PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

Ser a moça mais linda do povoado.
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho…
– Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho…

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à “terra da verdade”…

Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

3 pensou em “RÚSTICA – Florbela Espanca

  1. Dar às pombas o sol num grão de milho.

    Não tenho conhecimento ou verve para comentar. João Francisco, meu conterrâneo, me socorra!

    • Pablo, para conhecer o poema da divina Florbela, é preciso entender o que ela viveu.

      Ela escreveu isso quando estava no final da vida, depois dos 30, numa cidade grande, quando já havia casado 3 vezes, perdeu um filho, a mãe, o irmão querido (em um acidente de avião). Digamos que já estava calejada.

      O que quer uma pessoa nestas condições? Voltar às coisas mais simples da vida. Ela, que viveu boa párte da infância e mocidade em Vila Viçosa, um lugarejo pequeno em que as coisas eram simples.

      O milho cresce alimentado pelo sol, sendo que as pombas ao comerem seus grãos, se alimentam do sol, assim como todo mundo.

      à noite o luar se reflete nas águas paradas. Logo, o gado se alimenta do luar.

      Florbela queria de volta as coisas rústicas e simples. Daria tudo o que tinha (versos, poesias) por isso.

  2. Pingback: FLORBELA | JORNAL DA BESTA FUBANA

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