JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Teresa Margarida da Silva e Orta nasceu em São Paulo, SP, em 1711. Reconhecida como a primeira romancista em língua portuguesa, era irmã do filósofo Matias Aires e escrevia sob o pseudônimo de Dorotéia Engrassia Tavareda Dalmira, um anagrama perfeito de seu nome. Teve uma produção de obras autônomas e independentes e pode ser considerada, também, a primeira feminista brasileira.

Sua mãe era brasileira e o pai português -José Ramos da Silva- minerador e um dos homens mais ricos do Brasil Colonial. Aos 5 anos, a família mudou-se para Lisboa, onde viveu e publicou toda sua obra. Teve uma vida atribulada, mantendo bom relacionamento com a corte portuguesa e com o Marquês de Pombal. O pai internou-a num convento, mas ela saiu de lá para casar-se com alguém de sua escolha, algo incomum para a época, quando os casamentos eram arranjados. Após a morte do pai e do marido, lutou pelo direito de acesso aos bens da família e mais tarde foi presa sob a acusação de mentir à corte por defender o casamento do filho com uma nobre cuja família não aceitava a união.

Em 1752 publicou o romance político e feminista As aventuras de Diófanes, o primeiro da língua portuguesa escrito por uma mulher. O romance traz como pano de fundo ideias que subvertem os padrões absolutistas de Portugal, do século XVIII, num enredo cheio de imprevistos e reviravoltas. Suas ideias, insubmissas para a época, pregavam a educação igualitária entre meninos e meninas e trabalho para as mulheres, numa crítica à ociosidade que lhes era imposta. Tais ideais estavam afinados com o Iluminismo, que descortinava e se constituía num posicionamento contrário ao Absolutismo praticado por Dom João V. Tais ideais eram compartilhados por seu irmão e seu amigo, o diplomata Alexandre de Gusmão.

Num romance didático e moralizante, como era o costume no século XVIII, temos um diálogo retórico, onde a autora apresenta suas máximas de virtuosidade: “São inumeráveis as heroínas que se tem visto tão inteligentes que umas têm parecido o milagre das artes e outras têm dado a entender que eles julgam ignorância o que são efeitos da modéstia.” Em algumas partes, ela deixa claro a reinvindicação pela igualdade de direitos das mulheres: “Não resplandece em todas a luz brilhante das ciências porque eles ocupam as aulas em que não teriam lugar se elas frequentassem, pois temos igualdade de almas e o mesmo direito aos conhecimentos necessários.”

Sobre o direito ao conhecimento, ela ressalta: “Nós não temos a profissão das ciências nem a obrigação de sermos sábias; mas também não fizemos voto de sermos ignorantes.” Seu feito é excepcional até mesmo na questão de gênero literário. Na época era incomum que as mulheres escrevessem em prosa, dedicando-se mais à poesia. Assim, foi precursora na literatura e no feminismo que se estendeu até o século XIX e ficou mais ou menos esquecida, mesmo com a reedição de sua Obra reunida, em 1993, pela Graphia Editorial.

Não obstante sua classe social e os elogios recebidos após a publicação do romance, a condição feminina relativizou a autoria de sua obra. Na terceira edição seu romance foi publicado como se fosse de Alexandre Gusmão, o que revela a noção inferiorizada que se tinha da mulher. Entre nós, ela é considerada pela Academia Brasileira de Letras como a primeira romancista do País. Assim, conforme os críticos, pode-se dizer que apesar de não ter vivido aqui, seus questionamentos se relacionam com o Brasil do século XVIII e, logo, não é totalmente alheio ao cenário nacional da época. Faleceu em Lisboa, em 24/10/1793.

Seu pioneirismo não passou despercebido no meio acadêmico aqui e em Portugal. Em 2004 Eva Loureiro Viralhele apresentou trabalho no VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, na Universidade de Coimbra, um questionamento intitulado “Fabricação de ideias e identidades na historiografia literária luso e brasileira: Começa a literatura brasileira com um romance, feminista e político escrito por uma mulher?”, disponível clicando aqui. Em 2006 Sofia de Melo Araújo publicou na Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literatura (Porto), vol. 23, o artigo “Aventuras de Diófanes de Teresa Margarida da Silva e Orta – Os ideais de Climenéia e Diófanes à luz dos tempos”, também disponível clicando aqui

Entre nós, temos a dissertação de Tania Magali Ferreira Furquim, defendida, em 2003, na Unicamp: “Aventuras instrutivas: Teresa Margarida da Silva e Orta e o romance setecentista”. Mas, por enquanto, a primeira romancista em língua portuguesa, que é brasileira, está aguardando os biógrafos nativos com uma biografia a altura de sua importância para as letras brasileiras. Foi homenageada em São Paulo, nomeando uma EMEF-Escola Municipal de Ensino Fundamental, no bairro Campo Limpo.

5 pensou em “AS BRASILEIRAS: Tereza Margarida

  1. Como um fato como este, a primeira romancista da língua portuguesa ser uma paulistana, pode estar sendo desconhecido da maioria dos brasileiros ?

  2. Meu caríssimo confrade Brito, o biógrafo mais completo das minibibliografias não-oficiais que estão enriquecendo as estantes desconhecidas.

    Admiro demais seu trabalho. O mestre está resgatando os porões dos registros públicos que nunca foram catalogados e nunca tiveram a atenção dos historiadores oficiais.

    Meus parabéns por essa disposição histórica.

    Meus parabéns pelo retrato de Tereza Margarida, reconhecida como a primeira romancista da língua portuguesa.

  3. Cicero
    Neste domingo sairá a biografia de Matias Aires, irmão da Teresa Margarida e um dos grandes filósofos do séc. XVIII. Também é paulistano como a irmã. Mas quase ninguém sabe disso. Os leitores fubanicos saberão agora

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *