JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Beatriz Nascimento

Maria Beatriz Nascimento nasceu em 12/7/1942, em Aracaju, SE. Professora, historiadora, poeta, roteirista e militante em defesa dos direitos humanos de negros e mulheres. Realizou diversas pesquisas sobre os quilombos no Brasil e as condições de trabalho da população negra.

Filha de Rubina Pereira do Nascimento e Francisco Xavier do Nascimento, uma família humilde com 10 filhos. Aos 7 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde realizou os primeiros estudos. Em 1968 ingressou no curso de História, na UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante o curso, concluído em 1971, fez estágio no Arquivo Nacional, tendo como orientador o historiador José Honório Rodrigues.

Em seguida passou a lecionar História na escola Estadual Roma, em Copacabana e em 1978 iniciou o curso de pós-graduação na UFF-Universidade Federal Fluminense, concluído em 1981. Sua área de pesquisa abrangeu os sistemas alternativos organizados pelos negros nos quilombos e favelas. Tornou-se conhecida na área dos estudos das relações raciais e no movimento negro a partir do documentário Ôrí (1989). Trata-se de um “filme-tese” de longa metragem, dirigido por Raquel Gerber, baseado em suas narrações e pesquisas realizadas no período 1977-1988 sobre o movimento negro nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Alagoas.

O filme tem o quilombo como tema, permeado com a trajetória de sua própria vida. Uma síntese extraída da sinopse do filme relata a “abordagem de temas como corporeidade do negro, a perda da imagem que atingia os africanos escravizados e seus descendentes em diáspora e a situação das mulheres negras no Brasil, analisando sua condição social inferior devida ao amálgama de heranças escravistas com mecanismos racistas”.

Estreou em 4/3/1989 no Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ougadougou, em Burkina Fasso, recebendo o prêmio Paul Robeson e em Curitiba, em 5/10/1989.

Através de seus artigos, publicados em periódicos especializados, sobre o conceito de quilombo na história, raça, racismo e sexismo ficou conhecida também no meio acadêmico. Teve atuação destacada na criação do “Grupo de Trabalho André Rebouças”, na UFF-Universidade Federal Fluminense, em 1974, e o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras, em 1975. Segundo Lélia Gonzalez, Beatriz foi responsável pelo renascimento do movimento negro no Rio de Janeiro nos anos 1970. Participou de diversos eventos sobre cultura negra e quilombos no meio acadêmico e esteve 2 vezes em Angola afim de conhecer os territórios dos antigos quilombos.

Tinha uma consciência muito clara de sua condição e uma nítida visão do preconceito estrutural que permeia as relações sociais no Brasil: “Ser negro é enfrentar uma história de quase quinhentos anos de resistência à dor, ao sofrimento físico e moral, à sensação de não existir, à prática de ainda não pertencer a uma sociedade em que consagrou tudo o que possuía, oferecendo ainda hoje o resto de si. Ser negro não pode ser reduzido a um “estado de espírito”, “alma branca ou negra”, aspectos de comportamento que certos brancos escolhem como sendo negros e assim os adotam como seus.”

Em 1995, enquanto cursava mestrado em Comunicação Social na UFRJ, aconselhou uma amiga a se separar do companheiro após ouvir várias reclamações de violência doméstica. Em 28 de janeiro daquele ano, o companheiro da amiga deu-lhe 5 tiros por entender que ela interferia em sua vida privada. Em 19/4/1996, o assassino foi condenado a 17 anos de prisão pela morte de Maria Beatriz.

Em 2009, o pesquisador Alex Raatts publicou o livro Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Instituto Kuanza. Em 2015 o mesmo autor organizou e publicou Todas [as] distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento, publicado pela editora Ogum’s Toques Negros. Em seguida o senador Paulo Paim elaborou o PL 614/2022, que resultou na Lei 14.712/2023, incluindo-a no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Tibiriça

Martim Afonso Tibiriçá, nome de batismo cristão dado pelo Padre Anchieta ao líder indígena tupiniquim, nasceu em fins do século XV em São Paulo, SP. O nome homenageia Martim Afonso de Souza, fundador da vila de São Vicente. É considerado na História como um dos fundadores da cidade de São Paulo, em 1554, devido a sua colaboração com os jesuítas Manuel da Nóbrega, José de Anchieta e Manuel de Paiva.

Seu nome significa “vigilante da terra” na língua tupi, e sua aproximação com os portugueses ocorreu por volta de 1510, quando João Ramalho chegou ao planalto, vindo do litoral. O cacique ofereceu (em casamento) ao náufrago ou degredado sua filha Bartira, com quem viveu 40 anos e teve uma grande família, constituindo-se na primeira geração dos colonizadores paulistas. Além do casamento desta filha, o cacique manteve boas relações de parentesco com os portugueses, concedendo-lhes o casamento com outras duas filhas.

O nome Tibiriça está na raiz de 16 gerações de mamelucos, muitos deles tornando-se paulistas quatrocentões, constituindo um novo povo. Mais tarde uma ala da ilustre família Almeida Prado trocou o nome pelo do cacique e um destacado membro – Jorge Tibiriça – foi governador do Estado em 2 ocasiões. Em 1554 colaborou com os jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta no trabalho de fundação da vila de São Paulo e instalou-se com sua tribo próximo deles, no local onde hoje se encontra o Mosteiro de São Bento. Durante muito tempo, a rua São Bento foi chamada Rua Martim Afonso. Consta a História que o próprio cacique e seus índios ajudaram na construção do colégio ali instalado.

Assim naquele ponto da colina, onde de um lado temos o rio Tamanduateí e de outro tínhamos o riacho do Anhangabaú, formou-se a vila, que resultou na fundação da cidade (25/1/1554). Tudo começou com um colégio de padres rodeado de habitações indígenas sob o comando do cacique Tibiriça. Segundo Roberto Pompeu de Toledo, em seu livro A capital da solidão: uma história de São Paulo (Ed. Objetiva, 2003), o padre Anchieta declarou que o cacique “não mereceria apenas o título de benfeitor, mas ainda o de fundador e conservador da Casa de Piratininga”.

Graças ao cacique, os jesuítas puderam agrupar seus primeiros neófitos naquela redondeza, atual centro antigo de São Paulo. A maior prova de sua fidelidade aos jesuítas se deu em 9/7/1562, quando o cacique liderou o povoado na defesa do maior ataque de índios de outras tribos. Articulou o apoio de três aldeias; formou um exército e venceu os inimigos numa luta sangrenta. O episódio -quase ignorado nos livros de História- ficou conhecido como a “Guerra de Piratininga”

O curioso nessa história é que o grupo dos índios invasores era comandado pelo cacique Araraiga, irmão de Tibiriça. O plano de invadir a vila dos jesuítas foi comunicado previamente pelo sobrinho Jaguanharon, a fim de salvar família do tio. Tibiriça logo avisou os padres, que tiveram tempo de pedir reforços em Santos e salvar a vila do ataque. Vê-se que não havia consenso entre todos os índios sobre a presença dos jesuítas naquele território. Entre os revoltosos encontravam-se alguns índios que já viviam nas aldeias próximas, que tinham como chefe o próprio irmão de Tibiriça

Pouco depois desse combate, uma epidemia de peste negra infestou a vila de São Paulo e algumas aldeias do planalto paulista, vitimando o velho cacique em 25/12/1562. Os jesuítas providenciaram um honroso funeral e seu corpo foi sepultado na igreja. Hoje seu túmulo encontra-se na cripta da catedral da Sé, no mesmo local onde estão sepultadas outras importantes figuras da história paulista.

Foi homenageado com o nome dado a alguns logradouros da cidade e a rodovia estadual SP-031, ligando a região do ABC ao Alto Tietê. Consta também mais uma homenagem com um projeto de lei tramitando na Câmara dos Deputados, que solicita a inscrição de seu nome no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade, ao lado da Praça dos Três Poderes, em Brasília.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Rosa Egipcíaca

Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz nasceu em 1719, na Costa de Ajudá, atual Benin, África. Escravizada e autora do mais antigo livro escrito por uma mulher negra na história do Brasil: Sagrada teologia do amor divino das almas peregrinas. Capturada pelo tráfico negreiro, aos 6 anos, foi trazida para o Rio de Janeiro. O nome Egipcíaca foi dado em referência à Santa Maria Egipcíaca.

Viveu no Rio de Janeiro prestando serviços domésticos até 1733, quando foi vendida para a mãe do Frei José de Santa Rita Durão e levada para Minas Gerais. Pouco depois caiu na prostituição e teve uma enfermidade. Neste período passou a ter visões místicas, levando-a a deixar o meretrício e se tornar beata. Em 1748 se desfez de seus bens, distribuindo tudo aos pobres. Passou a se dedicar aos ofícios divinos e em diversas ocasiões foi tomada por espíritos, segundo o vigário, malignos. Foi exorcizada algumas vezes e fazia sermões edificantes alternados entre visões de Nossa Senhora da Conceição e comportamentos estranhos, como se estivesse possuída por demônios.

Tais sermões levaram-na a ficar conhecida em Mariana, Vila Rica e São João del-Rei. Levada ao Bispo de Mariana, foi acusada de embusteira, sendo açoitada no pelourinho da cidade. Sobreviveu aos castigos e teve o lado direito do corpo semiparalisado. Pouco depois foi novamente analisada pelo frei Manoel da Cruz; passou por uma série de testes e concluíram que tudo era fingimento. Com tal diagnóstico o povo passou a chamá-la de feiticeira, tornando sua vida insuportável, fazendo-a retornar ao Rio de Janeiro, em 1751, numa fuga a pé percorrendo 500 km.

Diz-se que, motivada por inspiração espiritual, aprendeu a ler e escrever e passou a revelar seus dons sobrenaturais ao Provincial dos Franciscanos, Agostinho de São José, que se tornou seu mentor espiritual. Sua devoção extrema, jejuns prolongados, comunhão frequente e autoflagelação levaram os franciscanos a chamarem-na de “Flor do Rio de Janeiro”. Ainda em 1751 fundou uma casa com o nome de “Recolhimento do Parto”, destinado a receber ex-prostitutas e manter orações, que atraiu a atenção da população. Em pouco tempo passou a ser adorada por fiéis que a procuravam de joelhos, beijando-lhe os pés e venerando suas relíquias. Suas cerimônias católicas eram misturadas com ritos africanos, como o hábito de pitar cachimbo.

Por esta época escreveu a Sagrada Teologia do Amor Divino das Almas Peregrinas, um livro de cerca de 250 páginas, que foi considerado como heresia e parcialmente destruído pelo seu confessor e ex-exorcista Pe. Francisco Gonçalves Lopes, conhecido como Xota-Diabos, tendo em vista preservá-la da Inquisição. Conta a história que ela se indispôs com o clero ao “dizer-se mãe de Deus redentora do universo, superior a Santa Teresa, objeto de verdadeira e herética idolatria em seu recolhimento, além de capitanear rituais religiosos sincréticos igualmente suspeitos”.

Tais histórias contadas pelo povo relatam que em dado momento, ela chegou a dizer que o menino Jesus diariamente ia pentear seus cabelos e, em agradecimento, dava-lhe de mamar. Certamente, tais declarações irritaram os padres, que a entregaram aos oficiais do Santo Ofício da Inquisição, em 1763. Foi enviada ao cárcere, em Lisboa, onde não desmentiu suas visões e experiências sobrenaturais e veio a falecer, em 12/10/1771.

Em fins da década de 1980, o antropólogo Luiz Mott realizou uma pesquisa de fôlego sobre o fenômeno e publicou, em 1993 o livro Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil pela Editora Bertrand Brasil. O livro despertou o interesse público em conhecer melhor a história dessa mulher, suscitando a publicação de diversos artigos em revistas acadêmicas. Segundo ele, Rosa Egipcíaca “é certamente a mulher negra africana do século XVIII, tanto em África como na diáspora afro-americana e no Brasil, sobre quem se dispõe mais detalhes documentais sobre sua vida, sonhos, escritos e paixão”.

Outro livro que alavancou o interesse por essa história foi o romance ficcional Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz: a incrível trajetória de uma princesa negra entre a prostituição e a santidade, publicado por Heloisa Maranhão, em 1997, pela Editora Rosa dos Tempos. Segundo o historiador John Russel-Wood, em seu livro Escravos e libertos no Brasil colonial (2005), “Rosa Egipcíaca abre uma janela para a história das mentalidades de uma sociedade escravocrata e também dá identidade e individualidade a uma mulher africana, escrava e depois livre, no mar de anonimidade conferido aos escravos e aos indivíduos de ascendência africana livres no Brasil”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Frei Caneca

Joaquim da Silva Rabelo ou Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, após ordenar-se sacerdote aos 22 anos, nasceu no Recife, PE em 20/8/1779. Religioso, professor, jornalista, poeta e destacado líder revolucionário com participação na Revolução Pernambucana (1817) e mártir da Confederação do Equador (1824).

Filho de Francisca Maria Alexandrina de Siqueira e Domingos da Silva Rabelo, ingressou no Convento de Nossa Senhora do Carmo, onde foi noviço aos 17 anos. Após a ordenação, obteve autorização para cursar outras disciplinas no Seminário de Olinda e frequentar sua biblioteca, além da biblioteca dos Oratorianos, formando sua notável erudição. Aos 24 anos foi nomeado professor de Retórica, Geometria, Filosofia e Moral em seu Convento. Em seguida ingressou na Loja Maçônica Academia de Suassuna e na Loja Maçônica Academia do Paraíso, passando a postular ideais libertários.

Por esta época as ideias liberais em defesa da república fervilhavam nas colônias espanholas e, também no Brasil, em Pernambuco. Enquanto isso Portugal insistia com o regime monárquico com a Côrte Real instalada no Rio de Janeiro, em 1808. Para manter o fausto real foi preciso explorar mais os recursos da colônia. Nesse contexto Pernambuco era uma das províncias mais prósperas, cujos recursos eram desviados para manter o luxo e tudo o mais necessário à manutenção da família real. Tais ingredientes lançaram as bases da Revolução Pernambucana, em 6/3/1817.

Assim, foi proclamada a independência da Província, que deveria se estender por todo o País. Chegou a ter hino, bandeira e enviou o “embaixador” Cruz Cabugá aos EUA em busca de apoio à nascente república. Mas durou pouco e o movimento foi derrotado 72 dias depois. Segundo o historiador Evaldo Cabral de Mello, “a presença de Frei Caneca na insurreição só foi detectada ao final do levante, quando marchava para o sul da província a enfrentar as tropas do conde dos Arcos, ocasião em que, segundo a acusação, foi capitão de guerrilhas”, sob o comando do Coronel Suassuna.

Foi preso e enviado para Salvador; ficou detido por 4 anos; elaborou uma gramática da língua portuguesa e manteve aulas com os presos. Libertado em 1821, retornou à Pernambuco e voltou a se envolver com a política. Participou do “Movimento de Goiana”, contando com o apoio dos fazendeiros. Um exército de milícias marchou contra o Recife e chegou a expulsar os portugueses de Pernambuco, marcando o início da Guerra da Independência do Brasil. O episódio ficou conhecido como “Convenção de Beberibe”. Em setembro de 1821, a “Convenção” estabeleceu que as juntas do Recife e Goiana continuariam atuando nesta área e no mês seguinte foi realizada a eleição de uma Junta Provisória, instalando o primeiro governo autônomo da província. Frei Caneca apoiou esta primeira Junta Governativa de Pernambuco, presidida por Gervásio Pires Ferreira.

Em 1822, entusiasmado com a Junta, redigiu a “Dissertação sobre o que se deve entender por pátria do cidadão e deveres deste para com a mesma pátria”, visando dar uma base teórica ao movimento. No entanto, divergências internas levaram a deposição da Junta por um grupo de militares, em 23/9/1822, denominado “Junta dos matutos”, que se estendeu por um mês. Foi neste período que Frei Caneca iniciou sua participação mais ativa no movimento através de seu jornal, o Typhis Pernambucano, que se tornou a trincheira do movimento. Era um jornal semanal, destinado a divulgar os ideais revolucionários dos filósofos franceses do Iluminismo, como Rousseau e Montesquieu. O movimento tomou maior vulto em 1824, quando D. Pedro dissolveu a assembleia nacional constituinte e adotou uma nova constituição outorgada no Brasil. Frei Caneca foi chamado a opinar: “Esta constituição peca pelo principal, pois não garante a independência do Brasil com a determinação e a dignidade necessária, e deixa uma fisga para se aspirar a reunião com Portugal… Além do mais, é a Nação que escolhe a forma de governo, e Sua Majestade não tem comissão dos brasileiros para isso”. Também acusou D. Pedro de querer impor sua vontade pela força, e concluiu: “por todas estas razões, sou de voto que se não se adote e muito menos se jure este projeto”.

Foi o estopim para os líderes pernambucanos romperem definitivamente com o poder central, em 2/7/1824, e anunciar a formação de uma nova república, a Confederação do Equador. Era um projeto para o Brasil que tinha os EUA como modelo, ou seja, um conjunto de províncias autônomas, reunidas numa grande federação republicana. O apoio esperado das províncias do Norte e Nordeste e de outros países não prosperou e o movimento foi sufocado após muitos combates. Dom Pedro suspendeu as garantias constitucionais na província e amputou a comarca do São Francisco, incorporada ao território da Bahia, restringindo o tamanho da província pernambucana.

Recife sofreu um bloqueio naval; os canhões invadiram a cidade e em 12/9/1824 as tropas do Brigadeiro Lima e Silva ocuparam todo o território. Derrotado, Frei Caneca fugiu para o Ceará, mas logo foi preso e conduzido para o Recife, em 29/11/1824. Foram muitas as manifestações e petições de ordens religiosas para que não fosse executado. Foi acusado do crime de sedição e rebelião e condenado à morte por enforcamento, em 13/1/1825. Porém, três carrascos, sucessivamente, negaram-se a enforcá-lo. Assim, foi amarrado numa das hastes da forca e foi morto por fuzilamento diante dos muros do Forte das Cinco Pontas. Seu corpo foi deixado em frente ao Convento das Carmelitas e recolhido pelos padres que o enterraram num local até hoje não identificado. O muro frente ao qual foi fuzilado, continua de pé, marcado por um busto e uma placa alusiva, colocada em 1917.

Uma frase sintetiza sua importância na História: “Frei Caneca foi o principal pensador político do processo de emancipação do Brasil que se desenhou a partir de Pernambuco, saltando do convento para as trincheiras na Revolução de 1817 e na Confederação do Equador, de 1824”. Como biografia vale citar, entre muitas, a realizada por Frei Tito – Frei Caneca: vida e escritos – publicada em 2017 pela CEPE-Companhia Editora de Pernambuco e Obras políticas e literárias de frei Joaquim do Amor Divino Caneca, organizada por Antônio Joaquim de Melo e publicada pela Assembleia Legislativa de Pernambuco, em 1972.

O poeta João Cabral de Melo Neto descreveu seu último dia no drama poético O Auto do Frade e seu irmão, o historiador Evaldo Cabral de Mello, organizou e redigiu a introdução ao livro Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, incluído na Coleção Formadores do Brasil, da Editora 34, em 2001. Em seguida e pela mesma editora lançou o livro a Outra Independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824, contando a história “na contramão da historiografia oficial”.

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AS BRASILEIRAS: Teresa de Benguela

Teresa de Benguela nasceu em princípios de 1700, na região de Benguela, atual República de Angola. Líder quilombola, liderou uma revolta no Quilombo do Quariterê (ou Quilombo do Piolho) na Capitania de Mato Grosso; tornou-se “rainha” no início dos anos 1750, e se manteve por 20 anos, quando o quilombo foi destruido em meados de 1770.

Sua origem é controversa. Há registros portugueses que afirmam se tratar de uma escravizada angolana, embarcada para o Brasil no porto de Benguela. Mas há historiadores que afirmam ter nascido no Brasil. O Quilombo foi criado em 1740 por seu marido José Piolho e tornou-se um núcleo de resistência de negros fungidos da escravidão. Sua localização na selva amazônica, além de dificil era perto da fronteira pemitindo fugas para o lado espanhol. Tais condições permitiram uma resistência mais prolongada.

Por volta de 1750, deu-se a morte de José Piolho e ela, na condição de rainha viúva, assume seu lugar. A mudança ocorrida no Quilombo não foi apenas no comando. A rainha Teresa passa a governar ao modo de um Parlamento, com um local apropriado e reuniões em dias fixos todas as semanas com seus “deputados” e os convidados, presididos pela rainha. Segundo a pesquisadora Edir Pina de Barros, junto ao aspecto “democrático’ era mantida uma rígida disciplina afim de garantir sua defesa e sobrevivência.

Ainda segundo a pesquisadora, o Quilombo Quariterê contrastava com a escassez na região: “Tal abundância relacionava-se à forma de apropriação da terra (pelo trabalho), disponibilidade de mão de obra e, sobretudo, trabalho cooperativo e solidariedade social… Através de relações mantidas com a sociedade ‘branca’, obtinham ferro, além de sal e outros artigos”. A prosperidade e o crescimento do Quilombo alertaram o governo português, que passou a se preocupar com seu exemplo entre outros quilombos existentes no período colonial.

O Quilombo foi invadido pelos portugueses em 1770. A rainha Teresa comandou a resistência, mas após alguns combates muitos quilombolas morreram e 79 negros e 30 indígenas foram capturados e levados para Vila Bela da Santíssima Trindade, atual estado de Mato Grosso, e devolvidos aos seus proprietários. Entre eles estava a rainha, que, segundo o sociólogo Clóvis Moura, ingeriu umas ervas venenosas e faleceu. Teve a cabeça decepada e pendurada no centro do Quilombo para servir de exemplo.

Mas este ainda não foi o fim do Quilombo Quariterê. Muitos quilombolas que fugiram do ataque se esconderam na mata e se reorganizaram noutro assentamento. O final do quilombo se deu em 1795 com outra investida dos portugueses, guiados por um negro forro capturado na invasão de 1770. Por essa época ainda se falava na liderança da rainha Teresa. Mas aos poucos foi caindo no esquecimento e tornou-se umas das mártires menos conhecidas do período colonial.

Sua memória foi resgatada pelos historiadores e em 1994 a Escola de Samba Viradouro, do Rio de Janeiro, desfilou no carnaval com o enredo “Teresa de Benguela, uma Rainha Negra no Pantanal”. Antes disso ela foi lembrada em 1992 no I Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, realizado na República Dominicana. Em 2014, o dia 25 de julho foi instituído como “Dia Nacional de Teresa de Benguela e da Mulher Negra”, através da Lei nº 12.987/2014.

Mais uma homenagem ocorreu em 2020, em São Paulo, feita pela Escola de Samba Barroca Zona Sul, no desfile de carnaval com o samba-enredo “Benguela… A Barroca Clama a Ti, Teresa’. A historiadora Thais de Campos Lacerda realizou uma pesquisa que pode ser vista como um bom ensaio biográfico – Tereza de Benguela: identidade e representatividade negra -, publicado na Revista de Estudos Acadêmicos de Letras da UNEMAT, vol. 12, nº 2, de 2019, à disposição na Internet. Clique aqui para acessar.

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OS BRASILEIROS: José Lins do Rego

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu no Engenho Corredor, em Pilar, PB, em 3/6/1901. Advogado, romancista e jornalista, foi um autor destacado na geração de 1930 do modernismo brasileiro e um dos maiores romancistas regionalistas. Com um estilo despojado e direto, descreveu a decadência de uma época. Criado numa família de senhores de engenho, fez um relato nostálgico e crítico da transição da época em que viveu.

Filho de Amélia Lins Cavalcanti e João do Rego Cavalcanti e neto do famoso Coronel “Bubu do Corredor” (José Lins Cavalcanti de Albuquerque), senhor de 8 engenhos. concluiu os primeiros estudos em João Pessoa e Recife, onde ingressou na Faculdade de Direito e diplomou-se em 1923. Durante o curso, fundou o semanário Dom Casmurro e manteve contatos com o meio literário recifense, particularmente Gilberto Freyre, de quem recebeu forte influência.

Em 1924 casou-se com a prima Philomena Massa, filha do senador Antônio Massa e no ano seguinte ingressou no Ministério Público de Minas Gerais, como promotor em Manhuaçu, mas ficou pouco tempo no cargo. Mudou-se para Maceió, onde exerceu as funções de fiscal de bancos até 1930 e fiscal de consumo de 1931 a 1935. Neste período conviveu com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Seus primeiros livros, integrantes do chamado “Ciclo da cana-de-açúcar” refletem a decadência do mundo rural nordestino: Menino de engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), O Moleque Ricardo (1935) e Usina (1936).

Sua obra regionalista, contudo, não se encaixa somente na denúncia sociopolítica, mas, segundo Manuel Cavalcanti Proença, igualmente em sua “sensibilidade à flor da pele, na sinceridade diante da vida, na autenticidade que o caracterizavam”. Conforme alguns críticos, ele imprimiu uma nova forma de oralidade na literatura brasileira, praticada pelos modernistas de 1922. Após consolidar seu nome na literatura regional, transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1935, ampliando o leque de amigos, e passou a escrever para os Diários Associados e O Globo. Por essa época, revelou-se uma faceta pouco conhecida de sua personalidade: a paixão pelo futebol. Foi um grande torcedor do Flamengo e chegou a exercer o cargo de secretário-geral da CBD-Confederação Brasileira de Futebol no período 1942-1954.

Em 1956 entrou para a Academia Brasileira de Letras e logo depois estreou na literatura infanto-juvenil com Histórias da velha Totônia, seu único livro nesta área. Alguns de seus livros foram adaptados para o cinema e muitos deles foram traduzidos em diversos idiomas. Foi um escritor inteiramente despojado de atitudes ou artifícios literários. Ele mesmo se via como um escritor instintivo e espontâneo: “Quando imagino nos meus romances tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória, com os jeitos e as maneiras simples dos cegos poetas”.

Faleceu em 12/9/1957 e deixou 23 livros publicados, além da imagem de um escritor comprometido com sua terra e seu tempo. Na avaliação dos críticos, deixou uma obra que “Bem examinadas as coisas… Nada há nele que não seja o espelho do que se passa na sociedade rural e nas cidades do Norte e do Sul do Brasil. É de todo o Brasil e um pouco de todo o mundo”, conforme José Ribeiro. Já Wilson Martins não gostou de Fogo Morto e afirmou que o “o livro não passa de simples reelaboração do Ciclo da Cana-de-Açúcar, sem nada lhe acrescentar e até tirando-lhe alguma coisa”. No entanto, Alfredo Bosi considerou Fogo Morto a verdadeira “superação” do ciclo da cana-de-açúcar.

Numa análise dos personagens, Antônio Candido declarou que “o que torna esse romance ímpar entre os publicados em 1943 é a qualidade humana dos personagens criados: aqui, os problemas se fundem nas pessoas e só têm sentido enquanto elementos do drama que elas vivem.” Outro respeitado crítico, Massaud Moisés, fez questão de colocar Fogo morto entre os livros dos anos 30, muito embora tenha sido lançado em 1943, pela razão da obra ser uma expressão “acabada do espírito do projeto estético e ideológico regionalista característico daquela década…é uma das mais representativas obras não só da ficção dos anos 30 como de todo o Modernismo”.

Entre os críticos, há um consenso, no qual sua obra caracteriza-se, particularmente, pelo extraordinário poder de descrição. “Reproduz no texto a linguagem do eito, da bagaceira, do nordestino, tornando-o o mais legítimo representante da literatura regional nordestina”. Segundo Luciana Stegagno Picchio, graças a José Lins “o regionalismo tornou-se um ato pessoal, um instrumento de realização literária”. Sérgio Milliet disse que ele fez “uma imagem muito nítida do Nordeste dos últimos engenhos, evoluindo lentamente entre crises políticas e lutas domésticas, modorrento sob o sol das secas”. Para Otto Maria Carpeaux todo o universo da casa-grande, da senzala, dos senhores de engenho e etc. “nunca mais existirá a não ser nos romances de José Lins do Rego”.

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AS BRASILEIRAS: Ruth Guimarães

Ruth Guimarães Botelho nasceu em 13/6/1920, em Cachoeira Paulista, SP. Escritora, poeta, cronista, professora, jornalista. teatróloga, folclorista e tradutora. Foi a primeira escritora brasileira negra a projetar-se em âmbito nacional com seu romance Água Funda, publicado em 1946 pela Editora Globo. O livro retrata aspectos da vida rural e o universo caipira do Vale do Paraíba Paulista e mineiro.

Filha de Maria Botelho e Christino Guimarães, concluiu os primeiros estudos em sua cidade natal e o curso Normal em Guaratinguetá. Morando com os avós maternos em Cachoeira Paulista, aos 10 anos publicou os primeiros versos nos jornais A Região e A Notícia. Em 1938 mudou-se para São Paulo, levando três irmãos menores que acabou de criar. Frequentou a famosa Farmácia Baruel, do farmacêutico e escritor mineiro Amadeu de Queiroz, travando contato com escritores da época, como os irmãos Amado, Jorge e James, Mário da Silva Brito, Jamil Almansur Haddad, Mário Donato entre outros. No início da década de 1940 conheceu Mário de Andrade, que orientou sua pesquisa sobre o diabo e suas manifestações no imaginário popular.

Sua carreira se consolidou com o segundo livro – Os Filhos do Medo -, publicado também pela Editora Globo em 1950. Tal livro rendeu-lhe um verbete na Encyclopédie Française de la Pléiade, tornando-a a única escritora latino-americana a merecer tal distinção. A partir desse livro, teve atuação destacada na pesquisa da literatura oral no Brasil e no conhecimento da cultura caipira. Foi uma das primeiras alunas do curso de Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP; teve aulas com os professores Roger Bastide, Fidelino de Figueiredo, Silveira Bueno e Antonio Soares Amora, entre outros.

No início da década de 1960 frequentou a EAD-Escola de Arte Dramática da USP, especializando-se em Dramaturgia e Crítica. Trabalhou em algumas editoras como revisora e tradutora e publicou crônicas, artigos e crítica literária em jornais e revistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa. Foi repórter das revistas Noite Ilustrada, Quatro Rodas, Realidade, Carioca e Globo. Como professora, lecionou francês na Aliança Francesa de São Paulo; grego na Universidade de Taubaté; Psicologia da Arte e Literatura nas Faculdades Integradas Teresa D’Ávila, em Lorena e Literatura na Faculdade de Ciências e Letras de Cruzeiro.

Passou anos pesquisando a medicina popular, as ervas, raízes e simpatias curativas, com a intenção de publicar uma enciclopédia em 12 volumes sobre medicina natural, que não chegou a ser concluída (os filhos estão completando esse trabalho). Seu legado é composto por mais de 50 livros, incluindo traduções do francês, italiano e latim. Ativa também fora da literatura, fundou o Museu de Folclore Valdomiro Silveira e a Guarda Mirim de Cachoeira Paulista. Participou da Sociedade Paulista de Escritores e da Associação Brasileira de Escritores (as duas entidades que se fundiram em 1958 para formar a UBE-União Brasileira de Escritores) e do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade. Foi membro da Comissão Estadual do Folclore, ao lado de Inezita Barroso, Oneyda Alvarenga e Rossini Tavares de Lima. Foi uma das fundadoras do IEV-Instituto de Estudos Valeparaibanos, que lhe concedeu o Prêmio Cultural Eugênia Sereno.

Na sua cidade natal, Cachoeira Paulista, fundou em 1972 a primeira academia de letras do Vale do Paraíba, a Academia Cachoeirense de Letras (hoje Academia Cachoeirense de Letras e Artes). Em 2008, eleita para a Academia Paulista de Letras, ocupou a cadeira 22, que foi de Guilherme de Almeida. Às vésperas de completar 89 anos, foi convidada pelo prefeito Fabiano Vieira para assumir a pasta da Cultura. Foi seu último cargo público e veio a falecer em 21/5/2014, aos 94 anos. Em 2019 foi criado em Cachoeira Paulista o Instituto Ruth Guimarães, um espaço cultural que mantém suas obras e memória.

Segundo seu filho, Joaquim Maria Botelho, jornalista e ex-presidente da UBE-União Brasileira de Escritores, no prefácio do livro Crônicas Valeparaibanas, “Ela gostaria de ter tempo para se dedicar à bruxaria… Ruth vive sem tempo, mas já é uma bruxa – a bruxa boa que o folclore valeparaibano representa nas suas histórias como a simpática velhinha que ensina o caminho às almas perdidas, que destrói com artimanhas geniais os monstros para deixar passar os príncipes que vão, por sua vez, salvar as princesas transformadas em rãs e as donzelas amaldiçoadas pelas feiticeiras malvadas. É assim que a Ruth quer continuar vivendo neste Vale do Paraíba que ela conta e reconta nos seus escritos deliciosos, pesquisados com o carinho de quem garimpa brilhantes. Na sua calma de cachoeirense, Ruth vem abrindo a alma, há 86 anos, para ser o relicário vivo das informações e da cultura valeparaibanas…”

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Millôr Fernandes

Milton Viola Fernandes nasceu em 16/8/1923, no Rio de Janeiro, RJ. Escritor, poeta, jornalista, desenhista, humorista e dramaturgo, tornou-se o mais conhecido desenhista de humor gráfico da imprensa brasileira. Ficou célebre na sátira politica, filosófica e de costumes através das principais revistas e jornais em mais de 70 anos de atividade. Não era filófoso, mas recebeu título de “O pensador de Ipanema”.

Filho de Maria Viola Fernandes e do imigrante espanhol Francisco Fernandes, falecido quando Millôr ainda era bebê. A mãe, aos 27 anos, passou por uns perrengues financeiros e foi obrigada a alugar parte do casarão no Méier. Aos 11 anos, a mãe também faleceu e a família teve que viver separada, quando ele passou a ser criado pela
avó. Aos 14 anos conseguiu emprego fixo como entregador de remédio. Mas durou pouco e logo estava trabalhando na imprensa. Fã ardoroso de gibis, copiava os desenhos quadro por quadro e mais tarde declarou que esta foi sua “maior e mais legítima influência” em sua formação de humorista e escritor. Seu tio estimulou-o a enviar um desenho para O Jornal, que foi aceito e lhe rendeu o pagamento de 10 mil réis.

Aos 15 anos foi trabalhar na revista O Cruzeiro e ingressou Liceu de Artes e Ofícios, onde estudou de 1938 a 1942. Aos 17 anos adotou o nome artístico Millôr Fernandes, devido à caligrafia do escrivão, transfomando o nome Milton em Millôr. Estreou na revista A Cigarra, em 1945, sob o pseudônimo Vão Gogo, com a seção “O Pif-Paf’, em parceria com cartunista Péricles. Pouco depois, lançou um livro em defesa do homem – Eva sem costela – com o nome Adão Júnior. Casou-se em 1948 com Wanda Rubino, com quem teve 2 filhos. No ano seguinte lançou o livro Tempo e contratempo, usando o nome Emmanuel Vão Gogo e produz seu primeiro roteiro de cinema Modelo 19.

Em 1953 estreou sua primeira peça teatral – Uma mulher em três atos – no Teatro Brasileiro de Comédia (SP). 4 anos depois já era um desenhista conhecido e realiza uma exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1957. No ano seguinte passa a manter sozinho a coluna “Pif-Paf” em página dupla semanal, assinada por Vão Gogo, mantida até 1962, quando assumiu o próprio nome. Mantiha intensa atividade intelectual junto com práticas esportivas. Junto com um gurpo de amigos, lançou um novo esporte de praia denominado “Frescobol”, em 1958. Segundo ele “o único esporte em que ninguém tem a obrigação de ganhar, e nem a vergonha de perder”. Trata-se um esporte de estilo cooperativo, em oposição ao estilo competitivo do tênis de praia.

Em 1960 estreou a peça Um elefante no caos, no Teatro da Praça (RJ), que lhe rendeu o prêmio de melhor autor, pela Comissão Municipal de Teatro. Em seguida inicia uma coluna semanal no Diário Popular, de Lisboa, mantida por 10 anos. Em 1965, junto com Flávio Rangel, escreveu o musical Liberdade liberdade, um protesto contra o Golpe Militar, instaurado no ano anterior, apresentado no Teatro Opinião (RJ). Com o acirramento da ditadura militar em 1969, passou colaborar no jornal O Pasquim, tornando-se um de seus principais colaboradores.

No ano seguinte, com a redação desfalcada de muitos colegas presos, ele junto com Henfil e ajuda de Chico Buarque, Glauber Rocha e Odete Lara entre outros, procuram manter o jornal até 1972, quando assume a diretoria do jornal. Reorganizou as finanças salvando-o da falência e permanece até 1975. Em seguida escreveu para Fernanda Montenegro a peça É…, que veio a se tornar seu maior sucesso teatral. Aos 57 anos, em 1980, conheceu a jornalista Cora Rónai e mantiveram um relacionamento até o fim de sua vida. 20 anos depois, aos 77 anos, experimenta uma novidade profissional: lançou o Saite Millôr Onlline, publicando novos desenhos e resgatando antigos trabalhos. Foi um pioneiro na Internet alcancando grande sucesso.

Sua ironia fina e a sátira nos textos e desenhos sempre foram alvo dos censores de plantão, que não lhe davam trégua. A partir de 2010, aos 86 anos, a saúde já não era a mesma e sofreu AVC isquêmico no ano seguinte. Com a saúde fragilizada, veio a falecer em 27/3/2012. Bem antes disso, deixou um Poeminha com saudades de mim mesmo:

“Quando eu morrer / Vão lamentar minha ausência / Bagatela / Pra compensar o presente / Em que ningúem dá por ela”. Pouco depois foi homenageado pelos cariocas com o nome dado ao seu local predileto entre as praias do Diabo e do Arpoador: o Largo do Millôr. Em 27/5/2013 o local ganhou um banco incorporado a um monumento com sua sihueta desenhada por Chico Caruso, batizado como “O Pensador de Ipanema”.

Em 2018 a atriz Fernanda Montenegro fez-lhe uma declaração comovente em seu livro Itinerário fotobiográfico: “Millôr – retrato 3×4 corajosamente à maneira do próprio: Millôr, duas sílabas fortes, desconcertantes e gentis, cuja rima pode ser flor e também dor. Os olhos eram de águia, mas, também de pintassilgo, colibri, sabiá…” Foi reconhecido como um dos melhores frasistas do País, exibindo irreverência, ironia, sagacidade e senso de humor: “A morte é compulsória, a vida não”. “Amor não é coisa para amador”. “A vida é uma doença terminal”. “O ruim das amizades eternas são os rompimentos definitivos. “Todo homem nasce original e morre plágio”. “Livrai-me da justiça, que dos malfeitores me livro eu”. Em 2002 lançou o livro Millôr definitivo – A Bíblia do Caos, reunindo mais de 5 mil frases, lançado e relançado pela Editora L&PM diversas vezes.

No mês de seu centenário -agosto de 2023- diversos amigos publicaram textos reverenciando sua memória. Entre eles os acadêmicos Geraldo Carneiro: “Costumo dizer que ele tinha um processador mental inigualável. Suas respostas eram anárquicas e engraçadíssimas. Era uma figura maravilhosa, não só pelo intelecto, mas também pela ética, pela retidão intelectual. Era um dos caras mais bacanas da história do Brasil”, e José Paulo Cavalcanti Filho, em artigo publicado aqui no JBF: “Millôr era amigo certo de amigos incertos. Homem reto, apesar do empeno da coluna. Que sentia dores e quase todos os seus derivativos ‒ sobretudo amores, andores e ardores. Apreciador de bolo de rolo; e, para ser justo, de outros bolos e outros rolos. Alguém que acreditava na bolsa dos valores e nas boas ações. Que não gostava de roubar nem o tempo dos outros. Magro, no corpo. E gordo, nos sentimentos. Pobre, mas não de espírito. E rico, até de ilusões perdidas. Homem justo, em uma vida injusta, onde os dias passam tão devagar e os anos passam tão depressa. Dizem que Millôr morreu? Impossível. Que Millôr é terno. Eterno. Viva Millôr”.

Como biografia, ele mesmo providenciou a sua em 1972 com o lançamento de 30 anos de mim mesmo, uma autobiografia bem-humorada em seu estilo próprio, como se dizia “um escritor sem estilo”. Em seu centenário foi programado o relançamento de 16 de seus livros, 13 deles pela Editora L&PM. Em meados de 2023 foi publicada a Coletânea Centenário de Millôr Fernandes, fruto de um concurso realizado pelo Projeto Apparere, contendo 86 textos selecionados de 152 textos inscritos, conforme se vê clicando aqui.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Renata Pallottini

Renata Monachesi Pallottini nasceu em São Paulo, SP, em 28/3/1931. Advogada, professora, escritora, poeta, tradutora e essencialmente dramaturga. Atuou também na televisão com a produção de programas relevantes na cultura brasileira. Foi uma das pioneiras ao questionar as limitações impostas à mulher na sociedade. Foi a primeira mulher a fazer, pensar e revolucionar o Teatro no Brasil.

Filha de Iracema M. Pereira de Souza e Pedro Pallottini, graduou-se em Filosofia na PUC/SP-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1951, e em Direito na USP-Universidade de São Paulo, em 1953. Em seguida ganhou uma bolsa de estudos do governo espanhol e ingressou na Universidade de Madrid (1959-1960), onde realizou cursos de História da arte e Literatura no Instituto de Cultura Hispânica. De volta ao Brasil, cursou Dramaturgia na EAD-Escola de Arte Dramática da USP (1961-1962) e concluiu o doutorado, em 1982, na ECA-Escola de Comunicações e Artes da USP, sob orientação de Sábato Magaldi.

Sua tese incluiu a peça O País do Sol, como parte da trilogia sobre a imigração italiana no Brasil, junto às peças Colônia e Tarantela. A parte teórica da tese resultou no livro Introdução à Dramaturgia, publicado em 1983. Foi convidada por Sábato Magaldi para substituí-lo como docente na EAD/USP, ministrando aulas sobre História do teatro brasileiro. Lecionou também Artes Cênicas na ECA/USP, que lhe concedeu o título de professora emérita, em 2012.

Sua peça A Lâmpada (1960), foi pioneira ao abordar o tema da homossexualidade e trouxe inovações no campo teatral com uma nova dramaturgia nas décadas de 1960 e 1970. Destacou-se na nova geração de escritoras de teatro, junto com Hilda Hilst, Leilah Assumpção, Consuelo de Castro e Elza Câmara, entre outras, integrantes da chamada “Nova Dramaturgia”. Segundo Elza Cunha de Vicenzo, no livro Um teatro de mulher (1992), nascia ali uma nova proposta para o teatro brasileiro apresentado em São Paulo e que marcou de modo decisivo as gerações posteriores. Foi uma das autoras de vanguarda do movimento político-cultural que caracterizou a época e marcou as gerações posteriores.

Teve suas obras produzidas por diretores como Silnei Siqueira, Ademar Guerra, José Rubens Siqueira. Marcia Abujamra e Gabriel Vilela, entre outros. Traduziu o musical Hair, de James Rado e Gerome Ragni, traduziu e adaptou o romance Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, entre as traduções e adaptações realizadas. Com tantas e variadas publicações, manteve-se fiel a poesia desde os primeiros livros, como na coletânea de poemas Acalanto (1952). O romance Mate é a cor da viuvez (1975), ganhou um comentário de Lygia Fagundes Telles opinou: “um belo e corajoso livro”. Para Carlos Dummond de Andrade, sua poesia “é uma das realizações mais vibrantes no campo do lirismo voltado para a vida real e imediata, a vida não pontada de sonho”.

Destacou-se também em cargos políticos e administrativos, tais como presidente da Comissão Estadual de Teatro da Secretaria de Cultura, fundadora e presidente da Associação Paulista de Autores Teatrais e presidente do Centro Brasileiro de Teatro, filiado ao International Theatre Institute, da UNESCO. Integrou entidades como a União Brasileira de Escritores, PEN Clube do Brasil, Clube de Poesia de São Paulo e Academia Paulista de Letras, a partir de 2013.

Foi premiada diversas vezes: Prêmio Juca Pato 2017, da União Brasileira de Escritores; Prêmio Jabuti 1996, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria poesia e o prêmio do Pen Clube de Poesia 1961, pela obra Livro de Sonetos. Em 1974 e 1976 foi premiada pela APCA-Associação Paulista dos Críticos de Arte com os prêmios Melhor Roteiro, com novela O Julgamento e Melhor Tradução, com a peça Lulu; Prêmio Anchieta da Comissão Estadual de Teatro, 1968; Prêmio Molière 1965, com a peça O Crime da Cabra. Em 2016 foi contemplada com o “Colar Guilherme de Almeida’, concedido pela Câmara Municipal de São Paulo.

O legado de Renata Pallottini conta com dezenas de peças de teatro, adaptações e traduções, poemas, romances, estudos teóricos e trabalhos para a televisão. Faleceu em 8/7/2021 e ainda não contamos com uma biografia mais completa. Porém, pode-se contar com o ensaio biográfico escrito por Rita Ribeiro Guimarães – Renata Pallotini cumprimenta e pede passagem, incluido na Coleção Aplauso Brasil, publicada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 2006. No cinquentenário da ECA/USP, em 2014, foi apresentado o Projeto Memórias: Renata Pallotini, com algumas videoentrevistas disponíveis clicando aqui. 

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Luís Freire

Luís de Barros Freire nasceu em 16/3/1896, em Recife, PE. Engenheiro civil, professor, pioneiro da ciência no Brasil, catalisador de talentos em Pernambuco e estimulador de futuros cientistas do naipe de Mário Schenberg, Leopoldo Nachbin e José Leite Lopes, que o chamava de “arquiteto de valores humanos”.

Realizou os primeiros estudos no Recife e ingressou no curso de engenharia civil da Escola de Engenharia de Pernambuco. Diplomado em 1918, voltou-se para o magistério e passou a lecionar matemática na Escola Normal. Em 1920 foi contratado como professor da Escola de Engenharia, onde estudara. Em 1930 casou Branca Palmeira Freire e logo nasce o primeiro filho: Marcos Freire, que se destacou na política como deputado e senador de Pernambuco na década de 1970.

Em 1933 recebeu o título de Doutor em Ciências Físicas e Matemáticas e foi aprovado no concurso para professor catedrático de Física. Além de lecionar nos principais colégio do Recife, foi nomeado, em 1943, professor de Análise Matemática na Faculdade de Filosofia Manuel da Nóbrega, hoje incorporada a Universidade Católica de Pernambuco. Em seguida mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi lecionar na Faculdade de Ciências da Universidade do Distrito Federal, atual UFRJ, dirigida por Anísio Teixeira.

Em 1951, com a criação do CNPq-Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, foi nomeado membro, participando da Comissão de Ciências Físicas e Matemáticas até sua morte, em 17/7/1963. Seu grande sonho foi realizado em 1952: a implantação do Instituto de Física e Matemática, na Universidade do Recife. Sua ideia foi criar um centro de estudos nesta área altamente especializada. Para ele a universidade não devia apenas transmitir, mas também produzir conhecimento. Dirigiu o Instituto e manteve intercâmbio com instituições congêneres no País e no exterior, sobretudo em Paris, onde esteve em missão científica do CNPq, em 1958.

Entre suas contribuições como cientista consta a famosa expressão do chamado “Potencial Vetor”, utilizando a linguagem do cálculo vetorial com recursos dos operadores vetoriais. Pouco depois publicou um trabalho destacando a “Equação geral das escalas termoelétricas”, que obteve elogiosas referências do físico James Chappuis, professor da École Centrale des Arts et Manufactures de Paris. Em 1977, o físico José Leite Lopes declarou: “Era a figura mais notável de todas porque era um homem de uma grande cultura em Matemática e em Física, um grande espírito filosófico e de crítica e dava as aulas de uma maneira muito elegante, muito atraente, Foi ele, exatamente, ao fazer já o curso no primeiro ano, que me desviou da Química Industrial”.

Ocupou vários cargos e participou de diversos eventos na área da Física, tais como membro do Conselho Orientador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada-IMPA, membro fundador do Centro Brasileiro de Pesquisas físicas-CBPF, integrou o Comitê Internacional do Jubileu Científico do Professor Arnaud Denjoy, da Sorbonne, membro da American Mathematical Society, do Conimbrigensis Institut Academia e presidente do Instituto Tecnológico de Pernambuco.

Os brasileiros e principalmente os pernambucanos estão devendo a edição de uma biografia mais abrangente de Luís Freire, mas podemos contar com o excelente ensaio biográfico de duas professoras de Física – Ivone Freire da Mota e Albuquerque e Amélia Império Hamburger – apresentado em 1989 no 2º Congresso Latino-Americano de História da Ciência e da Tecnologia: Luiz de Barros Freire: pioneiro da institucionalização da pesquisa científica no Brasil.

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