CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

É HORRÍVEL SER CORNO

Cartagena das Índias

Encontrei Chiquinho na praia da Jatiúca; solitário, macambúzio, seis garrafas de cerveja consumidas, entre doses de cachaça. Arrastei uma cadeira, pedi acarajé, cerveja, puxei conversa com o amigo perguntando por Fernanda, sua digníssima esposa. Percebi a gafe, ao me responder cheio mágoa.

– Foi-se embora, me largou, aquela sacana!

Chiquinho sorveu um copo olhando para o distante horizonte do mar azul. Pedi-lhe desculpa, eu não sabia do fato, fiquei cheio de dedos, continuamos conversa amena, repetitiva, sem graça. De repente Chiquinho desabafou.

– A canalha está em Cartagena das Índias na Colômbia!!!!!

Indiscreto, perguntei o porquê da separação. Olhando para o chão, ele contou a história, com pormenores. Fiquei na escuta.

– Quinta-feira antes do carnaval fui preparar a casa de praia de Paripueira, colocá-la nos trinques para receber os amigos, como você sabe meu filho único filho, Bernardo, é uma vergonha, o viado foi passar o carnaval na Bahia. Apesar disso, eu e Fernanda vivemos em harmonia, poucos percalços em nossos 25 anos de casados, embora ela tenha desconfianças devido minha fama pregressa de mulherengo. Na verdade nunca deixei esse vício, minha compulsão por mulher é doença merecedora de tratamento. Na quinta-feira eu contemplava da varanda da casa a bonita vista da praia, quando apareceu Laurinha, filha da faxineira, para me ajudar. Eu “secava” essa jovem desde que retornou de São Paulo, para onde viajou num ônibus com menino no bucho, em busca do pai. Não conseguiu encontrar o pilantra, tentou sobreviver, foi difícil, retornou à casa da mãe em Paripueira com um filhinho.

Chiquinho tomou uma lapada de Ypioca, dois goles de cerveja, continuou.

– Laurinha, 21 aninhos, tem consciência de seu corpo bem feito, torneado, sensual. Por conta disso, até por exibicionismo, usa mini saia deixando à vista o belo espécime feminino. Em São Paulo, para sobreviver e comprar o leite do menino que nasceu, entrou no esquema de programas, aprendeu coisas inacreditáveis com as colegas; sabe seduzir um homem. Ao perceber que estávamos apenas os dois em casa, não me contive, cheguei junto, alisei seu cabelo. Ela me olhava nos olhos, sussurrou em cumplicidade pedinte: -“Que é isso Seu Chiquinho?” Deitei-a no tapete da sala, nos abraçamos, nos beijamos, como uma fera ela pedia mais, dei tudo de mim até a apoteose. Estávamos ainda estirados no chão, quando a porta se abriu. Fernanda chocou-se com a cena. Flagrante constrangedor, ela destilou todo ódio: – “Seus filhos de uma puta!!!” Bateu a porta, entrou no carro, voltou a Maceió. Eu não tive coragem de retornar à minha casa. Procurei amigos, parentes, contei a história, pedi para fazerem a ponte, dizia-me arrependido, nunca mais aconteceria, e outras promessas vãs que todos os pecadores cometem. Fernanda irredutível mandou recado, que eu não tivesse a ousadia em procurá-la. Sábado de carnaval, tristonho, acordei-me na casa de Paripueira, pensava, avaliava a merda feita. À noite foi dar uma volta no carnaval do centro da pequena cidade, tive um susto, meu coração bateu forte quando avistei Fernanda de short curto, barriguinha de fora, charmosa dançando na rua, pulando com amigos. Fiquei num barzinho, olhava para ela, nossos olhos se cruzaram algumas vezes, ela despistava o olhar. Até que certa hora o álcool me deu coragem, fui até Fernanda; ela me empurrou, ameaçando chamar a polícia. Levaram-me bêbado para casa. No domingo acordei-me deprimido. À noite foi pior. Ao perceber Fernanda abraçada, beijando um jovem surfista, parti para cima dela, puxei-a gritando que levaria para casa. Tomei um bruto soco do acompanhante, caí no chão. Levaram-me novamente bêbado para casa. Durante o resto do carnaval, procurei, não consegui encontrar Fernanda. Na quarta-feira de cinzas, tive coragem fui à nossa casa em Maceió. Ela havia desparecido levando algumas roupas, notei. Nenhum amigo ou parente tinha notícia de Fernanda, o celular não atendia. Soube notícia de minha mulher, uma semana depois do carnaval por uma amiga. Ela raspou nossa conta conjunta do banco, está passeando em Cartagena das Índias, não sei se acompanhada.

Ao terminar a trágica história bebíamos a 18ª garrafa, sentaram-se em nossa frente duas coroas gostosas, belíssimas, Chiquinho não teve apetência sequer de olhar. Eu, indiscreto, com pena, perguntei o que seria de sua vida?

– Quero a volta da Fernandinha, perdoo tudo. É horrível ser corno!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ACABOU NOSSO CARNAVAL

Eram quase duas horas da manhã quando quatro belas mulheres, Ítala, Tereza, Ana e Solange, desceram à praia de Jatiúca e se achegaram à Roda de Samba organizada pelos sambistas da Gaviões após do desfile na última noite de Carnaval. Músicos batendo, o povo cantando sambas. Uma sambista requebrava no meio da roda, os outros em volta dançavam na maior animação, não queriam que o carnaval acabasse. A sambista avistou Tereza foi buscá-la deixou-a no meio da roda. A bonita quarentona deu um show de dança e requebro, aplaudida. Puxou Ítala.

Ana sentada na areia da praia, ouvindo aqueles sambas bonitos, despedindo-se do carnaval, pensava na possibilidade de continuar na cidade por algum tempo, nova vida, até quando não sabia. Levaria uma vida simples, dedicada às causas sociais, ajudaria à cultura popular maravilhosa, fazendo projetos. Precisava pouco para viver. Ou, seria uma professora, ensinaria inglês, francês, holandês. Confessava à Solange seu sonho.

– Depois que pisei nessa terra encontrei tranquilidade e felicidade. Tive oportunidade de fumar maconha, cheirar cocaína, mas segurei. Meu único deslize foi sexo. – transar com Negrão Benedito, inesquecível aventura.

Cansadas de sambar, Tereza convidou Ítala para caminhar um pouco na areia da praia molhada pela marola. Deram-se as mãos. Ítala puxou a conversa, foi ao fundo.

– Você é feliz com essa vida que leva, Tereza?

– Vou ser franca, querida. Sou também uma atriz que nem você. Assumi um papel que venho representando há 20 anos. Você conhece a história: levei um tiro, a bala acertou um medalhão de Santa Terezinha que eu levava pendurado e resvalou. Gritaram, milagre, milagre. Todos queriam pelo menos segurar a medalha. Vadinho me transformou numa espécie de santa, comecei a fazer o papel de beata, conversando, até confessando os outros como os padres fazem. A partir daquele dia o dinheiro foi entrando, Vadinho inspirado nos pregadores da Bíblia na televisão, começou a pregar. Fundamos nossa primeira Igreja, deu certo. Construímos quatro Igrejas em 20 anos. Estou cansada, cansada de reza. Com vontade de mandar meu papel de Beata à puta que a pariu!

– Somos parecidas, eu já fiz muitos papéis na vida, como atriz. Só que minha vida foi meio destrambelhada. Aos 20 anos era uma mulher linda, queria porque queria ser atriz. Fiz curso, frequentava festas. Namorei muito, principalmente diretores, Muita gente querendo me comer depois que apareci num pequeno papel numa novela. Hoje sou famosa e rica, viúva de um Senador milionário. E você vai fazer o quê de sua vida? Seus filhos adolescentes daqui a pouco estarão independentes.

– Pensei em abrir uma loja no shopping para vender roupas sofisticadas, inclusive roupas de rendas que as rendeiras de Marechal Deodoro e do Pontal costuram divinamente.

– Se quiser uma sócia, estou à disposição. Dinheiro não falta. Eu compraria roupas femininas chiques, enviaria para sua loja vender.

– Gostei da ideia. Vamos amadurecer o projeto.

Tomavam cerveja vendida por ambulantes retardatários na praia. De repente o mar a as nuvens foram se tornando rosas, alaranjadas. Um novo dia surgiu. A roda de samba continuava:

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

Encontraram as jovens Solange e Ana. As quatro belas mulheres subiram ao calçadão, atravessaram a rua deserta. Tereza cantou uma bela música, as outras acompanharam. Apareceram madrugadores nas janelas dos apartamentos. Elas sorrindo felizes, continuaram cantando alto acordando o quarteirão.

Acabou nosso carnaval, ninguém, ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê é uma gente que nem se vê
Que nem se sorri, se beija ou se abraça
E sai caminhando, dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar. Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade…

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Eu sou meio velho, mas sou curioso com a modernidade. Agora apareceu a tal da AI, Inteligência Artificial. Coloquei no meu zap e logo recebi uma mensagem do aplicativo: Sinta-se à vontade para solicitar qualquer texto ou mensagem conforme desejar. Imediatamente solicitei alguns textos e fiquei atordoado com os texto escritos e enviados pela Inteligência Artificial. Vou colocar aqui três textos solicitados e a resposta. Tirem suas conclusões.

1 – Eu – Quero um texto declaração de amor à minha esposa, Vânia.

AI – “Minha querida Vânia. Você é a luz que ilumina minha vida, o ar que eu respiro, o ritmo que faz meu coração bater. Você é a minha alma gêmea, a minha melhor amiga, a minha companheira de todas as horas. Eu te amo mais do que palavras podem expressar. Eu te amo por sua beleza interior e exterior, por sua inteligência, sua sensibilidade, sua força e sua vulnerabilidade. Eu te amo por todos os momentos que compartilhamos, por todas as risadas, lágrimas e sorrisos. Você é a minha razão de ser, a minha inspiração, a minha motivação. Você me faz querer ser um homem melhor, mais amoroso, mais atencioso, mais presente. Eu prometo amar você por todos os dias da minha vida, por todos os momentos, por todas as circunstâncias.

2 – Eu – Escrever a história da mulher do padeiro que o trai com garotos, o padeiro reclamou, ela saiu de casa. O padeiro foi atrás da mulher para voltar para casa.

AI – Era uma vez, em uma pequena vila, um padeiro que era conhecido por suas deliciosas migas e pães frescos. Mas, o que os vizinhos não sabiam, era que a mulher do padeiro, uma bela e sedutora mulher, tinha um segredo: ela traía o marido com garotos da vila. O padeiro, um homem trabalhador e dedicado, não desconfiava de nada, até que um dia, um dos garotos foi visto saindo da casa do padeiro. O padeiro, furioso e magoado, confrontou a mulher, que não negou o adultério. A mulher, sem remorso, saiu de casa, deixando o padeiro sozinho e desolado. Mas, o que ela não esperava, era que o padeiro fosse atrás dela, suplicando que voltasse para casa.

“Eu te amo”, disse o padeiro, com lágrimas nos olhos. “Eu não posso viver sem você. Eu sei que você me traiu, mas eu estou disposto a perdoar.” A mulher, surpresa com a reação do padeiro, começou a rir. “Você é um corno apaixonado”, disse ela. “Você não merece ser traído, mas eu não posso mudar quem eu sou.” O padeiro, ainda esperançoso, continuou a suplicar que a mulher voltasse para casa. E, embora ela tenha recusado, o padeiro não desistiu. Ele continuou a amá-la, mesmo sabendo que ela não o amava mais. E assim, o padeiro se tornou um exemplo de como o amor pode ser cego e obstinado.

3 – Eu – Escrever um texto sobre o escritor Luiz Berto, editor do Jornal da Besta Fubana, baluarte da resistência da democracia.

AI – Luiz Berto, um nome que ecoa na literatura e no jornalismo brasileiro! Como editor do Jornal da Besta Fubana, ele se destaca como um baluarte da resistência da democracia no Brasil. Sua paixão pela liberdade de expressão e sua compromisso com a verdade são inspiradores. O Jornal da Besta Fubana, sob sua edição, se tornou um farol de resistência contra a opressão e a censura. Luiz Berto não tem medo de enfrentar os desafios e de denunciar as injustiças, sempre mantendo um tom crítico e irreverente. Além de sua atuação como jornalista, Luiz Berto também é um escritor renomado, com obras como “Romance da Besta Fubana” e “Nunca Houve Guerrilha em Palmares”. Seu estilo único e sua capacidade de contar histórias são marcas registradas de seu trabalho. Luiz Berto é, sem dúvida, um dos principais nomes da literatura e do jornalismo brasileiro contemporâneo. Sua contribuição para a luta pela liberdade de expressão é inestimável. Ele é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que acreditam na importância da imprensa livre e independente.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A GRANDE SURPRESA: O CARNAVAL DE RUA VOLTOU! VIVA MACEIÓ!

Nos anos 40/50/60, o carnaval de rua de Maceió iniciava 15 dias antes com a Maratona Carnavalesca na Rua do Comércio, tendo uma orquestra de frevo em cada esquina e o corso rolando. Toda noite o Centro da cidade lotava de foliões e apreciadores de carnaval que ficavam assistindo da calçada o povo dançar e se esbaldar.

No domingo anterior ao carnaval era vez do Banho de Mar à Fantasia pela manhã na Avenida da Paz. Com concurso de Blocos de Frevo, de Troças, de Escolas de Samba. A multidão atulhava a Avenida com fantasias de papel, depois mergulhava no mar.

De repente, a cerca de 15 ou 20 anos, o carnaval de rua de Maceió desapareceu. Os moradores da cidade começaram a procurar a folia em outros locais, como Recife, Salvador, deixando um vazio na cidade.

CARNAVAL É ECONOMIA CRIATIVA. CARNAVAL É LUCRATIVO.

A abrangência da economia criativa, que tem como matérias primas a inteligência e a criatividade humanas, recursos que, se bem trabalhados, tendem ao infinito. Sendo assim, com possibilidades praticamente ilimitadas, a economia criativa pode ser considerada revolucionária.

O carnaval constitui-se numa das mais conhecidas expressões culturais do Brasil, pode ser visto como uma síntese da economia criativa, uma vez que nas suas diversas formas de manifestação explora de forma extraordinária a inteligência e a criatividade do brasileiro.

Nessas diferentes formas de manifestação carnavalesca estão presentes diversos atores da economia criativa. Poe exemplo: Na música, desempenham papel fundamental os compositores, os puxadores de blocos, os instrumentista. Passando para os quesitos artes visuais, artes cênicas e dança, assistimos, ano após ano, um show de criatividade e bom gosto de designers, coreógrafos, estilistas, figurinistas, roteiristas, costureiros, maquiadores, artesãos, bailarinos e passistas.

Na retaguarda de papel relevante na preparação e execução dos serviços, estão os publicitários, os decoradores, os gráficos, os profissionais de rádio e TV, os chefs de cozinha e uma enorme gama de colaboradores da cadeia turística, envolvendo os segmentos de transporte, hospedagem, alimentação e entretenimento. Beneficiando-se do fluxo de turistas que acorrem às principais localidades com atrações carnavalescas. Na cadeia da Economia Criativa ainda tem o pessoal de apoio: ambulantes, taxistas, costureiras, restaurantes, bares, pousadas, hotéis, montadores, etc…

PREJUÍZO DA CIDADE DE MACEIÓ POR NÃO TER CARNAVAL ORGANIZADO

Maceió está perdendo dinheiro e muito dinheiro em não ter carnaval durante os dias de Carnaval. Nos quatro dias de carnaval viajam 200 mil maceioenses em busca de folia para várias cidades. Se cada um maceioense que viaja, gastar R$ 1.000,00 durante o carnaval. São R$ 200.000.000,00 (duzentos milhões) que deixam de circular em Maceió durante o carnaval. Carnaval é renda e emprego.

BLOCO DA NÊGA FULÔ

O Bloco da Nêga Fulô foi criado em 2016 por um grupo de foliões de diversos bairros e classes sociais que não conformado com o esvaziamento da cidade, para incentivar o Carnaval de Rua e abrir um espaço para o povo se extravasar O Bloco da Nêga Fulô desfila todos os domingos de carnaval, com muito entusiasmo, com foliões de todos os bairros da cidade, aberto, sem corda, gratuitamente para toda população, mostrando a viabilidade do carnaval de rua em nossa cidade. Esse ano de 2025 o desfile terá início ás 14:30 nos 7 Coqueiros até o Alagoinha, domingo, 2 de março.

O CARNAVAL VOLTOU

De repente, hoje (27 fev), aconteceu uma surpresa maravilhosa: a Prefeitura de Maceió anunciou e divulgou a programação do Carnaval no bairro histórico de Jaraguá. Uma programação de tirar o fôlego iniciando com o Baile Municipal na sexta (28) e todas as noites uma excelente programação carnavalesca. Uma vitória para o maceioense: a volta o carnaval de rua, a maior manifestação cultural, espontânea do brasileiro, a alegria fugaz que se chama carnaval. Os velhos carnavalescos agradecem à Prefeitura. Vamos todos à Jaraguá levando filhos e netos, afinal, depois de tanto tempo, temos novamente a alegria de um Carnaval!!!

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEU AMIGO CACÁ

Este colunista ao lado de Cacá Diegues

Cacá Diegues antes de cineasta, escritor, era um filósofo, um pensador. Sua grandeza estava na generosidade, na simplicidade, na gentileza, na inteligência e no amor. Nascemos no mesmo ano na Avenida da Paz, Maceió. Nossa infância livre, leve e solta na praia da Avenida nos marcou para sempre. De repente seu pai, o sociólogo, Manoel Diegues Júnior foi transferido, trabalhar no Rio de Janeiro. Nunca deixou de passar as férias de verão em Maceió. E sua casa passou a ser a embaixada de Alagoas na capital do Brasil. Nas vésperas de Natal era uma alegria a notícia: “Chegaram os cariocas”. Nosso ponto de encontro era a praia, jogar futebol na areia branca, jovens nos digladiávamos aos chutes. A partida só terminava com o Gol da Lua, o primeiro gol depois da lua aparecer. Meninos românticos.

Nos programas noturnos percorríamos a cidade de bicicleta, arranjando namoradas. Certa noite Cacá chegou eufórico onde se encontrava a turminha, feliz da vida, havia dado seu primeiro beijo na namoradinha no coreto da Avenida da Paz. Não perdíamos os filmes das sextas-feiras no Clube Fênix Alagoana.

Depois da adolescência ganhamos o mundo. Cacá se tornou famoso, mas, nunca nos perdemos de vista, às vezes, passavam dois ou três anos sem nos ver. Quando havia o reencontro a amizade era a mesma. Eu gostava de conversar com meu amigo, absorver sua sabedoria, tornou-se um intelectual, um homem conhecido no Brasil e no mundo. Acompanhei várias filmagens. Cacá nunca deixou suas raízes e amava Alagoas, onde ele rodou vários filmes, inclusive o último, DEUS AINDA É BRASILEIRO, no qual tive o prazer e a honra de colaborar.

Quando fui assistir à posse de Cacá na Academia Brasileira de Letras, dia seguinte almoçando em sua casa, ele me desafiou com um presente: escrever o argumento inicial do roteiro de seu novo filme. Orientou-me a escrever a história: Seria uma espécie de continuação de DEUS É BRASILEIRO. Depois de 20 anos Deus retorna ao Brasil e encontra a mesma merda. Fiquei feliz escrevi a história de minha cabeça. Ele tornou-a roteiro e fez a filmagem em Alagoas, com atores alagoanos. O filme está lindo. Tenho maior orgulho em alguns escritos de nossa amizade, como o prefácio que escreveu de meu recente romance, JEQUIÁ:

Não conheci propriamente Carlito Lima. Na verdade, explodimos juntos, na Avenida da Paz, nos anos 1940, acabados de nascer. E seguimos juntos por nossa infância afora, passando pela adolescência e chegando à juventude, mesmo se, a partir de certa idade, moramos em cidades tão distantes uma da outra. É, portanto, uma honra especial e um grave compromisso escrever este texto sobre ele e seu livro mais recente, “Jequiá”.

A história que Carlito nos conta nesse livro começa quando o jovem Pablo Márquez, um colombiano nascido em Cartagena das Índias, a mais bela cidade histórica da América do Sul, passa de navio por Maceió com sua filha pequena, Isabel, de dois anos de idade, e decide ali morar e se instalar pelo resto da vida.

O autor de “Jequiá” é, antes de tudo, um cronista da vida de seus conterrâneos, sem esquecer de onde eles vieram. Ele é capaz de fazer dessa qualidade um sólido apoio para se lançar no coração da origem de seus personagens. São eles que revelam, por sua ação, pelo que dizem ou pelas simples sombras que espalham por cada cenário, a grandeza de sua presença no mundo enquanto nordestinos e alagoanos. É com esses nordestinos e alagoanos, como ele, que Carlito Lima procura fazer sua gentil, mágica e vigorosa revolução cultural e literária.

Sinto-me orgulhoso de ser amigo de Carlito, de ter dividido com ele experiências e descobertas que só na infância e na adolescência podemos experimentar. Aprendi com ele, e ele comigo, muita coisa que só essa convivência podia inventar. Acompanhando sua carreira de escritor bem-sucedido, sinto-me homenageado; como ele deve se sentir, com qualquer de meus filmes que dê certo. Nós somos parte de extensa família cultivada na beira do cais, na Avenida da Paz.

Foi uma dor forte no coração semana passada quando Álvaro Machado me comunicou sua partida. Foi-se embora o mais antigo de meus amigos. E pedaços de minha bela vida.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CONVERSAS COM ARIANO

Este colunista com Ariano Suassuna

Sou um privilegiado, conversei, me diverti, saboreei alguns encontros com Ariano Suassuna. Certa vez ele veio a Maceió para dar uma aula sábia e divertida no Centro de Convenções. Fui designado pelo Clube de Engenharia para a honrosa apresentação do amigo. Antes da palestra, em conversa informal eu revelei com orgulho ter lido três vezes, “A Pedra do Reino“, aquele seu livro, orgulho da literatura brasileira, faz entender melhor a vida do homem nordestino.
Auditório cheio, mais de 2.000 pessoas, a aula estava uma delícia, certo momento, Ariano confessou: “Tenho admiração pelos escritores e pelos loucos, mentirosos, fugindo da realidade eles inventam histórias, imaginam outras vidas, não aceitam a realidade. Existe todo tipo de louco, aqui no auditório tem vários, o Carlito Lima, por exemplo, leu três vezes meu livro, “A Pedra do Reino”, só um doido pode ler um meu livro três vezes.” A plateia às gargalhadas. Na saída o povo me sorria. Eu feliz da vida pelo Mestre ter me citado.

Há alguns anos fui à Festa Literária de Boqueirão na Paraíba, hospedados no mesmo hotel à beira de um belo lago, conversamos amenidades. Nesse fim de semana, ele se divertia com minhas histórias, dois dias agradáveis no sertão paraibano em boa companhia. Ariano me chamava de “Carcereiro do Arraes” devido ao fato do governador ter sido preso no quartel onde eu servia durante o golpe de 64.

Eu era Secretário de Cultura quando Ariano apareceu em Marechal Deodoro, o SESC aprontava o documentário, “O Nordeste de Ariano”. Ele fez questão de gravar o depoimento sobre Bandas Filarmônicas Nordestinas em Marechal Deodoro, cidade histórica onde existem cinco ótimas e antigas bandas, Santa Cecília, Carlos Gomes, Aconchego, Manuel de França e Boa Vista. Foi organizado um belíssimo concerto de dobrado militar em frente ao Convento Santa Maria Madalena, ficamos extasiados com a tocata. Certo momento Ariano perguntou se eu conhecia a origem do dobrado, respondi ter noção. Ele esclareceu, “O dobrado militar foi invenção da guerra, o som, a repetição, a altura do tocar, dão emoção e coragem aos soldados para se defrontarem com o inimigo, entretanto, se esse belíssimo dobrado que estamos ouvindo fosse tocado numa guerra, os soldados em vez de atacar, iriam oferecer flores ao inimigo.” Filosofou, sorrindo e gaguejando, Ariano.

Ariano era um profundo conhecedor de dobrados e bandas filarmônicas. Naquele dia, era aniversário de Ariano, depois do depoimento, organizamos uma surpresa, as bandas de Marechal, juntas, tocaram, “Parabéns prá você”, e um bolinho de vela, ele se emocionou e emocionou a privilegiada e reduzida plateia que assistia a filmagem do histórico documentário naquele sábado de sol na bela Marechal Deodoro.

Tenho uma forte admiração pela obra e pelo ser humano, Ariano Suassuna, suas palestras abrangiam vários temas, desde a arquitetura e construção de casa de taipa nas pequenas cidades nordestinas às músicas encantadoras do Nordeste. Era um sábio, intelectual, nacionalista, quase xenófobo, não admitia o estrangeirismo apagar nossa cultura. Dizia, “Prefiro nosso Ôxente que o OK americano.” O Brasil real perdeu o maior defensor de sua cultura popular. Ficou sua obra, eternamente lembrada, Ariano Suassuna a única unanimidade brasileira.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DE BEBEDOURO À AVENIDA

Praia da Avenida da Paz. Este colunista de óculos. 1960

No início do Século XX o bairro de Bebedouro era o mais chique, o mais festeiro, o mais rico. As mansões, os bonitos palacetes das famílias tradicionais embelezando o bairro. Pena que hoje as minas da Braskem tenham afundado aquele bairro tão belo, patrimônio de nossa cidade. O maior crime urbano–ambiental do Brasil. Incalculável o prejuízo histórico, cultural.

No final da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), o prefeito de Maceió, Firmino Vasconcelos comemorou com uma festa popular o fim da guerra na então “Praia do Aterro”. Depois de bons goles de cachaça da boa, prometeu construir naquele local a Avenida da Paz.

Terminada a obra, a linda Avenida da Paz à beira-mar foi entregue à população em 1920. A nova Avenida desbancou o bairro de Bebedouro, a burguesia transferiu-se para a Avenida da Paz, construindo belas casas e mansões. Nessa época apareceu a moda do “banho salgado”, a mulherada moderna vestia maiô até o joelho e caía na água do mar. Maior sucesso, alguns achavam um escândalo. Vinham homens, velhos e meninos do interior apreciar as modernas senhoritas de maiô aparecendo a batata das pernas. Causava reboliço entre os marmanjos. Nessa época também foram aparecendo os primeiros libertinos libidinosos. Quando nos anos 30 foi inaugurada a sede do Clube Fênix, o maiô havia diminuído o tamanho, subindo até a metade das coxas, quanto mais diminuía o tamanho do maiô, mais aumentavam os discípulos de Onã na esplêndida praia da Avenida.

Nos anos 50 éramos jovens maloqueiros da praias. Nadávamos singrando a calmaria do mar. Pulávamos da cumeeira dos trapiches que se estendiam mar adentro, jogávamos futebol na areia dura, molhada. Pescávamos nas jangadas. Entretanto, o que nós meninos mais apreciávamos, o nosso esporte predileto, era ficarmos na areia olhando, que nem jacaré, as belas mulheres que se estendiam na areia para pegar um bronzeado.

O “voyeurismo” é próprio do homem; o olhar, o apreciar os encantos da mulher. Alguns não se controlam, e praticam o onanismo nas mais esdrúxulas situações. Apanhados em flagrante eram escrachados. Naquela época, meninos com cara de santinho, trafegávamos pelas rodas de conversas inocentes com as jovens descontraídas, só para apreciarmos o belo.

Gaguinho, o sorveteiro, era mestre, aproximava o carrinho de sorvete perto das jovens e deitava-se de bruços. Cavava uma cova, adaptada a sua mão, e ali dava estímulo para suas fantasias. Certa vez, um amigo percebeu o Gaguinho em posição de trincheira perto de sua belíssima irmã. Ele foi chegando por trás, devagar, de repente virou o Gaguinho que estava em vias da apoteose. Levaram-no para a Delegacia de Jaraguá. Ficou preso e sumiu por um tempo.

Nos anos 1960 apareceu o biquíni, Havia uma jovem carioca linda, moradora de um bangalô na Avenida da Paz, casada com um engenheiro. Toda manhã, como se fosse uma liturgia descia à praia, estendia uma toalha, enfiava o pau na areia e armava a sombrinha. Bem devagar, como se tivesse preguiça, tirava a blusa, aparecendo a parte superior do biquíni diminutamente cobrindo seus belos seios. Em seguida, como se fizesse um strip-tease, despia lentamente o short requebrando os quadris em movimentos harmoniosos, sensuais, até transpassá-lo por baixo dos pés. Finalmente levantava o short com o pé direito como se chutasse o vento. Ainda em pé, dobrava o short, a blusa, arrumava junto à sombrinha. Deitava lentamente, de bruços, deixando o sol da manhã acariciar suas pernas, seu dorso. O futebol parava para os jogadores se deliciarem com o ritual da musa dos cabelos de fogo.

Depois que a carioca começou a frequentar a praia de biquíni, o número de “turistas do interior” aumentou nos mares da Avenida.

Muita gente graúda entre eles. Certa vez fizemos uma votação para eleger o maior onanista da praia. Em terceiro lugar, o punho de bronze, foi para um atleta famoso, morador da Praça Rayol.

O segundo lugar, o punho de prata, ganhou o Kirk Douglas, um coroa, vestia um velho calção de banho, e passava o dia todo e todos os dias vadiando na praia.

E o primeiro lugar, o punho de ouro, fez-se justiça, foi para o dono de um restaurante conhecido na cidade. O ganhador era prático e profissional. Conta a lenda que todas as suas calças tinham os bolsos direitos furados.

Foi assim a revolução dos costumes na Avenida da Paz, a praia mais bonita da bendita cidade de Maceió.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MARINA BUTTERFLY (Prefácio)

Peço licença aos leitores fubânicos, a coluna de hoje será o prefácio de meu novo romance MARINA BUTTERFLY.

* * *

Maurício Melo Júnior – Jornalista e escritor

Década de 1940. Vivia-se um conflito mundial, com a Alemanha nazista, dirigida por Hitler, ambicionando dominar a Europa. O Nordeste Brasileiro, por ser o ponto mais próximo entre a América e o Velho Mundo, servia de cobiça tanto para alemães quanto para norte-americanos. O ditador Getúlio Vargas, depois de muito hesitar, opta, enfim, por combater as chamadas Potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e apoiar a resistência liderada pelos Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética.

Com o acordo um imenso contingente de militares americanos desembarcou no Nordeste. Embora o principal centro das operações fosse a Base Militar de Parnamirim, em Natal, no Rio Grande do Norte, essa gente se espalhou por toda costa nordestina. O efeito colateral foram os intensos namoros entre brasileiras e norte-americanos. Aliás, um fenômeno mundial, basta ver o tanto de brasilianos (filhos de soldados brasileiros com mães italianas) que ficou na Itália passada a guerra.

Já o encontro entre brasileiras e americanos resultou em literatura. São clássicos o conto Tangerine-Girl, de Rachel de Queiroz, e o poema Boletim Sentimental da Guerra no Recife, de Mauro Mota. “Meninas, tristes meninas, / de mão em mão hoje andais. / Sois autênticas heroínas / da guerra, sem ter rivais. / Lutastes na frente interna / com bravura e destemor. / À vitória aliada destes / o sangue do vosso amor.” O tema está presente também no romance A Porteira do Mundo, de Hermilo Borba Filho, onde o protagonista vê sua namorada se perder nos braços de um ianque.

O drama de tons eróticos volta às letras com o romance Marina Butterffly, de Carlito Lima. Provocado por Cássio Cavalcante, Carlito escreveu um conto inspirado na ópera Madame Butterffly, de Giacomo Puccini. O enredo é conhecido. No final do século XIX o tenente da marinha americana, B. F. Pinkerton, vai ao Japão em missão militar e se envolve com Cio-Cio-San. Terminada a missão, ele volta para a América deixando a amada grávida. Anos depois retorna para buscar o filho. A moça, revoltada e desiludida, termina por se matar.

Concluído o conto, Carlito viu que a tangerina ainda podia dar caldo, ou mais bagaço. Daí que no enredo que desenvolve se dá quase a mesma história. O tenente americano Pinkerton chega a Maceió para comandar uma base aérea e pilotar dirigíveis Blimp em patrulha na costa nordestina. Então se toma de amores por Marina, moça da elite alagoana, cantora e borboleta do Pastoril do Colégio Santíssimo Sacramento, onde estuda. As coincidências com a ópera praticamente terminam por aí, afinal estamos em Alagoas, onde as soluções são bem mais belicosas e passional que no Japão.

Carlito Lima é um romancista que nasce do cronista. Começou a carreira literária aos 60 anos contando suas aventuras como capitão do Exército. A partir de então desenvolveu todo um trabalho de cronista. Com Marina Butterffly, seu quinto romance, traça uma belíssima crônica da Maceió dos anos 1940, uma cidade pacata confraternizada em seus folguedos, suas frestas e nos sonhos pessoais de sua juventude. Marina forma com Nazaré e Francesca, também estudantes do Colégio Santíssimo Sacramento, um trio que, em suma, traduz um amplo panorama do que era viver em uma cidade forrada por preconceitos e tabus que pediam para serem quebrados.

Enfim, estamos diante do painel vivo de uma época. Carlito, observador arguto, nos conduz por becos que contornam a história oficial, nem sempre tão verdadeira quanto defendem seus praticantes. E é com prazer que podemos passear pelo cotidiano de um tempo de intensidades não tão ingênuas como posso estabelecer nossa vã imaginação. A prosa de Carlito é puro humor e picardia.

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MARINA BUTTERFLY SERÁ LANÇADO DIA 7 DE FEVEREIRO NA “CHOPARIA CAATINGA ROCKS”, MERCADO DA ARTE 31 – JARAGUÁ – MACEIÓ.

INFORMAÇÕES: 82.9.9690.9964.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A VIDA APERTADA DO DR. BERNARDO

Bernardo nasceu num sítio em Coqueiro Seco, bela e bucólica cidade à beira da lagoa Manguaba. Menino ainda já tinha vocação para mulheres. Na juventude tornou-se conquistador, o rei das peniqueira (assim chamavam maldosamente as jovens e deliciosas empregadas domésticas na época do politicamente incorreto), daí seu apelido Nardinho das Peniqueiras. Conseguiu se formar em Direito, figura popular e bem humorada na capital e em sua cidade, repreendia quando algum amigo o chamava de Dr. Nardo das Peniqueiras. Corrigia com um apelo.

– Eu tenho um nome Dr. Bernardo Lima. Não desmoralize meu título de bacharel!

Casou-se cedo, engravidou uma prima, costumava dizer, “priminha não é irmãzinha”, terminou no altar com Salete, uma mimosa flor da cidade de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, hoje Marechal Deodoro. Bernardo arranjou uma casa no Conjunto Castello Branco, ele nunca se acostumou com a vida de casado, sua vida era de bar em bar pelas ruas da cidade, até que foi encontrando novos amores durante a vida.

Um deputado arranjou-lhe uma sinecura na Assembleia Legislativa, onde ele aparece algumas vezes na semana para bater papo, rever amigos, se gabava de ter arranjado 280 votos para o deputado em Coqueiro Seco. Um dia apareceu uma menina bonita, vinda do sertão, fora desvirginada por um outro deputado, comprou o silêncio com um emprego na Assembleia. Bernardo namorou a protegida, Marta, a rainha do sertão, como ele a apelidou. Numa bela tarde, Martinha lhe informou, estava grávida. O jeito foi assumir o filho. Marta ganhou uma casa da COHAB do deputado, onde vive até hoje vive, dividindo Bernardo com Salete. Ele tem o afeto, adora o filho. Na certidão do jovem consta filho de Bernardo Lima, entretanto, a maldade humana acha o menino a cara do deputado. Bernardo é homem moderno, não importa certas picuinhas, ama o menino, seu filho do coração. Salete e Marta não se frequentam, se aceitam como duas flores do mesmo talo. Os meninos, meios irmãos, se dão bem quando se encontram. As mulheres sabiam, não de falavam, mas não brigavam. Assim o tempo foi passado. Bernardo era bígamo assumido, com duas famílias para sustentar. Assessor para assuntos aleatórios (mulheres) do deputado.

Durante a última eleição, Bernardo foi o coordenador da campanha do deputado em Coqueiro Seco e municípios vizinhos. Acontece que uma jovem, Cristina, quase da idade de seus filhos, 17 aninhos, foi trabalhar no comitê, e encantou nosso Casanova. A moça bonita era sempre sorrisos para o chefe, mas quando chegava nos finalmentes ela escorregava feito um muçum ensaboado. Numa noite de lual à beira da lagoa, despedida da campanha eleitoral, Bernardo conseguiu uma noite memorável de amor dentro de uma canoa. Nove meses depois nasceu Lilian Lima, uma adorável criança.

Montou outra casa, a terceira, no conjunto Santa Cecília. Prover as três casas consome todo salário de funcionário e de advocacia, ele faz alguns trabalhos para uma empresa. Bernardo vive aperreado de dinheiro, contudo, não deixa da estar sempre com um sorriso nos lábios e um bom astral. Trígamo assumido, conseguiu uma boa convivência entre as famílias, as filhas de Salete ajudam Cristina, mãe da recém-nascida para que ela possa comparecer ao emprego, atendente de um médico amigo do deputado. As coisas iam bem, as três mulheres não complicavam muito a vida do marido repartido.

Por tudo isso, Bernardo resolveu fazer uma só festa no seu aniversário, reunindo, pela primeira vez, as três famílias na casa de Salete. O início do encontro foi formal, depois começaram a descontrair. Bernardo estava felicíssimo com o feito, as três famílias reunidas. Cerveja, cachaça e uísque entornando. Todas três mulheres empurravam direitinho um copo, como também o grande Bernardo. Até que certo momento, quando a cachaça subiu à cabeça, Salete perguntou ao marido;

– Está feliz meu amor? Juntando sua esposa e as duas raparigas?

Marta quando ouviu o desaforo, falou alto: -“Rapariga é a mãe!” A outra mais nova, Cristina, não esperou falar, foi puxando os cabelos de Salete e arrastando pelo chão, xingando de coroa sambada e que Bernardo gostava mesmo era dela, novinha e cheirosa. A briga generalizou-se entre as três. Uma dando tapa e puxão de cabelos nas outras. A briga durou quase uma hora, só acabou quando cansaram. Bernardo conseguiu afastá-las. Levou as outras duas famílias para suas casas. Nunca mais quis saber de juntar as mulheres. Família que bebe unida, nem sempre permanece unida.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEU AMIGO BENEVIDES

Alto de Ipioca

Eu estava na ativa do Exército, servia no 20º Batalhão de Caçadores em Maceió, quando conheci o então soldado Benevides. Baixinho, magro, risonho. Nos tornarmos amigos, ele é do tipo afável, comunicativo, tem prazer em servir aos outros. Num português mais claro, Bené era o maior puxa-saco do quartel. Sabia chaleirar com dignidade.

Ao dar baixa do Exército, pediu-me para arranjar-lhe um emprego. Benevides além de discreto era bom de serviço, cuidadoso motorista.

Certa noite, em uma bela festa de casamento, eu participava de uma roda de uísque entre alguns abastados das Alagoas, quando João Moraes, um conhecido empresário, reclamou a falta de um bom motorista, discreto no trabalho. Aproveitei a ocasião, indiquei o jovem Benevides como confiável motorista, cargo que exerce até hoje com discrição e fidelidade canina.

João Moraes, homem de doces negócios açucareiros, gosta também da cana, de uma aguardente. Para ele nada melhor que um bom uísque acompanhado por belas mulheres. Naquela época ele tinha um time de deixar essas meninas da televisão no chinelo. Bom financista, João fez alguns cálculos, chegou à conclusão que alugar uma casa junto com dois amigos, num local discreto só para receber suas amigas íntimas, saía mais barato, era mais seguro que motel.

Alugaram uma casa, com varandas internas, dando para uma piscina no centro. A casa havia pertencido a um senador das Alagoas, a partir daí ficou conhecida como Casa do Senador. A localização era discreta e maravilhosa, no alto de Ipioca, com uma bonita vista para o mar.

Em algumas sextas-feiras havia “repiau” na Casa do Senador. Os convidados só podiam aparecer com uma garrafa de uísque na mão e uma namorada no braço, para evitar tentação de paquerar mulher alheia. A boa comida era por conta de uma cozinheira baiana contratada pelo empresário, vidrado em caruru, vatapá e acarajé. Foram farras memoráveis, coisa cara, restrita a João Moraes e poucos amigos, a fina flor da burguesia alagoana.

Benevides adaptou-se ao sistema de vida da empresa, muito trabalho, quase sem folga. Quando havia “repiau”, logo cedo, levava Janice, a cozinheira, ao mercado para compra dos ingredientes do Caruru. Fazia seu serviço normal; a partir das 15 horas preparava a Casa do Senador nos mínimos detalhes, gelo, bebida, copos limpos, toalhas nas suítes. Tudo supervisionado por ele. Um mordomo perfeito, servia de garçom na hora precisa. Geralmente as farras terminavam por volta das 22 horas. O patrão e amigos depois da brincadeira retornavam às suas casas. O mordomo ficava para limpar, ajeitar a casa, e distribuía cada menina em sua residência, outras em bares ou ponto de encontros continuando a noitada.

Bené frequentemente me visita. Eu puxo para ele soltar algumas histórias da casa do Senador. Contou-me casos de farras homéricas, me deixando com inveja.

Certa vez, Benevides convidou-me para ser padrinho de seu casamento. Com muita honra entrei na Igreja para ver meu amigo dar o sim à Madalena, bela moça glutona, com 25 anos já havia adquirido 78 quilos. O dócil Bené se encantou com a beleza e brabeza de sua Madá. Já têm 3 filhos, a alegria da casa administrada pela controladora matriarca.

Certo dia meu amigo apareceu-me com um galo na cabeça, um olho roxo. Perguntei se foi um acidente. Ele olhou para os dois lados, certificando que estávamos sós, contou-me o ocorrido, quase cochichando.

– Meu Capitão, sexta-feira passada houve maior farra na Casa do Senador, acabou-se às três da manhã. Como sempre, fui distribuir as raparigas no final de festa. Uma delas trocou a calcinha no carro para continuar a noite, esqueceu, deixou a calcinha usada no banco traseiro. No sábado acordei-me tarde com um tapa na cara da mão forte de Madalena. Ciumenta, braba feito um siri em lata, me dava porrada gritando.

– Sem-vergonha achei uma calcinha no carro, você é um cabra safado, ainda pega o carro do patrão para farrear.

– Apanhei como a peste, mas não disse a verdade, não podia contar o que se passa às sextas-feiras na Casa do Senador, o segredo do patrão.

Assim é meu amigo Benevides, discreto, servil e leal. Qualidades de poucos homens.