Pablo, para conhecer o poema da divina Florbela, é preciso entender o que ela viveu.
Ela escreveu isso quando estava no final da vida, depois dos 30, numa cidade grande, quando já havia casado 3 vezes, perdeu um filho, a mãe, o irmão querido (em um acidente de avião).
Digamos que já estava calejada.
O que quer uma pessoa nestas condições? Voltar às coisas mais simples da vida.
Ela, que viveu boa parte da infância e mocidade em Vila Viçosa, um lugarejo pequeno em que as coisas eram simples.
O milho cresce alimentado pelo sol, sendo que as pombas ao comerem seus grãos, se alimentam do sol, assim como todo mundo.
À noite o luar se reflete nas águas paradas. Logo, o gado se alimenta do luar.
Florbela queria de volta as coisas rústicas e simples.
Daria tudo o que tinha (versos, poesias) por isso.
Pois é, a Grobo sempre esteve envolvida em narrativas.
Em 1982 já fraudava urnas (que eram sacolas de lona) e apurações que foram eletrônicas feitas por uma empresa chamada PROCONSULT no RJ (eu estava lá).
Chegou até a boicotar o carnaval, obrigando Brizola a fazer em 6 mesas o sambódromo definitivo, com transmissão da Manchete que iniciava sua curta vida. Depois eles se acertaram, para variar e a Grobo voltou a transmitir o carnaval.
Eu sempre gostei de me informar por múltiplas mídias, lia todos os jornais e comparava.
O JN trazia notícias mais frescas, que os jornais impressos só trariam no dia seguinte.
Isso foi até 2014 com a farsa da Dilma e a entrada forte da internet como fonte diversificada e democrática.
Um pouco antes disso eu já acompanhava o JBF, o que me ajudou também a me separar da Grobo.
Não nasceu pobre, pelo contrário, teve educação primorosa para a época.
Costumam falar que era uma mulher à frente de seu tempo, já vi algumas biografias que a jogam como um ícone político progressista.
Errado, pois ela só fala de si em seus poemas.
Até agora não vi uma questão social exposta em suas letras.
Quem lê seus poemas percebe que ela, de “empoderada” não tinha nada, pois entregava-se às suas paixões de forma devoradora.
O que a tornou fascinante para mim, foi sua inteligência bem como o talento para descrever em versos as emoções femininas com suas inconstâncias e mistérios.
Isso é muito atual.
* * *
Fagner cantando Fanatismo, poema de Florbela Espanca que ele musicou.
FANATISMO – Florbela Espanca
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão de meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida… Passo no mundo, meu Amor, a ler No misterioso livro do teu ser A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa… Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros: “Ah! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus: princípio e fim!…
Como negro, não tem nada que me irrita mais que esse tal dia da consciência negra. Grupos de idiotas querem criar um “tipo certo” de negros. Que se fodam todos!
Sim, sou negro, e daí?
Não quero e não preciso de nenhum militante me ensinado como ser negro.
A quem deseja igualdade, dou um conselho: não peça a ninguém. Não aceite de ninguém. Ninguém te deve isso.
Igualdade é algo que nasce com você e, se você recebe de alguém, terá que aceitar as migalhas que te derem.
Igualdade se conquista; se necessário à bala.
Quando olham para mim, podem ver o que quiserem: alguém a quem admirar; desprezar ou invejar.
Mas se desrespeitarem, descobrirão alguém a que temerem. Simples assim.
Não preciso de sindicalistas do negrísmo. Para mim podem todos irem se foder.