CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Semana passada caminhando numa bela manhã de sol pelo calçadão da praia de Jatiúca, fui abraço por trás, era Salomão, estava sério. Andando a meu lado foi desabafando:

– “Tudo pode acontecer com qualquer cidadão do mundo, com qualquer cristão, com qualquer homem de bem”.

Fiquei ouriçado com a confidência espontânea e tempestiva, perguntei o que havia acontecido. Salomão baixou o ritmo da andança e abriu o jogo.

– “O Satanás está solto, provocando! Veja você meu irmão, um homem como eu, crente em Deus, assisto à missa todos os domingos, temente ao castigo divino, caí na tentação do Cão. O Diabo tomou forma de uma morena cor de mel, sorriso cativante, lábios grossos, uma simpatia encantadoramente diabólica. Ângela, minha querida e santa mulher, contratou essa moça para trabalhar em casa. A capeta veste um curto short para suas atividades; normal para ela, para mim, uma tentação. O sangue ferve nas veias ao me deparar com as pernas roliças, perfeitas, daquela mulher. Todo dia Ângela sai para o trabalho, eu fico sozinho em casa na companhia da jovem Severina, esperta, na cozinha prepara um gostoso almoço, ela tem mãos de ouro, mãos encantadas, em tudo que pega, dá vida. Tenho até engordado. A diabinha em forma de mulher percebeu meus olhares cheios de maldades para seu corpo enfeitiçado. Certo manhã, ela entrou no meu gabinete, eu trabalhava em cima de um processo difícil. Severina varria distraída, vestia short de jeans, minúsculo, salientando o maravilhoso traseiro. Acabou-se minha concentração, eu olhava com o rabo do olho para a endiabrada, o sangue esquentava. O Demo conhece bem as fraquezas humanas. Ela se aproximou perguntando se eu era advogado, se tirava preso da cadeia. Foi direta, contou-me que um amigo, um ex-namorado, que tirou sua virgindade (uma provocação, detalhe desnecessário), estava na Detenção São Leonardo porque assaltou um posto de gasolina. No maior dengo, me chamando de patrão, disse que faria tudo, tudo mesmo (outra provocação da diabinha) para soltar o amigo. Eu me contive, a satânica, ao mesmo tempo angelical, chegou-se bem junto, o decote mostrava os seios pequenos e duros. Levantei-me respirando fundo, disse que iria pensar no caso, evitei continuar olhando, estava à beira do pecado. Sai do escritório antes que fizesse uma besteira.

À noite contei à Ângela que iria defender um amigo da empregada, omiti os detalhes da Belzebu que me acendeu uma constante fantasia. No sábado fui com a jovem Severina à cadeia falar com o marginal. Como não houve ferimento e ser primário crime, solicitei habeas-corpus para o preso esperar o julgamento em liberdade. Na volta, quando estávamos passando pelos motéis da Via Expressa, ela se abriu, falou no maior descaramento, notava meus olhares e queria agradecer na cama pelo que fiz por ela. Meu amigo… foi uma tarde maravilhosa de amor. A diaba sabe tudo na cama, me ensinou o caminho do purgatório. Ainda não tive coragem de me confessar, se eu morresse hoje, iria para o inferno! Fico torcendo para chegar logo quinta-feira, dia marcado para desfrutar de minha tinhosa. Em casa me seguro para não agarrá-la, estou encantado com a diabinha. Nunca pensei que um dia poderia ser envolvido pelos caprichos do Demônio. Esse pecado pode acontecer com qualquer cristão, o Cão sabe onde provocar nossas fraquezas”.

Perto de casa nos despedimos, atravessei a rua pensando, avaliando como Lúcifer serve de remissão à imperfeição humana.

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