. Mas, bêbado como eu ‘tava, vi duas árvores. A minha pouca sorte foi eu esconder-me atrás da árvore falsa e vir contra mim o touro verdadeiro.

* * *

Adriano Moreira lhe disse que era nome de rua em São Tomé, capital de São Tomé e Príncipe – Golfo da Guiné, costa ocidental da África Central, o menor país de língua portuguesa. Muito apropriada, essa homenagem, por ter sido ministro do Ultramar e presidente da Academia Internacional de Cultura. Depois da independência do país foi conferir se ainda estava lá seu nome e viu, na placa,

– Rua Ex-Doutor Adriano Moreira.

O que lembra história que se conta de placa que a Prefeitura de São Paulo teria posto, no local, quando trocou o nome da Marginal do Rio Tietê

‒ Avenida Otaviano Alves de Lima (ex-marginal).

* * *

Em Brown, cardápio do restaurante exibia o prato Sônia Braga Salmon. Perguntou, ao gerente do estabelecimento,

‒ Sônia Braga gostava de cozinhar salmão assim?

‒ Não, professor! Sabe? A gente pensa: Que é que gringo conhece de cozinha brasileira? Nada, né? Então a gente pensa de novo: Quem é que gringo conhece do Brasil?… Todo mundo conhece Sônia Braga, não? Então é isso ai! A gente bota o nome dela num prato… O negócio é assim, entende?

‒ Sim,… Mas então, para equilibrar, deveria também ter outros pratos como Feijoada Pelé…

‒ Professor, mas quem é que quer comer Pelé?

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JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A DOR DO SUICÍDIO (FINAL)

Semana passada escrevi sobre essa coisa terrível, o suicídio, e amigos queridos que seguiram nessa trilha. Entre eles o confrade, na Academia Brasileira de Letras, Antônio Cícero. Annie, em Gilze (Holanda). Aguinaldo Lyra, em Amsterdam (também Holanda). Ou a mulher do advogado pernambucano Nehemias Gueiros (no Rio). Agora, segue a continuação.

E começo já lembrando que entre as experiências vividas, no escritório que por tempos dividi com o Velho, houve também notícias boas. Cito apenas duas, para não alongar demais o texto. Uma quando empresário sentou na minha frente e disse com (muita) calma, e sem angústias aparentes,

‒ Vou me suicidar, estou consciente das implicações e peço apenas que depois explique por favor, à minha família, o porquê dessa fuga.

Iria perder todo seu patrimônio, muitos dependiam dele, não queria vê-los sofrer, nem tinha mais ânimo para recomeçar. E, pior, é que a culpa do desastre econômico que vivia nem era responsabilidade sua. Respondi

‒ Tenho solução melhor.

‒ Qual?

‒ Salvamos todo seu patrimônio (perdeu apenas um apartamento na Rua dos Navegantes, em Boa Viagem, já então penhorado).

‒ Prefiro!!!

Deu tudo certo e ficou feliz com a solução. Claro! Também…

De outra vez, estávamos numa reunião e notei algo estranho no olhar do cliente. Estávamos todos rindo. Mas foi como um clarão. Não perguntem como, tive a sensação clara de que iria se suicidar. Então olhei para ele, bem nos olhos, e disse

‒ Não é uma boa ideia.

‒ Qual?

‒ Essa em que você está pensando.

Ficou mudo, por algum tempo, depois desabou, e começou a chorar. Mais que isso, a urrar. De dor. E desespero. Ninguém entendeu nada, pedi que saíssem da sala, e ficamos conversando por horas. Em resumo, também deu tudo certo. Graças.

Em frente à nossa casa, na praia de Piedade, já fui em três ocasiões buscar jovens que estavam se afogando. Os dois casos acima relatados, para mim, foram quase afogados que vieram de um outro mar, o de desesperança, para celebrar a vida. Agora, completo esse texto. E já lembro colega de classe que me mandou, sobre o tema, um texto pungente (trechos):

‒ Conheço bem essa dor… é incomensurável. A dor mais profunda de minha existência… Aos 17 anos, perdi meu pai e minha avó materna, num espaço de 6 meses. Ela, em Março; ele, em Setembro. Preferiram abreviar a vida. A família desmoronou diante da tragédia. Quando chegou a notícia de minha avó, já era fato consumado. Meu pai não, depois do tiro que varou seu peito ainda levou 72 horas até partir… Nesses dias, em que sobreviveu, deparou-se com uma segunda luta. Coitado! O ato não lograra o fim imediato como lhe exigira seu intento. Deve ter experimentado um misto de vergonha, de frustração, de incapacidade, por não ter alcançado o que desejava… Nós, filhos de suicidas, passamos, da dor extrema da perda à tristeza profunda, o inconformismo, a revolta, o compadecimento, a culpa, mesmo a raiva…. Paira sempre o medo da genética que pode se reproduzir na descendência. Penso, especialmente, nos meus filhos.

Acredito não haver herança, nesse campo. Seria algo sem sentido. Recordo amigo falando em um sobrinho suíço/alemão que também seguiu por esse caminho. E o Pastor, isso o deixou perplexo, na fala de sua despedida, apresentou a escolha dele como um “dom de Deus, que deu ao homem a capacidade de escolher o seu destino”. Tenho dúvidas sobre isso. Também lembro quando ligou Millôr Fernandes, chorando, e disse:

‒ Ontem caiu um avião, no México, morreram 300 pessoas e nem me incomodei. Mas, hoje, morreu a cozinheira (de morte natural) que estava comigo faz 40 anos e estou devastado.

Após o que concluiu

‒ A vida, meu amigo, é breve e perto.

Não apenas isso, Millôr, completo agora. Para dizer que a dor que dói mais, no fundo, é sempre a derradeira, aquela da qual não dá para esquecer.

E uma dor como esta ocorreu conosco faz pouco, no Recife, com uma amiga de quem todos gostávamos. Ninguém suspeitava de nada. Escrevia e nos mandava, todas as semanas, crônicas em que se qualificava como a Mulher do 7º Andar.

Última delas, com título A Castanhola Menina, foi como premonição. Estava preocupada com uma castanhola que plantou, na beira do mar da Boa Viagem, ante o risco de ser cortada pelos trabalhadores da Prefeitura na reforma do calçadão. Trechos:

‒ Tomei o maior susto! Lá estava Emília (assim chamava essa árvore), à beira de um precipício… Naquele momento, não estava ali como militante de nenhuma causa ambiental. Queria apenas salvar Emília… Quando eu já for cinzas e estiver junto aos ossos de meus antepassados em Bezerros, minha bisavó, meu pai, gosto de pensar que essa Amendoeira continuará viva, adulta, tronco forte, galhos espalhados com folhas gordas, colorindo o outono de amarelos e alaranjados, sombreando quem volta cansado do banho de mar.

A Mulher do 7º Andar, assim a chamava (usando suas próprias palavras), numa noite sem luar, fez como Chet Baker – o solitário trompetista de só 58 anos que, da janela de seu quarto no Hotel Prins Hendrik (em Amsterdam), voou para o nada. E, hoje, é “cinzas”.

Como escreveu Almada Negreiros, em um bilhete para os amigos sobre o pintor Amadeo de Souza Cardoso, que se foi com apenas 31 anos, “Aos que gritam, a vida cala-os”. Obedecendo à regra de Drummond (Alguma poesia), “A vida, para mim, é a vontade de morrer”. Pena. Para dizer isso em versos escrevi, no estilo dos sonetos portugueses antigos (com as mesmas rimas, repetidas sempre), este

SONETO DA PARTIDA

Se a vida é uma estrada para a morte
A morte é passaporte para a vida
E antes da chegada ou da partida
Nos cabe nesta vida azar ou sorte

Embora falte tempo para a morte
Também não sobra tempo para a vida
Porque desde o momento da partida
O tempo segue sempre a sua sorte

E nesse caminhar que é partida
E é também chegada para a morte
Sem nem saber o mapa dessa vida

Choramos sem sentir a triste sorte
Da morte que é somente o fim da vida
Da vida que é maior que a própria morte.

Como ela própria escreveu, agora está junto ao pai e outros da família, em Bezerros. E sua “Amendoeira” ficará, não se sabe por quanto tempo ainda, mas ficará. Saudades da Mulher do 7º Andar. Para sempre.

Como palavras derradeiras, nos valha o sonho de Mário Quintana (em Esconderijo do tempo), “A vida é um incêndio. Nela dançamos, salamandras mágicas. Que importa restarem cinzas, se a chama foi bela e alta?”.

Seja, então. Cumprindo apenas proclamar que apesar dos pesares, do tempo que passa mais depressa do que deveria, de todas as dores e tristezas, da solidão em nossa porta (salve Carlos Pena Filho) e do desespero, das ilusões perdidas e dos sonhos desfeitos, a vida sempre vale a pena.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A DOR DO SUICÍDIO (1ª PARTE)

Num texto de 26/04/1926 (sem título), Fernando Pessoa (por Álvaro de Campos) faz uma provocação instigante:

‒ Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria.

No caso dele não era verdade, que jamais pensou nisso. Embora tenham, alguns amigos, tentado sem sucesso. Como Raul Leal, homossexual que abandonou a advocacia para viver sua triste aventura existencial; e, em Madri, se jogou sob as rodas de um automóvel. Escapando, por perícia do motorista, sem mesmo ser atingido.

Em 25/09/1930, deu-se episódio curioso. Quando Pessoa tramou um suicídio no Mata-cães da Boca do Inferno (Cascais), do mago inglês Aleister Crowley ‒ considerado, pelos jornais de seu país, como O pior homem da Inglaterra. Com ajuda de muita gente: o médium londrino A.V. Peters; o amigo Augusto Ferreira Gomes (para quem fez o prefácio de seu Quinto Império); o cunhado Caetano Dias (casado com a irmã Teca), que lhe emprestou uma cigarreira, comprada em Zanzibar, dada como de Crowley; e, até, a Scotland Yard. Mas era só brincadeira.

Único amigo de Pessoa que chegou a se suicidar, fique o registro, foi o poeta Mário de Sá Carneiro. O mesmo que, na hora de se despedir da vida, no hoje Hotel des Artistes (em Montmartre), lhe deixou esse triste bilhete:

‒ Um grande, grande adeus de seu pobre Mário de Sá Carneiro, Paris, 16 abril 1916.

O mesmo Sá Carneiro deixou também, em Página dum suicida, esses belos versos:

‒ Serei um arrojado descobridor de mundos:
Colombo descobriu a América;
Vasco da Gama, a Índia;…
Eu descobrirei a Morte!…

No início de texto importante (Eutanásia, suicídio assistido, ortotanásia e questões paralelas), ainda inédito, o ministro do STJ (Marcelo Navarro) Ribeiro Dantas expõe:

‒ A tensão entre decidir sobre o próprio morrer e a sacralidade ou indisponibilidade da vida, percorre toda a discussão sobre a eutanásia (ato médico que põe fim à vida a pedido do paciente) e o suicídio assistido (quando o paciente, com suporte médico, autoadministra a substância letal). Mas o próprio suicídio, entendido como possibilidade de decidir quando e como morrer, também tem a ver com isso tudo.

Vale ainda lembrar, ao falar nesse tema, do livro Suicide, mode d’emploi (A bula do suicídio), de Claude Guillon. Apesar de vetado pela censura francesa, conseguimos comprar um exemplar nas livrarias. Paris, nesse campo, é um pouco do Recife. Para quem quiser, um bom guia. Ensina como falsificar uma receita médica, para comprar os remédios certos nas farmácias; permite escolher como se quer morrer ‒ rapidamente ou devagar, com sofrimento ou não, quanto vai custar. Interessante de ler. Sobretudo por quem não esteja pensando nisso.

Faz pouco, nesse campo, tivemos uma perda importante. Do grande poeta Antônio Cícero, confrade querido na Academia Brasileira de Letras, que cometeu suicídio assistido na Suíça. E deixou, para os amigos, uma carta pungente. Seguem trechos:

‒ Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi… Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação… A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los… Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade. Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!

A respeito, bom lembrar novamente o ministro Ribeiro Dantas:

‒ Causar a morte de alguém — ainda que por compaixão e a pedido expresso do paciente ‒ é crime (art. 114 do Código Penal Suíço). Pena: até 3 anos de prisão ou multa. Mas o suicídio assistido é permitido em determinadas condições. Prestar auxílio para que a própria pessoa ponha fim à própria vida não é punível quando o ajudante não age por motivo egoísta (art. 115 do Código Penal).

Ao longo da vida, tive experiências pessoais dolorosas. Como a de Annie, na cidadezinha de Gilze (Holanda), que fez dito suicídio assistido; quando seu irmão e escritor Harrie Lemmens, outro amigo próximo, lhe perguntou

‒ Você está em paz?

Ela, sorrindo,

‒ Mais que isso, aliviada.

Ou o amigo Aguinaldo Lyra, colega de classe no colégio Nóbrega; depois, holandês e alto funcionário do governo, que também fez suicídio assistido. Ligou para mim poucos dias antes, em 29/10/2018, para se despedir. Perguntei

– Como vai ser?

– Até quarta, me despeço de parentes e amigos, entre eles você. Quinta, mulher e filhos. Sexta de manhã, só a mulher. No começo da tarde chegarão médico da família, enfermeiro, juiz, tabelião. E às 16 horas, na cama, tomarei uma injeção. Não sentirei dor, assim prometeram.

– Adeus, Aguinaldo, breve nos encontraremos em algum lugar.

Fim do telefonema. Fiquei paralisado. Tudo iria acontecer na sexta, 2 de novembro – Dia de Finados no Brasil, por artes do Destino. Ao meio-dia daqui. Maria Lectícia mandou rezar, nessa hora, missa para ele. Lembrei versos de Pessoa (Álvaro de Campos, Dois excertos de odes) “Vem, dolorosa/ Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes/ Sabor de água sobre os lábios dos cansados”. Que essa mão fresca torne mais doce a sua partida, querido amigo. Descanse em paz.

Lembro também conversa com Nehemias Gueiros (presidente da OAB Federal). Na Embaixada do Brasil, em Londres, para comemorar o primeiro título na Fórmula 1 de Emerson Fittipaldi (19772). Com o piloto presente, claro. Lá estávamos a convite do embaixador Sérgio Correia da Costa e sua mulher (da época), Zazi, neta de Oswaldo Aranha. E nem pedimos explicações, a Nehemias, por ter sido redator do Ato Institucional número 2, em 27/10/1965, sacralizando a Ditadura Militar. Sem chances porque falava só na mulher que acabara de falecer, tentando suicídio por três vezes, e nos contou

‒ Sabem o que doeu de verdade?

‒ Não.

‒ No hospital em que estava internada para tentar se recuperar, quando eu falava no futuro, que iríamos ficar bem, ela respondia “E você ainda não percebeu que já basta? Que não quero mais?”

P.S. Continua da próxima semana.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CAMÕES E OS LUSÍADAS

Luís Vaz de Camões veio da pequena nobreza – assim se dizia, na época, dos nobres sem casas nem títulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos por puro prazer, quando possível e, às vezes, em troca de gorjeta. Ou comida.

Era conhecido, pelas incontáveis rixas em que se metia, como Trinca-Fortes. Em uma delas, na noite da procissão de Corpus-Christi, golpeou com espada o pescoço de Gonçalo Borges, cárrego (responsável) dos arreios do rei. Acabou preso no tronco. Libertado por Carta Régia de Perdão, em 7 de março de 1553, teve que pagar quatro mil réis para caridade e foi obrigado a ir servir na Índia. Seria mudança definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais – Simão Vaz de Camões, capitão de nau; e Ana de Sá, dos Macedo de Santarém, doméstica.

Em torno dele, quase tudo é incerto. Sabe-se, dos serviços que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa – ou Coimbra, ou Santarém, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda quem sugira começos de 1525). Tendo a lei portuguesa 1540, de 02/02/1924, definido que teria sido em 05.02.1524. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz. Até que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas opções que lhe restavam.

Para cumprir aquela sentença de perdão embarcou pouco dias depois, em 24 de março, na poderosa armada do capitão-mor Fernão Álvares Cabral, filho de um Pedro que conhecemos bem. Para Goa (Índia). Ali, naquele mundo para ele novo, sofreu todas as agruras. Numa expedição a Ceuta, perdeu o olho direito em batalha. Mais tarde, em 1558, naufragou na foz do rio Mekong – costa do Sião (hoje, Tailândia). Salvou-se despido, como todos os demais sobreviventes, tendo em uma das mãos os primeiros versos de seu Os Lusíadas.

Nesse episódio teria morrido uma chinesa, a quem Camões deu o nome poético de Dinamene, para quem depois escreveria uma série de poemas. Entre eles o famoso Soneto 48, que todos conhecem, começando assim:

“Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste”.

Foi Provedor dos defuntos nas partes da China. Desempenhando suas funções com não muita lisura, é de justiça reconhecer. E, vez por outra, frequentaria prisões. Por dívidas. Ou rixas. Como dizia o próprio Camões, “Erros meus, má fortuna, amor ardente/ Em minha perdição se conjuraram”. Mas, sobretudo, nunca parou de escrever.

Em 1570, afinal, estava novamente de volta a Lisboa. Com as carências financeiras de sempre. Segundo se conta, sobreviveu durante algum tempo graças ao fiel Jau, trazido das Molucas. Esse escravo esmolava, de noite, pedindo pão para seu mestre. Importante é que Os Lusíadas avançava. Sob o patrocínio de dom Manuel de Portugal, devotou-se então à sagração de seu país – naquela que é considerada, consensualmente, a mais bela epopéia do século XVI.

A edição princeps – assim se diz das primeiras edições de um livro – foi impressa na tipografia de António Gonçalves, em Lisboa, no ano de 1572. Com privilégio real de impressão por 10 anos e publicada com um benévolo (e corajoso) parecer censório de frei Bartolomeu Ferreira, sem data. Terá tido também licença da Mesa Inquisitorial – que, todavia, não consta da impressão.

Tem aparato paratextual simples, 8.816 versos e 1.102 estrofes divididas em 10 cantos. Utilizando a divisão da divina Comédia, de Dante – que assim tem, como cantos, seus 100 livros. Há, hoje, cerca de 25 exemplares ainda existentes, em bibliotecas ou nas mãos de colecionadores, talvez menos que 10 completos.

Até fins do século XIX, se acreditava ter havido duas edições princeps, um mito devido a Manuel Faria e Souza – que (em 1639), ao comentar Os Lusíadas, confrontou dois volumes daquele mesmo ano em que o livro foi lançado, 1572; e verificou haver, neles, pequenas diferenças. Depois se comprovando terem sido bem mais que duas. Restando hoje assente que assim ocorreu pelo desejo de Camões, ou seu editor, em corrigir pequenas incorreções das impressões anteriores.

Dando-se que, em alguns casos, foram sendo aproveitados conjuntos de páginas já impressas, antes, e não utilizadas. Fazendo-se, as correções, nas novas páginas impressas. Uma explicação que só se pode compreender pelos rudimentares sistemas de impressão daquela época.

Apesar de numerosos indicativos dessa edição princeps na comparação com as demais, e curiosamente, o que a identifica é um pelicano, à primeira página, com o bico virado para a esquerda do leitor. Além do pelicano, também um detalhe no terceiro verso da primeira estrofe, que começa por “E entre”; enquanto nas versões posteriores, já corrigidas, começa por “Entre” apenas. Essas edições de 1572 tornaram-se conhecidas, por isso, como “Ee” e “E”.

Camões tinha com ele, ao morrer, aquela que acabou tida como a primeira edição autêntica, deixada ao frei Joseph Índio, que o acompanhou num hospital de Lisboa. Esse volume é conhecido como Holland House – por ter estado em casa do general Lord Holland, em Londres, a partir de 1812 e por mais de cem anos.

Outra edição famosa, em Portugal, é a segunda ‒ conhecida como dos piscos. Surgida, em 1584, dois anos após o fim do prazo do alvará que protegia a primeira (de 1572). Impressa pela tipografia Manuel de Lira (em Lisboa), e com licença do mesmo frei Bartolomeu Ferreira, responsável pela autorização da edição princeps. O nome jocoso dado à edição vem de uma citação, nos Lusíadas (Canto III, 65), sobre a “piscosa Cizimbra”.

Sezimbra é uma vila portuguesa no distrito de Setúbal. Abundante em peixes, bom lembrar. Trata-se da primeira edição comentada de Os Lusíadas. Explicando a citação, o comentador, como referência aos pássaros que ali se juntam em passagem para a África, provavelmente se referindo ao Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus Rubecula).

Camões segue a trilha de outras epopéias do passado. Sobretudo a Eneida, de Virgílio; o que se vê até na comparação dos versos iniciais dos poemas: Canto as armas e o varão, Virgílio; e As armas e os Barões assinalados, Camões. Também a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Bem como a divina Comédia, de Dante.

Além de numerosas epopéias surgidas em Portugal, no mesmo século XVI de Os Lusíadas, mas antes dele – como as de André de Resende, Manuel da Costa ou José de Anchieta; e manuscritos que circularam, também antes de 1572, como os de António Ferreira e Jerónimo Corte-Real.

Nele temos o passado, com a exaltação das conquistas em que o povo português foi muito além do Mar Tenebroso. O presente, com o lamento pelo abandono das terras africanas por Portugal – de Safim a Azanos, de Azila a Alcácer Cequer. Sem contar a ameaça turca, conjurada só na batalha naval de Lepanto, em 7 de outubro de 1571.

Mas é, sobretudo, a antevisão de um futuro grandioso, na linha da Utopia do Quinto Império. E ninguém cantou Portugal como Camões. Ver Canto X, 155,

Pera servir-vos, braço às armas feito,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser a vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me insto o Céu concede, e o vosso peito
Dima empresa tomar de ser cantada,
Como a pressaga mente vaticina
Olhando a vossa inclinação divina”.

Pouco antes, em Desenganos, escreveu “Nascemos para morrer/ Morremos para ter vida/ Em ti morrendo”. Assim foi. Luís Vaz de Camões morreria só em 10 de junho de 1580, pouco depois do desastre de Alcácer Quibir – em que desapareceu dom Sebastião, o Desejado, e Portugal passou a ter um rei espanhol.

Foi enterrado na igreja de Santa Ana e seus restos acabaram transferidos, em 1894, ao mosteiro dos Jerônimos, onde repousam num túmulo esculpido em mármore bem na entrada. Consta que disse, ao morrer, “Ao menos morro com a pátria”.

* * *

Há uma razão para falar em Camões agora, amigo leitor, É que, nesta quarta, o Gabinete Português de Literatura me distinguiu com o “Colar do Mérito Luiz Vaz de Camões”. Como complemento, “Em reconhecimento à sua destacada contribuição à cultura e à língua portuguesa”. Homenagem enorme, da qual nem me sinto merecedor. Deve ser por conta da idade…

O Gabinete (com 80 mil livros) está celebrando, agora, seus 175 anos. Um marco importante na história literária e intelectual de nosso estado. Por tudo, pois, grato a seu presidente, o eminente Celso Stamford; e a seu vice-presidente, o caro Alexandre Reis de Melo.

Agradeço, também, ao conselheiro da Embaixada de Portugal no Brasil, o Excelentíssimo senhor doutor Francisco Duarte de Azevedo. E logo encareço permitam uma observação pessoal. Para dizer que se trata de alguém que cultua a exatidão. Por exemplo lembro que foi ao Shopping Center Recife para comprar meias. A balconista desejou ter informações complementares, para melhor atender seu pedido. Reconhecendo aquele cliente como português, e forçando um sotaque lusitano,

‒ Diga mais.

E ele, preciso em tudo,

‒ Mais.

Muito grato a todos. E viva pelos seus méritos, por todos reconhecidos, o Gabinete Português de Leitura.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO E LEITORES

O melhor, para quem escreve, é sentir a reação dos leitores. Por isso peço a Laurindo Ferreira, Diretor de Jornalismo do Sistema JC, que ponha, por baixo dos textos, meu e-mail. Permitindo possam falar, se acaso desejarem.

Na semana passada, por exemplo, relatei um pedaço da vida de amigo querido, o advogado Mickel Sava Nicollof. Todos o elogiaram, nos comentários. Graças. E, mais importante, a família gostou. Muito. Disse também dos campos de concentração, como aquele em que seu pai viveu os derradeiros dias, aqui em Pernambuco. E chegaram informações. Seguem algumas (entre muitas):

Giovanni Mastroianni. Mickel foi registrado caruaruense no mesmo cartório em que me registrei, o primeiro de Caruaru. Pertencente a minha amiga Marieta Lyra de Azevedo, casada com Sizenando Guilherme de Azevedo, ex-prefeito da Capital do Agreste. Apesar de registrado caruaruense, era sabido por todos que a origem de Mickel era estrangeira (como vimos, nasceu em Berlim).

Girley. Nem sei como falar sobre o que interpretei. De todo modo, digamos que foi oportuno. É duro saber que inocentes padecem de tão abominável modo de punição indevida. Em pleno século 21. Conheço o livro de Rostand, meu velho e dileto amigo de saudosa memória. Meu abraço, caro Imortal.

João Francisco. Getúlio flertou forte com o Eixo de Hitler (v. Olga), até que um navio mercante nosso foi abatido por um U-Boat, fato que nos empurrou para combater ao lado dos aliados. Obviamente, após este ocorrido, japoneses, italianos e especialmente alemães tiveram dificuldades.

José Almino (filho de Miguel Arraes). O sogro de tia Violeta, Henri Gervaiseau, eu o conheci já com mais 90 anos e lúcido, me contou que, prisioneiro dos alemães na Primeira Guerra em 1916/1917, ficou num campo de concentração na Alemanha até 1918. No entanto, as complicações advindas das discussões sobre o acordo de paz fez com que só chegasse em Chatou (municipalidade perto de Paris) em meados de 1919. Pensava em fazer uma agregation de grec et latin, terminou como notaire em Chatou.

Jorge Geisel. Em 1945, depois dos inigualáveis horrores sofridos, quando as nações civilizadas ocidentais imaginavam que uma vitoriosa época de paz acordada, de justiça e, acima de tudo, de Liberdade haveriam de inaugurar uma nova era em busca da felicidade, acabaram trombando em sérios impedimentos estabelecidos pelas tétricas manifestações de apoios, permanentes e cíclicos, aos sucessos materiais, em detrimento das virtudes republicanas (e de limitada duração….) de regimes políticos com democracias fraudadas pelos populismos e banhados de interpretações sob encomenda em tribunais ideológicos.

Mauro Grinberg. Há um fato interessante sobre campos de concentração no Brasil. Um navio da marinha alemã, fazendo o trajeto entre África do Sul e Alemanha, foi forçado a atracar no porto de Santos. Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, os tripulantes foram levados a um suposto campo de concentração na região de Pindamonhangaba, onde permaneceram até o final da guerra. Como o campo era brasileiro, a disciplina era bem relaxada e muitos alemães acabaram por se enturmar na região. Terminada a guerra, os mais enturmados ficaram por aqui mesmo. Inclusive dois tripulantes que abriram um restaurante de comida alemã chamado Windhuk (o nome do navio), que existe até hoje no bairro de Moema (São Paulo).

Rafael de Menezes. Já visitei Tarrafal, o campo de Salazar em Cabo Verde, fui no país em congresso dos países de língua portuguesa. Viva Serginho cinquentão.

Ocorre que uma frase no início da coluna, amigo leitor, levou a opiniões desencontradas. Balzac tinha razão (em Ferragus), quando reconhece que “As paixões perdoam tão pouco quanto as leis humanas”. O que escrevi?, senhores, isso:

– Ao ver milhares de brasileiros na Esplanada dos Ministérios, tangidos como bois para as prisões, velhos e mulheres entre eles, como se fossem um rebanho, a imagem lembrou dos campos de concentração. Que assim eram recolhidos, naqueles tempos, opositores do governo.

Certo ou errado, não importa, foi o que senti vendo aquelas imagens. Alguns leitores concordaram, outros não. Mais importante e de alguma forma triste, nessas diferenças, é que revelam um Brasil fraturado. Em guerra interna. Tolerância zero com a opinião dos outros. Para que tenha o leitor ideia, seguem algumas dessas opiniões, apenas duas de cada lado para não alongar o texto:

Contra o que disse:

Fátima Alencar. Antes disso, ao ver milhares de brasileiros opositores do governo democraticamente eleito, na Esplanada dos Ministérios totalmente descontrolados e enfurecidos, a imagem me lembra um campo de guerra! No fundo, temos pensamentos em comum…

Xico Bizerra. Exagero, solicito vênia, comparar as prisões nazistas com as que ocorreram em decorrência do 8 de janeiro. Os atos de terror e vandalismo daquele dia não podem ficar impunes sob pena de servirem de estímulo à reincidência. Pode-se, a meu ver, até discutir a questão da dosimetria, mas não o mérito dos crimes cometidos. Velhinhos e senhoras (não os vi com a Bíblia na não) poderiam estar em qualquer lugar, mas não depredando bens da União, cagando, literalmente, no âmbito de instituições públicas, promovendo atos de vandalismo explícito e violência material.

Ou a favor do que disse:

Edjailson Xavier Correia Jaja. Precisamente no dia 08 de janeiro, minha certeza ficou consolidada. Olhei para minha Esposa e afirmei que estava nascendo o Juiz Roland Freisler do Século XXI, dentro do STF, e que a Nação iria testemunhar o Rasgar de sua Constituição e o fim do Estado de Direito pelo Alexandre Moraes, naquela Corte. O Juiz Alemão Roland Freisler, bom lembrar, é um Criminoso Maior; que, através de Atos Monocráticos, criou o Estado Nazista…

Depois se uniu a Himler, criou os Campos de Concentração e seus derivados de Crimes contra a Humanidade; e por último, através de narrativas, uma Polícia Especial junto com Himler, que depois viria a ser a SS e a Gestapo, numa divisão estratégica. E monocraticamente, através de narrativas, condenou Judeus, Cristãos e adversários do Regime, os mandando para Campos de Concentração criados nessa sociedade infernal… O Judiciário Alemão se tornou acima das Leis e da Constituição implantando o terror para perpetuação do Nazismo pelo mundo além da Alemanha… O Juiz Roland Freisler, que transformou a Justiça em Terror, era chamado de O Carrasco de Toga Vermelha...

Marcos Albanez. Seu artigo de hoje, no JC, me faz lembrar o nojo e a vontade de vomitar quando me lembro das prisões legais dos terroristas de 8 de janeiro… Paradoxalmente, perigosos terroristas são condenados a 17 anos de prisão por terem escrito – com batom algo numa estátua do desmoralizado stf (minúsculo mesmo) e por estarem vendendo picolé nos lugares e nas horas erradas… Com esses caras, o país jamais sairá do estado de coma profundo,…

E segue a vida, caro leitor. Fernando Pessoa, numa anotação sem data, escreveu: “Não tenho opiniões formadas, nem creio demasiadamente no valor de todas opiniões”. Talvez por isso, respeito as opiniões dos outros. Sempre. Assim compreendo a Democracia. Na linha do que dizia Tristão de Ataíde (Alceu do Amoroso Lima), em O problema do trabalho, “A Democracia é um regime de convivência, e não de exclusão”. Assim seja. Pelo menos deveria, creio.