JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Em 5/6/1989, na Praça da Paz Celestial (Beijing), um pacifista se postou em frente a tanque chinês Type 59. Pouco se conhece dele, além das fotos que correram mundo. Seria, especula-se, Wang Weilin. Um estudante de 19 anos. O “Rebelde Desconhecido”, segundo a Revista Time, por ela incluído na lista das “100 pessoas mais influentes do século”. Agora, morando no interior da China. Ou em Taiwan. Ou, talvez, nem vivo esteja mais. Ocorre que ele nunca seria capaz de parar um tanque. Isso, poderia fazer apenas quem o dirigia. O que não se diz é que esse militar, de quem sequer se conhece o nome (o governo chinês, apesar de instado, jamais revelou), desobedeceu as ordens de avançar sobre o rapaz que protestava. Preferiu seguir sua consciência. Evitou uma morte. E, no dia seguinte, acabou fuzilado. Como dizia Albert Schweitzer (De Minha Vida), “só há heróis de renúncia e sofrimento”.

O fato é lembrado em Riccardino – derradeiro livro de Andrea Camilleri. com o comissário Salvo Montalbano. E seus exóticos assistentes – Catarella, Fazio, Mimi Augello. Em Vigata (no mundo real Porto Empedocle, cidade bem no sul da Itália). Maior sucesso editorial do país, 20 milhões de exemplares vendidos e traduzido em 30 idiomas. O livro, de 2005, foi reescrito pelo autor, já cego, em 2016. Com recomendações, ao editor, de ser publicado só após sua morte. O que acabou acontecendo apenas em 16/7 último. Destaque, no Brasil, para a magnífica tradução do Ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, do STJ. No gênero, sem dúvida, hoje o melhor tradutor do país.

Curioso, no livro, é uma sucessão de passagens que, referindo-se à Itália daquele tempo, lembram nosso Brasil de hoje. A arte, de vez em quando, parece imitar a vida. Cito algumas: “O Bispo Partanna é um vivaldino. Eu não tenho esse defeito. Ou essa virtude, dados os tempos que correm”. “Hoje, aos olhos de opinião pública, infelizmente, dizer que uma pessoa é investigada significa que já é condenada”. “O sujeito, em vez de estar na cadeia, estava é no governo”. “O mundo político se afogou numa onda anômala de prisões, de condenações por propinas, subornos, corrupções, concessões e mamatas”. “Escapou fedendo de 3 processos, sempre por prescrição superveniente”. Para terminar, um amigo pergunta ao comissário, em caso de corrupção, “Você está certo de que poderia levar a término uma investigação assim, hoje em dia?” Considerando nosso atual Supremo, de Toffoli (Deus nos proteja), alguém responderia sim?

5 pensou em “O COMISSÁRIO

  1. Ser um pagador de impostos e ler seu magnífico texto, (onde destaco:“O mundo político se afogou numa onda anômala de prisões, de condenações por propinas, subornos, corrupções, concessões e mamatas”) é um murro na boca do estômago. É horrível a sensação de que o suado dinheirinho do contribuinte se esvai e perde-se no mar de lama da corrupção.

    • Você, Sancho, e Dr. José Paulo têm razão.

      O “episódio” ocorrido hoje no Rio de Janeiro contra o governador Wilson Witzel, o secretário de saúde, “pastor” Everaldo do Cão e a “primeira” dama, é de vomitar sangue.

      Incrível como os prefeitos e os governadores de todo o Brasil roubaram o dinheiro liberado pelo governo federal para salvar vidas!!!

  2. Dr. José Paulo, sua presença ontem no nosso “debate-escroto” promovido por esses gaiatos da Confraria do Berto, encheu meu ego de alegria.

    Fazer parte desse anto de malassombrado e ter o mestre como participante é de uma alegria sem tamanho.

    O coração agradece.

  3. Prezado Dr. José Paulo, como sempre, um texto primoroso e atual, mas em referencia ao STF, não é só Min. Toffili, é a cambada toda, perderam completamente a vergonha, agem como um partido , político, criam leis, desrespeitam a CF/88 em todos os artigos e parágrafos e nada acontece. Estamos no mato sem cachorro. A Itália conseguiu “melhorar” e nós, estamos fadados a ficar no passado? Triste país!

  4. Não, ninguém em sã consciência responderia sim a uma arguição dessas. O STF tem a capacidade de julgar crimes futuros e eu sempre pensei que onisciente fosse Deus.

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