Em 5/6/1989, na Praça da Paz Celestial (Beijing), um pacifista se postou em frente a tanque chinês Type 59. Pouco se conhece dele, além das fotos que correram mundo. Seria, especula-se, Wang Weilin. Um estudante de 19 anos. O “Rebelde Desconhecido”, segundo a Revista Time, por ela incluído na lista das “100 pessoas mais influentes do século”. Agora, morando no interior da China. Ou em Taiwan. Ou, talvez, nem vivo esteja mais. Ocorre que ele nunca seria capaz de parar um tanque. Isso, poderia fazer apenas quem o dirigia. O que não se diz é que esse militar, de quem sequer se conhece o nome (o governo chinês, apesar de instado, jamais revelou), desobedeceu as ordens de avançar sobre o rapaz que protestava. Preferiu seguir sua consciência. Evitou uma morte. E, no dia seguinte, acabou fuzilado. Como dizia Albert Schweitzer (De Minha Vida), “só há heróis de renúncia e sofrimento”.
O fato é lembrado em Riccardino – derradeiro livro de Andrea Camilleri. com o comissário Salvo Montalbano. E seus exóticos assistentes – Catarella, Fazio, Mimi Augello. Em Vigata (no mundo real Porto Empedocle, cidade bem no sul da Itália). Maior sucesso editorial do país, 20 milhões de exemplares vendidos e traduzido em 30 idiomas. O livro, de 2005, foi reescrito pelo autor, já cego, em 2016. Com recomendações, ao editor, de ser publicado só após sua morte. O que acabou acontecendo apenas em 16/7 último. Destaque, no Brasil, para a magnífica tradução do Ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, do STJ. No gênero, sem dúvida, hoje o melhor tradutor do país.
Curioso, no livro, é uma sucessão de passagens que, referindo-se à Itália daquele tempo, lembram nosso Brasil de hoje. A arte, de vez em quando, parece imitar a vida. Cito algumas: “O Bispo Partanna é um vivaldino. Eu não tenho esse defeito. Ou essa virtude, dados os tempos que correm”. “Hoje, aos olhos de opinião pública, infelizmente, dizer que uma pessoa é investigada significa que já é condenada”. “O sujeito, em vez de estar na cadeia, estava é no governo”. “O mundo político se afogou numa onda anômala de prisões, de condenações por propinas, subornos, corrupções, concessões e mamatas”. “Escapou fedendo de 3 processos, sempre por prescrição superveniente”. Para terminar, um amigo pergunta ao comissário, em caso de corrupção, “Você está certo de que poderia levar a término uma investigação assim, hoje em dia?” Considerando nosso atual Supremo, de Toffoli (Deus nos proteja), alguém responderia sim?
Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1908. Meu querido Nabuco. Espero que os ares de Hamilton, nessa fria Mass., estejam lhe fazendo bem. Junto com minha carta de 1º de agosto, mandei um exemplar do romance Memorial de Aires. Será meu derradeiro livro. Mário de Alencar fez a fineza de ler, para mim, todas as cartas que trocamos. Ele é meu filho (uma das lendas, sobre Machado, é que Mário seria filho não do amigo e escritor José de Alencar. Mas dele, Machado). Assim o considero. Tuas, contei, foram 21. Minhas, 31. Esta, que escrevo por mãos dele, será minha última. Estou morrendo.
Aproveito e faço, agora, um pequeno inventário íntimo. Começo por reconhecer que a Academia Brasileira de Letras, que ajudei a criar e onde agora vou tão pouco, só me deu alegrias. Ter sido seu primeiro presidente foi, sobretudo, um enorme prazer. Tenho saudades da nossa Panelinha (a expressão panelinha vem daí. Intelectuais se reuniam com frequência, a partir de 1901, sempre em torno de Machado. Os almoços eram servidos em uma pequena panela de prata que acabou dando nome ao grupo).
Dos fatos que me vêm, lembro especialmente de um. Por volta de 1855, deixei de ir, nos finais da tarde, à Livraria Garnier. Amigos descobriram que, nessa hora, frequentava certa casa. Muitos imaginavam tratar-se de algum amor secreto. Ou viam algum outro mistério, nessas ausências. Não sabiam é que ia só contemplar um quadro admirável do Roberto Fontana, que tem como título La Donna che Legge. Infelizmente, caro demais para minhas posses. E qual não foi minha surpresa quando o recebi, pouco depois, doado por sete amigos no Soneto Circular, Machado cita seus nomes. Pela ordem, nos versos: “Horácio, Heitor, Cibrão, Miranda, C. Pinto, X. Silveira, F. Araújo”. O soneto começa assim: “A bela dama ruiva e descansada,/ De olhos longos, macios e perdidos”. E encerra com esse terceto: “Mandam-me aqui para viver contigo./ Ó bela dama, a ordens tais não fujo./ Que bons amigos são!. Fica comigo”. Serei sempre grato a todos por tanto afeto.
Escusas para narrar um episódio curioso. De poderes a mim atribuídos que não tenho. Tudo começa pelo fato de que recebo, todos os dias, muitas cartas. Quase todas sem importância. Por não ver sentido em guardá-las, nem desejar que caiam em mãos alheias, uma vez por semana as queimo em um caldeirão de bronze (o caldeirão, e o quadro, estão hoje na Academia Brasileira de Letras). Por conta disso a vizinhança começou a me chamar de bruxo. Nada a ver com vivissecção de ratos ou sair voando por janelas (o comentário decorre de um poema de Drummond, A um Bruxo com Amor: “E ficas mirando o ratinho meio cadáver/ Com a polida, minuciosa curiosidade de quem saboreia por tabela/ O prazer de Fortunato, vivisseccionista amador…/ E qual novo Ariel, sem mais resposta,/ Sais pela janela, dissolves-te no ar”), claro. A essa designação, logo agregaram o nome da rua em que vim morar (Rua Cosme Velho 18, Rio), depois que deixamos o Catete. Passei a ser, então, o Bruxo do Cosme Velho. Acho divertida essa história. E gosto de ser chamado como tal. Deixe-se ficar, então.
Mas os tempos bons se foram. E tudo, hoje, vai de mal a pior. A epilepsia me causa cada vez mais problemas. Nunca referi essa doença para qualquer pessoa. Nem escrevi sobre ela, salvo pequena passagem na primeira edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Já na segunda, onde estava “rolar pelo chão, epilética”, pus “rolar pelo chão, convulsa”. Espero que a crítica não note isso. Fosse pouco, e ando às voltas com uma úlcera cancerosa na boca. Esforço-me por não deixar os mais próximos perceber o quanto dói essa moléstia. Minha casa, nos últimos tempos, se converteu num velório a céu aberto. Com amigos, muitos. Mas também desconhecidos que aqui vêm, por mera curiosidade mórbida, só para ver onde morei. Um horror. Em sua última carta, você me deu bela lição de vida: “Não se lembre dos 70 e terá 40”. Mas é tarde, para mim. Tarde demais.
Depois que minha mulher faleceu, por pessoas próximas soube que dizia preferir ver-me morrer primeiro. Mesmo sendo cinco anos mais velha que eu. Apenas por saber da falta que me faria. A realidade foi talvez mais penosa do que ela pensava. Sua falta é absoluta. Já não tenho quem me leia jornais e livros. Ou me ampare. Ou apenas fique a meu lado. A solidão é opressiva. Melhor herança é Graziela, uma pequena cadela Tenerife que adotamos – já que não nos foi dado ter filhos. Todos os domingos vamos, juntos, ao túmulo de minha tão querida Carolina, no Cemitério de São João Batista. É onde espero ser enterrado. A seu lado (assim se deu). E se tudo acontecer como pressinto, parto amanhã.
Começo a pensar no destino de minhas obras, caro Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo. Esta semana, alguns amigos que me vêm sempre consolar fizeram entrar, no meu quarto, um rapazinho que nem 18 anos tinha. Não disse nada. Apenas ajoelhou-se ao pé da cama, tomou minha mão e deu-lhe um beijo. Após o que, sem sequer me dirigir um olhar, foi-se embora. Fiquei emocionado pela reverência. E pedi ao José Veríssimo para saber quem era. Chamava-se Astrogildo Pereira (que, mais tarde, seria um importante jornalista). Levarei esse nome comigo. Gestos assim me fazem acreditar que, considerando tudo quanto escrevi, não serei esquecido por algum tempo. Quanto?, não sei. O futuro dirá.
O que penso ninguém sabe é que, por muitos anos, estudei as leis. Todas as noites. Apaixonadamente. A ponto de, imagino, estar habilitado a tornar-me advogado. Por essa razão, em minhas obras, empreguei numerosíssimas expressões jurídicas. No conto O Programa um personagem, Romualdo, até antecipa essa vontade ao sonhar “que seria citado algum dia entre os Nabucos, os Zacarias, os Teixeiras de Freitas, etc. Jurisconsultos”. Era de mim que falava. Meu maior desejo é que, no futuro, alguém me faça justiça. Algum advogado, talvez, que o perceba. Isso me causaria grande alegria. E, se assim for, serei sempre grato a ele.
É tudo. Você é meu maior e mais íntimo amigo, por favor creia nisso. Agora, estou cansado. A perda de C. foi um desastre. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei tempo em recordá-la. Irei vê-la, breve (Machado, nascido em 21/06/1839, morreria no dia seguinte ao que escreveu, em 29/09/1908). E, diferentemente das outras cartas, me despeço agora de maneira diferente. Adeus. Amº do C. Machado de Assis.
P.S. Início de Prefácio para o livro Machado de Assis Criminalista, de Nilo Batista. A carta é falsa. Mas todas as informações são verdadeiras.
Estou escrevendo livro que vai ter esse título. Reunindo conversas que tive, pela vida, com todo tipo de gente. Ia dizer desde Presidentes da República até pessoas modestas. Mas logo percebi o erro. E já corrigi. Que muitos dos simples são personagens que valem a pena. E nem todos os Presidentes são grandes homens. Como palavras da abertura, fiz esses versinhos: Tem conversa que é de pai/ Conversa pra um irmão/ Conversa de padre santo/ Conversa de assombração/ Conversa de paz e amor/ Conversa de confusão/ Conversa de prato caro/ Conversa café com pão/ Conversa de vida boa/ Conversa de solidão/ Conversa de amor a Deus/ Conversa na lei do cão/ É um bom, outro ruim/ Esse mundo é mesmo assim/ Viva tu e viva mim/ Viva Dom Sebastião. E decidi reproduzir, aqui no JBG, algumas dessas conversas. Na esperança de que o amigo leitor sinta, quando ler, pelo menos um pouco do prazer que tive ao participar delas. Aqui vão as primeiras:
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Padre EDWALDO GOMES, de Casa Forte. Chegamos ao Hospital Memorial São José. No quarto, o padre Edwaldo parecia bem disposto. E fui logo dizendo:
– Maravilha, pastor. Imagino como deve estar contente.
– E por que?, José. Estou aqui cheio de fios…
– É o seguinte. O amigo passou a vida inteira sonhando em encontrar com o Pai Eterno. E agora, quando esse momento está tão próximo, deve ser o homem mais feliz do mundo.
– Vade retro, José. Pare com isso que não tenho pressa.
E se benzeu – Pai, Filho, Espírito Santo.
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ELIAS SULTANUM, santeiro. Ligou para saber do Coronavirus.
– Como estão?
– Muito bem.
– Graças.
– Adeus.
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JOSUÉ DE CASTRO, autor de Geografia da Fome. Em seu apartamento de Paris, à beira do Sena. Alí, cumpria seu destino de exilado. Fim do jantar, começou a tomar comprimidos. Eram 12, escondidos entre os talheres de sobremesa (que ia pondo bem devagar, na boca; um comprimido, e um gole de água). Dava para contar, sem nem perceber. Então perguntei:
– Para que isso, Dr. Josué? O senhor está tão bem.
– Estou não, meu filho. Estou morrendo!
– De que?, Dr. Josué.
– De saudade.
Josué de Castro ia fenecendo, cada dia um pouco, por não poder voltar ao Brasil. Dois meses depois, como previu, acabou morrendo. Saudades.
A história se repete mesmo. Razão para Maquiavel (O Príncipe), mais que Marx (18 Brumário), para quem seria sempre farsa. Prova é que esse ficar em casa, por conta da pandemia de agora, já aconteceu antes. O personagem, que comprova essa repetição, é Miguel Arraes. Tirando os da família, conheci poucas pessoas que o chamavam assim, de Miguel. Como Severino Farias, fazendeiro de algodão em Surubim, pai de Antônio Farias (marido de Geralda). Carlos Duarte, velho comunista que sobreviveu, na Ditadura, vendendo selos Olho-de-Boi da sua coleção. Waldir Chimenes, casado com uma prima de Arraes (dona Ivone). Miguelzinho Batista, gigante com pouco mais de metro e meio de altura, seu fiel ajudante de ordens. E Zadock Castelo Branco, um jornalista excêntrico que ainda tinha o desplante de dar tapinhas na sua barriga enquanto dizia “pessedista velho, com uma tinturazinha marxista”. Para o resto da humanidade foi, sempre, dr. Arraes. Ou Pai Arraia, na boca de seu povo. Gente simples que, naquele tempo, invocava sua proteção para tudo. E até chá caseiro fazia, com seus santinhos de eleição, para curar males variados – resfriados, saudades, barrigas d’água, dores nas juntas, remorsos.
Esse caso, que agora conto, começa em 1964. Quando dr. Arraes é cassado pela Redentora. Preso em Fernando de Noronha, liberta-se apenas em maio de 1965. Seu advogado, Sobral Pinto, sugere que melhor seria o exilio. E, em 17/06/1985, acaba em Argel, a Princesa da África Francesa. Por mãos do Presidente Ben Bella – um exótico ex-jogador de futebol que chegou a estatizar os salões de barbeiro do país. Dia seguinte à chegada, um golpe militar colocou, na chefia do governo, Houari Boumédiène – até então, seu Ministro da Defesa. Mas nada mudou, para Arraes. A casa de dois pavimentos que ocupava, no Bd. Franklin Roosevelt, era parte dos domínios do Palais d’Eté. Vizinha de muro com o próprio Palácio do Governo. Havia um permanente clima de conspiração, entre os exilados brasileiros. Dr. Arraes, segundo se dizia, comandava um Movimento Popular de Libertação – que teria 200 mil homens em armas, no Brasil, prontos para entrar em ação. Sem prova disso, até hoje. Enquanto o Coronel Jefferson Cardim morreria esperando apoio, de Fidel, para invadir a Amazônia. Quando era grande a saudade, vestia farda e passeava, todo paramentado, pelo kasbah de Argel.
Mas o melhor, naquele tempo, era mesmo o bom e velho biriba de quase toda noite. No Bd. Telemly. Em duas mesas de apartamentos com salas contíguas. Num, moravam o Deputado Federal cassado Maurílio (e Ana Angélica) Ferreira Lima e o engenheiro Aécio (e Walkíria) Gomes de Matos. Hoje, na Revista Será?. No outro, o arquiteto Lopes (e dona Mimi). Portugueses, naturalizados brasileiros, que trabalhavam na construção da Universidade de Constantine. Às bordas do Saara argelino. Muita gente aparecia, por lá. Como o arquiteto Oscar Niemeyer, grande especialista no jogo. Tanto que implantou um sistema esquisito, de contagem de pontos, conhecido como “Regra Niemeyer”.
Noite de 04.11.69. Walkíria descarta um 3 de copas. Dr. Arraes era respeitado, na mesa, por ganhar mais que perder. Foi sempre assim, na vida. Próximo a jogar, põe a mão na carta. Mas o rádio interrompe seu gesto. Anunciando o assassinato, em São Paulo, de Carlos Marighella. Todos ficam paralisados. Dr. Arraes eleva seu olhar, até fixar um ponto impreciso da parede. E, com voz embargada com que (se supõe) são ditas as frases históricas, sentencia: “Devemos voltar à Pátria, para comandar a guerrilha revolucionária que vai redimir o povo brasileiro”. Silêncio sepulcral. E o jogo parado. Passados alguns segundos Maurílio, sem se preocupar com essas palavras, vira-se para ele e diz: “Acabou?, Arraes. Então joga!”. A vida então seguiu, naquele quase fim de mundo, em sua trilha perversa de ilusões perdidas e esperanças vãs. “E o universo/ Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança”, palavras de Pessoa (Álvaro de Campos, na Tabacaria). O povo brasileiro poderia esperar um pouquinho mais. Dr. Arraes pega o 3 de copas. Olha, sorrateiro, para os adversários. Ri baixinho. E diz “Bati”.
A Câmara dos Deputados vai votar Projeto, aprovado pelo Senado, de uma Lei da Internet (2.630/2020). Na contramão da história. Porque problemas globais devem ter soluções globais. Vem sendo sempre assim. Como nas guerras, que nos fazem lembrar definição de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, Ode Marcial): “Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues/ Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror”. E mesmo elas mereceram uma sucessão de tratados. Sobre feridos com proteção da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (em 1864). Sobre tratar prisioneiros com humanidade e respeitar religiões (1939). Sobre a proibição de usar escudos humanos (1949).
Já nas comunicações, havia só o Telecomunications Act dos Estados Unidos (1901). Nenhum outro país tinha lei similar. Até que veio, em 16/4/1912, o naufrágio do RMS Titanic. Não propriamente um acidente náutico. Mas das comunicações. Que os passageiros morreram, quase todos, por hipotermia. Congelados nas águas glaciais do Atlântico Norte (a leste da Ilha da Terra Nova, Canadá). Num percurso de duas horas e 40 minutos em que tudo poderia ter mudado. Entre 23:40 do domingo, quando o navio atingiu um iceberg; e 02:20 da segunda, quando afinal afundou. Por haver quatro navios a menos de uma hora do local. Um, a menos de 30 minutos. Se qualquer deles tivesse chegado a tempo, e com certeza haveria bem menos perdas que os 1.496 (dos 2.435 passageiros e tripulantes) que lá deixaram suas esperanças. Ninguém, talvez. O Carpathia chegou ao local só hora e meia depois de tudo consumado. E já era tarde. Problema foi que ninguém ouviu o Mayday do Titanic. O que levou à definição das frequências, na Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar – SOLAS, de 1914. Na qual, entre outras providências, acabou se reservando faixa que passou a ser usada só para comunicações de socorro.
Com Títulos de Crédito deu-se o mesmo. No Brasil, eram regulados pelos Decretos 2.044/1908 e 2.591/1912. Cada país tinha suas normas. Com graves problemas para a internacionalização do comércio. Até que veio a Convenção de Genebra, em 19/03/1931. Quando todos passaram a ter uma só e mesma Lei Uniforme sobre Cheques e outros Títulos de Crédito. Em que brilhou a única invenção reconhecida incontestavelmente, como brasileira, por todos os países. A Duplicata Mercantil.
A internet precisa de algo assim. Planetário. Mais abrangente. Para que o sistema possa funcionar corretamente. Em vez apenas de regulamentação por países isolados. Maior problema, que dificultava um grande acordo, era o controle dos endereços. Algo particularmente importante por ser finita, essa quantidade. Decorrendo, sua distribuição, de uma demanda mais econômica (privada) que social (pública). E, sobretudo, por permitir (em tese) interferências políticas – como tirar do ar um endereço específico, ou um conjunto inteiro de endereços (por exemplo, um país).
Ocorre que esse assunto já foi resolvido. Com o término, em 1º/10/2016, do contrato entre Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números – ICANN e Administração Nacional de Comércio dos Estados Unidos. Passando o ICANN, uma organização global sem fins lucrativos, a ser responsável por coordenar manutenção e procedimentos das várias bases de dados relacionados aos espaços de nome e espaços de números na internet. Garantindo uma gestão estável, e segura, da rede. Esse grande acordo internacional virá, cedo ou tarde, por uma razão simples. A de ser inevitável que venha.
Ruim, no caso, é que nossos congressistas pensam o Brasil a partir de seus próprios interesses. Leis contra a corrupção, para que? Prisão em segunda instância, para quê? Acabar cartórios privados, para quê? Limitar salários de certas castas de servidores públicos, para quê? Fim do Foro Privilegiado, para quê? Ninguém tem pressa nisso. Mas regular um espaço de Liberdade, como a internet, é diferente. Porque sentem-se ameaçados. E querem, com celeridade máxima, ver tudo sob controle. Na prática é como se, de uma forma torta, quisessem copiar a China. Onde uma Polícia da Internet tem acesso a tudo que circula nas redes. O número de funcionários públicos, dedicados a isso, não é divulgado. Mas, para uma ideia de grandeza, especula-se que poderia ser algo entre 30/50 mil e 2 milhões. Alocados na Administração do Ciberespaço da China e outros órgãos estatais.
O que se alega, por aqui, é mais singelo. Apenas que deva ser um antídoto contra mentiras. Todas? Que nada, leitor amigo. Só as da internet (art. 1º). Ao menos todas as da internet, então? Nada. Só as das grandes redes, a partir de dois milhões de usuários (art. 1º, § 1º). Deixando fora, mesmo quando sistematicamente divulguem mentiras, empresas jornalísticas tradicionais (art. 5º, § único). Para ter apoio nos seus editoriais, é lícito especular. E tudo sob a supervisão de um Conselho de Transparência e Responsabilidade na Internet (arts. 25/29). No qual terão assento Senadores e Deputados, era previsível, mais algumas corporações de suas escolhas. Em tudo lembrando o Grande Irmão de Orwell (1984).
Mais grave é que o Projeto foi aprovado, no Senado, sem qualquer debate. Uma conspiração do silêncio. Passando a sensação de que pretendem, sobretudo, inibir a circulação de ideias. Especialmente quando façam críticas, ou se refiram, ao poder – grande mídia, partidos políticos, parlamentares, autoridades em geral (entre elas, Ministros do Supremo). Ou pretendam substituir as campanhas políticas tradicionais. Movidas a grana. Ou pelo poder das corporações – igrejas, sindicatos, a máquina do Estado prestando serviço a seus protegidos. Em vez desse outro tipo de comunicação, nas redes sociais. Menos susceptível à corrupção. Mais aberta. Mais democrática. Uma limitação que é péssima para a Liberdade. Como se a intenção fosse colocar tornozeleiras eletrônicas na internet. Imitando Fabrício Queiroz e outros. Para constranger seus movimentos. E seu alcance.
No fundo, é como se voltassem à velha e conhecida “musa da censura”, como a definia George Steiner (Linguagem e Silêncio). Podendo, ainda, ficar armazenados “todos os conteúdos” que estiverem nas redes (art. 6º), nos celulares (art. 10), nos e-mails (art. 32). Para ser utilizados sabe Deus quando. Ou como. Ou por quem. O que significa, para aproveitar título do livro de Arthur Miller, um Assalto à Privacidade. É pena. Amanhã, talvez demasiado tarde, saberemos o preço que a Democracia brasileira vai pagar para atender à conhecida e complexa teia dos pequenos interesses que habitam o Congresso Nacional.
Numa conversa com James Whistler, Oscar Wilde confessou que gostaria de ter dito uma certa frase. Whistler, conhecendo o amigo, lhe consolou: “Vai dizer, Oscar. Você vai dizer”. Em alguns casos, temos só acidente. Por exemplo jornais atribuem, a Edmar Bacha, a frase “O câmbio foi feito por Deus para humilhar os economistas”. Como ele próprio. Inútil insistir não ser o autor. E nem é sua primeira vez com problemas assim. Antes escreveu, no Jornal do Brasil, que “Recessão é quando sobra cada vez mais dias no fim do salário”. Millor reivindicou a autoria. E Bacha, com o bom humor de sempre, acabou propondo variante para sua máxima: “Recessão é quando sobra cada vez mais plágio no fim da originalidade”.
Millor também foi telhado. Começou coluna, em Veja, dizendo: “Uma coincidência saiu a passeio. E encontrou uma explicação. Uma velha explicação. Uma explicação tão velha que mais parecia uma charada”. No dia seguinte lhe mandei cópia da primeira frase de Silvie and Bruno, romance de Conan Doyle. Junto, uma observação: “Como Doyle nasceu em 1859, de quem será essa frase?”. Resposta engraçada: “Dele, claro. Pior é que uso faz mais de 30 anos. E até considero uma das minhas melhores”. Prima do plágio é o fake. Como um poema lastimável (Depois de Tudo) que circula, na internet: “De tudo ficaram três coisas/ A certeza de que estamos sempre a recomeçar/ A certeza de que é preciso continuar/ A certeza do que podemos ser interrompidos antes de terminar…” – e por aí vai, em autoajuda piegas. Com foto do suposto autor, Fernando Pessoa. Que deve estar se rebolando, indignado, no mausoléu dos Jerônimos. Para sua sorte é de outro Fernando. O Sabino. E está em seu livro Encontro Marcado. Ainda bem.
Outro fake foi esclarecido, agora, pelo querido Cristovam Buarque. Ao lembrar que esse horror do Gabinete do Ódio nasceu, no “Governo Lula, dos radicais a serviço do PT”. Sendo, ele, uma das primeiras vítimas. Depois de votar pelo impeachment de Dilma, passou a receber ácidas e mal-educadas críticas de amigos e desconhecidos. Até suas netas sofreram, na escola, com cartazes dizendo “Seu avô é golpista”. Nosso governo de hoje está se especializando em copiar o pior dos que vieram antes. Tanto que, em 08/07, Facebook e Instagram cancelaram “uma rede de contas e páginas do PSL”. E WhatsApp antes, em 25/6, também 10 do PT. Pagas com grana da cota parlamentar de Gleisi Hoffman, presidente do partido. Dinheiro de nossos impostos a serviço do mal. Só mesmo rindo. Para encerrar lembro Lavoisier, autor da famosa Lei da Conservação da Matéria, que disse: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Só para ver adaptada, por Chacrinha, em mistura de plágio e fake: “Na televisão, nada se cria, tudo se copia”. E na política também, é o que parece.
Marcel Proust dizia que “Todo leitor é o leitor de si mesmo” (O Tempo Redescoberto). Mais amplamente, o leitor se reconhece (ou não) no texto que lê. Semana passada, por exemplo, escrevi texto defendendo que estátuas não devem ser vandalizadas, por representar um momento da história. Como livros não devem ser queimados, mesmo quando sustentem ideias com as quais não concordamos. Os leitores fizeram comentários, muitos e ricos. Seguem alguns, como prova: Adail Augusto Agostini: “Querem pregar moral de cuecas”. Admaldo Matos: “Falta cultura histórica para saber que os homens, mesmo os mais virtuosos, pecam. Lembro que Tomás Morus, na sua Utopia, admite a escravidão. É um retrato da época”. Alfredo: “Essa desconstrução vai desembocar no isolamento das pessoas em tribos”. Aninha de Duda Guennes, desde Lisboa: “E o Cabral ainda não foi abaixo? Ou não tem estátua por aí?”. Cícero Tavares: “As reflexões me remetem à figura de Lampião (herói ou bandido?)”. Deco: “Thomaz Jefferson, e outras personalidades daquela época, são apagadas. A história de um país é eterna, tal e qual um diamante”.
Gustavo Krause: “Faz parte da estupidez ideológica a simples constatação de que a homenagem é prestada ao ser humano. Merquior afirmava que quem não conhece o passado está condenado a sofrê-lo como destino”. Ignez Barros: “É preciso preservar estátuas, monumentos e livros, para assegurar a integridade histórica, cultural e democrática de um povo”. Jesus de Ritinha de Miúdo: “Pois olhem que aqui no RN estavam organizando a derrubada da estátua de Câmara Cascudo. Essa juventude de hoje, salvando raríssimas exceções, não cria porra nenhuma e vive de copiar o que vê lá fora”. João Francisco: “As esquerdas aprenderam a destruir estátuas com os talibãs, ou foi o contrário?”.
Marcelo Cerqueira: “As Pirâmides no Egito, e a Grande Muralha na China, em que morreram dezenas de milhares de trabalhadores, deveriam então ser destruídas?”. Ronaldo Ferreira: “Radicais seja de direita, esquerda ou de centro, perdem a visão periférica que lhe permite ver além do seu estreito desejo, tornando tudo fora da sua visão como imoral ou indecente”. Vamireh Chacon: Quando os turistas passam pela grande Praça da Concórdia (Paris), ignoram completamente que ali no meio, onde está um obelisco, foram guilhotinadas milhares de pessoas, além de um rei e uma rainha. Walter Manzi: “Será que todo o movimento de reação conservadora não está levando a um colapso das reações humanas? Será que o excesso de liberdade, praticado por décadas, também não levou à reação conservadora? O que nos tornamos? Pessoas (gentis) de máscaras?”
Uma estátua de Colombo, por conta do genocídio dos povos nativos americanos, foi decapitada (em Boston). A de Cervantes desfigurada, pintados seus olhos com sangue (São Francisco). A de George Washington acorrentada, pichada e coberta com um capuz branco (Chicago). A de Gandhi, em razão de comentários racistas que fez nos tempos da África do Sul, vandalizada (Leicester). A de Churchill, em frente ao parlamento, pintada com a frase “era um racista” (Londres). Em Portugal, Bloco de Esquerda (no parlamento) e movimentos populares, sob o lema “Descolonizar nossa cultura”, protestam ruidosamente contra Vasco da Gama e o Padre Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, que teriam sido complacentes com a escravatura.
Por toda parte, mitos do passado estão recebendo pesadas críticas de setores sociais organizados. Na internet, para quem interessar, há relação de quase uma centena de estátuas depredadas (list.statues.topple). E tudo é muito discutível. Que nenhuma figura importante sobrevive a uma pesquisa minuciosa sobre tudo que fez ou disse, pela vida. Desde os filósofos gregos. E bom exemplo seria Platão. Para Bertrand Russell (História da Filosofia Ocidental) um “aristocrata”, “abastado”, “fingido”, “a favor da eugenia”, “a quem trato com pouquíssima reverência”. Mesmo expressivas figuras religiosas, basta ler a Bíblia. Proponho um teste, amigo leitor. A partir de citações na obra de um autor consagrado. O desafio é decidir se ele deve ser homenageado ou enxovalhado.
Esse autor, para começar, louvava os homens de posses, “respira-se melhor quando se é rico”. E apoiava a escravatura, “ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem”. Para ele, Deus é “um velho estúpido e doente, sempre a escarrar no chão e a dizer indecências”. Religião, só “pompa morta à sombra”. Escrevia como um homossexual, declarando ter “vontade de ser a cadela de todos os cães e eles não bastam”. Dizia que os funcionários públicos eram “nomeados para não fazer nada”. Considerava deputados “gado vestido nos currais dos Deuses”. Criticava a mídia, “não pode haver moral no jornalismo. Ora porra! Então a imprensa é esta merda que temos que beber com os olhos?”. E pensava ser, “a democracia, o mais estúpido de todos os mitos”. O leitor ainda estaria disposto a ler, ou elogiar, alguém assim?
Pois bem, senhores. Esse autor é Fernando Pessoa. Maior escritor português. Ele sozinho ou ao lado de Camões, como preferir. Engraçado é que, para quase todas essas frases, podemos também encontrar, na sua obra, outras em sentido contrário. Por exemplo disse, da escravatura, que era “uma maldição, vergonha que com o tempo cresce”. E, em louvor de Deus, escreveu Prece que encerra dizendo: “Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim”. Por ser, o poeta, um ser contraditório. Que vai mudando, a partir do ambiente em que vive. Ou do que sente, em cada momento. Quanto a mim, reitero que jamais deixarei de ler, de me espantar e de reverenciar Fernando Pessoa.
Estátuas e monumentos não deveriam, nunca, ser destruídas. Assim como livros não devem ser queimados. Por funcionar como espelhos do pensamento então vigente. Essas desconstruções não fazem sentido. Mesmo reconhecendo tratar de temas sensíveis, pelo simbolismo que carregam. Devemos refletir se, para conhecer a história, será sempre necessário reescrever essa história em uma nova narrativa. Que para aprender com o passado, tudo sugere, melhor será conhecer bem esse passado. Parte de um patrimônio cultural valioso. Sem contar que derrubar estátuas, ou censurar livros, não muda o mundo no qual vivemos. Para isso melhor solução é menos apartação social, educação de qualidade e, sobretudo, mais democracia.
Seu José veio, do interior, para conhecer o verde mar de Boa Viagem. Vestiu um calção velho e foi provar o gosto daquela água com a qual sonhou toda vida. Mas, assim que deu o primeiro mergulho, encostou uma patrulha. “Não sabe que é proibido?, vagabundo. E o Covid?”. Seu José, inocente, “Estou só tomando um banho salgado”. “E ainda tem a coragem de nos insultar, dizendo Abaixo a Polícia?”. “Desculpe, doutor, mas eu nunca disse Abaixo a Polícia”. “Acabou de dizer”. E o pobre homem acabou preso. Por desacato.
Dia seguinte, saiu sua foto nos jornais. Com algemas. No meio dos tiras. Afinal solto, uma semana depois, bateu pé à procura de trabalho. Só que, nos lugares onde andou, as pessoas tinham visto aquela imagem. E ninguém se mostrou disposto a contratar um criminoso. Quando findou seu pouco dinheiro imaginou que, na prisão, ao menos teria onde comer. E dormir. Voltou à mesma praia e encontrou os guardas que o prenderam. Virou-se para o sargento e gritou, bem forte, “Abaixo a Polícia”. Certo de que iria em cana. Sem saber que havia já passado essa tara coronaviriana de prender. Pegava mal, nas vésperas de uma eleição. Razão pela qual restou, a Seu José, apenas cumprir sua penitência. Longe das penitenciárias.
Essa crônica é adaptação de um conto de Anatole France, Crainquebille. E serve para explicitar que somos dois brasis. Um por dentro do outro. Aparentemente iguais. Embora, no fundo, bem diferentes. Há os que usam armas para assaltar e os que se armam para evitar assaltos. Os que estão atrás das grades para não sair. E os que, com medo, se trancam em apartamentos que mais parecem gaiolas. Os que sabem ter culpa e os que não sabem que são inocentes. Os que não comem com receio de lipídios e colesteróis, para manter os corpos em forma. Dentro dos apartamentos. Os mesmos que, nessa pandemia, de vez em quando batem panelas – acostumadas a camarões, bifes e batatas. Enquanto as de tantos estão vazias. São esses que se espremem nos ônibus, nos metrôs, nas ruas populares cheias de gente. Com riscos de serem infectados. E morrer, nas filas dos hospitais públicos. Em resumo, há os que contam os dias para voltar a suas rotinas de ir às compras, frequentar bons restaurantes, viajar; enquanto outros, como Seu José, vivem aspirações bem mais modestas de apenas ter um teto, um prato de comida, um cartão do Bolsa-Família.
Numa conversa com Claude Mauriac, o general De Gaulle confessa que viveu sempre “de xeque em xeque”. Xeque do jogo de xadrez, claro. A frase bem poderia ser usada hoje, no Brasil. Trocando a palavra. De impeachment em impeachment. Talvez por isso, para tentar evitar um fim precoce, ande o governo cheio de militares. Problema é não terem sido treinados para as sutilezas das relações pessoais. Sobretudo um certo Capitão. Napoleão (citado por Ravignat) dizia que, na política, “um absurdo não é um obstáculo”. Como se as baionetas pudessem tudo. E não podem. Ou não deveriam poder. Para ilustrar, lembro Dom Helder Câmara.
Tudo ocorreu assim que chegou, do Rio, para ser Arcebispo Emérito de Olinda e Recife. Em 12.04.1964. E logo criou, por aqui, o Banco da Providência. Para ajudá-lo, convidou as assistentes sociais Ana Maria e Lilia. Só que não tinha dinheiro para contratá-las. Dom Lamartine, seu anjo da guarda, encontrando-se casualmente com Paulo Guerra, deixou de propósito escapar que Dom Helder veria com bons olhos a contratação delas pelo Governo. Para ficar à disposição do Arcebispo, claro. Paulo Guerra (PSD) foi vice de Arraes (PST). Com a Redentora, que prendeu Arraes, acabou governador. E desejava muito atender ao Dom. Para fazer pontes, num país fraturado. Mas sabia da dificuldade representada pelo General Justino Alves Bastos, comandante da 7a Região Militar. À época, todo-poderoso em Pernambuco. E que mandava até na própria sombra.
Dia seguinte, foi procurar Justino. “Dom Helder está pedindo que eu contrate 20 assistentes sociais, General. Mas comunista eu trato no pau. E não vou contratar ninguém”. O militar sorriu, satisfeito: “Muito bem, Governador”. Conversaram a manhã toda. Já indo embora, e como quem não quer nada, Paulo Guerra disse: “Sabe o que estou pensando?, General. Que esse diabo fez o pedido só prá gente negar e ele se dizer perseguido. Que o senhor acha de a gente contratar duas, em vez de 20? Ele não iria poder falar em perseguição. Afinal, contratamos duas”. Justino, feliz: “Grande ideia, Governador, pode contratar”. Pouco depois, um magote de meganhas reclamou. E o General, nos altos do seu orgulho, “Fui eu que mandei”. Pois é. A prepotência dos generais nem sempre funciona. Política se faz longe de cavalos e baionetas. Tudo é mais sutil. Requer paciência. Conversa. Engenho e arte.