A PROCURA

Tereza queria enterrar seu filho. Mesmo sem saber onde estava o corpo, que se perdeu na Guerrilha do Araguaia. Sua vida passou a ser somente essa procura. Para piorar, começou a ter dores. Fez exames. O médico então lhe mostrou um raio-x, contra a luz fluorescente desses aparelhos que estão em todos os consultórios. E explicou: “Dona Tereza, infelizmente a metástase já tomou conta de tudo. A senhora tem, no máximo, dois meses de vida”. Assim, sem rodeios, como fazem os médicos americanos. Ela respondeu: “Morro não, doutor. Antes preciso enterrar meu filho”. A conversa não fazia sentido, para o médico. “A senhora me desculpe, acabei de mostrar seu câncer”. “Morro não. Pode ficar tranquilo”. E foi embora.

Quase cinco anos depois, ligou alguém do Governo. Encontraram ossada que, por local onde estava e características físicas, deveria ser Mário. Fizeram DNA. Tereza rezou para que os exames confirmassem aquilo que o coração já sabia. Encontrara seu filho!, Deus é pai. Mais longos dias de certidões e assinatura de papéis, após o que o corpo lhe foi entregue. Num caixão fechado. O velório acabou sendo quase uma festa. Diferente dos outros, nesse ninguém chorava. Era como se todos estivessem, de alguma forma, aliviados. Contentes, até. Pelo abandono daquele penar continuado. É melhor o fim de um espanto do que um espanto sem fim. Companheiros do passado foram lá se despedir. E Tereza realizou, afinal, seu derradeiro e definitivo sonho.

Antes que os pedreiros começassem aquele trabalho de fechar o túmulo, tijolo por tijolo, Tereza pediu a palavra e fez um pequeno discurso. Disse que estava feliz. E parecia estar mesmo, verdade seja dita. Agradeceu a todos por terem ido ao cemitério. Ali estava seu filho – e apontou, com o dedo, o lugar em que o caixão fora depositado. À direita – de novo apontou, agora para um espaço vazio –, ficaria ela própria. Em pouco tempo estariam juntos, os dois. Para sempre. Naquela noite, depois de muitos anos, Tereza dormiu verdadeiramente em paz. E nunca mais acordou.

P.S.: Esse texto, em memória torta ao Golpe de 1964, é uma história real. Está em livro que escrevi, Só Mente a Verdade (Record, Porto Editora). E virou filme, The Search, que concorreu no Festival de Berlim/20. A coluna é dedicada a todas as mães que, em qualquer momento da história, choraram por seus filhos.

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  1. O PCdoB queria implantar um regime comunista maoista no Brasil e para tanto em 1964 enviou um grupo foi à China para realizar treinamentos de guerrilha na selva.

    Portanto quem ia para o Araguaia (a partir de 1967) sabia que não era simplesmente para combater o regime militar e sim para iniciar um regime ditatorial comunista.

    Em 05/05/1972 morreu numa emboscada, o cabo Odílio Cruz Rosa, da 5ª Companhia de Guardas de Belém. Seu corpo ficou uma semana no mato, sendo recolhido já em estado de decomposição, porque a guerrilha — destacamento C, comandado por Osvaldão — impedia o pequeno efetivo militar disponível na área de chegar ao local.[5] :114. Em 1973-74, na terceira e última campanha, por esse motivo os militares passariam a adotar a mesma prática, deixando insepultos na mata os corpos de guerrilheiros abatidos.

    Agora fica a pergunta: há alguma indenização ao cabo Odílio? Sua história virou filme?

  2. Todo esquerdopateta e/ou comunistóide adora criar um fantasioso dramalhão (bem piegas e choroso!!!) com a vida e morte de seus bandidos, sim, todos bandidos, não mais do que bandidos – tentando justificar o totalmente injustificável, a começar por seus atos sempre criminosos, quando eles/elas não se importaram (e, se ainda estão vivos, nem se importam!!!) com o que aconteceu e/ou acontece com os inocentes envolvidos.

  3. Prezado Dr. José Paulo,

    Apesar de todo o respeito e admiração que tenho pela sua competência e integridade moral, acredito firmemente que o senhor fez uma escolha absolutamente equivocada ao permanecer tecendo panegíricos aos terroristas que pretendiam nos transformar em uma nova Cuba ou Venezuela.

    Concordo piamente com o senhor quando se solidariza com todas as mães que perderam filhos, seja por que motivo for. Acho que não pode haver dor maior para um ser humano que a perda de um filho. Quanto à sua defesa, nem tão velada assim, das atitudes e ações daqueles que pretendiam (e continuam pretendendo) implantar um “Paraíso” socialista aqui no Brasil, sinto muitíssimo em dizer-lhe mas é prova de uma cegueira intelectual absolutamente abominável.

    Está me parecendo que as centenas de milhões de vítimas dessa ideia asquerosa não foram suficientes para lhe abrir os olhos para o destino miserável que o senhor deseja para nós. Vou alem e lhe digo que, se essa sua turma continuar insistindo com suas manobras abjetas para se contrapor à vontade da maioria de nossa população, e conseguir armar um circo para afastar nosso presidente regularmente eleito, apesar de todas as patifarias engendradas e realizadas pela turma da distopia socialista, juntamente com uma récua de aproveitadores, irão ter que enfrentar o mesmo destino que foi dado ao jovem do seu pungente relato.

    Eu mesmo estarei na linha de frente para passar fogo neles.

  4. Não preciso me estender além do que os outros comentaristas já disseram. Direi apenas:

    Quem se une voluntariamente à guerrilha, está disposto a matar. E quem está disposto a matar deve estar preparado para morrer.

  5. Ainda a pouco eu falava sobre um comentário que fiz numa publicação de um ex aluno. Ele, esquerdista, escreveu que a “ditadura militar veio pra não permitir a ditadura comunista” e eu brinquei com ele perguntando se era esse mesmo o interesse: uma ditadura comunista.
    O texto do Dr. José Paulo não a defesa de um regime e crítica ao outro. Zuzu Angel tornou-se internacionalmente conhecida não apenas por seu trabalho como estilista. A procura pelo filho, morto pelo regime, teve grande repercussão.
    Todo organismo tem seu sistema de defesa. Então, os “leucócitos brancos” do Brasil foi o regime militar, por essa tese que afastamos a ditadura comunista. Esse debate não terá fim, nunca. Sempre vamos falar de ação e reação, da defesa da soberania, etc…sempre vamos falar de mortos, sempre vamos falar de pais procurando filhos, e vice-versa.
    Ganhdi derrotou uma nação, um sistema, sem um tiro sequer, sem sequestro, sem assalto a bancos, sem explodir bombas.
    Muito bom o texto.

  6. O que passou passou, mães dos dois lados da moedas choraram a perda de seus filhos. Quanto a luta no Araguaia ,por dificuldades em retirar os mortos, alguns corpos foram enterrados no próprio local em que tombaram , havia lei para isso. Vamos torcer para que tais fatos jamais torne a ocorrer, em nosso país. Que o passado de ontem não sirva para reacender o ódio de hoje. Nos acontecimentos daquela época, todos perdemos e, ninguém ganhou, “vitoriosos ou derrotados”..

    • A página era para ter sido virada quando se promulgou a anistia, que deveria valer para os dois lados.

      Só que o lado da guerrilha resolveu reescrever a história segundo sua narrativa, fazer livros, filmes, concorrer a prêmios em festivais de esquerda (existe algum de direita?).

      Então temos que debater.

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