JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A ARTE DA PRUDÊNCIA

Simão Bacamarte, renomado cientista em Portugal e alhures, internou quase toda população de Itaguaí no seu manicômio – a Casa Verde. Por sofrer, assim pensava, de distúrbios mentais. Segundo Machado de Assis (O Alienista). Já longe da literatura, nosso destrambelhado Ministro da Educação chama os Ministros do Supremo de “vagabundos”. E o Ministro Celso de Melo, do Supremo, ofende Bolsonaro o comparando a Hitler – que trata, intimamente, por seu cargo de “Reichskanzler” (Primeiro Ministro). Agressões desnecessárias. Nenhum dos dois leu o jesuíta aragonês Baltasar Gracián (A arte da Prudência).

Em suas defesas, as autoridades brasileiras estão usando o mesmo argumento. De que seriam falas privadas. A do Min. da Educação, proferida em reunião classificada como Secreta – o que lhe garantiria 25 anos de reserva. Com publicidade determinada, em decisão monocrática, pelo próprio Min. Celso. Num processo que discute o eventual uso político da Polícia Federal. Sem que se possa entender razões para entregar, às TVs, gravações que nada tinham a ver com o processo sob seus cuidados. No caso do Min. Celso, tratava-se de conversa entre amigos. Por celular. E seu vazamento foi um descuido. A rigor, dois casos rigorosamente semelhantes. Ocorre que “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”, dizia Orwell (Animal Farm). E as consequências acabaram distintas. O Min. da Educação está sendo processado por Injúria. Enquanto o Ministro Celso, em palavras de Millor (A Bíblia do Caos), continua “livre como um taxi”. É razoável?

Simão Bacamarte, na novela, muda seu entendimento. Passando a considerar doentes mentais só aqueles que têm “comportamento regular e caráter reto”. E, nas cercanias de Itaguaí, o único homem assim era ele próprio. Razão pela qual decide se enclausurar na Casa Verde. Onde morre, 17 meses depois. Já em Brasília, os dois ministros deveriam ser processados. Ou nenhum. Apenas um deles, não é justo. O mais engraçado é ver um agressor, o Min. Celso, processando o outro, da Educação. Caso se pretenda mínimos de coerência, vai ter que escolher. Ou aceitar seus próprios argumentos e inocentar logo o da Educação. Ou não, e se autodenunciar. Imitando Simão Bacamarte. Para ser julgado por colega. Tudo se resume a só um enredo de Opera Buffa, que nem Machado de Assis seria capaz de inventar.

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CORAÇÕES EM PAZ

Minha mãe acabou de partir. “A morte é uma bela mulher, à qual falta somente o coração”, dizia Chateaubriand (Pensamentos). Já meu pai se foi bem antes. Lembro dos dias que se seguiram a essa ausência. O mundo perdeu qualquer sentido. E não queria ver mais ninguém. Penso que é assim com todos. Foi quando ligou o amigo Hélio Naslavsky. Nasceu um neto. E ele convidava para a festa. Tanto insistiu que não ir seria uma grosseria desnecessária. Fim da tarde, estávamos na maternidade do Sabin. À entrada, um berçário com 20 recém nascidos. Notícias de vida. E fomos andando, no corredor, em direção ao quarto. Era o último. Pregados nas portas que se sucediam, mensagens docemente idiotas dos pais de primeira viagem. “Cheguei, meu nome é Pedro”, por aí. Alegria por toda parte. Chegamos. Hélio logo me ofereceu um puro. Muito bom. Cumprimentamos todos e fomos embora.

Ocorre que, ao chegar no carro, algo havia mudado. Por dentro. O coração, antes apertado, agora estava em paz. Refletindo com mais vagar, à noite, penso que entendi. Ou essa explicação passou a valer para mim somente, dá no mesmo. É que o homem nasce, vive uma vida se possível digna, cumpre seus sonhos (ou parte deles), faz amigos (muitos ou poucos). Até que um dia se vai. Deixando saudades. Exatamente quando nasce o neto de algum Hélio. Já sabendo que, mais tarde, o mesmo acontecerá com esta criança. Que viverá seus sonhos e deixará saudades. Quando outros netos, de outros Hélios, estarão nascendo. E assim será, para sempre, eternamente.

Em uma entrevista à Newsweek, Woody Allen disse: “Não é que eu tenha medo da morte. Só não quero estar ali, quando ela chegar”. Problema é que a Ceifeira chega, sempre. Por isso, amigo leitor, quando se vai alguém próximo, não devemos lamentar mais que o razoável. Aqui falo só das trajetórias inteiras, claro, e não das precocemente interrompidas. Mas se a pessoa querida viveu todo seu percurso, então foi como deveria ter sido. Com ela, hoje. E, amanhã, também conosco. Enterramos nossos pais. Como nossos filhos nos enterrarão. É a ordem natural das coisas. Mas se “a vida é breve, a alma é vasta”, lembrava Pessoa (Soares, no Desassossego). E enquanto for possível, nessa curta passagem terrena, há mesmo só uma tarefa que devemos cumprir com paixão. Até o fim. A de viver, intensamente, a gloriosa epifania da vida.

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DONA MARIA LIA

Minha mãe tinha 18 anos. Sempre teve. Ou pensava, e agia, como se tivesse. O que dá no mesmo. Para definir quem era, basta lembrar frase de Dostoiévski que vivia repetindo: “Sinto um prazer quase indecente de viver”.

Quando fez 40 anos, mandei bilhete: “Mamãe. Não é por nada não mas a IDA começa aos 40”. A volta veio só bem mais tarde: “Meu filho. Esperei 40 anos para lhe responder. A IDA pode ser que comece aos 40. Mas a VIDA começa mesmo é aos 80”.

Num dos últimos aniversários dela, escrevi: “Me diga Dona/ Maria Lia/ Luar da noite/ Flor do meu dia/ Se brilha ainda/ A luz infinda/ Que eu perseguia”. Essa luz findou, agora. É o destino de todos nós. Com 92 anos, publicou livro contando histórias do passado (Recordar é Viver). Nele, está um poema premonitório que escreveu, Ele Acreditou. Em que dizia:

Ele acreditou nos adultos
E compreendeu que eles não eram sábios.

Ele acreditou na inteligência
E viu que ela construiu uma bomba que pode destruir o mundo.

Ele acreditou na retidão do caráter
E sofreu vendo seu pai ser perseguido por não compactuar com posturas indignas.

Ele acreditou na paixão
E se queimou, portando ainda tisnas dentro da alma.

Ele acreditou na vida
E a transpôs para outros seres, mas desesperou-se descobrindo quanto ela é frágil e tão facilmente extinguível!

Ele acreditou na ciência
E soube que ela é provisória.

Ele acreditou em Deus
E o encontrou injusto e incoerente.

Então ele acreditou na morte…
E ela não o decepcionou.

A morte nunca decepciona, dona Maria Lia tinha razão. É sempre certa. E sempre triste. Mas segue a vida. Um personagem de Carlos Nejar (em A Explosão), Jordana Duarte, depois de perder aquela que a criou, “Olhava para o céu e sabia que lá estava vagando sua mãe”. Assim seja, com todos os filhos.

Por isso ao acordar, e até fim dos tempos, a primeira coisa que farei vai ser olhar para o alto.

Na esperança de ver, pelos céus impossíveis e distantes, minha mãe passeando nos raios de uma luz infinda. Jovem e bela. Feliz. Em paz.

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O MITO DA VERDADE

Saber onde anda a verdade é uma arte. Em carta a Mary Mac Donald, Lewis Carroll escreveu: “Não se apresse em acreditar em tudo que lhe contaram ou acabará incapaz de acreditar nas verdades mais simples”. Vivemos, hoje, em um mundo fake. Na internet. Na grande mídia. Em versões desencontradas. Tantas vezes incapazes de compreender a realidade que se oculta por trás das máscaras. Para provar isso proponho um teste, amigo leitor. Objetivo é saber se está preparado para reconhecer a verdade. Retomo famoso conto (Elogio de la Sombra) de bem conhecido autor, Jorge Luiz Borges. Que narra encontro, entre Caim e Abel, num deserto. Borges diz que “Caim viu, na testa de Abel, a marca da pedra com o que o matou. Então deixou cair o pano que ia levar à boca”. Foi quando Abel se dirigiu ao irmão. Mas o que terá dito a Caim?, eis a questão. Além do final de Borges, escrevi 3 outros para esse conto. E convido o leitor a escolher o certo. Poderia ser:

1) Uma parábola sobre a Virtude. Abel diz: “Eu te perdoo, meu irmão, não porque tu me pediste, mas porque vejo em teus olhos a chama generosa do arrependimento”. Responde Caim: “Agradeço-te, meu irmão, mas permita que te diga não ser esse arrependimento mais nobre que a humildade no confessar minhas fraquezas”.

2) Uma parábola sobre o Perdão. Abel: “Você me matou ou eu te matei?, já não recordo. Aqui estamos, juntos como antes”. Caim: “Agora sei que me perdoaste, meu irmão, porque esquecer é perdoar, e eu também tratarei de esquecer”.

3) Uma parábola sobre a Justiça. Abel: “Não sou eu quem tem que te perdoar meu irmão, mas tu mesmo”. Caim: “Se assim for, então não há razão para nenhum perdão, que o justo que é justo não perdoa. E minha consciência diz que devo pagar por meus erros”.

4) Uma parábola sobre o Remorso. Abel: “Não te perdoei apenas porque nunca soube, de nós dois, quem fez mais mal, um ao outro. Se foste tu, matando-me. Ou se fui eu, perseguindo-te como um fantasma, desde o paraíso perdido até o fim dos tempos”. Caim: “Já que assim é, meu irmão, então eu te perdoo, mas desde que tu também me perdoes”.

No caso, sabe já antecipadamente o leitor que 3 dessas parábolas são falsas. O que simplifica sua escolha. Se escolher o final certo, no conto de Borges, parabéns.

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IMPOSTO DESAFORTUNADO

Em 1930, ao estudar a Hawley-Smoot Tarif Bill, Arthur Laffer (professor da Universidade de Chicago, Califórnia) desenvolveu conceito que acabou conhecido por seu próprio nome – Curva de Laffer. O de existir um limite para a expansão do poder de tributar do Estado. A partir do qual haveria evasão, com sonegação e outras práticas (inclusive lícitas). E, em vez de aumentar, a arrecadação cairia. Para ele, esse limite seria 70% do PIB. Mais tarde, em 1984, Cristina e David Sobel (professores da Universidade de Berkeley, Califórnia), provaram que esse limite seria de apenas 33%. Volto ao tema porque no Brasil, hoje, estamos já perto de 40%. Não dá para crescer mais. E ainda há quem sugira um Imposto sobre Grandes Fortunas. Em verdade há já 4 projetos em curso, no Congresso, para regulamentar esse imposto que acabou previsto do grande acordão geral da Constituição de 1988 (art. 153, VII). Do PT, do PSDB, do PODEMOS, do CIDADANIA. Sem contar declarações diárias de candidatos. Às eleições gerais de 2022 e, mesmo, às de Prefeito. Já neste ano de 2020.

Poucos tiveram coragem de adotar esse tributo. Só 10, entre os 193 países da ONU. Dois paraísos fiscais, em que tributados são sobretudo estrangeiros: Luxemburgo, 7,18 e Suíça, 4,77. Os demais, com números irrisórios: Noruega, 1,46%; Espanha, 0,53; Bélgica, 0,47; Hungria, 0,27; México, 0,20; França, 017, Canadá, 0,06; Alemanha, 0,03% da carga tributária. E sempre com problemas sérios de implantação. México, nos 8 dias seguintes à lei, teve 58 Decretos de Exclusão. Reduzindo a base da tributação, que caiu quase a zero. Na França, o Impôt de Solidarité sur la Fortune apenas custeia o Revenue Minimum d’Insertion. Uma espécie de Bolsa Família, diferente da nossa por exigir que todos os beneficiários prestem serviços públicos. Na Espanha, vale apenas em 2 das 5 Regiões Fiscais do país. Sem que se explique porque, vigentes nessas 2, não foi copiado pelas demais. No fundo, único mérito do imposto é funcionar como controle. Com aprimoramento das regras de fiscalização. Sem grandes ambições de arrecadação.

Agora, com essa crise do Coronavírus, a expansão dos gastos públicos vai aumentar, dramaticamente, nosso déficit. Que já quase dobrou, nos últimos 20 anos. Por conta do casamento cruel entre corrupção e falta de uma política econômica responsável. E novamente se fala, como solução, no tal Imposto. Quando melhor seria discutir isso no curso da Reforma Tributária, em curso no Congresso. Ironia, nesse discurso, é que boa parte dos proponentes estiveram no poder, a partir de 2002. E nada fizeram, antes. Não apresentaram projeto nenhum. Vendendo agora, a ideia, como solução para todos os nossos problemas. Não é assim que funciona. Em palavras do amigo Michel Rocard, com autoridade de ter sido Primeiro Ministro da França, “A economia não se muda por decreto”. Em resumo, caro leitor, não leve essa gente a sério. Não vale a pena. Que a proposta é só retórica eleitoral barata.

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O FUTURO DO FUTURO

Primeiro foi Hobbes, no séc. XVII, falando em uma “assembleia de homens que reduzem suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade”. Em seguida Locke, definindo a base teórica do pensamento ocidental contemporâneo, com a compreensão de que “os homens são iguais e independentes.” Depois Rousseau. Pensando a liberdade, na sociedade, inseparável da solidariedade. Com “todos se tornando iguais por convenção e direito” Depois, as ideias iluministas. Com restrição nas prerrogativas do poder. E a história recente da civilização acentuou cada vez mais, o compromisso entre igualdade e participação. Um espírito que, no Brasil, pode ser encontrado mesmo em Proclamação de D. Pedro I (junho de 1822), a favor de “uma independência moderada pela unidade nacional”.

Ocorre que passa o tempo e os problemas vão se acumulando. Com a industrialização, foram articulados em um único sistema econômico regiões que antes se vinculavam sobretudo com o exterior. E passamos a viver uma complexa transição estrutural, com a reacomodação nas relações entre os centros de poder. Tanto de natureza econômica, como política. Grave porque a mudança, naquela opção anterior, não se preocupou, verdadeiramente, com a formação de um mercado interno. Enfraquecendo, consideravelmente, os vínculos de solidariedade entre as distintas regiões do país. Pior é que o processo de modernização hoje em curso, definitivamente, não se ancora na integração das economias regionais. Agravando a concentração de riqueza e renda.

Já vivíamos o esgotamento do ciclo nacional-desenvolvimentista. E é tempo de buscar novos caminhos. Problema, agora, é que esse mega problema do coronavirus sugere que sair da crise vai corresponder, no fundo, a encontrar uma nova identidade nacional. Primeira questão que se aponta, em um processo assim, é a oposição entre irracionalidade coletiva e racionalidade específica, que constitui a essência do Dilema do Prisioneiro de que falava Max Weber. Como os atores exercitam mútuas desconfianças, isso impede, ou limita severamente, a afirmação da vontade coletiva. Uma situação de intensa competição, com instituições ainda não inteiramente consolidadas e regras em constantes mudanças, que leva o país inevitavelmente para a situação de um macro-dilema do prisioneiro. Em que todos, a partir de seus próprios interesses, priorizam o comportamento individualista. Sem ser capazes de produzir estratégias de ação coletiva. O que se opera em níveis diversificados. Nas classes sociais economicamente privilegiadas, que não aceitam aumentar sua contribuição para a superação de desigualdades. Nos cartórios privados, que se esforçarão por manter suas possessões. No corporativismo dos que se preocupam, somente, com a preservação dos seus privilégios.

A Espanha saiu da crise, na morte de Franco e a volta da monarquia, com o “Pacto de Moncloa”. Em que as questões da transição foram definidas democraticamente. Perguntei ao Primeiro-Ministro Adolfo Suarez o que seria mesmo, por dentro. E a resposta dele foi exemplar: “O Pacto foi a negociação do Pacto”. O sentar, na mesma mesa, governo, empresários e trabalhadores. Para definir uma nova pauta para o país. Seria bom que algo assim pudesse acontecer, por aqui, para sairmos de vez dessa crise. Isso é possível? Fernando Pessoa disse (Sobre Portugal) que “É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado”. Deus queira que seu vaticínio valha só para seu país. E que, no Brasil, ainda sobreviva um resto de esperança.

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UM PAÍS DE ESTULTOS

Em tempo de coronavirus dá pena ver, junto a especialistas, analfabetos e otoridades em geral se exibindo, como espantalhos, nas televisões. Vaidades, vaidades. Segundo Malraux (Antimemórias), ela “é tão forte quanto a morte”. Para aparecer, vale tudo. Lembro do amigo Fernando Lyra. Um dia, chega no escritório. Meu pai o cumprimenta e, sem ninguém esperar, diz: “Vai ter meu voto porque, diferente de seus coleguinhas de Brasília, você não é estulto”. Fernando agradece o elogio. E ficamos conversando. Na saída, já longe do velho, me pergunta: “Afinal, o que quer dizer mesmo estulto?”. Explico ser parvo, tolo. Ao chegar no gabinete dele, com aquele vozeirão, se dirige às mais de 30 pessoas que ali estão: “Quem aqui sabe o que quer dizer estulto?”. Silêncio geral. E ele completa: “É que vocês todos, diferente de mim, e como comprovou o doutor José Paulo, são estultos”. Saudades de Fernando Lyra.

Recordo esse episódio para referir que muitas outras expressões poderiam ser também usadas em situações similares. Como Acanaveado, que quer dizer atrapalhado. Analpabesta, ignorante. Bandalho, desagradável. Biltre, traiçoeiro. Burlão, sem valor. Engrimanço, apenas um peralvilho. Já peralvilho, diz-se de quem passa por nós de nariz para o alto. Fementido é falso. Filibusteiro, tipo dado a trapaças. Pícaro, malandro. Pirrónico, quem gosta de contradizer os demais. Safardana, sem escrúpulos. Sevandija, quem vive às custas do outro. Totó, só alguém ingênuo. E Cagão, diferente do que se possa pensar, só alguém vaidoso. Todas, convenhamos, palavras que gostaríamos de dizer a tantas Excelências no Planalto.

Algumas outras expressões podem ser também lembradas. Como Andar com o rei na barriga. Sinônimo de soberbo, orgulhoso. Lembrando as rainhas de antigamente que, grávidas, andavam com os futuros reis em suas augustas panças. Rufião. O termo vem do latim rufus, que significa ruivo. Sibilino é quem fala de forma enigmática. Na Antiguidade, a Sibila era uma sacerdotisa de Apolo que emitia profecias numa linguagem tão vaga, e tão metafórica, que nela cabiam todas as interpretações. Vira-casacas, aquele que muda de partido. A origem dessa expressão é curiosa. Conta-se que o rei da Sardenha, Carlos Manuel III (1701-1773), fazia e desfazia alianças com frequência. Ora se aliava à França, ora à Áustria, ora à Inglaterra. Variando, também, as cores da sua casaca de gala. Para que pudesse coincidir com as cores daquela nação momentaneamente aliada. Por fim, Puxa-saco. Trata-se de expressão bem brasileira, só faltava essa. Oficiais do Brasil colonial, quando eram deslocados para outro quartel, levavam seus pertences num saco. Chegando no destino, havia sempre quem, na busca de gorjetas, lhes puxassem o saco para o transportar nas costas.

Indo além, poderíamos também usar expressões mais rebuscadas. Nascidas na Literatura. Como Conselheiro Acácio. Evocando romance de Eça de Queiroz, O Primo Basílio. Trata-se de um político fraco de ideias e imaginação, mas com falar eloquente, dando ideia de uma profundidade que não tem. Ferrabrás. De origem literária antiga, remonta a canções de gesta medievais francesas, nomeadamente a Chanson de Roland (Século XI). Em que um mítico rei árabe, o Fierbras (em francês, fier-à-bras), demonstra ser só um arrogante. Sacripanta é pessoa vil. Vem de personagem do escritor renascentista italiano Ludovico Ariosto (14-1533), o senhor Sacripante (em Orlando Furioso). E Lapalissiano evoca a expressão Verdade de La Palisse. O que corresponde a uma afirmação certa, mas tão evidente que seria desnecessário dizer. Vem de poema, sem autor conhecido, que diz: O senhor de La Palisse/ Pereceu frente a Pavia (uma comuma italiana)/ Pouco antes de morrer/ Podem crer, ainda vivia. Daí decorrendo conhecido provérbio português, Roma e Pavia não se fizeram num dia.

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O FALSO MISTÉRIO DO DR. UIP

Em 1981, François Mitterrand teve um câncer. Ao tratá-lo, o dr. Claude Gubler percebeu, no presidente da França, os primeiros sinais da esclerose. E decidiu contar isso num livro, Le Grand Secret (O Grande Segredo). A justiça proibiu sua publicação. Porque, no país, dados médicos são protegidos por 170 anos a contar da morte do paciente. Mas ele acabou na internet, em um cybercafé de Besançon. Por conta e risco de seu proprietário, Pascal Bar Baud. Logo, milhões de exemplares foram baixados. E em 2004, a Corte Europeia de Direitos Humanos condenou a França. Sob o fundamento de excessos ocorridos na obstrução da Liberdade de Expressão. Numa entrevista, sobre as razões de violar a Lei do Sigilo, o dr. Gubler sustentou que “o segredo médico tem limites”. Variando conforme a relevância pública do paciente. E completou com uma pergunta: “Até onde tem um presidente a capacidade de decidir sozinho?”. Já com sintomas iniciais de esclerose, entendeu seu médico que os franceses tinham direito de saber disso. Para, se fosse o caso, questionar as decisões que porventura tomasse.

Esse caso veio à lembrança, na semana passada, quando o cardiologista Roberto Kalil Filho e o infectologista David Uip tiveram coronavirus. Estão bem. Mas reagiram diferente, com relação aos tratamentos. Kalil assumiu que tomou cloroquina. Contra conselho de seu médico particular. Enquanto Uip preferiu ficar em silêncio. Mesmo após a exposição de receita em que se via também ter tomado. Para resguardar sua privacidade, assim disse. Sem se dar conta de que, sendo Coordenador do Centro de Contingência do Cononavirus, é responsável pelos doentes de São Paulo. E todos infectados de lá tem direito de saber como ele se medica. Para conferir se estão sendo tratados da mesma maneira. Como no episódio francês, temos só mais um abuso no Direito à Privacidade.

Ou, então, não quis foi desagradar o governador João Dória. Que sonha, obsessivamente, em ser o próximo presidente. Sem querer que se use uma cloroquina recomendada por aquele a quem antes servia, e hoje é seu inimigo mortal, Bolsonaro. Se o chefe não quer, dr. Uip obedece. Fareis tudo que seu mestre mandar?, dizia uma brincadeira de nossa infância distante. Ele fez. Tudo cercado por um grande mistério. Como dizia Federico Garcia Lorca (Sobre o Teatro), “todas as coisas têm seus mistérios”. Pois é…

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BOM SENSO, SENHORES

Esse vírus mudou nossas vidas. E o mundo inteiro. “O inferno tem suas leis”, dizia Goethe (Fausto). O historiador português António Araújo (Visão) sugere que, diferente de outras guerras, nessa “o inimigo é oculto, dentro de nós”. Como a sugerir que, de alguma forma, todos somos culpados. E precisamos estar juntos. O caso de Israel é exemplar. O Likud, de Netanyahu, apesar de ter feito maior número de cadevliiras, 58 cadeiras, não conseguiu maioria. Todos os demais partidos indicaram Benjamin Gantz, do Kachol ve Lavan, para Primeiro Ministro. Só que, por conta da crise, acabaram se acertando. Netanyahu permaneceu no cargo. E, no próximo ano, assume Gantz – que, até lá, preside o Knesset (Parlamento). Em grandes crises, os egos passam a ser secundários.

No Brasil, todos deveriam contribuir. A começar pelo Presidente. Ajudaria muito ficar calado. Sem dizer sandices. Desligasse o Twitter. Desse longas férias aos filhotes. E não fizesse tanta besteira (com o demite/não demite desta semana). Já governadores e prefeitos deveriam interromper, durante algum tempo, esse litígio pequeno, delirante e politicamente utilitário contra o Presidente, que vem desde antes da sua posse. O legislativo também contribuiria se adiasse a campanha golpista de Rodrigo Maia para Primeiro Ministro. E a grande mídia, sobretudo no Sul, deveria voltar a fazer jornalismo. O ministro Mandetta disse que os meios de comunicação andam “tóxicos”. Em alguns casos, “sórdidos”. Foi modesto, nos comentários. O momento é de apostar na convergência. Enquanto durar a crise. Apoiadores de Bolsonaro, por favor parem de se pautar só na reeleição. E opositores, esqueçam um pouco essa volúpia de tentar derrubar o presidente. Quando passar a tragédia, voltem a suas rotinas. Depois. Que o tempo, agora, é de união. Deveria ser.

Uma palavra final sobre os “panelaços”. Por haver, no revival do bater panelas, uma ironia. Melhor escolher outra forma de protestar. Essa, é quase um acinte. Posto que, findas as sinfonias latárias, voltam panelas amassadas para a cozinha dos apartamentos. Tantos de luxo. Onde lhes esperam comida boa e farta. Enquanto milhares de outras panelas estão vazias, em casebres modestos. O dos que convivem com a fome. São essas panelas vazias que precisamos ouvir. Não com os ouvidos, mas na alma. Bem dentro de nós. Bom senso pois, senhores.

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A PROCURA

Tereza queria enterrar seu filho. Mesmo sem saber onde estava o corpo, que se perdeu na Guerrilha do Araguaia. Sua vida passou a ser somente essa procura. Para piorar, começou a ter dores. Fez exames. O médico então lhe mostrou um raio-x, contra a luz fluorescente desses aparelhos que estão em todos os consultórios. E explicou: “Dona Tereza, infelizmente a metástase já tomou conta de tudo. A senhora tem, no máximo, dois meses de vida”. Assim, sem rodeios, como fazem os médicos americanos. Ela respondeu: “Morro não, doutor. Antes preciso enterrar meu filho”. A conversa não fazia sentido, para o médico. “A senhora me desculpe, acabei de mostrar seu câncer”. “Morro não. Pode ficar tranquilo”. E foi embora.

Quase cinco anos depois, ligou alguém do Governo. Encontraram ossada que, por local onde estava e características físicas, deveria ser Mário. Fizeram DNA. Tereza rezou para que os exames confirmassem aquilo que o coração já sabia. Encontrara seu filho!, Deus é pai. Mais longos dias de certidões e assinatura de papéis, após o que o corpo lhe foi entregue. Num caixão fechado. O velório acabou sendo quase uma festa. Diferente dos outros, nesse ninguém chorava. Era como se todos estivessem, de alguma forma, aliviados. Contentes, até. Pelo abandono daquele penar continuado. É melhor o fim de um espanto do que um espanto sem fim. Companheiros do passado foram lá se despedir. E Tereza realizou, afinal, seu derradeiro e definitivo sonho.

Antes que os pedreiros começassem aquele trabalho de fechar o túmulo, tijolo por tijolo, Tereza pediu a palavra e fez um pequeno discurso. Disse que estava feliz. E parecia estar mesmo, verdade seja dita. Agradeceu a todos por terem ido ao cemitério. Ali estava seu filho – e apontou, com o dedo, o lugar em que o caixão fora depositado. À direita – de novo apontou, agora para um espaço vazio –, ficaria ela própria. Em pouco tempo estariam juntos, os dois. Para sempre. Naquela noite, depois de muitos anos, Tereza dormiu verdadeiramente em paz. E nunca mais acordou.

P.S.: Esse texto, em memória torta ao Golpe de 1964, é uma história real. Está em livro que escrevi, Só Mente a Verdade (Record, Porto Editora). E virou filme, The Search, que concorreu no Festival de Berlim/20. A coluna é dedicada a todas as mães que, em qualquer momento da história, choraram por seus filhos.