CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CHOVE CHUVA, CHOVE SEM PARAR

Jucá acertou o pagamento da pousada em Penedo, Seu Jurandir, o proprietário, pediu-lhe um favor: Levar de carona à Maceió, Rosinha, sua jovem sobrinha. Gentil, ele disse que seria um prazer, embora gostasse de dirigir solitário nas estradas. Partiram pelas quatro da tarde. A jovem acomodou-se a seu lado no banco da frente, não o cumprimentou. Ligou seu telefone de ouvido curtindo músicas de adolescente, viajou sem tirar o aparelho do ouvido numa pose de quem estava fazendo um favor ter sua companhia. Jucá sentiu um desconforto com o comportamento pedante da jovem. Rosinha era graciosa como qualquer jovem. Corpo bem formado, pele rosada contrastava sob a blusa de malha branca, desenhada com motivos modernos, cobrindo os seios abundantes. Seu rosto suave, cabelos castanhos, uma bela jovem, pena ser tão soberba, pensou Jucá, enquanto analisava a sua companhia acidental.

A viagem transcorreu monótona, sem diálogo, a moça só ouvia música e gesticulava como se estivesse dançando. Certo momento, Rosinha retirou os fones do ouvido e sem pedir licença, ligou o rádio do carro, procurou um som pauleira, ficou a ouvir, calada. Jucá tentou conversar alguma coisa, desistiu diante do mutismo da jovem. Com hora e meia de viagem bateu uma chuva grossa persistente. Jucá parou num posto de combustível para abastecer e lanchar. Depois do lanche, pela primeira vez Rosinha falou.

– Deixe, que a minha conta eu pago. Faço questão de não lhe dar despesas.

Jucá respondeu brincando, pagando a conta.

– Na próxima você paga.

Depois de dirigir mais 15 minutos ainda sob um intenso temporal, encontrou uma fila de carros parados. Jucá perguntou a um guarda rodoviário o que havia acontecido, ele respondeu que o aterro da cabeça de uma pequena ponte estava com problemas devido à enxurrada da chuva, o D.E.R. havia proibido a passagem pela ponte. Estava perigoso enfrentar um desvio até Maceió àquela hora, escurecia. O patrulheiro aconselhou a dormir em Coruripe e continuar a viagem no outro dia pela manhã, quando a ponte estivesse liberada. Jucá perguntou a opinião de Rosinha. Ela fez um gesto com os ombros, como se dissesse tanto faz. Ele precavido voltou até o posto. Recomendaram uma pousada em Coruripe.

Acertou na portaria, pediu dois quartos. A chuva não parava, marcou com Rosinha para jantarem na pousada às 19:30 horas. Quando Jucá desceu na hora combinada, Rosinha subia as escadas, já havia jantado, sem sequer dar um boa-noite. Ele não entendia aquela grossura. Jantou, recolheu-se ao quarto. Deitou-se de pijaminha bermuda esperando o sono. Relâmpagos cortavam o ar e trovões ribombavam incessantemente, custou a dormir. Ainda não era meia-noite quando foi despertado por fortes batidas na porta de seu quarto, a voz aflita de Rosinha pedia, desesperada.

– Por favor, abra aqui. Abra a porta!

Jucá deixou a cama num salto, abriu a porta, Rosinha entrou correndo, enrolada no cobertor, deitando-se na cama, confessou com voz trêmula morrer de medo de trovão. Jucá surpreso e fascinado pelo encanto da moça, agora falando humildemente, buscou confortá-la, mandou que ela dormisse à vontade; ele dormiria na outra cama. Foi surpresa e emoção para o coroa, quando ela puxou-o pelo braço pedindo.

– Vem para perto de mim cara!

Ela levantou o lençol, estava nua. Ao mesmo tempo em que o abraçou. Rosinha, tremendo de medo, levantou o rosto, beijou voluptuosamente Jucá na boca, como se pedisse socorro.

A noite longa transcorreu com mais chuva, muitos trovões e muitos ais de amor. A louca ninfeta sabia tudo do amor, perfeita nos carinhos e na hora certa.

Dia seguinte, quando Jucá acordou, Rosinha não estava na cama. Olhou para o céu pela janela, o tempo havia melhorado, quase estiado. Tomou banho, arrumou a mala e desceu para o café da manhã e continuar a viagem até Maceió. Rosinha estava pronta sentada numa poltrona com a mala, esperando a partida.

Entraram no carro, a jovem tomou a mesma posição, calada como se nada tivesse acontecido. Não cumprimentou o companheiro de amor da noite de raios e trovões. Durante a viagem, quando tirou o fone do ouvido, e ligou o rádio, ela sorriu pela primeira vez, ficou às gargalhadas, coincidência ou não, no rádio Jorge Bem cantava:

“ -Chove chuva, chove sem parar… Pois eu vou fazer uma prece
 Pra Deus, nosso Senhor… Pra chuva parar… De molhar o meu divino amor”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

OS NETOS DE PEDRO ERNESTO

Em 17 de junho de 1962 o Brasil tornou-se Bicampeão Mundial de Futebol derrotando a Tchecoslováquia por 3 x 1 no Chile. Nesse mesmo dia, nasceu o primeiro filho homem de Pedro Ernesto. O comerciante tomou um porre homérico e deu-lhe o nome de Amarildo, homenageando o grande jogador da Copa 1962. Afinal nasceu um homem, depois de duas meninas. Amarildo foi crescendo e deu preocupação ao pai, era um menino diferente. Não gostava de futebol, nem das brincadeiras de meninos na Praça do Centenário, onde moravam numa bela casa. Pedro Ernesto proprietário de dois supermercados, trabalhador, dava conforto e educação para a família. Mas, tinha um desgosto, Amarildo não gostar de futebol e de outras brincadeiras masculinas.

Na verdade Pedro Ernesto tinha um pavor que o filho fosse “viado”, ficava triste com essa possibilidade. Adolescente, Amarildo andava de bicicleta pelas ruas do Farol com os amigos, contudo, era um rapaz bem comportado, falava pouco, não se gabava de namoradas e mulheres. Até que um dia Pedro Ernesto chegou em casa depois do trabalho e encontrou Laurinha, sua esposa, chorando. Quando ela contou que havia flagrado Luzia, a empregada, transando no quartinho dos fundos com seu jovem filho, Amarildo, Pedro Ernesto deu um pulo de alegria, disse para mulher que deixasse de besteira e foi comemorar com amigos no botequim da esquina, ganhou alma nova. O fantasma da “viadagem” do filho que o atormentava há anos, desapareceu

Amarildo cresceu, sem fazer alarde era um “come quieto”. Não tinha namoradinha, gostava era de perambular, conquistando as jovens empregadinhas que vinham do interior atrás de melhorar de vida.

Ainda era estudante na Faculdade de Economia quando foi ajudar seu pai na administração dos Supermercados. Tornou-se um excelente comerciante. Pedro Ernesto tinha maior orgulho do filho. Certo dia, Amarildo encontrou-se com Fátima, uma colega da Faculdade, saiu com a amiga algumas vezes, até que veio a notícia, ela estava grávida. Fátima era divorciada com um filho, não quis casar. Nasceu o Amarildinho, Pedro Ernesto ficou orgulhoso com o primeiro neto. Amarildo fazia visitas esporádicas ao filho, aproveitava dormia com a amiga, sempre discreto, aquilo só interessava a ele.

Até que conheceu Elizabeth, bela jovem, estagiária no escritório do advogado da empresa. Com um ano de namoro e muita paixão, ela engravidou. Elizabeth outra mãe solteira, mas com toda assistência financeira e sexual do pai. Maior orgulho de Pedro Ernesto era falar de seus dois netos. Ele gostava também de se gabar que havia ganho dinheiro à custa de seu trabalho honesto, nunca havia feito negociatas com políticos e cofres públicos. Amarildo solteirão, continuou com dois vícios: correr pela manhã e, vez em quando, sair com uma jovem, era um irresistível mulherengo, sem alarde, discreto.

Quando o Pedro Ernesto completou 80 anos, Dona Laurinha preparou uma festa com a família e amigos mais íntimos. Dona Laurinha quis fazer uma surpresa e conseguiu levar todos os netos para o aniversário. A família homenageou Pedro Ernesto. Estavam reunidos quatro filhos de Amarildo. Pedro Ernesto com maior orgulho dos netos. Fátima apareceu acompanhada do filho, Amarildinho, e uma jovem em vestido simplório. Quando Pedro Ernesto fez um discurso à família, falou do orgulho que tinha dos quatro netos.

Foi quando Fátima interrompeu.

– Quatro não, são cinco, tem um menino no bucho dessa jovem, minha empregada, ela afirma que o filho é de Amarildo. Peço fazer DNA quando a criança nascer para confirmar a paternidade. Esclareço que essa jovem é empregada doméstica, dorme em minha casa.

Pedro Ernesto ficou alegre. Meio bêbado repetia, feliz, para todos convidados: São cinco netos. Cinco netos. Posso morrer tranquilo. Viva Amarildo!!!!!!!

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O TERRORISTA DO AEROPORTO

Na manhã da segunda-feira, 25 de julho de 1966, o Capitão da Marinha do Brasil, Rômulo Uchôa Rodrigues, acordou-se em seu apartamento, meio ressacado da farra de domingo na “Casa da Djanira”, a melhor casa de mulheres do Recife, por dentro do bairro de Boa Viagem. Foi ao banheiro, fez a barba, como todos os dias, desde que entrou na Escola Naval. Tomou uma ducha, lembrando da noitada de amor com Verônica, uma jovem flor sertaneja. Vestiu a farda de Capitão da Marinha. Mantinha suas roupas civis e fardas bem passadas e alinhadas, tarefa da caprichosa arrumadeira de seu apartamento no Edifício Califórnia na praia de Boa Viagem. Tomou café na lanchonete do térreo. Desceu ao estacionamento, ligou seu Gordini vermelho, partiu para o Aeroporto Guararapes, onde, por determinação do seu chefe, Almirante Comandante do 3º Distrito Naval, foi designado para receber o General Arthur Costa e Silva, Ministro da Guerra, pretenso candidato a substituir o General Castello Branco na Presidência da República.

O Capitão dirigia, pensando: – “Uma pena, o General Costa e Silva, “linha-dura”, insistir em ser o substituto do Presidente Castello Branco. Havia esperança, entre amigos democratas e muitos outros brasileiros, de que o Presidente Castello Branco, no final do mandato, convocasse eleições gerais, com nova Constituição. Era a esperança do retorno à Democracia no Brasil. Com o Costa e Silva seria mais difícil, daria continuidade ao Governo Militar”.

Rômulo estacionou o carro. Caminhou em direção ao saguão do aeroporto, lotado de militares, civis, políticos, puxa-sacos. O Capitão conversou rápido com seu chefe, o Almirante, e foi à banca de revista, folheou algumas. Nesse momento ouviu o alto-falante anunciar que o General Costa e Silva havia mudado de trajeto, desembarcaria no aeroporto de João Pessoa e de lá partiria de carro para a sede da SUDENE. Rômulo comprou uma revista e retornou ao estacionamento. Nesse momento ouviu um estrondo forte, uma bomba estourou perto: BUM!!!!! O deslocamento de ar o jogou de lado, o corpo chocou-se contra uma coluna. Ele desmaiou.

O trecho acima é de meu novo romance, O TERRORISTA DO AEROPORTO. Uma história de ficção partindo de um fato real acontecido em 1966, quando o terrorista deixou uma bomba de alto teor no Aeroporto Guararapes do Recife, com a intenção de assassinar o General Costa e Silva, candidato a substituir o presidente Castello Branco. O candidato se livrou, mas a bomba matou três pessoas e feriu mais de 15 que se encontravam no Aeroporto do Recife. O romance não foca a luta armada contra o Governo Militar, é uma história de amor a partir desse fato. Ficção pura.

Lançamento em Maceió dia 24 de outubro (sexta-feira) entre 18:00 e 22:00 hora na Pizzaria Fornaria Jatiúca, com um recital da poeta Rosana Oliveira. TODOS CONVIDADOS PARA UMA AGRADÁVEL NOITE DE POESIA.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A CARTA DE MEU PAI

Uma carta recebida de meu pai há mais de meio século; guardei-a. Releio-a vez em quando, principalmente em momentos difíceis da vida.

Eu tive uma bela, livre e solta infância nas praias de Maceió; roubando manga e cocos nos sítios vizinhos ao Salgadinho, jogando futebol, nadando no mar da Avenida da Paz. A juventude livre deu-me amor à liberdade.

Logo após a adolescência resolvi fazer vestibular para Escola Preparatória de Cadetes do Exército de Fortaleza. Ainda menino ingressei num regime de disciplina e hierarquia, internato rígido, aulas constantes, instrução militar. Foi um choque para aquele maloqueiro da Avenida. Mesmo com difícil adaptação, com todos os atropelos eu tinha maior orgulho em ser cadete do Exército. Nas minhas primeiras cartas a meus pais, descrevi a Escola e seus pontos positivos, dizia sempre estar gostando. Na verdade muitas vezes tive vontade de largar, de desistir, mas, me perguntava se não seria falta de fibra, de raça, enfrentar as dificuldades. O que muito contribuía pensar em desistência da Escola eram os trotes por parte de alguns veteranos.

Certa tarde de sábado, eu estava me preparado para sair, um encontro com uma namoradinha. Quando me vestia, banho tomado, perfumado; um veterano, de apelido Lamparina, negro de lábios protuberantes, ordenou-me com boçalidade.

– Onde pensas que vai? Coloque seu calção e venha ajudar arrumar o meu armário.

Perdi o sábado e a namorada arrumando o armário, engraxando sapato desse… Lamparina

Nessa noite chorei. Resolvi pedir desligamento da Escola. Na segunda-feira pela manhã falei com o capitão comandante da minha companhia. Ele desconfiou, achou que tinha sido trote, pediu para eu delatar. Delatar nunca, pensei. Insisti em falar com o Coronel comandante da Escola, queria me desligar da Escola Militar, teria outras opções de vida.

O Coronel pediu para que eu refletisse, ele tinha certeza que havia sido trote, era proibido, o veterano poderia ser expulso Na tarde de segunda-feira, numa coincidência extraordinária, recebi uma carta de meu pai. Li, reli várias vezes, e a guardo até hoje como se fosse meu tesouro pessoal e intransferível. Meu pai nessa época era Coronel do Exército, comandante do 20º BC de Maceió. Transcrevo a carta com orgulho.

“Meu filho

Meu afetuoso abraço. Recebemos a tua carta que nos encheu de alegria ao sabermos da sua satisfação aí na Escola, mas também de saudade do filho querido que tanta falta tem feito. Porém, Carlito velho, a vida é assim mesmo; é luta brava, principalmente na carreira que escolhestes. Temos absoluta certeza, e inabalável fé em Deus que serás muito feliz.

Não fraquejes ante nenhum obstáculo; enfrenta-o sempre de ânimo forte. Acostuma-te desde agora aos rígidos princípios da disciplina; aceita-a conscientemente, pois ela é a mais bela característica do soldado.

Estuda, dedica-te com muito esmero as tuas obrigações escolares; este hábito salutar será constante na tua vida profissional e fator decisivo em qualquer carreira. O valor de um oficial está em função de sua cultura, do seu saber, do seu carinho aos afazeres profissionais.

Procura desde já, meu filho, ser “caxias”. Mas “caxias” sem intransigência. Correto no cumprimento dos deveres, porém humano, delicado, sereno e leal no tratamento com subordinados e companheiros. O oficial que assim procede é respeitado, acatado e querido por todos.

Pensa sempre no bem do Brasil; sirva mesmo de rumo aos teus atos e ações o pensamento constante na grandeza da pátria querida. Porém, jamais te cumplicies aos aventureiros da política malsã, que infelizmente ainda infesta o Brasil. Seja sempre digno, mantenha sempre bem alto o alvo de tuas ambições e afetos; porém também sempre te lembres que são injustificáveis as “quarteladas” e as “ditaduras”

São esses, meu filho, os conselhos, que a experiência de mais de 30 anos de serviço do teu velho pai, que o carinho e o afeto que te dedico, que a vontade imensa de te ver vitorioso na carreira que escolhestes, me inspiraram. São advertências saídas no mais íntimo de meu coração.

Prepara-te, pois, para a vida, meu filho, certo de que nem tudo serão flores. Os espinhos e desilusões surgirão fatalmente. Mas que nada abata teu ânimo forte, o teu caráter, a tua dignidade, a tua coragem, o teu ardor cívico.

Esta é a única riqueza que teu pai pode legar. Guarda com carinho esta primeira carta que te escrevo e que a Divina Providência te faça feliz. Tua mãe e teus irmãos te abraçam. A saudade de teu pai. Mário Lima.”

Segui os ensinamentos de meu pai por toda vida, mesmo depois de deixar o Exército. Tenho orgulho de tudo que fiz por amor à minha terra, com convicção, acreditando na carta que meu pai escrita há tanto tempo. Transcrevo a carta pela vergonha que me causa o que está passando nosso amado Brasil. Vergonha dessa camarilha lutando nos tapetes de Brasília pelos podres poderes. Quero apenas um Brasil justo, próspero, a democracia reverenciada, a Constituição respeitada. Me dá nojo o que vejo acontecer.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A PRESENÇA DE HELENA

Na fila da loteria, Hélio Prata contemplava o belo pescoço da senhora em sua frente. De repente, ela virou o rosto, ele reconheceu Helena, ficou feliz ao rever um amor de sua juventude.

Uma alegria para ambos. Sentaram à mesa, pediram sorvete. Há muitos anos não se encontravam.

– E aí, Helinho, você continua mulherengo? Foi a primeira pergunta.

– Estou solteiro. Dois casamentos não deram certo. Sou ainda o romântico incorrigível procurando alguém para lhe substituir. Nunca encontrei!

– Você é um danado! Sempre gentil!

– Não é gentileza, Helena. Depois de tantos anos, sou um sessentão e você está beirando. Mulher casada, respeito, mas posso dizer sem mágoa, você sempre foi a mulher de minha vida, nunca lhe esqueci, conservo esse amor bonito dentro de mim. Esse negócio de dizer que sou mulherengo é verdade, depois que você se casou, descambei para as raparigas, tornei-me um grande boêmio, tive muitas mulheres, minha vida desregrada foi fruto da dor-de-cotovelo por você me ter abandonado.

– De fato, nosso amor foi bonito, todos comentavam nossa paixão, nosso namoro avançado. Naquela época namorados não transavam, mas você queria muito. Uma paixão louca! Era tarado por mim. Precisei me segurar para continuar virgem. Terminamos o namoro, mas, você teve culpa, queria todas as mulheres do mundo, namorou uma amiga minha.

– Como está o Josafá, o homem mais feliz do mundo, o homem que tem você nos braços há tanto tempo!

– Helinho, vou ser sincera. Desculpe o desabafo, afinal você é um amigo confiável. Namorei com Josafá, não era aquela coisa louca de nosso namoro. Casamos, construímos nossa família. Dois filhos e um neto. Ano passado tive duas tristezas na vida. Descobri que Josafá tem uma amante, menina nova, sustentada por ele há mais de quatro anos. Encheu-me de mágoa. E o pior, descobri um câncer na minha mama esquerda. Já me operei, tenho como tratar do câncer, os médicos dizem que posso controlar a doença e viver muitos anos. Mas o meu marido não dá mais para controlar, ele está apaixonado por essa sirigaita. Eu vivo só, ninguém sabe o que se passa comigo, vivo indignada dentro de minha dignidade.

Helinho apertou sua mão, olhou nos seus olhos.

– Minha querida Helena, não aguente isso, deixe a merda desse marido. Eu ainda lhe amo, sempre lhe amarei, estou à sua espera o dia que você quiser, pelo resto da vida. Amanhã pela tarde estarei viajando, vou passear quase um mês no navio COSTA MARU, sai do cais do porto direto para Recife e Europa, atravessando o Oceano Atlântico. Quando eu retornar quero conversar com você. Está certo? Você promete que vai me ver? Me dê o número de seu celular.

Despediram-se com beijo no rosto.

À noite o Josafá chegou meio tarde e bêbado. Na hora de dormir, Helena alisou o corpo do marido, beijou-lhe o pescoço, foi se achegando como pedisse carinho, um pouco de atenção. Nesse momento ele falou aborrecido, grosseiro.

– Não quero, não quero pegar sua doença. Você está com câncer. Porra!

Virou-se para o lado e adormeceu.

Humilhada e ofendida, Helena chorou baixinho, correu ao banheiro, sentou-se na privada, caiu em prantos, chorou muito. Certo momento se recuperou, respirou fundo, levantou-se, olhou-se no espelho, só de calcinha, levantou os braços, rodou, achou-se uma mulher bonita, conservada, atraente. Veio-lhe um sentimento forte de amor próprio, jurou nunca mais chorar por Josafá, e que curaria o câncer.

Retornou à cama, custou a adormecer. Fez um retrospecto de sua vida, ninguém mais dependia dela, vivia praticamente só, os filhos independentes. Pensou no que restava no seu futuro hipócrita e humilhante, junto à Josafá.

Eram oito horas da manhã quando ela levantou-se. Tomou café, trocou de roupa, foi ao cabeleireiro, à manicure. No shopping comprou roupas, foi ao banco, almoçou. Chegou em casa por volta das duas horas, arrumou a mala, escreveu uma carta simples para Josafá. Tomou um táxi.

O navio COSTA MARU repleto de passageiros desencostava do cais. Na balaustrada do convés Helinho contemplava o mar, o casario da Avenida da Paz se afastando, diminuindo de tamanho. Ele estava embevecido com a cor do mar de sua terra, quando, de repente, sentiu uma mão por cima da sua. Ao olhar de lado teve a mais bela visão de sua vida: a presença de Helena.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

40 ANOS DE SAUDADES

Passavam das cinco tarde quando Emílio Aguiar entrou na Academia de Ginástica. Vestido de sunga, touca e óculos, mergulhou na piscina iniciando suas primeiras braçadas; ao completar 200 metros segurou na borda; um pequeno descanso. Ao perceber a nadadora da última raia teve uma estranha sensação que a conhecia; a touca e os óculos cobriam parte de seu rosto, porém, o nariz e a boca lhes eram familiares. Continuou nadando, observando a nadadora, até que ela subiu a escada da piscina, retirou a touca e os óculos. O coração setentão de Emilio bateu mais forte ao reconhecer, Penélope Xanthopoulos, namorada nos velhos tempos da juventude. Num impulso subiu à beira da piscina. Aproximou-se da amiga. Penélope, logo o reconheceu. Deram um abraço afetuoso e alegre.

– Minha querida grega, como você está em forma, bonita, o tempo foi bondoso com você.

– Emílio, sempre gentil. Uma mulher para se conservar aos 60 e poucos anos, precisa muita força de vontade, natação, musculação, fechar a boca, passar um bisturi. Você está bem, um galã, como a gente dizia. Um pão. – Deu uma gargalhada.

– Sou um idoso com disposição de trabalhar, cuido da saúde. E você? Como vai o marido fazendeiro de Minas Gerais?

– Estou solteira. Uma velha divorciada. Já imaginou?

Naquele momento ouviu-se a voz de uma jovem na entrada da Academia.

– Vovó, vovó, está na minha hora da aula de inglês, vamos embora.

– Sou escrava das netas. Tenho de ir. Vou ficar dois meses aqui na terrinha, aproveitar esse verão maravilhoso.

– Quero lhe ver. Precisamos conversar. Lembrar o passado louco, nossa bela juventude. Vai fazer bem para nós dois. Vamos tomar um café hoje à noite? Às 8 horas em frente ao Iate Pajuçara, está bem? Bater um papo agradável.

– Será um prazer conversar com um amigo depois de tanto tempo.

Em um bar discreto, bem decorado, à meia luz, o garçom trouxe duas doses de uísque, eles brindaram. Penélope esguia, elegante num vestido preto, beleza discreta e sensual, coroa conservada.

– Estou feliz em vê-la. Tenho todo tempo do mundo essa noite. Conte sua vida.

– Minha vida andou encrencada. Depois de mais 40 anos o casamento simplesmente desmoronou. O meu vaqueiro arranjou uma namorada. Eu soube, discuti com ele várias vezes, sou mulher de um homem só. Numa noite de tensa discussão ele, bêbado, deu tapas em minha cara, me bateu. Imperdoável. Acabamos nos separando, ele estava apaixonada pela jovem. Que fazer? Não posso ser mais jovem. E você? Acompanhei sua tragédia, de longe.

– Tragédia mesmo. Casei-me com Mariana, tivemos dois filhos, Matheus e Thiago. Lindos e fortes. Aos 10 anos foi descoberto um problema no coração de Matheus. Mariana dedicou sua vida a Matheus, ele necessitava cuidados especiais. Adolescente Matheus, meu querido filho, morreu em um desastre de carro após uma noitada, por ironia da vida. Mariana enlouqueceu inconformada em dedicar sua vida à doença de um filho e ele morrer num desastre de carro; apagou-se para vida. Não cuida de Thiago, nem de mim, nem da casa. Hoje ela vive apática. Não teve terapia que desse jeito. O mundo acabou-se para ela; envelheceu. Thiago casou-se cedo, mora perto, todo dia vai ver a mãe. Também não quero falar sobre tragédia nessa noite inesperada de alegria.

Depois das confissões, entraram nas recordações de juventude, da Faculdade, dos bailes, dos carnavais. Da loucura dos dois em pleno carnaval à noite, enquanto rolava o frevo na Rua do Comércio com blocos e corso, eles se desgarravam da turma, desciam à praia e tomavam banho de mar, nus, na Avenida da Paz. Lembraram-se dos movimentos políticos. Emílio foi preso distribuindo panfleto contra a ditadura. Passou uma semana trancafiado no DOPS, ela visitava-o todos os dias. Um amor lindo entre aqueles dois jovens.
Emílio, no escurinho do bar à beira mar, segurou a mão de Penélope, olhou nos seus olhos que faiscavam, beijou-lhe a boca.

– Minha querida grega. O destino, às vezes, é cruel, nos separou, mas nunca lhe esqueci. Você foi o grande amor de minha vida. Não somos mais jovens, vamos aproveitar o resto do tempo que nos falta.

Saíram do bar.

No motel delicadamente foram se ajudando a se despirem. Beijos lentos, calmos, preguiçosos por todo corpo, despertou a libido, o desejo. Emílio, discretamente, havia engolido, ainda no bar, a pílula azul. Fizeram amor, amor maduro, amor carinho, amor de bocas, dedos e corpos se misturando, num êxtase de mais de 40 anos de saudades.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

RAIMUNDO, O RESIGNADO

Raimundo, cearense de fé, foi trabalhar em Maceió nos anos 70, onde ficou morando para o resto da vida. Religioso, crente, não perde missa e comunga aos domingos. Toda calamidade acontecida ele encara com a frase resignada: “São os desígnios de Deus”. Sua religiosidade tornou-o um homem temente ao Todo Poderoso. No Colégio Marista do Ceará, era considerado peixinho dos irmãos pela inabalável fé aos dogmas da Igreja Católica. Rezava muito, ajudava à missa, era coroinha. Era o exemplo de jovem, o que deixava a galera do mal enciumada. Tornou-se alvo de muitas brincadeiras irreverentes. Raimundo, nem aí, era firme em suas convicções com muita personalidade.

Na maturidade, preservou o sentimento religioso conformista. Tudo que acontece, seja bom ou mal, para ele resignado: “São os desígnios de Deus”. Sua mulher Iolanda, depois de 35 anos de casados, dois filhos encaminhados, funciona, na prática, como uma irmã e amiga. Cuida bem do marido e da casa, mas não se cuida, já ultrapassou os 118 quilos. Mais de três anos sem sexo completou o casal.

Com todos os predicados religiosos, Raimundo não é o santo que se parece; tem seus pecados. Gosta de sair com uma garota de programa em alguma tarde. Ele não confessa esse pecado ao padre. Justifica a si mesmo, resignado “São os Desígnios de Deus”

Certa tarde, Raimundo estava dirigindo pela orla de Pajuçara para refestelar sua alma olhando o verde azulado do mar. Ao longe, ele avistou uma mulher pedindo carona com a mão. Raimundo, gentil, parou o carro adiante, a moça se aproximou perguntando:

– Vai até à Jatiúca?

Raimundo abriu a porta e a bonita jovem foi sentando, cruzou as belas pernas mal encobertas pela mini saia. Deu uma sensação de fervor nas veias de Raimundo. Puxou conversa até chegar à praia de Jatiúca.

– Você foi tão gentil, não quer um agradecimento logo adiante na praia deserta de Ipioca?

Raimundo ficou entusiasmado pela aventura inesperada. Seria coisa rápida, disse ela. Nosso amigo empolgado estacionou o carro embaixo dos coqueiros, perto a outros carros que ali estavam, enquanto os ocupantes se dedicavam ao amor vespertino. Michelle pediu para ele se dirigir mais adiante, num local mais ermo. Raimundo atendeu e estacionou o carro num local mais deserto no meio do coqueiral.

O cearense ficou encantado com a habilidade da jovem quando acabou a função. De repente, Raimundo ouviu um “toc-toc” no vidro do carro. Ao olhar ao lado, havia um cano de revólver apontado e uma voz mandando abrir o vidro. Eram três meliantes. Colocaram o casal no banco traseiro e deram a partida. Um dos meliantes tinha um revólver na mão direita e alisava o cabelo de Michelle com a esquerda. Rumaram pelo litoral norte. Nos arredores da praia mais deserta, o motorista estacionou, estava escurecendo.

Os assaltantes mandaram os dois descerem, cataram dinheiro, carteira, cartão, tudo que podia. Um dos meliantes obrigou Michelle a fazer o que ela já havia feito com Raimundo. Os outros dois bandidos barbaramente estupraram Raimundo por trás de uma moita. Deixaram o cearense sozinho na praia. Levaram o carro e a moça.

Foi um pesadelo para nosso amigo, a região ficou dolorida. Andou até um povoado, tomou um táxi, foi para casa. Contou a sua mulher sobre o assalto, prestou queixa à Polícia, omitiu o detalhe do estupro.

No dia seguinte pela manhã recebeu a boa notícia: tinham encontrado o carro abandonado na fronteira de Pernambuco. O carro estava intacto, tudo resolvido.
Mas um problema ficou: Toda noite Raimundo sonha com o estupro. Teve a ideia de procurar um médico, fazer análise. Depois de algumas seções, ouvindo a história do estupro e dos sonhos noturnos, o médico psicólogo concluiu que sua sexualidade é ambígua, ou seja, Raimundo é bissexual.

O coroa cearense, toda semana, continua com suas garotas de programa. Agora, variando com rapazes como nos sonhos. Não tem coragem de contar a história ao padre no confessionário. Mas em seus devaneios, ele se justifica, resignado: “São os desígnios de Deus.

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LA BELLE DE JOUR

Aloísio trabalhou muito, hoje tem uma vida folgada fruto de sua capacidade comercial. Depois de passar mais de 20 anos em São Paulo, retornou de vez para Maceió, comprou um belo apartamento na praia da Ponta Verde. Faz questão em ter tudo do melhor. Dá o conforto merecido à família que preza, ama e conserva. É um ótimo dono de casa, um excelente pai, vive para família. Porém, tem um vício, um defeito em sua vida exemplar, gosta de pular a cerca, sair com uma garota de programa. Uma ou duas tardes durante a semana escolhe uma garota nos sites apropriados com fotografias, preços e telefones. Na cabeça de Aloísio sair com uma profissional não é pecado, não é traição. Gosta de se gabar perante os amigos que nunca teve uma namorada, que nunca teve uma amante, que nunca traiu sua querida esposa, Gertrudes.

Não importa o gasto, é seu único vício. Tem convicção que esse tipo de deslize não incomoda não prejudica a família. Aos mais íntimos conta que ele paga não o serviço prestado pela moça, ele paga o sossego e a falta de compromisso depois do ato.

Há alguns dias, seu filho Henrique viajou ao Canadá para participar de um curso de quatro meses, a esposa o acompanhou. Teve de deixar o filho na casa do avô, Aloísio. Ele recebeu com boa vontade, adora o neto. Para ajudar na tarefa de cuidar da criança, Dona Gertrudes contratou uma babá numa agência pelos quatro meses.

Dia seguinte ao voo do filho, logo pela manhã, Aloísio atendeu quando tocou a campainha. Apareceu uma bela jovem, pele alva, cabelos castanhos estirados, nariz afilado, boca avermelhada, sorriso atraente. Estava vestida numa calça colorida, bem à vontade em seu corpo. Aloísio encantou-se à primeira visão, chamou a esposa. Gertrudes acertou com Cícera, quatro meses com o menino, enquanto Henrique fazia o curso no Canadá.

Nunca um avô foi tão atencioso com o neto. Vivia a brincar com o menino, todos os dias passeava de carro com a ajuda valorosa da babá. Gertrudes admirava-se por ser um avô coruja e dedicado. Aloísio estava encantado pela babá, apesar da diferença de idade, sentiu que Cícera correspondia. Na praça brincando com o neto, vez em quando um encosto, um acocho, uma mão boba, a babá sorria desavergonhadamente.

Num fim-de-semana Gertrudes teve que ir ao Recife ver sua irmã doente. Aloísio ficou dando assistência ao neto, ajudado pela maravilhosa babá.

Na primeira noite o neto brincou muito na sala com o avô até adormecer, Cícera deitou a criança no quarto e voltou à sala, ficou assistindo televisão. Vestia um frouxo short, blusa fina, semitransparente realçando as empinadas curvas.

Ao deparar com aquela cena, a lascívia, a libido tomou conta de Aloísio, o sangue ferveu nas veias. Não houve preliminares, foi se chegando por trás de Cícera, levantou o cabelo, deu um beijo molhado no cangote. Daí por diante, aconteceu tudo.

Gertrudes retornou do Recife de carona no carro de um sobrinho na terça-feira. Eram dez horas da noite quando abriu a porta do apartamento. Nesse momento Aloísio estava em assistindo televisão. Cícera dormia em seu quarto.

Passaram-se alguns dias, Gertrudes foi notando a intimidade da babá com o vovô, Ficou desconfiada. Certa noite a esposa em conversa de cama disse que estava achando a babá muito saliente. Mulher tem um sexto sentido extraordinário. Dia seguinte conversou com Cícera, inventou um motivo qualquer e pediu outra babá na agência. Dessa vez veio uma matrona de 63 anos substituindo a jovem

Essa foi a história contada por Aloísio enquanto tomávamos uma gostosa cerveja na Barraca Pedra Virada na orla da Ponta Verde. Eram quatro horas da tarde quando Aloísio levantou-se, tinha um compromisso, na saída ele arrematou:

– Pois é irmãozinho. Veja você a coitada da Cícera ficou desempregada, com o telefonema da Gertrudes, a agência dispensou uma babá maravilhosa. Ela agora, mora em um apartamento no Conjunto Castello Branco. Eu a visito duas tardes na semana, pago o aluguel e ajudo a sobrevivência. Fico feliz desde cedo quando sei que logo mais à tarde estarei nos braços da Belle de Jour. Aloísio colocou a mão esquerda no bolso, caminhou assoviando rumo a seu carro. Satisfeito e ansioso como uma criança em busca do colo de uma babá.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ENQUANTO O MARIDO DORMIA

– Doutor, na verdade estou cansada do Jorginho, me abusei da vida casada. Casei-me cedo aos 19 anos, hoje com 26 anos, sinto-me jovem, meu marido passa a noite em casa assistindo novela e jogo de futebol. Sem filhos, minha vida é um tédio, acabou a alegria do casamento. Quando fazemos amor é burocrático, obrigatório. Confesso, já tive vontade e oportunidade de traí-lo, entretanto, não faz minha cabeça, tenho forte sentimento de respeito, quero apenas meu marido como era antes. Oriente-me, por favor!

O Doutor Mário Moreira olhou para Laurinha, pigarreou discretamente, com fala bem compassada deu sua opinião.

– Minha querida, você está passando pela crise dos sete anos, todo casal tem esse problema. Está na hora de temperar esse casamento, a cama é ótima para reorganizar uma vida a dois. Faça uma surpresa, no fim de semana você convida o marido para assistir a um filme na NETFLIX com cenas quentes de sexo. Compre duas ou três garrafas de bom vinho, vista um lingerie sensual, e vamos ver no que dá.

Um mês depois Laurinha retornou radiante, satisfeita da vida.

– Doutor, foi um santo remédio, não havia acabado a segunda garrafa de vinho, nem terminado o filme, nós já estávamos abraçados no tapete, tudo como antigamente. Jorginho adorou.

Passaram-se alguns meses, Laurinha retornou ao psiquiatra. Entrou nervosa.

– Doutor, desde aquela época nós estamos praticando experiências novas, coisas que jamais pensei fazer, eu adorando. Acontece que Jorginho me perguntou se eu já tinha ouvido falar em swing, eu pensava ser um ritmo de música. Ele sorriu e explicou: “Existe aqui no Recife o Clube de Swing, entretanto, não é para dançar, esse swing é a troca de casais. Os casais se encontram conversam, bebem, quebram o gelo, depois cada qual arrasta a mulher do outro para o motel. Quando termina é como nada tivesse acontecido.” Continuou: “Nós dois já fizemos todas as experiências que imaginávamos. Será que você toparia fazer essa novidade?” Eu fiquei chocada, sem saber responder. Não é um procedimento correto, mesmo que o casal esteja em crise conjugal. Comecei a achá-lo um grande salafrário, me trocar, saber que eu vou com outro homem que mal conheço. Isso é degradante. Que decepção.

– Querida Laurinha, para algumas pessoas a traição é relativa, é o caso de seu marido aceitar a troca de casais, já para você é inconcebível pela sua formação moral. Conheço bem os padrões rígidos da educação nordestina, porém, a decisão é sua. Nada posso aconselhar. Faça o que seu coração mandar.

Na sexta-feira à noite Jorginho voltou a insistir no swing. Era a evolução dos costumes, dos casais modernos. Laurinha constrangida, com o coração apertado aceitou a proposta, só para satisfazê-lo. Foram ao Clube do Swing, tomaram uma mesa, pediram uísque, Laurinha nervosa e chateada. Logo apareceu um casal pedindo para sentar. Muita conversa, Jorginho estava radiante quando viu a bela mulher da troca. O marido também era um cara bonito. Beberam muito, conversaram, sorriram, até que chegou a hora da troca. Laurinha com o coração aos pulos. Ao entrar no quarto do motel ela caiu no choro, pediu desculpas ao parceiro, não quis de jeito nenhum. O parceiro educadamente compreendia, era a primeira vez. Ele foi elegante não se sentiu ludibriado. Levou Laurinha para seu apartamento em Boa Viagem.

Ela agradeceu ao cavalheiro. Em casa ficou contemplando o mar, pensando. Três horas depois chegou Jorginho satisfeito da vida, perguntando. Que tal? Gostou? Laurinha teve nojo do marido, vontade de jogar-lhe um vaso na cara. Cansado, bêbado, ele vestiu o pijama e deitou-se. Enquanto o marido dormia, ela arrumou duas malas, tomou um taxi para o aeroporto. Pegou um avião, retornou de vez para sua querida cidade, Belém.

Ficou um tempo no apartamento dos pais que lhe deram todo apoio. Laurinha está solteira e feliz, é vista nos bares bem frequentados pelas mulheres mais descoladas da cidade. Vez em quando, em seu pequeno apartamento, ela oferece um bom vinho a algum parceiro, assistindo a um bom filme. Outro dia Jorginho telefonou, ela foi taxativa, jamais voltará. Ele quis saber em que momento ela decidiu a separação e viajou de repente. Laurinha respondeu simplesmente. “Enquanto você dormia.”

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A FLOR DA PRAÇA SINIMBU

Maria Flor era uma moça bonita, 18 anos, por onde passava chamava a atenção, estudava num colégio do Estado e morava perto da Praça Sinimbu. Seu primo Eraldo, todo domingo, descia pela Rua do Imperador para visitar os tios, desfrutar um mergulho na praia da Avenida da Paz, comer a feijoada domingueira e conversar com sua paixão, a prima, Maria Flor. Sua timidez nunca o deixou declarar aquele amor, porém todos notavam aquela paixão escancarada. Ao chegar à casa dos tios cumprimentava-os formalmente, entregava um mimo, chocolate, bonequinha, à Flor que displicentemente colocava o agrado em seu quarto, muitas vezes no lixo, sem que ele visse. Maria Flor nunca acompanhava o primo à praia, preferia seu grupo de amigos entre os quais havia Bruno Aguiar, tenente da Aeronáutica que servia na Base Aérea do Recife, passava fins de semana e férias de verão em sua amada cidade, Maceió.

Certa noite Bruno e Flor iniciaram um namoro. Os dois se apaixonaram. No cinema, na praia, nos clubes, era um agarrado escandaloso para época. Bruno tinha uma moto, a namorada na garupa, abraçava-o. Ele disparava em velocidade. Maria Flor ficou mal falada, ainda não havia acontecido a revolução sexual no mundo, as moças tinham de guardar a virgindade para o casamento. Numa bela tarde, Bruno disparou com a moto, a namorada abraçada para as bandas da, praia deserta de Ipioca, cheia de coqueiros. Foram tantos os abraços e beijos, que naquela tarde acabou-se a virgindade de Maria Flor. Terminada as férias Bruno viajou transferido para a Base Aérea de Manaus. A troca de cartas quase diárias, foi esfriando. Depois de seis meses, Flor recebeu uma carta em que Bruno a liberava do namoro, não queria mentir, ele estava com uma namorada em Manaus. Flor chorou muito.

Quando Eraldo soube do término do namoro, tomou coragem com algumas talagadas de cachaça na casa do tio, declarou-se à prima prometendo ser um marido exemplar, tinha sido efetivado na Assembleia Legislativa e um futuro promissor como assessor de deputado. Maria Flor respondeu calma, gostava muito do primo, porém, jamais daria certo. Ele ficou mais triste do que era.

O tempo passou até que um dia, Maria Flor namorou Mário, um fazendeiro de Anadia, ele trabalhava com o pai na fazenda, gostava da boemia de Maceió, chegado às mulheres, apaixonou-se pela beleza e sensualidade de Maria Flor. Ele bem que tentou avançar com as mãos no corpo da namorada, mas ela falava a seu ouvido: “só depois de casar”. Os pais da moça não gostavam de Mário, o namorado da filha, quase sempre embriagado. Com seis meses de namoro eles noivaram. Flor não morria de amores, mas queria casar. O grande problema da virgindade perdida, ela resolveu perto do casamento em uma viagem ao Recife com um cirurgião plástico. O médico costurou alguns pontos. Na Lua de Mel sangrou pouco o lençol branco do Hotel Califórnia. Foram morar numa pequena casa no bairro do Farol. Maria Flor não gostou da vida de casada, Mário vivia na fazenda. Chegava em Maceió fedendo e embriagado. Certa noite durante uma discussão, Mário deu-lhe um murro. As surras ficaram frequentes. Maria Flor calava-se, infeliz.

Perto do natal ela teve uma surpresa, avistou o Capitão Bruno Aguiar, descendo à praia. Foi um abraço forte. A partir daquele encontro, vez e quando, de moto e capacete dirigiam-se a uma praia deserta. Tardes inesquecíveis de amor e mar.

Acontece que Eraldo, o primo apaixonado, descobriu a traição de Flor, enviou uma carta anônima batida à máquina. Ao ler a carta Mário ficou louco queria matá-la, porém teve que se controlar, preferiu pegar a mulher em flagrante. Fim de uma tarde quando a moto apareceu ao longe na praia da Avenida da Paz em velocidade e freou. Mário avançou com um revólver na mão. Bruno assustado, religou a moto, o marido desceu atirando. Bruno disparou com a moto. Mário mandou Maria Flor entrar no carro. Durante o percurso ele olhava a esposa chorando e cuspia em sua cara. Em casa só repetia uma palavra: puta, puta. Deu-lhe fortes tapas, amarrou-a com uma corda, retornaram ao carro. Flor chorando só pensava na morte. Ao chegar no bairro boêmio de Jaraguá, Mário parou o carro embaixo de uma boate, chamou Ana, a cafetina proprietária, sua conhecida, entregou-lhe a mulher amarrada.

– Trouxe mais uma para seu puteiro.

Ligou o carro partiu em disparada para sua fazenda. Foi assim que Maria Flor tornou-se a prostituta mais bonita e mais procurada na Zona de Jaraguá.