A ARTE DE DESTRUIR ESTÁTUAS

Uma estátua de Colombo, por conta do genocídio dos povos nativos americanos, foi decapitada (em Boston). A de Cervantes desfigurada, pintados seus olhos com sangue (São Francisco). A de George Washington acorrentada, pichada e coberta com um capuz branco (Chicago). A de Gandhi, em razão de comentários racistas que fez nos tempos da África do Sul, vandalizada (Leicester). A de Churchill, em frente ao parlamento, pintada com a frase “era um racista” (Londres). Em Portugal, Bloco de Esquerda (no parlamento) e movimentos populares, sob o lema “Descolonizar nossa cultura”, protestam ruidosamente contra Vasco da Gama e o Padre Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, que teriam sido complacentes com a escravatura.

Por toda parte, mitos do passado estão recebendo pesadas críticas de setores sociais organizados. Na internet, para quem interessar, há relação de quase uma centena de estátuas depredadas (list.statues.topple). E tudo é muito discutível. Que nenhuma figura importante sobrevive a uma pesquisa minuciosa sobre tudo que fez ou disse, pela vida. Desde os filósofos gregos. E bom exemplo seria Platão. Para Bertrand Russell (História da Filosofia Ocidental) um “aristocrata”, “abastado”, “fingido”, “a favor da eugenia”, “a quem trato com pouquíssima reverência”. Mesmo expressivas figuras religiosas, basta ler a Bíblia. Proponho um teste, amigo leitor. A partir de citações na obra de um autor consagrado. O desafio é decidir se ele deve ser homenageado ou enxovalhado.

Esse autor, para começar, louvava os homens de posses, “respira-se melhor quando se é rico”. E apoiava a escravatura, “ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem”. Para ele, Deus é “um velho estúpido e doente, sempre a escarrar no chão e a dizer indecências”. Religião, só “pompa morta à sombra”. Escrevia como um homossexual, declarando ter “vontade de ser a cadela de todos os cães e eles não bastam”. Dizia que os funcionários públicos eram “nomeados para não fazer nada”. Considerava deputados “gado vestido nos currais dos Deuses”. Criticava a mídia, “não pode haver moral no jornalismo. Ora porra! Então a imprensa é esta merda que temos que beber com os olhos?”. E pensava ser, “a democracia, o mais estúpido de todos os mitos”. O leitor ainda estaria disposto a ler, ou elogiar, alguém assim?

Pois bem, senhores. Esse autor é Fernando Pessoa. Maior escritor português. Ele sozinho ou ao lado de Camões, como preferir. Engraçado é que, para quase todas essas frases, podemos também encontrar, na sua obra, outras em sentido contrário. Por exemplo disse, da escravatura, que era “uma maldição, vergonha que com o tempo cresce”. E, em louvor de Deus, escreveu Prece que encerra dizendo: “Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim”. Por ser, o poeta, um ser contraditório. Que vai mudando, a partir do ambiente em que vive. Ou do que sente, em cada momento. Quanto a mim, reitero que jamais deixarei de ler, de me espantar e de reverenciar Fernando Pessoa.

Estátuas e monumentos não deveriam, nunca, ser destruídas. Assim como livros não devem ser queimados. Por funcionar como espelhos do pensamento então vigente. Essas desconstruções não fazem sentido. Mesmo reconhecendo tratar de temas sensíveis, pelo simbolismo que carregam. Devemos refletir se, para conhecer a história, será sempre necessário reescrever essa história em uma nova narrativa. Que para aprender com o passado, tudo sugere, melhor será conhecer bem esse passado. Parte de um patrimônio cultural valioso. Sem contar que derrubar estátuas, ou censurar livros, não muda o mundo no qual vivemos. Para isso melhor solução é menos apartação social, educação de qualidade e, sobretudo, mais democracia.

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  1. Sr. José Paulo, as esquerdas aprenderam a destruir estátuas com os talibãs, ou foi o contrário?

    “Heróis matam”, já disse o grande filósofo General Mourão.

    Disse isso no sentido de que todos têm seus defeitos.

  2. Acredito que toda esta destruição é fruto do radicalismo, quando se faz uma analise superficial de um ato ou frase/palavra, o radical usa isto para exemplificar sua radical opinião, ou para esculhambar que fez ou disse , apontando a ele uma falha que somente fora do contexto da vida do autor teria sentido. Radicais seja de direita, esquerda ou de centro, perdem a visão periférica que lhe permite ver alem do seu estreito desejo, tornando tudo fora da sua visão como imoral, indecente , inválido ou doentio. Radicais mesmo quando estão certos, apresentam seus argumentos de forma tão exaltada que tendem a errar na dose.

  3. Essa desconstrução vai dar desembocar no oposto do que o autor propõe: isolamento das pessoas em tribos, esquecimento do passado, a nova História forçosamente deve ser redigida em conformidade com os preconceitos presentes (Camões? Pessoa?) e serão necessários necessário caudilhos para levar tudo isso adiante. Aconteceu há100 anos ou, se quisermos um exemplo mais recente, no Líbano 50 anos atrás.
    PS Ficou parecendo aquela coluna do Diário de Pernambuco…

    • Havia uma página no Diário de Pernambuco com notícias de 200 anos (o jornal mais antigo da America Latina), 100 anos e 50 anos.

  4. “AQUELE QUE NÃO TIVER PECADO ATIRE A PRIMEIRA PEDRA.” (Jo 8 1-11)

    ou

    “QUEREM PREGAR MORAL, DE CUECAS.”

  5. Escreve um dos luminares fubânicos: Essas desconstruções não fazem sentido.
    Sancho, seguindo o poeta maior, de mãos postas ora: Senhor, livra-me de mim”.
    Sancho o prefere (viver não é preciso) a Camões. Para o bem e para o mal, Pessoa e pessoas reinam em meu coração e vozes internas tumultuam meu pensar.
    Quanto a mim, reitero que jamais deixarei de ler, de me espantar e de reverenciar Cavalcanti, não o Di (Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo), mas o fubânico José Paulo.

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  6. Pois olhem que aqui no RN estavam organizando a derrubada da estátua de Câmara Cascudo.
    Essa juventude de hoje, salvando as raríssimas exceções, não cria p… nenhuma e vive de copiar o que vê lá fora.
    Sequer dando ao trabalho se fará sentido aqui no Brasil ou não.

    • Poeta,
      Depois que a tal lei da palmada aboliu os “cascudos”, é o que há. Uma juventude sem “limites” podendo pais irem para o xilindró por alguns cascudos (conheço histórias de pais totalmente reféns de seus pequenos monstrinhos).
      Aqueles que são contrários à Lei defendem que o Estado não deve interferir na vida pessoal de ninguém e nas escolhas individuais das famílias brasileiras. Evidentemente, bater em alguém nunca será a melhor opção, mas (corretivo mas), é senso comum que a realização de pequenos castigos corporais não afeta o indivíduo, tanto que a esmagadora maioria dos adultos experimentou pequenos castigos na infância (e isso não transformou ninguém, que eu saiba, em uma pessoa violenta).

      PS1: O alto número de ocorrências, conhecidas como violência doméstica, nestes tempos pandemíacos mostra que monstros revestidos de autoridade materna ou paterna não se preocupam muito com leis. Monstros são monstros. Punto e basta.
      PS2: Na casa de Sancho, meu amado pai, deu cascudos em meu irmão Paulo e poupou minha irmã Leninha e este velho Pança de tais corretivos.
      PS3: Sancho tem duas filhas e jamais levantou a mão para nenhuma delas. Entende Sancho que cada caso é um caso e que a interferência do ESTADO na vida das pessoas nunca foi bom negócio.

      PS4: “Viver sem JBF é um equívoco”. Quem disse tal frase foi Polodoro (responsável pelo corretivos fubânicos).

  7. As reflexões de Dr.º José Paulo Cavalcanti me remete à figura de Lampião (herói ou bandido? e por quê?)

    E as volantes que o combatiam e seus bandos, que praticavam os mesmos métodos bárbaros contra coiteiros e inocentes dos sítios e arruados, por acharem que protegiam Lampião e os seus bandos, também merecem ser destruídas suas estátuas, apagadas suas histórias ou deixá-las registradas para que com eles aprendermos e daí tirarmos lições para meditar e melhor compreender o ser humano?

    Há perfeição na humanidade? E se houvesse, como seria o mundo?

    Há bilhões de contradições dentro de nós, pois “de perto ninguém é normal.” Dizia o poeta de Santo Amaro da Purificação.

    Daí eu preferir sempre a Democracia, único regime onde se possa discutir e corrigir nossos erros e aperfeiçoar os acertos.

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Fernando Pessoa

  8. Por São Ludwig van Beethoven,
    Hoje os grandes fubânicos estão inspirados em suas “odes” à Pessoa. Navegar pelas água do JBF é preciso; viver a experiência fubânica também.

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  9. Marcelo Cerqueira, que foi Presidente do Instituto dos Advogados do Brasil, fez observação interessante. As Pirâmides no Egito, e a Grande Muralha na China, em que morreram dezenas de milhares de trabalhadores, deveriam então ser então destruídas.

    P.S. Um problema só, caro Sancho. Não acredito, E,
    portanto, não rezo. Estou impossibilitado, pois, de atender seu pedido. Lamento. Abraços.

  10. Dr, José Paulo. Me chamou a atenção o uso de “porra” naqueles idos. A palavra, então, já existia? E, ao que parece, não era de baixo calão, pois Pessoa o usou num artigo para a imprensa. Agradeço, antecipadamente, o seu esclarecimento. E parabéns por mais um valioso texto. Um abraço.

    • Sancho, de alma fincada na Península Ibérica ousa responder:
      Em Portugal o señor Sobreira seria um gajo porreiro. Porreiro = Muito legal.

      Porra tem, segundo meu velho pai, o portuga Nelson Pança de Trás-os-Montes e Alto Douro, a mesma origem da palavra cacete, pau (daí o termo porrada, cacetada: ‘puerro’, porrum’, «alho» (daí o adj. porráceo, para a “gala” do macho humano, que tem o cheiro do alho-porro).”

      Advindo daí, por analogia, outra coisa portuguesa: Porra recheada é sinônimo em d’além mar do nosso conhecido churros.

  11. É que de vez em quando nosso poeta perdia a paciência, mestre . Para ver isso, vou por aqui a citação inteira. Que está em seu “ Manifesto “ . Aqui vai:

    Ora porra!
    Então a imprensa portuguesa é que é a imprensa portuguesa?
    Então é essa merda que temos que beber com os olhos?
    Filhos da puta!
    Não, que nem há puta que os parisse.

    Está satisfeito?

  12. As estátuas são símbolos históricos de personalidades e, como tal, refletem a herança e os valores de um país. Se Thomaz Jefferson e outras personalidades daquela época, da declaração de independência dos EUA, são “apagados” da história, simbolizados pelo vandalismo de remoção de suas estátuas, o mesmo não ocorre com o fato da independência do EUA, que Thomaz Jefferson e as outras personalidades ajudaram a criar e a estabelecer. Com justificar a existência dos Estados Unidos da América sem a existência de Thomaz Jefferson ou qualquer uma das outras personalidades? A história de um país é eterna tal e qual um diamante.

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