JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Marcel Proust dizia que “Todo leitor é o leitor de si mesmo” (O Tempo Redescoberto). Mais amplamente, o leitor se reconhece (ou não) no texto que lê. Semana passada, por exemplo, escrevi texto defendendo que estátuas não devem ser vandalizadas, por representar um momento da história. Como livros não devem ser queimados, mesmo quando sustentem ideias com as quais não concordamos. Os leitores fizeram comentários, muitos e ricos. Seguem alguns, como prova: Adail Augusto Agostini: “Querem pregar moral de cuecas”. Admaldo Matos: “Falta cultura histórica para saber que os homens, mesmo os mais virtuosos, pecam. Lembro que Tomás Morus, na sua Utopia, admite a escravidão. É um retrato da época”. Alfredo: “Essa desconstrução vai desembocar no isolamento das pessoas em tribos”. Aninha de Duda Guennes, desde Lisboa: “E o Cabral ainda não foi abaixo? Ou não tem estátua por aí?”. Cícero Tavares: “As reflexões me remetem à figura de Lampião (herói ou bandido?)”. Deco: “Thomaz Jefferson, e outras personalidades daquela época, são apagadas. A história de um país é eterna, tal e qual um diamante”.

Gustavo Krause: “Faz parte da estupidez ideológica a simples constatação de que a homenagem é prestada ao ser humano. Merquior afirmava que quem não conhece o passado está condenado a sofrê-lo como destino”. Ignez Barros: “É preciso preservar estátuas, monumentos e livros, para assegurar a integridade histórica, cultural e democrática de um povo”. Jesus de Ritinha de Miúdo: “Pois olhem que aqui no RN estavam organizando a derrubada da estátua de Câmara Cascudo. Essa juventude de hoje, salvando raríssimas exceções, não cria porra nenhuma e vive de copiar o que vê lá fora”. João Francisco: “As esquerdas aprenderam a destruir estátuas com os talibãs, ou foi o contrário?”.

Marcelo Cerqueira: “As Pirâmides no Egito, e a Grande Muralha na China, em que morreram dezenas de milhares de trabalhadores, deveriam então ser destruídas?”. Nikolai Hel: “Queria ver essa iniciativa para destruir o mausoléu de Mao, ou de Lenin”. Ronaldo Ferreira: “Radicais seja de direita, esquerda ou de centro, perdem a visão periférica que lhe permite ver além do seu estreito desejo, tornando tudo fora da sua visão como imoral ou indecente”. Vamireh Chacon: Quando os turistas passam pela grande Praça da Concórdia (Paris), ignoram completamente que ali no meio, onde está um obelisco, foram guilhotinadas milhares de pessoas, além de um rei e uma rainha. Walter Manzi: “Será que todo o movimento de reação conservadora não está levando a um colapso das reações humanas? Será que o excesso de liberdade, praticado por décadas, também não levou à reação conservadora? O que nos tornamos? Pessoas (gentis) de máscaras?”

4 pensou em “AS ESTÁTUAS DOS LEITORES

  1. Quando vi o livro do Jorge Caldeira “101 Brasileiros que fizeram história” (2016), reparei que lá estava incluso Francisco Félix de Souxa, vulgo “Chachá”, o maior contrabandista de escravos do mundo. Achei inoportuno, pra não dizer outra coisa, sua inclusão entre os destacados brasileiros. Mas pensando melhor, ele fez história ao seu modo e pode ser incluído na listagem. Já erguer uma estátua para ser lembrado pelas gerações futuras é inadmissível. Basta saber que aquele tipo existiu

    Esta compreensão me levou a incluir Lampião no “Memorial dos Brasileiros’, que venho fazendo aqui no JBF aos domingos. Não estou comparando um com o outro. Considero Lampião uma pessoa digna em comparação ao Chachá. Mas pelas estrepolias praticadas, que não se compararam ao mercado de aprisionamento e venda de gente, merece o conhecimento e o registro na História .Se foi Robin Hood dos pobres ou cangaceiro sanguinário é outra história.. .

    Neste “revisionismo histórico” que se apresenta agora, vi a estátua do Padre Vieira, neto de escrava, defensor dos negros e índios, ser vilipendiada em Portugal. Trata-se de um desconhecimento total da História, que não pode ser admitido. . . .. . .

  2. Caro Brito,

    Quando escrevi aqui um pequeno comentário sobre Francisco Félix de Sousa, vulgo Chachá, apelido que ganhou na cidade de Benin, na África, eu me referi ao homem que veio do nada de Salvado, provocou todas as estripulias do mundo contra escravos, e fez História.

    Merece que alguém escreva sobre seu passado de forma imparcial contando tudo? Sim! Porque tudo é história.

    Porque sua vida foi pautada no contexto histórico e as futuras gerações têm a obrigação de saber o que foi sua vida e alguém precisa ter coragem de contar, sem tomar partido.

    O diplomata Alberto da Costa e Silva escreveu uma biografia belíssima sobre essa figura controversa, que viveu mais de 90 anos, deixou mais de 50 mulheres, mais 200 filhos e mais 12 escravos.

    O mesmo se pode dizer de Lampião, talvez a figura mais controversa da história brasileira de todos os tempos ou do mundo. Terceiro personagens do mundo mais estudado. Gênio estrategista. Marqueteiro de si mesmo. Místico. Herói ou bandido? Interessa seu passado? Sim! Merece ser apagado da história? Não! Porque tudo que ele fez faz parte de um contexto histórico e por isso merece respeito.

    Louvo ao nobre memorialista que vai escrever um belíssimo ensaio sobre essa figura tão cultuada no Brasil, que reinou nas caatingas por mais de 18 anos tocando o TERROR!

    • Mestre memorialista Brito,

      Obrigado pela gentileza do comentário.

      Li e reli seu breve resumo sobre o Rei do Cangaço, inclusive lhe recomendado a leitura do excelente APAGANDO O LAMPIÃO – VIDA E MORTE DO REI DO CANGAÇO, do mestre Frederico Pernambucano de Mello.

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