CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O GOL DA LUA

Em um jogo contra o Fluminense no Maracanã, Pelé driblou oito jogadores do grande time tricolor e fez o gol na trave de Castilho. Foi um gol tão espetacular que parecia haver apenas santistas no Maracanã, toda torcida de pé aplaudiu durante 10minutos o gol mais bonito já feito na história do futebol.

O jornalista Joelmir Beting, ficou tão impressionado com o gol, que mandou fazer uma placa de bronze para colocar no saguão do estádio, com os dizeres: “Neste estádio, Pelé marcou no dia 5 de março de 1959 o gol mais bonito da história do Maracanã”. Daí quando algum jogador faz um gol bonito diz que o jogador fez um gol de placa.

Enquanto Pelé fazia o Gol de Placa no Maracanã, nós meninos da Avenida da Paz tínhamos nossa organização de futebol de praia. Durante as férias, jogávamos todos os dias e tardes/noites, havia campeonatos. Meninos, adolescentes, ficávamos com um olho na bola e outro nas meninas que apareciam a caminho do mar para bronzear-se, queimar as pernas, o corpo, tornar a pele amorenada, como o diabo e nós gostávamos.

Nada melhor depois de uma pelada de praia que tirar o suor num mergulho junto com a namorada. O mar da Avenida, tranquilo, pequenas ondas, água morna é apropriado para namoro.

Quando podíamos jogávamos futebol, iniciando com uma zorra, hoje chamada de linha de passe, pela manhã, logo depois dividíamos os jogadores no par ou ímpar e iniciava a pelada na areia. Só de calção de banho, não havia falta, nem impedimento, nem escanteio, o que interessava era o gol. A trave, sem goleiros, era marcada por dois cocos verdes com a distância de três palmos, o gol se tornava mais difícil que numa trave normal com um goleiro.

Organizamos campeonatos, vinha gente do Poço, de Jaraguá da praça Sinimbu, era animadíssimo, naquela época nem se pensava em racismo ou outro tipo de preconceito, o que valia era saber jogar nas peladas de areia da paria da Avenida. Gerson, negro, filho de uma lavadeira era o grande astro, sabia driblar, jogava o futebol com arte e graça, todos queriam jogar com Gerson. O melhor back (defesa), era viado, sabíamos, e daí? Era difícil passar por ele, arrebentava as pernas do adversário.

A maior diversão da juventude era o futebol, e nossos ídolos eram quem jogasse melhor, independente de qualquer situação social.

Comecei essa crônica falando no Gol de Placa que ficou famoso em todo mundo, ainda hoje quem faz um bonito gol, diz que fez um gol de placa. Nós Meninos da Avenida inventamos um gol mais bonito que o de placa, mais romântico, mais surreal.

Porque, quando estávamos jogando à tarde, terminávamos ao escurecer, mas se fosse noite de Lua Cheia continuávamos jogando, até a Lua aparecer, redonda, brilhante, iluminando a praia, e o jogo só terminava quando houvesse um gol depois da Lua ficar redonda. Era o Gol da Lua. O jogo acabava e todos mergulhávamos no mar de água tépida Ainda tínhamos fogo, de em casa tomarmos banho, jantar e sair para tomar uma cervejinha no bairro boêmio de Jaraguá, discutindo o jogo da tarde e o Gol da Lua. Juventude romântica.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AMOR NO TEMPO DE JARAGUÁ

Beco da Rapariga – Bairro de Jaraguá

Pedro Ernesto tinha uma paixão fulminante, cheia de desejos presos por sua namorada Laurinha, tão bonitinha, de uma sensualidade exuberante. Toda noite eles namoriscavam, se agarravam no portão escuro da moça, não podiam ultrapassar a virgindade. Assim aprenderam as jovens daquela época.

Ernesto depois do namoro, gostava de se aliviar, subindo as escadas das boates de Jaraguá, onde certamente relaxaria. Isaura, rapariga da Boate Tabariz era seu xodó, rapaz gentil, estudante de medicina e divertido.

Numa noite de sexta-feira Pedro Ernesto foi “namorar” Isaura. Subiu a escada íngreme da Tabariz, a boate mais chique de Jaraguá. Uma sala-dancing ampla, algumas mesas com tolha de linho, cinzeiros de prata, mostravam o charme do ambiente. No tablado uma orquestra tocava belas músicas. Deparou-se com o ambiente festivo, as meninas sentadas nas mesas, casais dançando, cumprimentou uma e outra procurando Isaura. De repente ela apareceu com um charmoso vestido vermelho, morena nascida no sertão alagoano, Ernesto abraçou-a com alegria.

– Vamos vadiar a noite toda e pegar o Sol com a mão.

Lá para as tantas entrou no salão o Coronel Zé Malta e três capangas, sentaram-se numa mesa dupla. O coronel, brabo e prepotente mandou chamar Ana, a cafetina. Ficaram conversando, vieram algumas meninas. O Coronel, também deputado, era o maior arruaceiro da Zona. Briga e tiro faziam parte de suas histórias de boemia.

Um garçom, a mando de Ana, dirigiu-se à mesa de Ernesto e avisou à Isaura que o deputado gostaria de sua companhia. Ela respondeu que estava ocupada. O ambiente nas mesas ficou tenso, o deputado não gostou, reclamou, a própria Ana foi à mesa de Ernesto e cochichou no ouvido de Isaura:

– Menina deixe de besteira, o Coronel gosta de você, tem muito dinheiro e você fica aqui com este estudante lascado, mal tem para a bebida. Faça isso não, vá com o deputado, ele está esperando.

Saiu com raiva da sua pupila. O ambiente ficou mais tenso quando ela recusou novamente. As pessoas em volta perceberam.

Ernesto tomou uma decisão. Levantou-se, dirigiu-se à mesa do Coronel. Nessa altura todo salão acompanhava a situação. Quando o estudante encostou-se à mesa do Deputado, a expectativa, o suspense e o medo eram geral, alguns clientes desceram a escadaria, outros ficaram por trás das colunas. Pedro Ernesto falou alto e em bom tom:

– Deputado, o senhor me desculpe, mas a mulher que o senhor pediu está acompanhada comigo, assim ela não pode ficar com o senhor, faz parte de nosso costume, é a lei da boemia, que todos respeitamos.

Os capangas se levantaram com a mão nas cartucheiras, Ernesto continuou olhando nos olhos do Deputado. Esperava-se um tapa, um murro, um tiro, a qualquer momento. Surpreendentemente o Coronel estendeu a mão ao jovem.

– Gostei de você menino, mostrou que é macho, é assim que um homem faz, tome uma dose comigo.

Foi um alivio geral, Ernesto bebeu duas doses, divertiu-se com piadas picantes, depois foi pegar o Sol com a mão com Isaura.

Dizem que o Coronel se tornou amigo do Doutor Pedro Ernesto até sua morte. A história da briga que não houve, ainda é contada pelas quengas, pelos boêmios, pelas cafetinas e bêbados nos bares, nos cabarés do porto de Jaraguá.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O DIABO VESTE SHORT

Semana passada caminhando numa bela manhã de sol pelo calçadão da praia de Jatiúca, fui abraço por trás, era Salomão, estava sério. Andando a meu lado foi desabafando:

– “Tudo pode acontecer com qualquer cidadão do mundo, com qualquer cristão, com qualquer homem de bem”.

Fiquei ouriçado com a confidência espontânea e tempestiva, perguntei o que havia acontecido. Salomão baixou o ritmo da andança e abriu o jogo.

– “O Satanás está solto, provocando! Veja você meu irmão, um homem como eu, crente em Deus, assisto à missa todos os domingos, temente ao castigo divino, caí na tentação do Cão. O Diabo tomou forma de uma morena cor de mel, sorriso cativante, lábios grossos, uma simpatia encantadoramente diabólica. Ângela, minha querida e santa mulher, contratou essa moça para trabalhar em casa. A capeta veste um curto short para suas atividades; normal para ela, para mim, uma tentação. O sangue ferve nas veias ao me deparar com as pernas roliças, perfeitas, daquela mulher. Todo dia Ângela sai para o trabalho, eu fico sozinho em casa na companhia da jovem Severina, esperta, na cozinha prepara um gostoso almoço, ela tem mãos de ouro, mãos encantadas, em tudo que pega, dá vida. Tenho até engordado. A diabinha em forma de mulher percebeu meus olhares cheios de maldades para seu corpo enfeitiçado. Certo manhã, ela entrou no meu gabinete, eu trabalhava em cima de um processo difícil. Severina varria distraída, vestia short de jeans, minúsculo, salientando o maravilhoso traseiro. Acabou-se minha concentração, eu olhava com o rabo do olho para a endiabrada, o sangue esquentava. O Demo conhece bem as fraquezas humanas. Ela se aproximou perguntando se eu era advogado, se tirava preso da cadeia. Foi direta, contou-me que um amigo, um ex-namorado, que tirou sua virgindade (uma provocação, detalhe desnecessário), estava na Detenção São Leonardo porque assaltou um posto de gasolina. No maior dengo, me chamando de patrão, disse que faria tudo, tudo mesmo (outra provocação da diabinha) para soltar o amigo. Eu me contive, a satânica, ao mesmo tempo angelical, chegou-se bem junto, o decote mostrava os seios pequenos e duros. Levantei-me respirando fundo, disse que iria pensar no caso, evitei continuar olhando, estava à beira do pecado. Sai do escritório antes que fizesse uma besteira.

À noite contei à Ângela que iria defender um amigo da empregada, omiti os detalhes da Belzebu que me acendeu uma constante fantasia. No sábado fui com a jovem Severina à cadeia falar com o marginal. Como não houve ferimento e ser primário crime, solicitei habeas-corpus para o preso esperar o julgamento em liberdade. Na volta, quando estávamos passando pelos motéis da Via Expressa, ela se abriu, falou no maior descaramento, notava meus olhares e queria agradecer na cama pelo que fiz por ela. Meu amigo… foi uma tarde maravilhosa de amor. A diaba sabe tudo na cama, me ensinou o caminho do purgatório. Ainda não tive coragem de me confessar, se eu morresse hoje, iria para o inferno! Fico torcendo para chegar logo quinta-feira, dia marcado para desfrutar de minha tinhosa. Em casa me seguro para não agarrá-la, estou encantado com a diabinha. Nunca pensei que um dia poderia ser envolvido pelos caprichos do Demônio. Esse pecado pode acontecer com qualquer cristão, o Cão sabe onde provocar nossas fraquezas”.

Perto de casa nos despedimos, atravessei a rua pensando, avaliando como Lúcifer serve de remissão à imperfeição humana.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

1918, fim da I Guerra Mundial. Alagoas não foi à guerra, mas um filho seu, valoroso guerreiro, Firmino Vasconcelos, então prefeito de Maceió, comemorou com três dias de festas a Paz Mundial. O povo bebeu e dançou na Praia do Aterro, no centro da cidade. Maceió é talvez a única capital que tenha praia no centro da cidade.

Durante o discurso, emocionado, empolgado com as doses de cachaça, das boas, distribuídas ao povo, o alcaide prometeu, ali, naquela praia extensa de areia branca, faria uma urbanização com o nome de Avenida da Paz.

O prefeito era um cara decente, diferente desses de hoje em dia que fazem mil promessas e depois esquecem, logo cumpriu a jura.

Foram construídas duas calçadas paralelas, uma junto à pista de calçamento, outra ao lado da praia. Jardins gramados em desenhos arabescos, bancos de concreto, postes de ferro trabalhado, beleza de arte da Fundição Alagoana. No final dos anos 40 a Avenida da Paz era nosso paraíso, a criançada brincava com ximbra, pião, roubar bandeira, jogava futebol no coreto. Só havia um problema o guarda municipal que chegava em seu turno antes de anoitecer, muito cônscio de suas obrigações, não deixava as crianças pisarem na grama, ou colocarem os pés em cima dos bancos. Ele ficava vigiando nossos passos com um apito para chamar atenção quando alguma de nós colocava um pé no banco ou coisa parecida. Nós meninos criados livres logo o apelidamos de “Guarda Doido”.

Ele ficava irado quando alguém gritava “Guarda Doido”, juntava a molecada para saber quem foi que gritou, nós calados. Certa noite ao atravessar a Avenida na hora do jantar, escondi-me atrás de um poste, gritei alto, “Guarda Doido”, tive azar, ele me viu saiu em disparada em meu encalço. Corri, antes de ele me pegar entrei na de Seu Luiz Ramalho que estava na porta, contei para ele rapidamente o que se passava. Seu Luiz encarou o guarda que queria me levar preso, depois foi me deixar em casa onde recebi um belo carão de meu pai. Fiquei mais de uma semana sem pisar na Avenida ao anoitecer. O Guarda Doido todos os dias com uma vara ligava o interruptor das luminárias do Calçadão. Pela madrugada ao amanhecer o dia ele desligava a iluminação da Avenida.

Certa vez ao deparar-me com um livro de Jorge de Lima, poeta alagoano de União dos Palmares, considerado um dos três maiores poetas da língua portuguesa, junto com Camões e Fernando Pessoa. Ao ler um poema o “O Acendedor de Lampiões”, lembrei-me do Guarda Doido de minha infância que acendia a iluminação da Avenida Paz.

O Acendedor de Lampiões

Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: –
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

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ALDEMAR PAIVA (CENTENÁRIO)

No próximo 20 de julho, Aldemar Buarque de Paiva, faria 100 anos. Filho de Mário Fortunato de Paiva e Maria Luiza Buarque de Holanda Paiva, nasceu na Rua do Macena, no Centro de Maceió, capital do Estado de Alagoas. Aldemar Paiva foi o artista alagoano mais eclético. Ator, compositor, escritor, radialista, cantor, em tudo que se metia dava certo. Participou da inauguração da primeira rádio de Alagoas, Rádio Difusora de Alagoas – ZY0-4. A voz de Aldemar foi a primeira que se propagou − através das ondas do rádio − ao transmitir a solenidade de inauguração, no dia 16 de setembro de 1948. Este fato já o inscreveu na história da radiofonia brasileira.

Mário Marroquim era o diretor-geral da emissora, e Aldemar Paiva, diretor artístico e de programação. O seu talento foi percebido pelo Brasil.

Sua capacidade artística, sua permanência no rádio alagoano foi curta, apenas dois anos. Em 1951 foi trabalhar no Rádio Clube de Pernambuco – PRA-8 e no dia 20 de dezembro de 1952 começou um dos mais duradouros programas de rádio do país: “Pernambuco, Você é Meu”. Depois de dezesseis anos trabalhando no Rádio Clube, foi transferido, em 1968, para a Rádio Jornal do Comércio. Continuou, e o programa “Pernambuco, Você é Meu”, ficou no ar em duas estações de rádio durante 25 anos. Nesse período foi um dos mais importantes programas do rádio do Brasil. A música de qualidade sempre presente.

Aldemar Paiva, como compositor, fez parcerias com os músicos: Rossini Ferreira, Inaldo Vilarim, Beto do Bandolim, José Meneses, Zé Gonzaga, Juraci Alves e o maestro Nelson Ferreira. A dupla Aldemar e Nelson Ferreira, seu parceiro mais constante, compôs: Bloco da Saudade, Ninguém segura este Recife, Pernambuco, você é meu.

Lourenço Capiba, ícone da música brasileira foi amizade da vida inteira de Aldemar; tornaram parceiros de algumas músicas que não foram gravadas. Estão guardadas em algum arquivo.

Não se tem precisão, nos anos de vida artística, quantas músicas de Aldemar Paiva outros cantores gravaram.

Esse homem foi reconhecido pelo valor como compositor, humorista, radialista, escritor, cordelista, em todo o do Brasil. Foi agraciado com o título de cidadão pernambucano, mas nunca deixou de cantar a sua terra natal, Alagoas.

A música “Pajuçara” de Aldemar Paiva deveria se tornar o hino oficial de Maceió. Desde a primeira vez em que essa música foi executada, entrou no coração dos alagoanos e também no coração dos que para cá chegaram ou ainda estão chegando para curtir o mar azul esverdeado.

A música “Pajuçara” tem para Maceió a mesma importância que Copacabana, de João de Barros, tem para a cidade do Rio de Janeiro. O amor devotado à sua terra é uma marca na sua obra desse compositor, humorista, radialista, escritor. Em vários momentos da sua vida cantou Maceió e suas belezas naturais.

Aldemar é o nosso menestrel. O ano de 2025 é o ano do “CENTENÁRIO DE ALDEMAR PAIVA”. Homens da produção da cultura de Pernambuco e Alagoas, preparem festas, seminários, shows, festejando esse ano importante. 2025. Centenário de um dos mais importantes artista brasileiro.

PAJUÇARA

Eu que conheço meu Brasil
Sei muito bem
Das lindas praias, coqueirais, que ele tem
Por isso afirmo nestes versos que compus
Em Pajuçara há mais encanto, há mais luz
Pajuçara, onde o mar beija as areias
Com mais alma e mais amor
Pajuçara, lindo berço de sereias
Que nos deu o criador
Pajuçara que refletes num sorriso
O teu coqueiral em flor
Tens uma beleza rara
Pajuçara.

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BETUCA

Betuca, irmão querido.

Estamos reunidos hoje aqui na Igreja de São Pedro celebrando a Missa de Sétimo Dia de sua partida. Não sabia que doía tanto. A emoção foi enorme desde da sua despedida. Amigos e parentes estavam no Parque das Flores para última homenagem.

Nós, filhos de Mário e Zeca, éramos cinco irmãos, resistindo ao tempo, você foi o primeiro que o Omnipotente veio buscar, deixando um vazio entre a família e os amigos.

Betuca, você foi um homem de muitos talentos e paixões. Demonstrou um dom especial para a arte, pintando quadros que refletiam sua alma criativa, quadros maravilhosos de uma alagoanidade permanente. Sua arte se destacou em suas telas de prédios antigos e igrejas, um verdadeiro tributo à nossa história e cultura.

Desde criança sua arte aflorou. Nós meninos fomos privilegiados em seu talento preparando lindas pipas, que chamávamos, naquela época, de “arraias”, pelo mesmo formato do peixe abundante nos mares da praia da Avenida. Sua bondade não lhe deixava apenas confeccionar, mas, também compartilhava seu talento com os amigos, ensinando-os a confeccionar pipas que voavam alto, levando alegria às crianças. Lembra aquela arraia enorme cuja estampa era a Bandeira do Brasil? Fez mais sucesso que o desfile militar do 7 de setembro, o povo foi assistir a parada, mas a emoção e visão total foi para aquela pipa, a Bandeira do Brasil balançando no céu, controlada por um menino, apenas por uma linha.

Tivemos uma infância e adolescência maravilhosa, jogando futebol na areia da praia da Avenida da Paz, onde morávamos, mergulhando no infinito mar azul e nas águas cristalinas do Riacho Salgadinho. Quantos carnavais nos divertimos. Você um pouco mais velho cheio de iniciativas, eu fiquei seu fã desde pequenininho.

Mas Betuca, você não foi apenas um artista, foi também foi um economista exemplar, trabalhou na SUDENE no Recife e em Imperatriz do Maranhão, e na Universidade Federal de Alagoas, deixando um legado de dedicação e competência.

Além disso, Betuca, você foi um homem de fé, um membro ativo do Movimento Familiar Cristão, onde dedicou seu tempo e energia a ajudar os outros, demonstração altruística que inspirou outras pessoas.

Agora, você nos deixou, mas seu legado permanecerá.

Deixou uma linda família que o amava, uma esposa devotada, uma guerreira, Tânia Calheiros Lima, um filho orgulhoso, Mário Humberto, dois netos, Mario Victor e Yuri e duas bisnetas, Isadora e Manuela, que carregarão sua memória.

Que a celebração dessa missa seja um testemunho do amor e da gratidão que sentimos por você. Que sua arte, sua fé e sua bondade continuem a inspirar-nos a viver com mais amor, mais compaixão e mais gratidão.

Descanse em paz, querido Betuca. Sua memória viverá em nossos corações.

Maceió, 22 de abril de 2025.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

SEMANA SANTA

Meus netos estão se empanturrando de chocolate para alegria da Nestlé e da Garoto. Essa invencionice comercial, venda da “comida dos deuses” durante a Páscoa, está definitivamente institucionalizada pela propaganda massiva. O ovo de chocolate e o coelho tornaram-se símbolos da semana da paixão e morte de Cristo. Um período apropriado à meditação, à oração, reverteu-se em festa do chocolate.

Os marqueteiros não combinaram com a Igreja, tão conservadora nos assuntos sobre sexo, pois, coelho é o símbolo de procriação, de fertilidade, e chocolate é alimento afrodisíaco. Portanto, os símbolos da semana santa moderna, inventados pelo comércio, são apologias ao sexo,

Sou apegado às tradições, tenho boas recordações da semana santa de meu tempo de criança.

Iniciava no Domingo de Ramos quando se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado em um burrico. Seus discípulos trouxeram dois jumentos puseram em cima deles suas vestes, sobre elas Jesus montou. A multidão cortou ramos de oliveiras, espalhou-os pela estrada, formando um tapete de folhagem para o Rei dos Reis passar, em cima de um jerico. O povo acompanhava Cristo, clamava: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!” Entrando Jesus em Jerusalém, toda cidade se alvoroçou. Perguntavam Quem é este? E a multidão clamava: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia.” Assim aprendi lendo a Bíblia.

Essa parte da história de Cristo é muito emblemática. Entrada triunfal num jerico, logo depois, traído e crucificado. Entretanto, para moçada dos anos 50, o melhor do Domingo de Ramos era a procissão. Ela iniciava na Catedral, os colégios femininos religiosos compareciam: São José, Sacramento, desfile de meninas bonitas, a moçada assistia a procissão na intensão de paquerar as belas alunas. Um olhar, um sorriso, um piscar de olho valia a pena se postar à beira da calçada assistindo a procissão se arrastar pelo calçamento.

O feriado começava na quinta-feira santa, a partir desse dia era proibido comer carne, em compensação minha mãe cozinhava um delicioso bacalhau, arabaiana, camarão, feijão e jerimum ao coco, bredo; uma delícia. Pena que esses deliciosos manjares dos Deuses só venham à mesa na semana santa.

Na noite da quinta-feira havia uma brincadeira perigosa. A meninada saía em bando, cinco a seis moleques para “serrar velho”. A serração do velho é uma tradição europeia conhecida desde o século XVIII. Na Antiguidade reunia-se um grupo de brincalhões, diante da casa de um velho, na noite da quinta-feira santa serravam uma tábua com muito ruído, muito choro, muito lamento. Os velhos serrados irritavam-se com a brincadeira. Pela crença popular, velho serrado não chegava à outra Quaresma. Na minha juventude fazíamos o ritual bem parecido. A garotada cantava alto acordando a vizinhança: “As almas do outro mundo, vieram lhe avisar que deste ano o senhor não vai passar”. “Encomende a alma a Deus, que seu corpo já não vale nada” e líamos um bem humorado testamento em versos. Os velhos ficavam brabos. Levamos muitas carreiras. Seu Pádua, um velho ranzinza da Avenida da Paz, quando cantávamos seu “testamento” jogou um penico cheio de xixi e me molhou da cabeça aos pés. Corri para casa, lá tomei um demorado banho e retornei ao local do crime, onde os amigos estavam às gargalhadas.

Na Sexta-feira da Paixão parecia que o mundo havia se acabado. As rádios só tocavam músicas clássicas ou fúnebres, era proibido ir à praia, até sorrir. As prostitutas fechavam as portas dos cabarés de Jaraguá, e o balaio; nem pensar numa fortuita noite de fornicação.

Finalmente o sábado de aleluia. A moçada preparava um boneco de pano, o Judas, sempre com um nome de algum político ou algum inimigo público. Quando às 10 horas, os sinos da Igreja dobravam anunciando a aleluia, a moçada caía de cacete malhando o Judas amarrado em um poste. Melhor do que malhar um Judas, era roubar os Judas dos vizinhos, dos pivetes.

Afinal chegava o domingo da ressurreição. Os padres contavam a história como Cristo depois de morto subiu aos céus. Hoje acontece um espetáculo pirotécnico com atores globais, para se assistir comendo chocolate e tomando vinho. Uma festa de celebridades.

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QUEM MORREU FOI PEDRO AURÉLIO

Pedro Aurélio saiu do consultório feliz. A geriatra ao esmiuçar os resultados dos exames, constatou diabete, pressão alta e outras achaques normais em um homem de 73 anos. Tudo controlável, além de um regime alimentar, prescreveu medicamentos para a pressão e a diabete. Recomendou caminhadas diárias cerca de 30 minutos, cortar o açúcar, diminuir bebida alcóolica, podia levar a vida normal. Como estava em plena época de fim de ano, cheia de confraternizações, Pedro Aurélio deixou para iniciar as recomendações médicas após o ano novo. O carnaval naquele ano foi cedo, mais uma vez foi adiado o tratamento. Pedro Aurélio amava festas e o carnaval,

Na quarta-feira de cinzas, Pedro Aurélio com uma bruta ressaca, um péssimo humor retornou de ônibus de Olinda numa excursão. À tarde, sozinho em casa, sentou-se na poltrona para assistir a apuração do desfile da Escola de Samba do Rio de Janeiro. Anos atrás ele desfilou pela Salgueiro e torcia por essa escola. De repente deu-lhe uma tonteira, suando frio, dor no braço e no coração. Deu um suspiro, tentou levantar-se da poltrona, porém, desmaiou, deu um suspiro, arriou a cabeça, ali ficou.

Dona Emília, esposa dedicada, chegou ao apartamento às sete da noite, ouviu a televisão ligada e um susto ao perceber a cena trágica, Pedro Aurélio com a cabeça pendida ao lado. Ela o sacudiu, gritou pelo nome, percebeu, o marido estava morto.

Dia seguinte uma comoção no enterro no Parque das Flores, muitos amigos, Pedro Aurélio era criatura simpática, bom comerciante. Os amigos ocorreram para despedir-se do último boêmio da cidade, como disse um parceiro olhando o defunto no caixão.

Em certo momento apareceu uma senhora, aparentando cinquenta anos, rosto bonito, junto a um jovem de seus 12 anos. O rapaz encostou-se no caixão, alisou a cabeça do defunto, chorou sem conseguir parar. Todos souberam do fato, era seu filho, Pedrinho. Pedro Aurélio tinha vida dupla, sustentava outra família no bairro do Clima Bom.

Andréa, a filha, e Edivaldo, o genro, ficaram consolando Dona Emília, irada, não se conformava com a traição de tanto tempo. Agora, aos 60 anos, se achava velha para recomeçar a vida, não havia razão para viver. Não ficou para o enterro.

Gentil, o genro Edivaldo, convidou Dona Emília para passar um tempo com eles no quarto de hóspede de sua casa, o tempo é remédio para todos os males. Dona Emília, aceitou, estabeleceu-se na casa da filha de mala e cuia. Nos primeiros dias pediu para ninguém falar sobre o “Defunto”. Não compareceu à missa de sétimo dia. Vergonha de encarar as amigas, lembrariam do chifre que ela havia tomado durante sua vida.

Acontece que Dona Emília começou a mandar dentro de casa, dava ordens nas empregadas, escolhia o almoço, fiscalizava a faxina, metia-se na vida dos netos adolescentes. À noite assistia todas as novelas, acabando com o prazer de Edivaldo ver seus filmes escolhidos na NETFLIX. Ficou de vez, aparecia em seu apartamento apenas para limpar. Passaram-se quatro meses, Edivaldo, Andréa e os filhos andavam nervosos, chateados com a velha mandando em casa.

No aniversário de Edivaldo ele convidou alguns amigos para uma cervejinha e almoço no sábado pela manhã. Continuaram pela tarde, inclusive Ulisses, um solteirão, boa vida, pequena aposentadoria, vivia sem dinheiro e muitas dívidas. Gostou da sessentona Dona Emília, viúva, boa grana. Passaram a noite conversando alegremente. Confidencialmente trocaram telefones. Na semana seguinte encontraram-se discretamente no apartamento da viúva. Dona Emília com sessenta anos ainda dava bom caldo. Ulisses tinha a mesma idade. Quatro meses se passaram, avisaram à família, estavam vivendo juntos. Dona Emília havia retornado ao apartamento há algum tempo.

Andréa não pode provar, porém, tem certeza que tudo aconteceu por manobra estratégia de Edivaldo, sabedor da situação precária afetiva e financeira de seu amigo Ulisses, convidou-o para o aniversário apostando no namoro entre os coroas. Edvaldo nega as insinuações da esposa com sutil sorriso nos lábios. Hoje, todos estão felizes, como os finais de histórias. Quem morreu foi Pedro Aurélio.

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OS TRAPICHES DE NOSSA INFÂNCIA

Avenida da Paz – Hoje

Nós, meninos da Avenida da Paz, tínhamos nossas opções de diversões no paraíso: a praia, o mar, o riacho Salgadinho, o extenso calçadão arborizado de amendoeiras, o imponente coreto que servia como palco das brincadeiras. No calçadão, as noites eram uma festa. A moçada montada em bicicletas, circulando de patins, patinetes, jogando ximbra, rodando pião, brincando de rouba-bandeira ou gata-pirada. Às vezes um namoro, um aperto, um abraço. A puberdade florescia. Em algumas noites, os moradores sentavam-se nos extensos bancos colocados no calçadão, entre as amendoeiras. A Banda de Música do Exército posicionava-se no coreto e iniciava o concerto. Ouviam-se músicas clássicas, populares e jazz. O Exército Brasileiro organizava essa retreta toda noite de quarta-feira, os moradores adoravam.

A praia de areia branca se estendia, servia de campo de futebol e de outras brincadeiras. Adorávamos mergulhar e nadar no mar azul esverdeado até perto dos navios fundeados. No retorno, os botos (golfinhos) nos acompanhavam como nos estivessem protegendo, brincavam, mergulhavam e emergiam, soltando um som gutural como se conversassem com os jovens nadadores.

Uma das mais gostosas e perigosas brincadeiras, aconteciam nas tardes de maré cheia, a moçada nadava até o trapiche fincado na areia, um pequeno armazém para apoio de embarque de sacos de açúcar. Mergulhávamos e nadávamos até o pequeno armazém mar adentro. Subíamos pelas palafitas de tronco de madeira, galgávamos ao telhado do armazém. Pisando em cima das folhas de zinco, contemplávamos a enseada da Avenida da Paz. No lado direito, a praia e as casas lado a lado; do lado esquerdo: o mar verde azulado infinito e o cais do porto. Ao olhar a imensidão do mar, sentíamos donos do mundo. Mergulhávamos, sentindo a carícia da brisa no corpo, o vento soprando a cabeleira até o impacto dos pés na água; afundávamos, no mesmo momento emergíamos alegres. Vinha a vontade imediata de outro mergulho, subíamos ao telhado do trapiche. Passávamos a tarde mergulhando, alguns mais corajosos mergulharam de cabeça ou da cumeeira do telhado. Ao escurecer, acabava a brincadeira.

Aconteceu uma tarde trágica, nosso amigo Tonico mergulhou e não retornou, não emergiu. Mergulhamos, vasculhamos o fundo do mar para tentar trazê-lo à superfície, não achamos o amigo. Desesperados, chamamos os bombeiros, os militares tentaram resgatar o corpo usando embarcações com o auxílio de mergulhadores. O corpo não foi encontrado. Alguém disse ter visto um enorme tubarão que o engoliu. Impossível. Nunca apareceu tubarão na praia da Avenida. Tristeza geral. O corpo, um mistério que ficou para sempre em nossas mentes e corações.

A Diretoria do Cais do Porto proibiu a brincadeira de mergulhar do telhado do trapiche. Passados alguns meses, nós retornamos a mergulhar no telhado de zinco. Quando aparecia o vigia brabo com seu inútil cassetete, a moçada fugia mergulhando no mar, se espalhava e gritava cada qual uma frase, enfurecendo o coitado do vigilante. “O Galo Canta!”, “O Macaco assovia!”, “Banana de Jegue!”, “No Cu do Vigia!”.

Nos anos 60 modernizaram o cais do porto e demoliram os trapiches de nossa infância.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O MAR DE MACEIÓ

De minha varanda não canso de olhar, me extasio com o mar da praia de Jatiúca, azul turquesa com matizes verdes ou será verde esmeralda azulado? Cor única no universo, pintado nessa terra. Minha intenção seria escrever uma crônica sobre essa exuberante visão. Entretanto prefiro, com licença de meus queridos leitores, repassar um artigo de uma jornalistas mineira, Cláudia Tonaco, nem a conheço e nem pedi sua permissão para transcrevê-lo.

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O MAR DE MACEIÓ SUPERA TODAS AS EXPECTATIVAS

Bem que Sebastião Nery tentou me avisar que o mar de Maceió era maravilhoso, de águas quentes e limpas, mas, de nada adiantou. Saí de casa preparada levando na bagagem todos aqueles elogios rasgados preferidos pelo ilustre jornalista baiano. Por mais que estejamos preparados à experiência que se tem, ao chegar em Maceió é muito maior e, de tão incrível, dá até para chamá-la de um verdadeiro choque sensorial.

O que mais poderia descrever o fato de acordar, caminhar em direção à praia e dar de cara com um mar que até então você jamais imaginaria que existisse? O mar de Maceió não é qualquer um. Depois de conhecer o esplendor do mar de Alagoas, a gente entende que todos os outros se transformaram em protótipos. Maceió tem o que poderia se chamar de um mar definitivo.

Olhar para aquela beleza liquida é como ser atropelado por um vagalhão luminoso e, a partir daí, começar a flutuar num paraíso de águas. Quem conhece as Praias do Francês, Ponta Verde, Maragogi e a fantástica Praia do Gunga sabe muito bem do que eu estou falando.

Na capital de Alagoas o maior prazer é sentar-se e deixar a paisagem perfeita entrar pela retina: os coqueiros inclinados na areia dançando com o vento, a harmoniosa mistura musical da brisa, o colorido preciso, misturado dos guarda-sóis combinando com as toalhas e trajes de banho, e o branco das velas enfurnadas rasgando o mar e o céu, dois dos azuis mais belos que existe na face da Terra.

O sol de Maceió aprendeu as regras da hospitalidade com o povo alagoano e, misturado à brisa fresca, toca os banhistas de maneira delicada e generosa. E ao fundo surge aquela imensidão verde-azul-turquesa real radiante, às vezes fosforescendo, que ganha cores de prata na lua-cheia e toques de ouro no amanhecer ou no pôr-do-sol.

Em Maceió, as férias se transformam numa regalia para os cinco sentidos. Os visitantes mergulhados num mundo que aguça a percepção e a sensibilidade. Eu não quero outro em minha vida. Daqui para frente, quando pensar em mar, estarei sempre pensando no de Maceió.

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Artigo da jornalista CLÁUDIA TONACO publicado na coluna VIAGENS GERAIS no jornal, O TEMPO, de Minas Gerais.