JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Catulo da Paixão

Catulo da Paixão Cearense nasceu em 8/10/1863, em São Luís, MA. Poeta, músico, compositor, teatrólogo e relojoeiro. Conhecido como “Poeta do Sertão”, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, em 1933 por Fernando Pessoa e o único brasileiro a ser citado num poema do famoso poeta português.

Filho de Maria Celestina Braga e do cearense Amâncio José da Paixão Cearense. Aos 10 anos mudou-se, com a família, para o sertão do Ceará e aos 17 mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como relojoeiro. Conviveu com vários chorões, como João Pernambuco, Viriato Figueira da Silva e Anacleto de Medeiros. Cantador e violeiro, logo passou a levar a vida na boemia. Associou-se ao livreiro Pedro da Silva Quaresma, dono da Livraria do Povo, que passou a editar seus folhetos de cordel.

Aos 19 anos compôs sua primeira modinha famosa Ao Luar; largou os estudos; trocou a flauta pelo violão e passou a dedicar-se mais à vida boemia, cantando modinhas. Compôs algumas como Talento e formosura, Canção do africano e invocação de uma estrela. Noutras composições, teve parcerias com Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Francisco Braga. Por essa época publicou duas coletâneas de autores diversos: O cantor fluminense e O Cancioneiro popular.

Casou-se aos 21 anos com Hermelinda Aires da Silva, passando a levar uma vida modesta. Foi um autodidata e costumava dizer “aprendi música, como aprendi a fazer versos’. Aprendeu a ler em casa com sua mãe e pegou rápido o hábito da leitura. Foi um obcecado por livros e professor dos filhos do Conselheiro Gaspar da Silveira, que lhe possibilitou o acesso à Biblioteca do Senado do Império. Em 1908 fez uma apresentação de modinhas ao violão no Conservatório de Música e compôs o primeiro poema em 1912: O Marrueiro, um dos seus apelidos. Em seguida foi convidado pelo presidente Hermes da Fonseca e a primeira dama Nair de Tefé para um recital no Palácio do Catete. Além de Hermes da Fonseca, Catulo fez apresentações para os presidentes Nilo Peçanha, Epitácio Pessoa, Artur Bernardes e Getúlio Vargas, todos admiradores de sua música.

Em 1914 compôs a música Luar do sertão, reconhecida como “hino nacional do sertanejo”, gravada com mais de 150 interpretações, em parceria com João Pernambuco, e registrou sem citar o parceiro. Na disputa judicial Villa-Lobos, Pixinguinha e Almirante depuseram a seu favor e teve seu nome incluído. Os dois foram responsáveis pela introdução do violão nas festas da elite carioca no começo do século XX. Este pioneirismo deixou-o envaidecido, conforme registrou mais tarde: “O grande feito, aquilo que mais me encanta no meu passado é a reabilitação do violão e a reforma da modinha”. Entre suas obras poéticas, destacam-se Um caboclo brasileiro (1900), Poemas bravios (1925), Fábulas e alegorias (1934), Um boêmio no céu (1938) e Modinhas (1943).

Fato curioso e pouco conhecido é o apreço de Fernando Pessoa por sua poesia. Em 1933 chegou a indicá-lo ao Prêmio Nobel de Literatura, conforme registra artigo publicado na revista Letras, nº 49, de 1998, da Editora da UFPR: “Pessoa entendia que, em nossa língua, ‘o único poeta vivo cuja obra, com os seus evidentes defeitos, correspondia às condições fundamentais’ para alcançar tal premiação era Catulo da Paixão Cearense”. Tal apreço é confirmado pelo biógrafo de Fernado Pessoa, José Paulo Cavalcanti Filho, que afirma ser Catulo o único brasileiro citado num poema de Fernando Pessoa: Minha vida tem sido, em suma,/ Reles e obscura,/ Sem ventura nem desventura,/ Sombras de trapos na bruma./ Como um caixeiro tenho ficado/ A um balcão nullo,/ Não acontece estar amante, Catullo/ Nem a pasta, conselho de Estado.

Catulo vivia numa pequena casa de Engenho de Dentro, quase no meio do mato, onde os lençóis serviam de paredes para os cômodos. Ali recebia admiradores, escritores, acadêmicos sempre em concorridas feijoadas regadas a cachaça. Faleceu aos 83 anos, em 10/5/1946, e o cortejo funerário contou com uma multidão embalada ao som de Luar do sertão. Tinha convicção do valor de sua poesia e aos que comentavam o fato de ser um autodidata, sem cultura formal, dizia: “com gramática ou sem gramática, sou um grande poeta”.

Em 2018, o Selo SESC prestou-lhe uma homenagem com o lançamento do álbum A paixão segundo Catulo incluindo suas principais canções. Em 2016 foi lançada uma apurada biografia escrita por Luiz Américo Lisboa Júnior – Da modinha ao sertão: vida e obra de Catulo da Paixão Cearense -, publicada pelo Instituto Geia, com prefácio do ex-presidente José Sarney.

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AS BRASILEIRAS: Enedina Marques

Enedina Alves Marques nasceu em 13/1/1913, em Curitiba, PR. Professora, primeira engenheira negra no Brasil e primeira mulher engenheira com destacada atuação profissional em seu Estado.

Filha de Virgília Alves Marques e Paulo Marques, que chegaram a Curitiba em 1910. A mãe trabalhava como empregada doméstica na casa do major Domingos Nascimento Sobrinho, que tinha uma filha da mesma idade de Enedina. Como as duas famílias se davam bem, o major bancou os estudos de Enedina, para que ela fizesse companhia a sua filha. As duas concluíram o curso Normal em 1935 e passaram a lecionar no interior do Estado: São Mateus do Sul, Cerro Azul e Campo Largo.

De volta a Curitiba, em 1936, ingressou num curso supletivo e passou a morar (e trabalhar) na residência do casal Mathias e Iracema Caron, no bairro do Juvevê, seus novos benfeitores. Ela não era formalmente empregada da família, mas pagava a guarida com alguns serviços domésticos. Pouco depois, ingressou no curso complementar em pré-Engenharia no Ginásio Paranaense (atual Colégio Estadual do Paraná) no período noturno, enquanto ainda residia com a família Caron.

Em 1940 ingressou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Paraná e formou-se em Engenharia Civil, em 1945. Antes dela, apenas dois negros se formaram em engenharia naquela faculdade. No ano seguinte foi contratada como auxiliar de engenharia na Secretaria de Viação e Obras Públicas. Como funcionária pública ocupou os cargos de chefia da Divisão de Hidráulica e Divisão de Estatística. Em seguida, o governador Moisés Lupion concedeu-lhe transferência para o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica, onde trabalhou no Plano Hidrelétrico do Estado e atuou no aproveitamento das águas dos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu.

Conta-se que sua melhor atuação como engenheira se deu na Usina Capivari-Cachoeira. Apesar de vaidosa, usava macacão nos canteiros de obras e carregava uma arma na cintura, e de vez em quando disparava tiros para o alto para se fazer respeitar entre os homens da construção. Posteriormente dedicou-se a engenharia civil e atuou com desenvoltura na construção do Colégio Estadual do Paraná e na Casa do Estudante Universitário de Curitiba. Em 1958, o major Domingos faleceu, deixando-a como uma de suas beneficiárias em seu testamento.

Devido a sua carreira profissional, foi entrevistada, em 1961, pelo sociólogo Octávio Ianni, para uma pesquisa intitulada “Metamorfoses do escravo”, financiada pela Unesco. Aposentou-se em 1962 e recebeu do governador Ney Braga o reconhecimento de seus feitos na Engenharia, garantindo-lhe proventos equivalentes ao salário de um juiz. Passou a residir num apartamento no centro de Curitiba até agosto de 1981, quando foi encontrada morta, vitimada por um infarto dias antes. Estima-se que tenha falecido em 20/8/1981. Não tinha parentes próximos, nunca se casou nem teve filhos.

O Diário Popular, um tabloide sensacionalista, fez uma longa matéria retratando-a apenas como uma idosa excêntrica sem importância alguma e causou grande indignação entre os membros do Instituto de Engenharia do Paraná, que resultou numa razoável polêmica na mídia local e relatando seu legado como engenheira. A partir daí vieram homenagens póstumas: seu nome foi dado a uma rua no bairro Cajuru; recebeu uma inscrição no Memorial à Mulher Pioneira, local construído pelas Soroptimistas, organização internacional dedicada aos direitos humanos, da qual participou; em 2006, foi fundado o Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques, em Maringá; denominação do trecho da PR-340 na cidade de Antonina. Uma breve biografia ressaltando sua vida profissional foi realizada por Lindamir Salete Casagrande e publicada pela Editora Verso em 2021.

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OS BRASILEIROS: Luiz Pinguelli

Luiz Pinguelli Rosa nasceu em 19/2/1942, no Rio de Janeiro, RJ. Físico, engenheiro, professor e destacado cientista na área de física nuclear. Foi presidente da Eletrobrás, professor emérito da UFRJ e diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (COPPE/UFRJ). Porém, o que gostava mesmo, segundo o próprio, era ministrar aulas.

Filho de Dalva Pinguelli Rosa e do alfaiate Avilla Rosa, de quem foi auxiliar na adolescência. Teve os primeiros estudos na Escola Rio Grande do Sul e no Colégio Pedro II. Em seguida ingressou na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em São Paulo, e na Escola Militar das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro, de onde saiu como oficial do Exército. Entrou no IME-Instituto Militar de Engenharia em meados da década de 1960 e participou do movimento estudantil em 1964, quando foi preso pelas forças da repressão. Após formado engenheiro, desligou-se do Exército, em 1967, para continuar os estudos como civil. Fez mestrado em Engenharia Nuclear na UFRJ e doutorado em Física na PUC/Rio-Pontifícia Universidade Católica.

Foi um crítico ferrenho do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, firmado em 1975, para a construção de reatores nucleares. Através da imprensa, denunciou suas mazelas e na CPI-Comissão Parlamentar de Inquérito, em 1979, criticou a concepção do Acordo e a forma de execução do programa nuclear brasileiro. Porém, a CPI encerrou as atividades sem maiores resultados. Em 1986, na comissão da SBF-Sociedade Brasileira de Física, denunciou a construção de instalações militares na Serra do Cachimbo (PA), visando realizar testes nucleares. O governo Sarney desmentiu a denúncia, mas o governo seguinte (Collor) reconheceu sua existência para fazer uma explosão nuclear subterrânea e mandou lacrar o poço. Com esta polêmica, publicou o artigo For promoting public understanding of the relationships of Physics and Society, que lhe rendeu o prêmio “Forum Award” da Associação Americana de Física, em 1992.

Com o fim do regime militar, foi eleito diretor da COPPE/UFRJ e seu primeiro ato foi convidar os professores que haviam sido expulsos para retornar à instituição dirigida por ele em 5 mandatos (1986-1989; 1994-1997; 2002, 2007-2011. 2011-2015). Seu mandato de 2002 foi interrompido em 2003 para assumir a presidência da Eletrobrás até o ano seguinte. Sua atuação foi além da área acadêmica, liderando o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ de 1990 a 1993. Ao final e junto com Herbert de Souza (Betinho), criaram o Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome e pela Vida-COEP, selando uma longa parceria com a COPPE.

Em 1995 convidou o físico Joseph Rotblat (1908–2005), conhecido por suas contribuições científicas e sua militância pelo desarmamento nuclear, esteve no Rio, a convite de Pinguelli, para proferir na COPPE a conferência sobre os 50 anos de Hiroshima e Nagasaki. A visita teve grande repercussão na comunidade científica e na opinião pública e possibilitou a reabertura do processo de adesão do Brasil ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. Rotblat voltou ao Brasil em 1996, quando esteve com o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Em 1998, dois anos após esse encontro, o Brasil aderiu ao tratado.

Em 2000 alertou o governo sobre o risco de uma grave crise no setor elétrico, que veio a se confirmar em 2001. Foi preciso a montagem de um plano de racionamento, que fiou conhecido como “apagão”, analisado em seu livro O apagão: por que veio, como sair dele. Além do trabalho científico propriamente dito, interessava-se por filosofia e história da ciência. Assim, fundou e lecionou no Programa de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia da UFRJ. Esta vivência resultou na publicação do livro Tecnociências e humanidades: novos paradigmas, velhas questões, em 2 volumes, publicado pela Editora Paz e Terra, em 2006, indicado para receber o Prêmio Jabuti naquele ano.

Outro tema de suas preocupações foi o problema das mudanças climáticas, ora em curso. Desde 1998 foi autor ou revisor dos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, entidade que recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Pouco depois foi designado secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, representando a entidade no Conselho Diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Afastou-se do órgão em 2016 por discordar do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Militou em diversas instituições ligadas a Ciência: membro da ABC-Academia Brasileira de Ciência; do conselho da SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência; do Conselho Pugwash, entidade fundada por Albert Einstein e Bertrand Russel, votada para o combate ao armamento nuclear; secretário-geral da SBF-Sociedade Brasileira de Física e presidente da Associação Latino-Americana de Planejamento Energético. Faleceu em 3/3/2022 e deixou extenso legado com a orientação de mais de 100 teses e dissertações e 7 livros publicados. Deixou também uma autobiografia: Memórias: De Vargas a Lula – A resistência à ditadura e ao neoliberalismo, publicada no ano de sua morte, pela Editora Contraponto, um relato sobre suas escolhas políticas.

No cinquentenário da COPPE, em 2013, a revista Engenharia e Inovação: a arte de antecipar o futuro, publicou amplo painel, incluindo sua entrevista, onde declarou que “a política é indissociável da universidade” e reiteirava: “A universidade não é pura academia, pura ciência, é um lugar crítico, onde se pensa sobre o que acontece”.

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AS BRASILEIRAS – Maria Baderna

Marietta Baderna Giannini nasceu em 1828, na Itália. Famosa bailarina veio para o Brasil em 1849 e causou tamanho rebuliço na dança e costumes da época, fazendo com que seu sobrenome familiar entrasse no vocabulário brasileiro como sinônimo de bagunça, confusão, desordem. Já em 1889 o dicionário de Antônio Joaquim Macedo Soares registrava a palavra “Baderna” como “súcia dançante”. Depois a palavra perdeu a referência a dança e passou a designar bagunça em geral, até tornar-se um insulto, conforme registra o Dicionário Brasileiro de Insultos. Baderneiro é quem “gosta de aprontar confusão. Vem do nome próprio ‘Baderna’, pelo qual era conhecida uma bailarina que esteve no Rio de Janeiro em 1851. Essa senhora chamada Baderna, por certo, provocou alguma estrepolia envolvendo várias pessoas e tornando sua ação muito visível. O seu papel de provocadora de bagunça foi mais forte do que seu trabalho de atriz”.

Esta é a história da bailarina italiana, bem-sucedida na carreira artística nos palcos da Europa, que, no Brasil foi alijada do palco e caiu no conceito da elite na mesma proporção em que crescia no gosto popular. Conquistou um séquito de admiradores chamados de “badernistas”, logo rebaixados a “baderneiros”. que delirava com sua dança e gritava “baderna!, baderna!”, junto aos aplausos, deixando as damas e cavalheiros da colônia ainda mais furiosos. É também a história de uma palavra antiga e usada apenas no Brasil, além de ensejar uma reflexão sobre a origem das palavras, dos sentidos que algumas adquirem conforme seu uso e circunstâncias.

Ainda criança manifestou inclinação para a dança e teve a sorte de ser estimulada pelo pai nessa arte. Estreou cedo nos palcos da cidade de Piacenza e pouco depois entrou para o corpo de baile do Teatro Scala de Milão. Aos 19 anos apresentou-se numa temporada de sucesso no Teatro Covent Garden, de Londres e aos 21 já era uma “prima ballerina assoluta”. Pertencia a uma família da alta burguesia da Lombardia. Seu pai -Antônio Baderna- era médico, músico amador e revolucionário do movimento republicano, que enfrentou a ocupação austríaca na Itália. Após o fracasso da revolução de 1848, ela recebeu um convite para se apresentar no Rio de Janeiro. Seu pai, com dificuldades de viver na Itália, aproveitou a oportunidade e vieram para o Brasil.

No Rio de Janeiro, a estreia no Teatro São Pedro de Alcântara se deu em 29/9/1849, com o balé “Il ballo dele fate” (O balé das fadas). foi um sucesso retumbante, tal como ocorria na Europa. O jornal “Correio Mercantil” deu-lhe matéria, chamando-a “a rainha das fadas. Mas a moça, como o pai, era rebelde não apenas na política, mas também nos costumes. Aos poucos, ela passou a gostar dos ritmos afro-brasileiros dos escravos e do povo: lundu, umbigada e cachucha, incorporando-os ao seu balé. Aqui começa a radical transformação da palavra. Segundo seu biógrafo Silverio Corvisieri: “No começo, os cariocas usavam o termo baderna para indicar coisas muito belas. Somente depois de a dança ser considerada fator de corrupção da juventude, a palavra assume os significados atuais”.

A bailarina foi se aclimatando aos costumes da sociedade carioca que se formava. Gostava de festejar, de beber, namorar e, por mais que dançasse nos salões tradicionais, apreciava bastante as manifestações culturais dos negros e do povo da rua. Foi nas ruas que conheceu a resistência dos escravos, e se apaixonou pelas danças e festejos. A sensualidade e a força dos ritmos e danças africanas rapidamente foram assimiladas pela bailarina, que passou a incorporar à delicadeza do balé os passos das danças populares. Ao término das apresentações, seu fã clube, os baderneiros, saiam pelas ruas batendo os pés e gritando o nome da bailarina.

O interesse pela sua história se deu em 1987, com a curiosidade do jornalista Moacyr Werneck de Casto ao consultar a palavra “Baderna” no dicionário e ver a menção sobre a bailarina. Escreveu um artigo fantasiando a vida da bailarina e “sem querer, acertei no essencial. Baderna foi mesmo ativa politicamente. Coloquei-a lutando ao lado de Bento Gonçalves e como subversiva nas ruas do Rio. Mas sua história real é mais interessante”. Em Milão, o escritor (e ex-deputado) Silverio Corvisieri também achou a história interessante e iniciou uma pesquisa de fôlego sobre a bailarina. Tal pesquisa resultou no livro Maria Baderna: a bailarina de dois mundos, publicado pela Editora Record em 2001.

O livro faz uma reconstrução histórica do Rio de Janeiro; do seu cotidiano em meados do século XIX. Relata que a bailarina era bastante conhecida do público; foi amiga do ator João Caetano e era elogiada por escritores e jornalistas, como José de Alencar e José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco. Traça o perfil de uma autêntica heroína que enfrentou o preconceito com sua dança “subversiva” e revolucionou os costumes da época. O autor diz que Marietta, de personalidade rebelde, vivia de maneira excessivamente liberal para o Brasil de D. Pedro II. Há registros de que, certa vez, tendo havido atrasos de pagamento da companhia de danças, ele organizou uma greve e promoveu agitações que foram identificadas como “da turma da Baderna e seus baderneiros”.
Em 2023 sua tetraneta Paula Giannini lançou o livro Baderna: o memoricídio no dicionário pela Editora Palco das Letras. Paula fez um resgate sobre a memória de sua tetravó, uma bailarina de grande sucesso na Europa, aqui teve seu nome torcido e retorcido e continua desconhecido do público.

Maitê Proença fala sobre Maria Baderna:

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OS BRASILEIROS: Matias Aires

Matias Aires Ramos da Silva de Eça nasceu em 27/3/1705, na Capitania de São Paulo. Filósofo, escritor e tradutor, considerado o maior nome da Filosofia de Língua Portuguesa do século XVIII. Foi Cavaleiro da Ordem de Cristo, provedor da Casa da Moeda de Lisboa e autor do famoso livro Reflexões sobre a vaidade dos homens, publicado em 1752.

Filho de Catarina de Orta e José Ramos da Silva, provedor das expedições que encontraram ouro nas Minas Gerais. Segundo Alceu Amoroso Lima, “a figura de José Ramos da Silva, e a sua ascensão de criado de servir a magnata máximo da fortuna paulista do século XVIII, tornou-se um dos tipos mais representativos do Brasil Colonial.” Seu filho Matias estudou no colégio jesuíta de São Paulo e aos 11 anos, a família mudou-se para Lisboa, onde o pai era amigo de D. João V e foi designado para o cargo de Provedor das Casas de Fundição. As filhas foram estudar no Convento de Odivelas e Matias ingressou no tradicional Colégio de Santo Antão. Em 1722 entrou na Faculdade de Direito de Coimbra.

Continuou os estudos na Galiza, obtendo os diplomas de Bacharel em Filosofia e Mestre em Artes. Em 1728 foi estudar na Sorbonne, em Paris, e obteve diplomas em Direito Civil e Canônico. Retornou a Lisboa em 1733 e passa a viver numa de suas Quintas, tornando-se notável literato e naturalista. Por essa época manteve longa amizade com Antonio José da Silva, “o Judeu”, que procurou salvá-lo da fogueira da Inquisição, sem sucesso. Com a morte do pai, em 1743, o substitui no cargo de Provedor da Casa da Moeda. Passa a residir no Solar das Janelas, atual Museu de Arte Antiga, levando uma vida suntuosa e dilapidando a herança paterna. Por esta época inicia uma disputa jurídica com a irmã Teresa Margarida (conhecida como a primeira romancista em língua portuguesa) visando obter a melhor parte da herança, sem sucesso. Em 1761 não se deu bem com as reformas do Marquês de Pombal e foi destituído do cargo de Provedor, agravando sua situação econômica. Veio a falecer em 10/10/1763 numa condição distinta daquela vida de riqueza levada até então.

Foi nesse contexto que escreveu, num tom pessimista, a Carta sobre a fortuna, onde declara “E assim nada espero da fortuna, nem a fortuna de mim pode esperar nada; porque o meu talento foi discursivo sempre, operativo nunca, e a fortuna quer obras e não palavras… Tudo sei para dizer, mas para fazer só sei que não sei nada. As minhas artes são todas em pensamento e por isso são justamente desgraçadas, porque a fortuna não pode fazer milagres” A Carta foi incluída, a partir de 1778, em sua obra mais conhecida Reflexões sobre vaidade dos homens: discursos morais sobre os efeitos da vaidade, publicada em 1752.

Esta é sua obra mais conhecida e teve origem, segundo o estudioso Carvalho Reis, na vida faustosa levada pelo seu pai e que foi continuada pelo filho, que não obstante a deferência com que era tratado no Brasil, “agora era apenas o filho de um dos tais mineiros que o povo da corte invejava, mas não estimava”. Tais experiências terão ensinado, posteriormente, ao filho que a vaidade própria tende a ofender a vaidade alheia, dando início ao seu interesse em refletir sobre o assunto. Tais reflexões ocorreram a partir do trecho bíblico extraído do Eclesiastes: “Vanitas vanitatum et omnia vanitas” (Vaidade das vaidades, tudo é vaidade).

Antes dele, o Padre Antônio Vieira também refletiu sobre a vaidade, mesmo não considerando a vaidade como um pivô, tal como Matias Aires. Segundo Vieira “Os homens, como somos camaleões da vaidade, mudamos de cor a cada mudança de vento: quantos são os ventos de que nos sustentamos, tantas são as cores de que nos vestimos”. Claro que esta falha moral foi criticada pelo Padre: “Portai-vos de tal maneira, sendo sempre o mesmo, que vos possam todos louvar, ao menos que vos possam conhecer”.

Ainda segundo Alceu de Amoroso Lima, o culto à ciência foi levado para Portugal por Matias Aires, completamente embebido de cartesianismo e influenciado pelo naturalismo científico que o século XVII legara ao século XVIII. Assim ele foi um dos grandes humanistas do século XVIII, comparado à Montaigne e La Rochefoucauld. É considerado um dos que abriram caminho aos estudos e ao cientificismo em Portugal. Trata-se de um filósofo relativamente pouco conhecido no Brasil, talvez devido ao fato de apenas ter nascido no Brasil colonial e ter vivido em Portugal desde os 11 anos. Isto tem levado a uma discussão se ele era português ou brasileiro. Tal discussão se deve ao fato de na primeira Constituição Brasileira, de 1824, e primeira Constituição Portuguesa, de 1822, não existirem referências sobre “nacionalidade”. Assim, ele pode ser considerado paulista, brasileiro e português, i.é um polipátrida.

É patrono da cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras e da cadeira nº 3 da Academia Paulista de Letras, onde é considerado o primeiro filósofo brasileiro. O professor Antonio Pedro Mesquita, doutor pela Universidade de Lisboa, deixou um alentado estudo sobre o filósofo: Homem, sociedade e comunidade: o pensamento de Matias Aires, publicado em 1998 pela Imprensa Nacional, em Lisboa.

Matias Aires: “Reflexões Sobre A Vaidade Dos Homens”

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AS BRASILEIRAS: Tereza Margarida

Teresa Margarida da Silva e Orta nasceu em São Paulo, SP, em 1711. Reconhecida como a primeira romancista em língua portuguesa, era irmã do filósofo Matias Aires e escrevia sob o pseudônimo de Dorotéia Engrassia Tavareda Dalmira, um anagrama perfeito de seu nome. Teve uma produção de obras autônomas e independentes e pode ser considerada, também, a primeira feminista brasileira.

Sua mãe era brasileira e o pai português -José Ramos da Silva- minerador e um dos homens mais ricos do Brasil Colonial. Aos 5 anos, a família mudou-se para Lisboa, onde viveu e publicou toda sua obra. Teve uma vida atribulada, mantendo bom relacionamento com a corte portuguesa e com o Marquês de Pombal. O pai internou-a num convento, mas ela saiu de lá para casar-se com alguém de sua escolha, algo incomum para a época, quando os casamentos eram arranjados. Após a morte do pai e do marido, lutou pelo direito de acesso aos bens da família e mais tarde foi presa sob a acusação de mentir à corte por defender o casamento do filho com uma nobre cuja família não aceitava a união.

Em 1752 publicou o romance político e feminista As aventuras de Diófanes, o primeiro da língua portuguesa escrito por uma mulher. O romance traz como pano de fundo ideias que subvertem os padrões absolutistas de Portugal, do século XVIII, num enredo cheio de imprevistos e reviravoltas. Suas ideias, insubmissas para a época, pregavam a educação igualitária entre meninos e meninas e trabalho para as mulheres, numa crítica à ociosidade que lhes era imposta. Tais ideais estavam afinados com o Iluminismo, que descortinava e se constituía num posicionamento contrário ao Absolutismo praticado por Dom João V. Tais ideais eram compartilhados por seu irmão e seu amigo, o diplomata Alexandre de Gusmão.

Num romance didático e moralizante, como era o costume no século XVIII, temos um diálogo retórico, onde a autora apresenta suas máximas de virtuosidade: “São inumeráveis as heroínas que se tem visto tão inteligentes que umas têm parecido o milagre das artes e outras têm dado a entender que eles julgam ignorância o que são efeitos da modéstia.” Em algumas partes, ela deixa claro a reinvindicação pela igualdade de direitos das mulheres: “Não resplandece em todas a luz brilhante das ciências porque eles ocupam as aulas em que não teriam lugar se elas frequentassem, pois temos igualdade de almas e o mesmo direito aos conhecimentos necessários.”

Sobre o direito ao conhecimento, ela ressalta: “Nós não temos a profissão das ciências nem a obrigação de sermos sábias; mas também não fizemos voto de sermos ignorantes.” Seu feito é excepcional até mesmo na questão de gênero literário. Na época era incomum que as mulheres escrevessem em prosa, dedicando-se mais à poesia. Assim, foi precursora na literatura e no feminismo que se estendeu até o século XIX e ficou mais ou menos esquecida, mesmo com a reedição de sua Obra reunida, em 1993, pela Graphia Editorial.

Não obstante sua classe social e os elogios recebidos após a publicação do romance, a condição feminina relativizou a autoria de sua obra. Na terceira edição seu romance foi publicado como se fosse de Alexandre Gusmão, o que revela a noção inferiorizada que se tinha da mulher. Entre nós, ela é considerada pela Academia Brasileira de Letras como a primeira romancista do País. Assim, conforme os críticos, pode-se dizer que apesar de não ter vivido aqui, seus questionamentos se relacionam com o Brasil do século XVIII e, logo, não é totalmente alheio ao cenário nacional da época. Faleceu em Lisboa, em 24/10/1793.

Seu pioneirismo não passou despercebido no meio acadêmico aqui e em Portugal. Em 2004 Eva Loureiro Viralhele apresentou trabalho no VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, na Universidade de Coimbra, um questionamento intitulado “Fabricação de ideias e identidades na historiografia literária luso e brasileira: Começa a literatura brasileira com um romance, feminista e político escrito por uma mulher?”, disponível clicando aqui. Em 2006 Sofia de Melo Araújo publicou na Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literatura (Porto), vol. 23, o artigo “Aventuras de Diófanes de Teresa Margarida da Silva e Orta – Os ideais de Climenéia e Diófanes à luz dos tempos”, também disponível clicando aqui. 

Entre nós, temos a dissertação de Tania Magali Ferreira Furquim, defendida, em 2003, na Unicamp: “Aventuras instrutivas: Teresa Margarida da Silva e Orta e o romance setecentista”. Mas, por enquanto, a primeira romancista em língua portuguesa, que é brasileira, está aguardando os biógrafos nativos com uma biografia a altura de sua importância para as letras brasileiras. Foi homenageada em São Paulo, nomeando uma EMEF-Escola Municipal de Ensino Fundamental, no bairro Campo Limpo.

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OS BRASILEIROS: João Pernambuco

João Teixeira Guimarães nasceu em 2/11/1883, em Petrolândia, PE. Músico e primeiro compositor a criar um repertório de choros escritos especialmente para violão. Conhecido como “Poeta do Violão”, é coautor do clássico “Luar do Sertão”, junto com Catulo da Paixão Cearense, e de Sons de Carrilhão entre outros clássicos da música brasileira.

Filho de Teresa Vieira e Manuel Teixeira Guimarães, começou a tocar viola na infância, quando vivia no Recife, e foi influenciado pelos cantadores e violeiros de rua. Aprendeu a tocar violão com cantadores sertanejos como Bem-te-vi, Mandapolão, o cego Sinfrônio e Fabião das Queimadas. Em 1904, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi morar com uma irmã. Trabalhou em diversas atividades, incluindo a função de “calceteiro”, o operário que calça ruas. Pouco depois foi tocar na casa do senador Pinheiro Machado, que se tornou seu admirador e lhe arrumou um emprego como contínuo num almoxarifado, um serviço menos arriscado para as mãos de um violonista, propiciando-lhe mais tempo livre para se dedicar à música.

Em seguida mudou-se para uma pensão no centro da cidade e passou a conviver com vários amigos músicos violonistas, onde tocava e cantava músicas de sua terra. Vem daí o apelido João Pernambuco. Na pensão viviam Pixinguinha e Donga e era frequentada pelo violonista Sátiro Bilhar e pelo poeta Catulo da Paixão Cearense. Em 1908 já era considerado entre os grandes chorões e compôs, junto com Catulo, Engenho de Humaitá, que deu origem à toada Luar do Sertão. (1914). Mais tarde, Catulo registrou a música sem a coautoria de João Pernambuco. Mas, na disputa judicial Heitor Villa-Lobos, Pixinguinha e Almirante depõem a seu favor, passando a ter seu nome creditado.

Além de tocar, também cantava e montou o “Grupo Caxangá“, em 1914, com 7 integrantes, entre os quais Pixinguinha e Donga, lançando moda no Rio com sua caracterização sertaneja. Em 1916 montou o grupo “Troupe Sertaneja”, apresentando-se em São Paulo e Porto Alegre. Mais tarde, em 1922, integrou o grupo dos “Turunas Pernambucanos” e dos “Oito Batutas”, ao lado de Pixinguinha. De 1928 até 1935, morou num casarão da Av. Mem de Sá, que abrigava muitos músicos em concorridas rodas de choro, frequentada por gente como Villa-Lobos, que lhe arranjou um emprego como contínuo na Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA).

Suas composições eram de tal densidade e profundidade, que permaneceram na memória musical do País, como a música Sons de Carrilhões. Alguns músicos deixaram registrado depoimentos sobre sua obra: “Bach não se envergonharia em assinar os estudos de João Pernambuco” (Villa-Lobos); “João Pernambuco está para o violão assim como Ernesto Nazareth está para o piano” (Mozart de Araújo); “Dificilmente se encontra um violonista brasileiro, seja ele músico erudito ou popular, que não tenha em seu repertório alguma música do João… a mais legítima expressão do jeito brasileiro de tocar violão” (Maurício Carrilho). Foi João Pernambuco quem introduziu o chapéu de couro nordestino no cenário cultural brasileiro, cf. se vê na foto do verbete, a foto do verbete mostra que, antes de Lampião, ele já dobrava a aba frontal do chapéu pra cima

Faleceu em 16/10/1947, ano em que musicou os versos de Castro Alves, Canção do violeiro. Seu legado é composto por mais de 100 obras entre cocos, toadas, emboladas, choros e valsas. Sua presença na música brasileira é fundamental, visto que ele chegou ao Rio de Janeiro na época em que a cidade passava por um processo de modernização inspirado nas reformas urbanas que ocorrem em Paris. Na época o que prevalecia aqui era a música instrumental estrangeira e de ópera, particularmente a italiana. Os músicos populares eram vistos apenas nas salas de cinema e no teatro de revista.

Assim, a música popular passa a ser cada vez mais frequente, sobretudo com a ampliação das gravações fonográficas. Segundo os historiadores, neste contexto João Pernambuco se destaca pela divulgação de gêneros como a toada sertaneja e a embolada e por meio de sua atividade como professor de violão. É um dos protagonistas da geração que sistematizou o choro, um gênero musical próprio do Brasil. O violonista erudito Turíbio Santos tem se dedicado a recolher, publicar e tocar as composições de João Pernambuco desde 1970 e diz-se que seu arranjo para Sons de Carrilhão é uma virtuose.

Leandro Carvalho é outro violonista empolgado com sua obra. Em 1999 gravou o CD João Pernambuco, o poeta do violão pela gravadora Eldorado. No ano seguinte gravou o CD Descobrindo João Pernambuco pela gravadora Ritornelo Records e fez um mestrado na UFPE, com orientação de Ariano Suassuna, enfocando as obras do compositor. Pouco depois foi lançado por Baden Powell o CD João Pernambuco e o sertão, com uma coletânea especial. Como biografia sucinta, temos João Pernambuco: arte de um povo – de José de Souza Leal e Artur Luiz Barbosa, publicado pelo MEC/FUNARTE, em 1982.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Armando Sales de Oliveira

Armando de Sales Oliveira nasceu em 24/12/1887, em São Paulo, SP. Engenheiro, empresário e político, tem o nome ligado a história de São Paulo, particularmente, na criação da USP-Universidade de São Paulo e do IPT-Instituto de Pesquisas Tecnológicas em 1934.

Filho de Adelaide Sá de Sales Oliveira e o engenheiro e político português Francisco de Sales Oliveira Jr., presidente da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Teve parte dos primeiros estudos em escola pública e ingressou no curso de engenharia da Escola Politécnica. Durante o curso, trabalhou na construção de alguns trechos da Mogiana, em 1908. Destacou-se na área de projetos técnicos como engenheiro e empresário e casou-se com Raquel de Mesquita, filha de Júlio de Mesquita Filho, dono do jornal O Estado de São Paulo, de quem se tornou sócio.

Com a morte do sogro, em 1927, assumiu a presidência da sociedade anônima proprietária do jornal. Apoiou a Revolução de 1930 e teve atuação destacada na Revolução Constitucionalista de 1932. Manteve ligações com os constitucionalistas, enquanto procurava uma aproximação com o governo Vargas. Em 1933 foi designado interventor em São Paulo e promoveu uma reordenação na política do Estado com a criação do Partido Constitucionalista. A USP-Universidade de São Paulo constituiu-se na criação mais expressiva de seu governo. A proposta era tornar-se um centro de excelência acadêmica de projeção nacional, um objetivo plenamente alcançado.

Para ressaltar o objetivo, criou o IPT-Instituto de Pesquisas Tecnológicas, ao lado da Escola Politécnica. As justificativas no próprio texto do decreto são claras: “a organização e o desenvolvimento da cultura filosófica, científica, literária e artística constituem as bases em que se assentam a liberdade e a grandeza de um povo” e “somente por seus institutos de investigação científica, de altos estudos, de cultura livre, desinteressada, pode uma nação moderna adquirir a consciência de si mesma, de seus recursos, de seus destinos”. Assim, reuniu os institutos e escolas existentes, criou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras para formar professores primários e secundários e deu no que deu: a grande USP, cujo campus hoje leva seu nome.

Além dos objetivos acima, queria preparar uma elite intelectual moderna e necessária ao País. Ainda segundo seus criadores, era necessário à “formação das classes dirigentes, mormente em países de populações heterogêneas e costumes diversos, condicionada à organização de um aparelho cultural e universitário, que ofereça oportunidade a todos e processe a seleção dos mais capazes”. Para isto, foi firmado um convênio com as universidades francesas, garantindo a vinda de professores para lecionar aqui. No ano seguinte foi eleito governador do Estado e pouco depois comunicou à Vargas seu interesse em se candidatar à presidência da República.

Foi dissuadido dessa intenção pelo presidente Vargas. Porém, não acatou o conselho, pois contava com o apoio de Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul e de outros governadores da oposição à Vargas. Em 1937 homologou a candidatura na eleição que deveria ocorrer em 1938, que não se deu devido ao golpe instaurando Estado Novo em fins de 1937. Ele ficou detido por um ano em prisão domiciliar e passou a viver exilado na França até 1939, quando se mudou para os EUA. Com o Golpe de Estado, seu jornal foi confiscado pelo Governo. No exílio divulgou diversos manifestos contra a ditadura de Vargas.

Em 1943 mudou-se para a Argentina e pouco depois foi anistiado. Retornou ao Brasil em 1945, quando se encontrava doente. Ainda assim participou ativamente na política, como membro da comissão diretora que criou a UDN-União Democrática Nacional, partido reunindo os adversários do Estado Novo. Mas, logo veio a falecer em 17/5/1945. Seu nome ficou gravado no campus da USP e diversos logradouros públicos do Estado.

Deixou alguns livros publicados com relatos sobre sua trajetória política: Jornada democrática (1937), Para que o Brasil continue (1937) e Diagrama de uma situação política; manifestos políticos do exílio (1945). Alguns textos biográficos esclarecem tal trajetória: Síntese do pensamento de Armando de Sales Oliveira, de Joaquim A. Sampaio Vidal (1937), Armando de Sales Oliveira, de Cesário Coimbra, Manuel dos Reis e Moacir E. Álvaro (1946); Armando de Sales Oliveira, de A.C. Pacheco Silva (1966) e o artigo Armando de Sales Oliveira, de Ricardo Maranhão, publicado no “Suplemento do Centenário” de O Estado de S. Paulo, em 1975.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Ada Rogato

Ada Leda Rogato nasceu em 22/12/1910, em São Paulo, SP. Uma das pioneiras da aviação no Brasil; primeira mulher paraquedista; primeira piloto de avião planador e terceira a obter o brevê de aviadora. Foi também a primeiro piloto agrícola do País e ficou famosa com suas acrobacias aéreas. Voando sempre sozinha em pequenas aeronaves e grandes percursos, ganhou fama internacional a partir da década de 1950.

Filha dos imigrantes italianos Maria Rosa Greco e Guglielmo Rogato, teve os primeiros estudos em bons colégios com aulas de piano e pintura. O pai constituiu nova família em meados da década de 1930 e ela passou por alguns perrengues ajudando a mãe com bordados e artesanato para se sustentar. Trazia consigo o sonho de voar e conseguiu, em 1935, o primeiro brevê feminino de voo a vela. No ano seguinte conseguiu a primeira licença concedida a uma mulher para pilotar avião pelo Aeroclube de São Paulo. Em 1941 fez o curso de paraquedismo no Campo de Marte e recebeu o primeiro certificado concedido a uma mulher.

Utilizou suas habilidades para divulgar a aviação e participou de diversos eventos aeronáuticos em todo o País. Durante a II Guerra Mundial, ajudou voluntariamente o Exército com 213 voos de patrulhamento aéreo no litoral paulista. Em 1948, com o surgimento da “Broca-do-café” no Brasil, ameaçando sua hegemonia no mercado mundial, ela foi a salvação da lavoura. Aceitou o desafio e implantou a dispersão aérea dos defensivos agrícolas. Em 1956, no “Cinquentenário do primeiro voo 14-bis”, ela percorreu mais de 25 mil km. de voo por todos os estados para homenagear e divulgar os feitos de Santos Dumont, levando material sobre a vida e obra do Pai da Aviação.

A pedido das autoridades eclesiásticas, levou também nesta peregrinação aérea uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, colaborando, assim, para divulgar a santa padroeira do Brasil. Na década de 1950 foi redatora de aviação da Revista dos Aviadores e da revista Velocidade. Recebeu da imprensa diversos epítetos “Milionária do Ar”, Gaivota Solitária”, “Águia Paulista” e no Chile “Condor dos Andes”. Foi uma colecionadora de feitos notáveis na aviação: 1ª piloto brasileira a atravessar os Andes, 11 vezes, em 1950; única aviadora do mundo a cobrir uma extensão de 51.064 km. em voo solitário pelas 3 Américas chegando até o Alaska; a 1ª a atingir o aeroporto de La Paz, o mais alto do mundo até então (1952).

Foi também 1º piloto, homem ou mulher, a cruzar a selva amazônica num avião pequeno e sem rádio, usando apenas uma bússola (1956); 1ª aviadora a chegar sozinha à Terra do Fogo (1960); 1ª mulher no mundo a saltar de um helicóptero, realizando 105 saltos, e 1ª mulher paraquedista das Américas. Foi condecorada diversas vezes e recebeu centenas de troféus: foi a primeira aviadora a receber no Brasil a Comenda Nacional do Mérito Aeronáutico, no grau de Cavaleiro, as “Asas da Força Aérea Brasileira” e o título de Piloto Honoris Causa da FAB; também no grau de Cavaleiro, recebeu na Bolívia o troféu Condor dos Andes; no Chile, foi condecorada com a medalha Bernardo O’Higgins no grau de Oficial e na Colômbia com as “Asas da Força Aérea Colombiana”.

Em 1954, recebeu da Federação Aeronáutica Internacional, o diploma “Paul Tissander” por seus méritos na aviação. Em 1986 foi conselheira, secretária e presidente da Fundação Santos Dumont e se manteve no cargo de diretora do Museu da Aeronáutica, no parque do Ibirapuera, até seu falecimento em 15/11/1986. O cortejo de seu funeral foi acompanhado pela “Esquadrilha da Fumaça”, recebendo todas as honras da Aeronáutica brasileira. Seu avião -o Cessna 140-A- encontra-se hoje em exposição no Museu TAM, em São Carlos, SP.

Os feitos aeronáuticos de Ada Rogato podem ser vistos no filme de curta metragem Folguedos no firmamento, realizado em 1984, com direção de Regina Rheda e na biografia Um pássaro solitário, de Lucita Briza, publicada em 2018 pelo Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica, acessível na Internet.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Alberto Luiz Coimbra

Alberto Luiz Galvão Coimbra nasceu em 30/8/1923, no Rio de Janeiro, RJ. Engenheiro, pesquisador, professor e pioneiro ao revolucionar o estudo da engenharia com um método de ensino integral voltado à pesquisa no Brasil. Foi o criador da COPPE/UFRJ–Coordenadoria dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1963, atualmente denominado Instituto Alberto Luiz Coimbra.

Filho de Zahra Braga e Deodato Galvão Coimbra, que motivaram os filhos a falar inglês em casa. Aos 17 anos, a família morou por um ano em Nova Iorque e na volta ingressou na Escola Nacional de Química da Universidade do Brasil, atual UFRJ. Tomou gosto pela matemática e concluiu o curso de engenharia química. Através de seu professor Athos da Silveira Ramos, conseguiu uma bolsa, em 1947, para fazer o mestrado na Universidade Vanderbilt, nos EUA. Lá encontrou uma estrutura de ensino e pesquisa bem diferenciada do que havia no Brasil. Antes de concluir o curso, recebeu a visita do padre Roberto Saboia de Medeiros, que o convidou para lecionar na Faculdade de Engenharia Industrial, em São Paulo. Retornou ao Brasil em 1949; se casou com a estilista Betty Quadros e viveu uns 4 anos em São Paulo.

Em 1953 retornou ao Rio de Janeiro, na condição de professor do Instituto de Química da Universidade do Brasil. Para manter a família com 2 filhos, teve vários empregos e alguns simultâneos. Foi professor na PUC/RJ; no curso de refinação de petróleo da Petrobrás; consultor das empresas Castrol e Carborundum, além de sua firma própria, elaborando projetos industriais. Por essa época obteve o doutorado pela Universidade do Brasil e viu que o ensino brasileiro de engenharia não formava cientistas. Daí nasceu a ideia de implantar um curso de mestrado de Engenharia Química. Em contatos com seu orientador na Universidade Vanderbilt, Frank Tiller, foi-lhe recomendado a visita a diversas universidades norte-americanas. O prof. Tiller tinha ideia de modificar a estrutura da universidade brasileira para algo mais parecido com o modelo norte-americano e considerou que ele poderia assumir esta tarefa.

Nesta época, a Guerra Fria entre EUA e URSS provocou uma mudança nos cursos de engenharia, com ênfase na pesquisa científica, algo que faltava no Brasil. Assim, começa a se formar o embrião que viria a se constituir na COPPE. Para isso era preciso aliar os princípios da matemática, da física e da química ao espírito prático dos engenheiros. Do contrário, os brasileiros estariam para sempre condenados a importar tecnologia. Com professores bem renumerados em período integral com tempo dedicado à pesquisa, o curso iniciou em 1/3/1963 com apenas 8 alunos. Para recrutar mais alunos, mandou duplas de professores às cidades onde havia cursos de Engenharia. Punham anúncio no jornal local, convidando estudantes em fim de curso para entrevista num hotel. Explicavam o que era mestrado e analisavam os interessados. Se o jovem parecesse promissor, era informado que havia uma bolsa de estudos esperando por ele no Rio de Janeiro.

O curso foi progredindo e com recursos do FUNTEC-Fundo de Desenvolvimento Técnico-Científico, o prof. Coimbra animou-se a criar, em 1965, o 2º curso de mestrado: Engenharia Mecânica. Ocupando 2 salas do prédio da Praia Vermelha, ele largou os empregos paralelos e passou dedicar-se ao curso de pós-graduação. Exigia pontualidade dos professores e uso de gravata. Mesmo divergindo da direção da Universidade, conseguiu trazer professores estrangeiros, inclusive da URSS, em pleno regime de ditadura militar. Os resultados obtidos apontavam à necessidade de um nome que englobasse os 2 cursos e os próximos que seriam criados. Assim surgiu o nome COPPE-Coordenação dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia.

A partir daí, a COPPE foi alavancada e quando se mudou para instalações mais amplas na Cidade Universitária, em 1967, já contava com 7 programas. Em 1968, com a reforma do sistema universitário, a pós-graduação foi oficializada no Brasil nos moldes praticados pela COPPE. Seu progresso continua com novos professores estrangeiros e a contratação de alguns brasileiros perseguidos pela ditadura militar. Para o prof. Coimbra a Engenharia era desprovida de ideologia política. Mas, isto lhe trouxe problemas com o governo militar. Em 1973, através de uma delação, sofreu um processo administrativo, que resultou no seu afastamento e a um demorado processo que o inocentou. Nesse período foi depor várias vezes, foi fichado e humilhado pelos militares e foi obrigado a depor num inquérito na sede do MEC. Queriam saber por que ele contratava tantos professores russos.

Certa vez, enquanto flanava no calçadão de Ipanema, foi abordado por agentes à paisana e foi levado ao DOI-Codi, no 1º Batalhão da Polícia do Exército, para dar mais explicações sobre os professores russos. Em fins de 1973, o Conselho Universitário proibiu-o de ocupar postos de chefia. Teve que deixar a COPPE e foi trabalhar na FINEP-Financiadora de Estudos e Projetos, a convite do amigo José Pelúcio Ferreira. Contam os amigos que, longe da universidade, este foi o pior momento de sua vida. Foi reabilitado apenas em 1981, com o Prêmio Anísio Teixeira, do MEC. Para recebê-lo, tiveram que revogar a proibição que lhe foi imposta. Pouco depois, retornou à COPPE para assumir a coordenação do Programa de Engenharia Química, onde permaneceu até se aposentar, em 1993, com o título de professor emérito da UFRJ.

Em 1995, a COPPE passou a se chamar Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia. Mas, manteve a sigla COPPE, o maior centro de ensino e pesquisa de Engenharia na América Latina. Em 1973 um grupo do programa de engenharia de produção decidiu criar uma escola de pós-graduação em negócios e fundaram a COPPEAD-Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da UFRJ. Trata-se de uma das melhores escolas de negócios e seu curso MBA já esteve 11 vezes no Top 100 do Global Ranking do jornal Financial Times.

Em 2015, no cinquentenário da COPPE, seu diretor, o cientista Luiz Pinguelli Rosa, realizou o evento/exposição “Coppe em cinco décadas: a arte de antecipar o futuro”, lançando a revista Engenharia e Inovação e o relançamento do livro Mecânica dos fluídos, de Alberto Luiz Coimbra, presente na ocasião em que foi homenageado pela criação da COPPE e os serviços prestados à Engenharia no Brasil. Na ocasião recebeu o título de Pesquisador Emérito do CPNq. Foi a última homenagem que lhe foi prestada, vindo a falecer em 16/5/2018. Segundo Roberto Leher, ex-reitor da UFRJ, “Em quase seis décadas atuando de forma dedicada na COPPE e na UFRJ, Coimbra contribuiu para o desenvolvimento econômico e social do país e iluminou o caminho não apenas de engenheiros, mas também da instituição universitária brasileira”.