CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

QUEM É ESSA MULHER?

Desculpem amigos leitores. Escrevi esta crônica quando Vânia completou 70 anos, em 22 agosto de 2018. Prometi a mim, reeditá-la todos os anos, pelo resto da vida até ancorar no porto final; não está tão longe.

Quem é essa mulher que me acorda às seis horas da manhã e me beija com a boca de hortelã? Diz que é para me cuidar e me leva para nadar. Quem é essa mulher que todo dia ela faz tudo sempre igual? Depois do café da manhã sai com suas pastas embaixo do braço direto ao escritório e divide com o genro e a filha o trabalho de clientes em busca de seus direitos. Quem é essa professora que aos 40 anos resolveu enfrentar um vestibular de Direito, formou-se e montou um escritório de advocacia? Quem é essa advogada que passou quase dois anos sem folga, sem sábado e domingo, estudou e passou no concurso de Promotor de Justiça? Quem é essa promotora que deixava sua casa, seu marido e filhos durante a semana para assegurar a Justiça no interior do Estado? Quem é essa mulher que poderia estar desfrutando de uma aposentadoria merecida, porém, reabriu o escritório e trabalha todos os dias? Quem é essa mulher atarefada que arranja tempo para dedicar-se aos filhos crescidos? Quem é essa mulher que trabalha com amor e alegria e possui uma felicidade intrínseca e encantadora? Quem é essa mulher que percebeu dois pequenos coqueiros morrendo na praia, comprou dois pés de coqueiros, ela mesma reimplantou e os coqueiros cresceram viçosos sob sua vigilância? Quem é essa mulher que quando enxerga um lixo acumulado no meio da rua, telefona à Prefeitura para que venham limpar sua cidade. Quem é essa mulher que quando percebe o esgotamento sanitário vazando com a água em dejetos aciona a companhia para que possa consertar o bueiro fétido? Quem é essa mulher que cuidou do pai moribundo com amor e carinho, trouxe-o para sua casa, fez o que pode e o que não pode até o final de seus dias? Quem é essa mulher que leva comida a um cão abandonado no quintal de uma casa e nos dias de sábado dá banho e conforto ao pobre animal? Quem é essa mulher forte que não se deixa pisar? Quem é essa mulher que gosta de bons livros, de bons filmes, teatro, música, show e da cultura popular? Quem é essa sertaneja de Major Isidoro que ama o linguajar matuto de seu povo, das danças, dos coloridos folguedos e folclores? Quem é essa mulher animada que faz o passo atrás de um bloco de frevo nos dias de carnaval? Quem é essa mulher que gosta de viajar perambulando pelo mundo, Cartagena, Praga, Berlim, Nova York, Paraty, Lisboa, ou a amada Penedo? Quem é essa mulher brasileira, cidadã da pátria amada, idolatrada, salve, salve? Quem é essa mulher que nunca deixou de ser professora, ensina aos netos, dá palestras nas Igrejas e nas Festas Literárias do Brasil afora? Quem é essa mulher que move montanhas defendendo seus direitos, como uma loba defende seus filhotes? Quem é essa alegre mulher que ama as colegas de colégio e infância, conserva o carinho de suas amigas em encontros e almoços, aproveitando a fase madura da vida.

Quem é essa mulher que desde menina, gostou dos livros, dos estudos, que teve uma juventude feliz em sua Maceió e até New Jersey? Quem é essa menina que um dia encontrei em flor de seus 15 anos num acampamento de Bandeirantes, e eu tenente, cantei pra ela uma premonição: “Ôh Galeguinha você é tão bonitinha… engraçadinha… vou me casar com você”. Anos depois entramos na Catedral Metropolitana trocando alianças. Essa mulher hoje completa 77 anos e o tempo não desfez sua beleza, continua tão bonita quanto a adolescente galeguinha bandeirante que encontrei um dia, acampada na praia do Pontal.

Sou um ser privilegiado, a única pessoa no mundo a conhecer profundamente a gentileza, a bondade, a perseverança, a força dessa mulher divina, que toda noite me jura eterno amor, não me deixa dizer não, e me beija como dois velhinhos. Essa é minha mulher, minha amada, amante, timoneira do barco de nossas vidas; mas, nem tudo foi um mar de rosa. Vânia aprendeu a remar com o tombo do navio, com o balanço do mar. Navegar foi preciso. Essa mulher segurou forte o leme nos maremotos. Hoje navegamos em calmaria, o barco está chegando, enxergando, ao longe, outros mares, um porto final além do horizonte.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A VINGANÇA

João Pedro cavalgava seu alazão rumo à Fazenda Dois Riachos quando avistou, ao longe, um pequeno carro estacionando no acostamento. Desceu uma mulher olhando para o pneu traseiro murcho. A senhora iniciou uma série de inúteis pontapés no pneu furado. João Pedro parou seu carro, gentilmente a acudiu.

Ela chutava o pneu, e chorava. João Pedro pediu calma, estava ali para ajudar. A distinta respirou fundo, voltando a si como se estivesse em transe.

Ele levantou o carro com o macaco, retirou o pneu furado, colocou o estepe. Enquanto realizava a troca, a madame não deu uma palavra. Agradeceu, pediu desculpas, estava com a cabeça cheia de problemas e com ódio no coração. Que ele perdoasse. Apresentou-se, Fátima.

– Prazer, João Pedro. Minha amiga, o ódio não vale a pena.

– Minha raiva é grande. Vontade de matar. De qualquer maneira, desculpe e muito obrigado. Respondeu a morena com a alma infeliz.

João Pedro logo chegou à fazenda. Almoçou, descansou, deu algumas ordens. Ao entardecer foi dirigindo seu carro branco até a pequena cidade de Dois Riachos, onde a grande jogadora de futebol, Marta, nasceu. Entrou no Restaurante Chapéu de Couro para uma cerveja e ver se encontrava amigos. Percebeu que a senhora do carro, a irada Fátima estava sozinha em uma mesa tomando uísque.

Ao sentar pediu ao garçom uma cerveja, quando sentiu uma pessoa encostar à sua frente. João Pedro levantou a cabeça, era a moça, sorrindo. Perguntou se podia acompanhar, ato contínuo ela sentou-se elegante e iniciaram conversa.

– Pensei no que você falou. É verdade, raiva mata, deixa o coração ferido. E a vida é uma só. Vou tentar superar a bordoada que recebi. Agora conte sua vida. Quem é você? Cavalheiro gentil do cavalo alazão?

João Pedro resumiu sua vida. Era de Maceió, toda sexta-feira ele fiscalizava uma pequena fazenda, fazia pagamento e retornava para a capital no sábado.

Enquanto falava, João Pedro analisou a amiga acidental no restaurante. Devia ter entre 35 a 40 anos, pele bem cuidada, morena. O braço parecia porcelana. Rosto redondo, cabelos pretos, bem tratados. Olhos negros vivos como se estivessem acesos, penetrantes, por cima de um nariz levemente achatado. Exalava sensualidade e mistério. Sentiu que havia um grande problema em sua alma, daí esse rancor. Notou uma marca de aliança na mão esquerda. Seria casada?

Continuaram naquela mesa por mais de duas horas em conversa descontraída, alegre, com o acompanhamento do velho uísque. De repente, Fátima olhou nos olhos de João Pedro, pegou-o pela cabeça, puxou-o, deu-lhe um beijo na boca. Correspondida, ficaram a chupar línguas. De repente ela pediu sorrindo.

– Quero ir pra cama com você, agora! Tem que ser agora, antes que desista, não quero desistir.

Rápido ele pagou a conta. Sem esperar pelo troco saíram. Entraram no carro de João Pedro, partiram para um motel à beira da estrada. Fátima durante o percurso beijava seu pescoço, alisava-o, não se falaram.

Ao entrar no quarto do hotel, ela pediu, “Beije aqui meu amor!” João Pedro obedeceu, fizeram amor até mais tarde.

Depois do êxtase, corpos separados, enquanto ele olhava para o teto, sentiu que Fátima chorava, aumentando o choro. Estava histérica, lamentando-se, pedindo desculpas como se outra pessoa estivesse presente.

– Seu bosta! Você foi o culpado, você me traiu!

João Pedro conseguiu acalmá-la. Fátima contou sua vida.

Era casada, dois filhos já rapazes, morava no Recife. No dia anterior, ao entrar no escritório, flagrou o marido transando com a secretária no tapete. Uma prima, que implorou um emprego. Em casa o marido tentou justificar. Fátima não conseguiu dormir. Pela manhã pegou alguma roupa e partiu no seu carro rumo à casa de uma amiga em Piranhas, sertão de Alagoas. Ninguém sabia onde ela estava. Desligou celular e partiu, com toda raiva, ódio no coração. Estava planejando matá-lo, entretanto, percebeu que não era a solução. No restaurante, bebendo, preferiu outro tipo de vingança. Foi o ódio que impeliu fazer amor com João Pedro. Estava arrependida, com sentimento de culpa, mas a raiva não havia passado.

Ele ouviu com atenção enquanto trocava de roupa, e admirava aquele belo espécime de mulher. Já vestidos, ele abraçou-a, deu um cheiro nos cabelos.

– Agora vá dormir no hotel. Amanhã visite sua amiga, depois volte para sua família, você é uma pessoa especial. Não se sinta culpada pelo que aconteceu. A raiva é uma emoção cruel, muito forte, você agiu impulsionada pelo sentimento de vingança. O que aconteceu foi melhor que matá-lo, tenho certeza. O segredo é nosso, ninguém precisa saber o que houve entre nós. Eu amei essa noite, jamais esquecerei.

Saíram do motel até o carro de Fátima. Ela alisou a cabeça de João Pedro, deu-lhe um beijo na boca. Olhou em seus olhos e cochichou: “Amei lhe conhecer, essa noite marcou minha vida.” Abriu a porta do carro, sem olhar para trás, caminhou lentamente em direção a seu carro. Meia bêbada foi dormir no único hotel da cidade.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DJANIRA, UMA BONITA MULHER

Djanira, moça bonita, 18 anos, por onde passava chamava a atenção. Estudava num colégio do Estado e morava perto da Praça Rayol. Seu primo Luiz, todo domingo, pegava o bonde no Centro para visitar os tios, desfrutar da bela praia da Avenida da Paz, comer a feijoada domingueira e conversar com sua paixão, a prima Djanira. Sua timidez nunca o deixou declarar aquele amor, porém todos sabiam daquela paixão escancarada. Ao chegar à casa dos tios cumprimentava-os formalmente, entregava um mimo à prima que displicentemente colocava o agrado em seu quarto, muitas vezes no lixo, sem que ele visse. Djanira nunca acompanhava o primo à praia, preferia seu grupo de amigos entre os quais havia Bernardo, tenente da Aeronáutica que servia na Base Aérea do Recife e gostava dos fins de semana em Maceió.

Tenente Bernardo e Djanira iniciaram um namoro. Os dois se apaixonaram. No cinema, na praia, nos clubes, era um agarrado escandaloso para época. Bernardo tinha uma moto, a namorada amava abraçá-lo na garupa e disparar em velocidade. Djanira ficou mal falada, ainda não havia acontecido a revolução sexual no mundo, as moças tinham de guardar a virgindade para o casamento. Numa bela tarde, Bernardo levou a namorada para as bandas da deserta praia da Jatiúca, foram tantos os abraços e beijos, que naquela tarde acabou-se a virgindade de Djanira. O tenente Bernardo foi transferido para a Base Aérea de Manaus. Os namorados se escreviam constantemente, o tempo foi passando, a troca de cartas foi esfriando. Depois de quase um ano, Djanira recebeu uma carta em que Bernardo a liberava do namoro, não queria mentir, ele estava com uma namorada em Manaus. Djanira chorou muito para esquecer Bernardo.

Quando Luiz soube do término do namoro, tomou coragem, depois de algumas talagadas de cachaça na casa do tio declarou-se à prima prometendo ser um marido exemplar, tinha sido efetivado na Assembleia Legislativa e um futuro promissor como assessor de deputado. Djanira não quis, achava o primo um babaca.

Djanira começou a namorar um fazendeiro de Anadia. Paulo trabalhava com o pai na fazenda, gostava da boemia de Maceió, chegado às mulheres, apaixonou-se pela beleza e sensualidade de Djanira. Ele bem que tentou avançar com as mãos no corpo da namorada, mas ela falava a seu ouvido, “só depois de casar”. Os pais da moça não gostavam do namorado da filha, quase sempre embriagado. Com seis meses de namoro eles noivaram. Djanira não morria de amores, mas queria casar. O grande problema da virgindade perdida, ela resolveu perto do casamento em uma viagem ao Recife com um cirurgião plástico. O médico deixou alguns pontos, quando houve a penetração sangrou o lençol branco e limpo do Hotel Beiriz. Foram morar numa pequena casa no bairro do Farol, Djanira não gostou da vida de casada. Quase toda noite Paulão chegava embriagado. Certa noite durante uma discussão, o marido deu-lhe um tapa; as surras ficaram frequentes. Djanira calava-se, estava infeliz.

Perto do natal ela teve uma surpresa, avistou o tenente Bernardo descendo à praia, foi um abraço forte. A partir daquele encontro, toda tarde, de moto e capacete, dirigiam-se a um motel. Tardes inesquecíveis de amor.

Acontece que Luiz, o primo apaixonado, descobriu a traição de Djanira, enviou uma carta anônima escrita à máquina. Ao ler a carta Paulão ficou louco queria matá-la, porém teve que se controlar, preferiu pegar a esposa em flagrante. Fim de tarde quando a moto saía do motel, Paulão avançou com um revólver na mão. Bernardo parou a moto, assustado, Djanira desceu. Bernardo aproveitou o momento disparou com a moto. Paulão mandou Djanira entrar no carro. Durante o percurso ele olhava a esposa chorando e cuspia em sua cara. Em casa só repetia uma palavra, puta, puta. Deu-lhe fortes tapas, amarrou-a com uma corda, retornaram ao carro. Djanira chorando só pensava na morte. Ao chegar no bairro boêmio de Jaraguá, Paulão parou o carro embaixo de uma boate, chamou Ana, a proprietária, sua conhecida cafetina, entregou-lhe Djanira amarrada.

– Trouxe mais uma para seu puteiro. Ligou o carro partiu em disparada para sua fazenda.

Foi assim que Djanira tornou-se a prostituta mais bonita e mais procurada na Zona de Jaraguá. Dizem, que anos depois, ainda bonita, abriu uma casa de mulheres em Boa Viagem, a mais famosa do Recife. Os fregueses chamavam de a Rainha Djanira.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O CORNO VOADOR

Navio Lobo Dalmada no Rio Amazonas

No início de 1966, eu era Tenente do Exército Brasileiro, servia no Recife. De repente fui transferido para a fronteira do Amazonas. Não tive como ficar naquela bela cidade que eu amava. Já que tinha de enfrentar a Amazônia, que assim o fosse, resolvi tirar o melhor proveito, conhecendo outras pessoas, outro mundo dentro desse enorme Brasil.

Tomei um transatlântico no Recife em três dias aportei em Belém. De Belém me envaram para Manaus via fluvial, embarquei no navio Lobo Dalmada singrando o Rio Amazonas. Foi uma experiência exuberante que ficou gravada em minha mente e coração. Tive uma feliz surpresa, encontrei o então Tenente Bosco embarcando para o mesmo destino no mesmo navio.

Foram cinco dias surpreendentes belezas de Belém a Manaus, curtindo a selva exuberante, subindo o Rio Amazonas. Paramos nos portos de Óbidos, Santarém, Parintins e outras pequenas cidades encravadas na selva.

Duas bonitas jovens americanas eram companheiras de viagem, estavam no camarote ao lado. Bosco com seu inglês e portunhol, entrosou-se com as sobrinhas do Tio Sam. O plano era, ele com uma e eu com a outra durante a viagem. Quando Bosco investiu na americana mais bonita, a outra percebeu e falou grosso. Eram namoradas. Assim acabou-se a fugaz paquera internacional pelo Rio Amazonas.

A 9ª Companhia de Fronteira em Roraima estava sem comando e precisando de oficiais. Eu e Bosco fomos designados e partimos juntos para cidade de Boa Vista num DC-3 da FAB. Eu assumi o comando do 9º Pelotão de Fronteiras, tendo o Tenente Bosco de subcomandante. Foi um trabalho maravilhoso, onde me senti útil ao país. Um soldado de fronteira se torna um defensor da nação com muito orgulho. Conheci toda a fronteira com a Venezuela e Guiana Inglesa que estava sob nossa responsabilidade. Um trabalho extraordinário. Para me capacitar enfrentei o curso de Guerra na Selva em Manaus, um dos mais difíceis no mundo.

Acontece que nem eu, nem o Bosco estávamos ali apenas para defender o Brasil. Como ninguém é de ferro, a carne é fraca e o mulherio amazonense muito assanhado, logo nos dedicamos à caça ao mulherio que nos receberam de braços e pernas abertos. Tenente Bosco foi um dedicado caçador de mulheres. Fazia isso como ocupação profissional paralela.

O inquieto Tenente Bosco só pensava em mulheres, não tinha namorada fixa, o que caísse na rede era peixe. Terminava o expediente à tardinha, ele saía na sua lambreta, pegava alguma das namoradas disponível e levava para um cantinho escuro à margem do Rio Branco. Apelidaram esse cantinho de Beco do Tenente Bosco. Eu soube que em Boa Vista ainda existe esse beco com placa e tudo.

Certa vez, Bosco cometeu a imprudência de namorar uma mulher casada, esposa de um alto funcionário da República que mandava no Território de Roraima (ainda não era Estado). A bela mulher era nova, o marido já passava dos setenta anos. Eu aconselhei ao Bosco sair dessa aventura. Ele me tranquilizou, o corno era manso. O grandola viajava para Brasília toda terça-feira no próprio avião. Na sexta-feira ele retornava pela tarde, dando rasante por cima de sua casa. Os linguarudos da cidade mexericavam. Insinuavam que aqueles rasantes eram avisos para dar tempo do Tenente Bosco sair da casa sem atropelos. A bela mulher, ao ouvir o ronco do motor do avião, dizia com carinho para o Bosco.

– Até terça-feira meu amor, que pena. O corno voador chegou.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AMBULANTE DA JATIÚCA

Praia da Jatiúca

Foi na época do milagre brasileiro, início dos anos 70, o Brasil vivia numa ditadura, em compensação houve uma época de emprego e facilidade de crédito. Pensando em uma vida melhor, Nestor saiu da pequena cidade de Flexeiras com a mulher, duas filhas menores. Arranjou um emprego de vigia, conseguiu alugar uma casinha no bairro do Jacintinho, montou uma barraca de verdura para a mulher e as filhas trabalharem. As meninas não estudaram como queria Dona Imaculada. Maria do Carmo e Maria do Socorro começaram a trabalhar desde criança.

Carminha, mais velha ao completar 16 anos tornou-se uma mulher encantadora, deixava os homens ouriçados com seu rosto bonito, redondo, corpo apetitoso, atraente. Sua alegria inerente dava-lhe notória popularidade. Todo Jacintinho conhecia aquela jovem sapeca, alegre, feliz e bonita. Os homens lhe assediavam, cantadas muitas, ela sempre se desvencilhava, Às vezes um pequeno namorico para passar o tempo e tirar um sarro. Até que um dia apareceu Igor, rapaz simpático, jogador de futebol, tocador de violão e tomador de cachaça, filho de um borracheiro comunista, ele não se interessava por política, nem se incomodava com a injustiça social, só queria saber de gandaia e carnaval. Era cantor nas Rodas de Samba.

Preparava-se o ano inteiro para os quatro dias de folia e alegria do carnaval. Amava todas as mulheres do mundo, tinha as jovens como diversão, nunca havia se enrabichado, até que conheceu a bonita, sapeca Carminha. Foi enorme a atração entre os dois, acertaram namoro. Ele pensava e desejava a namorada o tempo inteiro, ela só queria saber de Igor. Nos primeiros meses foi difícil segurar a virgindade. Durante o carnaval, depois do desfile das Escolas de Samba na Rua do Comércio, foram tomar um resto de cachaça à beira-mar no fim da noite. Aconteceu o que estava previsto, a virgindade de Carminha foi embora com quentes carinhos na praia da Avenida da Paz. Deixou a areia branca marcada de vermelho sangue

Meses depois apareceu a gravidez. O casamento aconteceu na Igreja do Jacintinho com as duas famílias reunidas. O genro passou a morar com os sogros até encontrar emprego. Certo dia um vereador deu-lhe um cargo comissionado, dinheiro curto. Igor frequentava a boemia com o vereador, outro tremendo raparigueiro. Até que um dia a filha nasceu, foi uma alegria, maior felicidade ver aquela menina rechonchuda, chorando e sorrindo.

Na eleição seguinte o vereador perdeu o mandato, Igor perdeu a boquinha do emprego. Danou-se a beber em casa, nas bodegas, entrou no jogo, ficou devendo a Deus e ao mundo. Briga constante com a mulher. A única alegria da família era a criança de dois anos, sapeca que nem a mãe. Mesmo com a trágica situação do marido, Carminha continuou uma mulher alegre, só não aceitava sua vadiagem.

Certo dia Igor desapareceu, todos pensavam que estava na zona, dessa vez ele tomou um ônibus, foi tentar a vida em São Paulo. Dois meses depois mandou notícias estava empregado. Naquela terra para sobreviver tinha que trabalhar. No final da carta confessou suas intenções, quando estivesse bem de vida mandava buscar a família. Foi sua única e última carta, nunca mais ninguém ouviu falar em Igor.

Carminha conseguiu um emprego, faxina e servir cafezinho numa empresa. O patrão agradou-se de seu astral e de suas curvas. Num final de expediente tentou agarrá-la, pensava ser fácil, levou uma cafeteira nos cornos, ficou o galo. Desempregada encontrou-se com o ex-vereador, conseguiu um ponto de ambulante na praia da Jatiúca. Foi sua felicidade, há mais de 20 anos ela vive da venda de cerveja, tira-gosto e aluguel de cadeira. Os turistas adoram seu ponto. Com seu ganho educou a bonita filha que trabalha em uma grande empresa. Namorado, Carminha teve muitos, casar nunca. Todo dia monta sua parafernália logo cedo, as mesas estão sempre limpas e floridas. Varre e limpa constantemente além de sua área de trabalho na praia. Ela tem um ar de quem é feliz, quarentona, vive de biquíni, ainda causa furor nos olhares e desejos dos homens. Carminha mulher de fibra, honesta, irradia alegria onde estiver, é uma vivente de nossa bela Maceió.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ULLA

Um homem tem várias fases na vida que incorporam à sua personagem como ser humano. Minha infância e juventude, livres, leves e soltas nas praias de Maceió. Minha formação oriunda do Colégio Diocesano, da Academia Militar das Agulhas Negras, da Faculdade de Engenharia, da boemia, do convívio social, me deram régua e compasso na vida. Sou um ser complexo de todas as épocas que vivi. Agora me afloram as letras e a fertilidade da imaginação. Acabei de escrever meu oitavo romance, inspirado numa morena bonita de olhos verdes, ULLA, filha de uma negra e um holandês. Charmosa, sensual, os homens a desejavam, era a fantasia dos maloqueiros da praia da Avenida da Paz. Não sei por onde ela vive. Num ímpeto de imaginação criei minha, ULLA, nada a ver com a que eu conheci nos bares do bairro do Poço e Jaraguá. Peço permissão aos leitores para transcrever um ensaio sobre o romance, do escritor, Luiz Cláudio Castello Branco.

“Ambientado na Maceió dos anos de 1950, “Ulla”, novo romance do escritor Carlito Lima, narra a história de uma linda jovem, de mãe negra e pai holandês, que vem com a família residir em Maceió, após uma fatalidade ocorrida no município alagoano de Palmeira dos Índios. O lançamento ocorre na sexta-feira (18), das 17h às 21h, na Casa da Macaxeira, localizada na Praça 13 de Maio, no bairro de Poço. A praça é palco da vida da protagonista e berço de suas lembranças.

Carlito Lima é, por excelência, um contador de histórias. Seus personagens e cenários, reais e fictícios, contextualizam o tempo e o espaço, atravessando aspectos de miscigenação e cultura, resgatando momentos importantes de história, geografia, urbanidade e política, em lembranças de fatos marcantes, envoltos no tema central do romance.

Em “Ulla”, encontramos a descendência holandesa, dos fugitivos da Guerra dos Guararapes, junto às origens negras dos quilombos alagoanos e à presença húngara, de um capitão revolucionário democrata. Narrado do agreste de Alagoas ao litoral do estado, em Maceió, passando pelo Rio de Janeiro, a história de Ulla atravessa o Atlântico e chega à Europa.

Os lugares se mesclam à narrativa romântica da obra, contada por meio das experiências de vida de Ulla, que encarna a coragem da mulher, consciente de seu poder feminino e de seu papel familiar. Livre de arrogância e vitimismo, Ulla guarda em si o segredo da beleza, que encanta os homens, os quais reconhecem nela autenticidade, inteligência, força e fidelidade à si mesma e às suas convicções. Na obra, uma praça se torna elemento de contestação, de uma grande perda para a população de Maceió. A indignação é clara quando o Sesc-Poço, construído em 1957, ocupa o espaço da Praça 13 de Maio e destrói a área verde, que pertencia ao povo.

“Como deixaram construir a sede do Sesc em cima de nossa praça? Que absurdo é esse? Ninguém reclamou? Acabaram com a praça da minha vida! Como nossa comunidade deixou fazer isso? Quem deixou derrubar nossa mangueira? E a roda de samba?”, questiona Ulla, mostrando a sua coragem.”

OBS – Aos que não puderem comparecer ao lançamento e queiram adquirir o romance ULLA, podem pedir pelo celular-WhatsApp: 82.99690.9964, que o livro será entregue em sua casa, por portador ou pelos Correios.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

VOO SOBRE O MAR

O fato aconteceu na praia da Avenida da Paz. Apareceu em Maceió um português fazendo demonstrações aéreas com um avião teco-teco sobre o mar. Seu proprietário fazia apresentações em todas as cidades que passava, vivia desse biscate.

O avião de nome Garoto decolava e pousava na praia da Avenida durante a maré baixa num local mais deserto. Suas apresentações eram piruetas, parafusos, folhas secas e outras acrobacias sobre o mar azul esmeralda.

Como não podia cobrar dos expectadores que ficavam na praia observando, ele cobrava de quem se arriscava a dar uma voada com ele durante suas peripécias aéreas. Um de cada vez porque só havia um lugar além do piloto. Cada voo de cinco minutos, o português cobrava cem reais.

Numa tarde bonita e ensolarada de verão, o português fazia magníficas exibições nos céus da praia da Avenida. O povo assistindo o espetáculo vibrava com o arrojo do piloto, uma maravilha de exibição.

Entre os candidatos ao voo surgiu Seu Portela, figura altamente conhecida na cidade, onde tinha uma loja no centro, na Rua do Comércio.

Eram aproximadamente quatro da tarde quando chegou sua vez. O português colocou Seu Portela na poltrona, prendeu-o com o cinto de segurança, deu-lhe todas as recomendações e assumiu o comando do Garoto.

Taxiou pela beira da praia de areia dura e extensa, tomou velocidade e decolou em direção ao mar. Rapidamente atingiu a altitude necessária e iniciou as acrobacias aéreas.

Não demorou muito. Após um arrojado “looping”, deu sinal que estava retornando à praia. Os inúmeros expectadores acharam estranho. Por que em tão pouco tempo o avião retornava ao solo? Seria alguma complicação mecânica? Alguma pane? Estava a perigo? Eram as perguntas que faziam entre eles. Formou-se maior expectativa.

O avião pousou abruptamente e de repente o piloto desembarcou, deixando seu Portela na aeronave.

O lusitano gritava em direção ao povaréu apreensivo que estava plantado na Avenida, perguntava se alguém dispunha de uma capa para emprestar-lhe, pois havia uma situação de emergência.

Quem teria, numa tarde maceioense ensolarada de verão, na beira da praia, uma capa para emprestar a quem quer que seja?

Com a resposta negativa, o português buscou uma alternativa e conseguiu com um pescador que morava em uma casa de taipa e palha ali próxima, um pedaço de pano, ou melhor, uma rota vela de jangada.

Com o trapo na mão o piloto retornou correndo à aeronave, ajudou o seu Portela a desembarcar e envolveu-o com o velho molambo, levando-o para um local onde conseguiu meios para que o levassem rapidamente para sua residência. Nessa altura a moçada perguntava o que teria ocorrido.

Acontece que por onde seu Portela passou, entre o avião até a Avenida, deixou um rastro líquido e escuro na areia branca da praia, juntamente com uma catinga, com o fedor de merda, insuportável para quem estava mais próximo.

Sem esconder, o nobre piloto português contou a história: Assim que levantaram voo, o seu Portela num grito pediu para descer. Como o piloto já estava preparado para o “looping”, não atendeu aos pedidos e deu aquelas voltas com o teco-teco se curvando no ar, enquanto o acompanhante gritava de medo. Só depois de o português ouvir seu Portela gritar que estava todo cagado, ele resolveu aterrissar.

Foi uma gargalhada geral, os comentários e as galhofas espalharam-se entre as pessoas presentes que estavam assistindo ao espetáculo e assim foi se espalhando na Rua do Comércio, em Jaraguá, no Farol, na Ponta Grossa. À noite Maceió todo já sabia da cagada do seu Portela no avião.

Por vários dias que se seguiram o comentário era o mesmo, nas escolas, nos bares, nos lares, na zona, nas barbearias, o assunto era a aventura de seu Portela no voo do Garoto.

Os estudantes assumiram a chacota, passavam em frente da lojinha de seu Portela na Rua do Comércio, se divertiam cantando uma modinha que um jovem compôs em alusão a desventura aérea do comerciante.

“Marchinha do seu Portela”
Eu fui alegre
Passear de avião
Para mostrar
Que sou cabra valentão
Mas vejam só,
Que eu não posso andar voando
He He…………
Estou me cagando, estou me cagando.
Portela não seja frouxo,
Não coma mais sururu
Quando subir no Garoto
Arroche as pregas do……..”bolso”.

Seu Portela tinha bom humor e levou também na gozação. Se importasse com o acontecido, até hoje, o povo estaria gozando o seu inesquecível e histórico voo sobre o mar.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

LABORÁTÓRIO

Péricles é professor talentoso, dedica sua vida ao magistério, ensina em colégios e faculdades. Seus sessenta e alguns anos, raros cabelos brancos, dão-lhe um ar respeitável, como gosta de sê-lo.

Durante o tempo de professor, Péricles jamais aceitou as prevaricações descaradas iguais às dos colegas, é crítico às aventuras de professor com alunas.

Mas, o demônio surge sem percebermos, sem desconfiarmos de que forma, muitas vezes ele aparece travestido de mulher bonita, sabe das fraquezas humanas. Certa vez o satanás incorporou-se em Helena, aluna bonita, cabelos pretos, longos, olhos grandes, amendoados, sobrancelhas cerradas, pele macia, uma perdição.

Final do ano passado, perto da formatura da turma, Péricles notou estranho comportamento de Helena, todo final de aula passava a tirar dúvidas com o professor. Péricles se prontificava, entretanto, sentia-se constrangido com a proximidade daquela aluna. Ele ficava excitado quando ela se achegava mais perto vestindo saia curta, exibindo as pernas, uma borboleta colorida tatuada nas costas. Aquela tatuagem deixava Péricles quase afônico, gaguejava nas explicações. O diabinho percebeu a fraqueza do professor, resolveu diariamente sentar-se na primeira fila. Durante a aula, Helena, descuidada, abria as pernas com classe e sensualidade. Péricles percebeu, ela mostrava a calcinha apenas para ele.

A aluna não saía de sua cabeça, sonhava com as pernas, a calcinha branca e a tatuagem.

Certa manhã, após as aulas, a jovem pediu para tirar uma dúvida. O professor esperou os alunos saírem, sentaram-se, ele foi um pouco ríspido.

– Helena, você sempre foi uma moça comportada, discreta; de um tempo para cá tenho notado mudança em seu comportamento, principalmente seus vestidos, suas saias curtas, suas calças justas. Quero pedir dois favores: que assista às minhas aulas mais composta e que se sente nas últimas bancas.

Falou rápido com certo nervosismo esperando alguma resposta da aluna. Contudo, ficou sem ação, nocauteado, ao ver Helena levantar-se, caminhar até a porta da sala, trancá-la com chave, retornar sorrindo, abrindo o zíper da calça jeans, deixou-a cair. Péricles não resistiu quando a moça o abraçou, deitaram-se por trás do birô. Fizeram amor, ali na sacro santa sala de aulas.

Ao terminar ele sentiu-se culpado, vexado. A aluna cochichou em seu ouvido.

– Quero mais amanhã, você não trabalha à tarde, lhe espero na praia da Jatiúca, estarei discretamente perto da escultura do poeta Lêdo Ivo, às quatro horas.

Ele emudeceu olhando Helena se afastar, abrir a porta, e desaparecer. O comportado professor passou o resto do dia e a noite pensando naquele pecado. Quando o diabo atenta, difícil enjeitar. Na tarde seguinte, perto da escultura, estava Helena, mais bela que nunca. Levou-a ao motel, ficou louco com as invencionices da aluna na cama.

Todos os dias achavam uma maneira de se amarem no motel. Até que numa manhã de segunda-feira, depois de dois meses de amor ininterrupto, Péricles ficou surpreso, Helena, com roupa composta, entrou na sala, mal cumprimentou o professor. Assim continuou até o final do curso. Evitava falar com o professor.

Em momento propício, Péricles tomou coragem, pediu um particular, perguntou o motivo daquele distanciamento, ele estava louco de paixão, querendo amor. Ela respondeu com tranquilidade, sem algum remorso:

– Não me leve a mal, professor, eu desejava experimentar o amor de um coroa bonito como o senhor. Gostei e ponto final. Vou me casar em fevereiro, precisava dessa experiência, foi um laboratório. Meu futuro marido é mais jovem, me disse que é virgem. Eu precisava de uma experiência descompromissada. Acho que escolhi bem, agradeço ao senhor, desculpe eu fazê-lo de laboratório. Seus dedos, suas mãos, seus lábios, marcaram todo meu corpo, momentos deliciosos, entretanto, pretendo ser fiel a meu marido, não vou repetir. Obrigada por tudo, professor, o senhor foi maravilhoso.

No dia da formatura Péricles recebeu um formal aperto de mão e um piscar de olho maroto de Helena, cumplicidade de dois meses de amor, dois meses de experiência, dois meses de laboratório, dois meses inesquecíveis.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A TOALHINHA

Diógenes foi o primeiro a chegar, há mais de cinco anos não via o amigo Lula, tomou uma mesa ao ar livre, na época o Bar Veleiro era o mais frequentado da juventude no Recife. Uma brisa suave deu-lhe sensação de bem estar, pediu chope ao garçom, naquele momento apareceu Lula, braços abertos, sorrindo, afinal amigo de infância é para toda vida. Sentaram olhando um para o outro, curtindo o momento, brindaram à velha amizade com taças de chope. Diógenes iniciou a longa conversa da noitada.

– E aí, onde vai assistir amanhã a final Brasil x Itália? Acho que vai dar Brasil, esse bendito ano de 1970 está sendo generoso comigo. Casei com Carolina, sempre foi o amor de minha vida, depois de tantos desencontros nos juntamos para valer, está grávida. Para aumentar a felicidade estou na maior torcida, ver o Brasil tricampeão. De manhã cedinho retorno a Maceió, vou assistir ao jogo com Carolina, meus pais e irmãos.

– Tenho certeza da vitória, será 4 x 0 ou 4 x1. O Brasil não perde essa nem que a vaca tussa. Eu soube de seu casamento com Carolina, a paixão de sua juventude, de sua vida, pois eu também tinha uma grande paixão, hoje estou curado posso contar.

– Lulinha, pelo que me consta você nunca foi chegado a uma mulher.

– Pois fique sabendo de meu segredo, minha grande paixão era você.

Disse Lula às gargalhadas enquanto tomava um gole de chope e colocou dobrada uma toalhinha vermelha em cima da mesa. Continuou a conversa.

– Meu amigo, desde menino já sabia, eu era homossexual, entretanto, só me revelei quando servi ao Exército, ao ver aqueles jovens colegas, soldados, nus durante o banho coletivo, me dava uma comichão. Até que dia, por trás do alojamento dei a um colega, fiquei com ele no quartel várias vezes; descobriram. O Comandante mandou me expulsar. Um Sargento quebrou o galho, deu a ideia, consegui um atestado, doença hepática. Dei baixa do Exército como incapaz para o serviço ativo, não fui expulso como homossexual. Seria horrível para meu pai.

Fui trabalhar na loja de meu pai, me apaixonei por um caixeiro viajante, vendia relógio, eu assinei um pedido enorme, a loja ficou com estoque de relógio para mais de cinco anos. Bastou para papai arranjar um emprego nos Correios com um senador e vim trabalhar no Recife de carteiro, ando feito a bexiga lixa, entregando cartas.

– E essa toalhinha bonitinha que você dobrou na mesa, serve para quê?

– Essa toalhinha tem história. Iniciou ao descobrir um cinema de filme pornô, Cine Aurora, frequentado por bichas iguais a mim, vão ao cinema em busca de aventuras, sentam-se junto a algum rapaz, se der chance ali no escurinho do cinema fazem o que pode. No primeiro dia, no final da peripécia senti a precisão de uma lavagem mínima. Dia seguinte levei uma toalhinha, foi sucesso, a moda pegou. Hoje todo gay de escurinho do cinema tem toalhinha, eu fui o inventor.

Os dois amigos deram uma gargalhada, beberam, tomaram um porre até altas horas, lembraram muitas histórias, cheios de saudades.

Nos anos 80, Lula pegou uma terrível AIDS, foi fulminante, morreu. Diógenes foi ao enterro do amigo Lula no Recife, seu rosto lívido parecia dar uma leve risada. Em suas mãos cruzadas, algum amigo colocou um carinho, uma toalhinha, a toalhinha do Cine Aurora.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A GUERRA DA ORLA

Há alguns anos em Maceió, houve uma grande disputa, verdadeira guerra devido à ocupação da orla em frente aos hotéis da Pajuçara.

As jovens de programa (hoje chamam de JOB) tomaram conta do calçadão em frente aos hotéis da belíssima praia de Pajuçara, fazendo a alegria de turistas e nativos. O ponto era tão bom que os travestis invadiram uma fatia da calçada, dividindo o espaço com as prostitutas. Foi a gota d’água para que os hoteleiros da orla tentassem proibir o “trottoir” em frente a seus estabelecimentos, alegando que a indecência provocava o afastando turistas. As mariposas do amor rebateram com propriedade, os turistas achavam ótimo ter as jovens perto, às suas mãos; o que afastavam turistas eram travestis, a invasão bárbara dessas bichas invadindo seus pontos de faturamento. Alegou uma líder.

Os travestis contestaram, alegando terem os mesmos direitos das prostitutas. Aliás, se diziam também mulheres, assim exigiam serem tratados. Por conta do desentendimento foi deflagrada a “Guerra da Orla.” Geralmente uma guerra divide duas partes, a “Guerra da Orla” dividiu três partes antagônicas, brigando entre si: prostitutas, travestis e hoteleiros.

Toda noite havia confusão entre as raparigas e os travestis, os hoteleiros chamavam a polícia. Tapas entre raparigas e travecos. Os jornais fizeram matéria e alarde sobre a guerra noturna nas calçadas da Pajuçara.

Jaciara, líder dos travestis, parecia ser mulher, nariz afilado, lábios carnudos, saia justa escondendo a identidade sexual, foi queixar-se no PROCOM e no Departamento de Direitos Humanos, procurando o direito dos travestis trabalharem na orla. A guerra caminhava para consequências graves.

Depois de ouvir os lados, a autoridade competente convocou uma reunião entre as partes conflitantes, o interesse maior era o restabelecimento da paz.

A reunião da Comissão de Paz foi realizada na Secretaria de Segurança, com a participação da Polícia Militar, OAB, Direitos Humanos, Câmara de Vereadores, Prefeitura, hoteleiros, e uma comissão das quengas e outra dos travestis.

Reunião iniciada, palavra aberta aos presentes, cada representante deu sua versão. O que mais incomodava às prostitutas era a ocupação de seus pontos pelos travecos, eles (ou elas) se achavam com direitos iguais às mulheres. Os hoteleiros exigiam todas as tribos longe de seus hotéis. Depois de mais de três horas de debates, fala de advogados, pedidos de políticos, muita pressão de simpatizantes, ficou determinada uma divisão de área, um loteamento para o trottoir noturno.

Daquele dia em diante os travestis ocupariam seus pontos na Avenida da Paz, as prostitutas permaneceriam na Pajuçara, no início do calçadão perto do estacionamento que serve à noite para namoro, até economizando pagamento de motel.

Houve reação dos travestis, exigiram a construção de um estacionamento na Avenida da Paz destinado ao amor igual ao da praia da Pajuçara. Jaciara, líder dos travestis, em seu discurso final aceitou as determinações do Conselho de Paz, entretanto, fez uma reivindicação.

“- Como é para o bem de todas, pela paz, nós ficaremos na Avenida da Paz. Pedimos apenas que a Prefeitura de Maceió mande construir um estacionamento no calçadão da Avenida da Paz. Nem todos podem pagar motel. Faz-se necessário esse equipamento urbano, a construção de um local de trabalho, queremos apenas um estacionamento para namorar na Avenida igual ao da Pajuçara.” Finalizou o traveco.

Embora não tenha sido atendida a reivindicação dos travestis, as partes têm obedecido às cotas dos locais determinados.

Recentemente as meninas do trottoir nas imediações do CRB procuraram um conhecido vereador solicitando que coloquem interruptores para apagar algumas lâmpadas nos arredores do estacionamento, pois na belíssima reurbanização da orla da Pajuçara, as noites foram contempladas com um banho de iluminação, inclusive no estacionamento, local de trabalho das mariposas, como bem definiu Jaciara. Essa iluminação vem atrapalhando os serviços prestados pelas jovens, os clientes têm acanhamento ou receio de serem identificados.

Como o pedido da colocação do interruptores não foi atendido, quatro lâmpadas modernas foram foram quebradas por pedras anônimas.