JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Simão Bacamarte, renomado cientista em Portugal e alhures, internou quase toda população de Itaguaí no seu manicômio – a Casa Verde. Por sofrer, assim pensava, de distúrbios mentais. Segundo Machado de Assis (O Alienista). Já longe da literatura, nosso destrambelhado Ministro da Educação chama os Ministros do Supremo de “vagabundos”. E o Ministro Celso de Melo, do Supremo, ofende Bolsonaro o comparando a Hitler – que trata, intimamente, por seu cargo de “Reichskanzler” (Primeiro Ministro). Agressões desnecessárias. Nenhum dos dois leu o jesuíta aragonês Baltasar Gracián (A arte da Prudência).

Em suas defesas, as autoridades brasileiras estão usando o mesmo argumento. De que seriam falas privadas. A do Min. da Educação, proferida em reunião classificada como Secreta – o que lhe garantiria 25 anos de reserva. Com publicidade determinada, em decisão monocrática, pelo próprio Min. Celso. Num processo que discute o eventual uso político da Polícia Federal. Sem que se possa entender razões para entregar, às TVs, gravações que nada tinham a ver com o processo sob seus cuidados. No caso do Min. Celso, tratava-se de conversa entre amigos. Por celular. E seu vazamento foi um descuido. A rigor, dois casos rigorosamente semelhantes. Ocorre que “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”, dizia Orwell (Animal Farm). E as consequências acabaram distintas. O Min. da Educação está sendo processado por Injúria. Enquanto o Ministro Celso, em palavras de Millor (A Bíblia do Caos), continua “livre como um taxi”. É razoável?

Simão Bacamarte, na novela, muda seu entendimento. Passando a considerar doentes mentais só aqueles que têm “comportamento regular e caráter reto”. E, nas cercanias de Itaguaí, o único homem assim era ele próprio. Razão pela qual decide se enclausurar na Casa Verde. Onde morre, 17 meses depois. Já em Brasília, os dois ministros deveriam ser processados. Ou nenhum. Apenas um deles, não é justo. O mais engraçado é ver um agressor, o Min. Celso, processando o outro, da Educação. Caso se pretenda mínimos de coerência, vai ter que escolher. Ou aceitar seus próprios argumentos e inocentar logo o da Educação. Ou não, e se autodenunciar. Imitando Simão Bacamarte. Para ser julgado por colega. Tudo se resume a só um enredo de Opera Buffa, que nem Machado de Assis seria capaz de inventar.

10 pensou em “A ARTE DA PRUDÊNCIA

  1. A concisão das hipérboles superadjetivadas dos ministros, enfocados pelo lúcido José Paulo é mais que opinião, é laudo de avaliação psiquiátrica!

  2. “Todos os colunistas do JBF são iguais, mas alguns são mais iguais que outros” Sancho Pança

    Tudo se resume a só culpado: Berto, ao reunir gigantes da prosa e do verso em um único espaço. Os melhores são apenas bons para o JBF? Pouco ético elencar o top 5 desta GAZETA, mas (bendito mas) Sancho colocaria seu texto, señor Cavalcanti em tal patamar.

  3. Texto excelente, de um excelente articulista.
    No meio da zorra que é a “Besta Fubana”, sempre encontramos pérolas e outras preciosidades.

  4. Prezado Dr. José Paulo,

    Mais uma vez, brilhante texto!

    Eu ia usar a palavra MAGNÍFICO mas, com a qualidade fescenina dos reitores de universidades que temos presenciado e conhecido, este termo ficou um tanto quanto desgastado. Foi só por isso que eu o evitei.

  5. Caro Dr. J. Paulo,

    Comparar as falas do Ministro Weintraub “por mim eu mandava prender os vagabundos do outro lado” com ministro STF Celso de Mello “este governo é o ovo da serpente da República de Weimar, que gerou Hitler”; é um tanto impróprio.

    Apesar de ambos terem se pronunciado em circuito fechado, Celso de Mello falou de alguém cujo julgamento está em suas mãos. Weintraub fez um desabafo sobre algo queele não tem a menor interferência.

    Seria Celso de Mello isento para dar sentença sobre alguém que, mesmo em circuito fechado, já julgou comparável ao Hitler?

  6. Excelente artigo.
    No caso, os dois deveriam ser processados.
    Porém, cabe ao Bolsonaro processar o Celso de Mello, o que não fez.
    Já Celso de Mello foi atrás de punir o Weintraub.
    O problema não é o caso de “dois pesos e duas medidas”, e sim um acorvadamento do Bolsonaro na hora de agir.
    Se ele processasse todos os que o chamaram de nazista, fascista, genocida e tantos outros epítetos, após as condenações os ofensores rapidamente se educariam.
    Mas Bolsonaro não faz isso nem dá exemplo à população.
    Talvez, Bolsonaro se educará após tomar algumas bordoadas jurídicas e políticas.
    Já acabou a campanha eleitoral. Ele ganhou, alguém tem que avisar isso a ele.
    Se alguém o ofender, ou ofender sua família, que processe o ofensor. Simples assim.
    Porém, parece-me que a intenção é sempre ter um palanque.
    O problema ocorre quando o palanque se transforma em palco.
    Em palanque, deveriam subir autoridades.
    Em palco, sobem artistas…

  7. O que o Bolsonaro deseja é ter uma milícia armada, pronta a defender suas posições. Mar teve exemplos anteriores: Hitler (camisas pardas), Mussolini (camisas negras) e mais recentemente Maduro (milícias bolivarianas).

    Tudo farinha do mesmo saco.

  8. ARTE E PRUDÊNCIA é o que jamais vão existir na política brasileira.

    “Em Esculhambação, sim. Frescura, não!” o filósofo cearense Falcão define com precisão em letra de música escrachada porque nunca vai haver esse bom senso político no Brasil. Porque tudo gira em torno de propina, conchavo, troca de favores, toma lá, dá cá, tirar vantagem em tudo e puta que o pariu para os poderes constituídos.

    ALIÁS, PUTA QUE O PARIU PARA O POVO!

    Políticos no Brasil são sinônimos de bandidos, talvez com raríssimas exceções.

    O artigo do Dr.º José Paulo é uma reflexão sem retoque sobre a arte da prudência, mas como estamos assistindo: quando vai haver arte e prudência entre os três poderes no Brasil se o decano do STF desmoraliza o Judiciário com decisões estapafúrdias e o Ministro da Educação caga pela boca?

    “O Brasil é um país que funciona de cabeça para baixo.”

    O Brasil é o único país do mundo onde os políticos não levam nada a sério.

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