Dois vigaristas dão um golpe em um capanga e embolsam uma grana alta. Mas isto não fica assim, pois o chefe da quadrilha decide se vingar. Porém, quando um deles foge e entra em contato com um ex-parceiro, ambos decidem aplicar no criminoso um tremendo conto do vigário.
Um dos grandes clássicos dos anos setenta e um dos melhores roteiros já escrito. Filme indicado a dez óscares, sendo agraciado com sete: melhor filme, melhor direção, melhor ator, (Robert Redford), melhor roteiro original, melhor montagem, melhor figurino, melhor direção de arte e melhor trilha sonora.
Há que se destacar a trilha que é simplesmente perfeita e o roteiro que é impecável, seus atos são de uma qualidade absurda. Temos um elenco só de monstros sagrados do cinema como Robert Redford, Paul Newman e Robert Shaw, ou seja, três lendas. Golpe de Mestre é um filme de um ano cheio de grandes filmes que fica difícil mensurar qual foi o melhor.
É um filme atemporal e surpreendente que, apesar de ter uma trama intrincada é contada de forma leve e bem humorada. Enfim, é uma história de vigaristas feita unicamente para entreter sem qualquer pretensão de passar lição de moral no fim. Isso é um artigo raro no cinema.
Um pouco depois da primeira parceria do Paul Newman e do Robert Redford em (Butch Cassidy)-(1969) o diretor George Roy Hill escalou-os novamente na comédia inteligente Golpe de Mestre. Em quase todos os quesitos esse filme é melhor que o anterior da dupla, sem contar que há nele um nível de inteligência sem igual, fazendo-nos rir do que nós mesmos pensamos.
A direção do George Roy Hill é magistral, criando um clima perfeito de suspense policial com uma boa pitada de comédia pastelão. As atuações estão todas perfeitas, desde a dupla principal até a escalação coadjuvante. Mas o destaque de todo o filme é o roteiro, um dos mais inteligentes que já vi em filmes de comédia. A história central pode ser de difícil compreensão ao decorrer do filme, mas a cada parte entendemos o melhor.
Pode parecer que toda a comédia se esvaiu, mas há uma virada final que deixa qualquer um de boca aberta e dando risada dos seus próprios pensamentos. O restante da obra é igualmente bom, tratando da trilha-sonora, cenários, fotografia, edição, etc.
GOLPE DE MESTRE pode não ser um clássico do gênero, mas ele pode dar vários momentos de diversão, devido principalmente ao roteiro extremamente rocambolesco e inteligente.
The Sting Official Trailer #1 – Paul Newman, Robert Redford Movie (1973) HD
The Sting (3/10) Movie CLIP – A Game of Jacks (1973) HD – Cenas memoráveis
GOLPE DE MESTRE (1973) – SESSÃO #257 – MEU TIO OSCAR
O filme Orca – A Baleia Assassina, dirigido por Michael Anderson, que estreou a adaptação do romance “1984”, de George Orwell, que reverberou os medos onipresentes de 1956, dirigiu “A Volta ao Mundo em 80 Dias” (1984), narra a história da trágica morte da companheira de Orca, baleia prenha, pelo capitão de navio pesqueiro, Nolan (Richard Harris).
A intenção do barqueiro Nolan era capturar um tubarão branco, mas o arpão acabou atingindo um animal inocente, a baleia prenha. Inconformado com a tragédia, o macho direciona toda sua fúria e poder de morte para o porto de pescadores. Sob a pressão dos aldeões, Nolan, terá de fazer alguma coisa para expulsar o animal das redondezas.
Estreado em 1977, Orca – A Baleia Assassina, apresenta o capitão Nolan (Richard Harris), um comandante que acidentalmente mata uma baleia fêmea prenha. O interesse do capitão era o de capturar um tubarão branco para o aquário da cidade, mas a baleia foi o que veio primeiro. Então, o aventureiro capitão não se conteve e dizimou o que viu pela frente. O macho, no fundo e numa perspectiva “ponto de vista”, assiste a tudo, impotente. Talvez essa seja uma das melhores personificações do cinema, pois a forma como o animal assiste ao abate da fêmea e a retirada do feto das entranhas dela, provoca-lhe uma revolta sem paralelo! Há um trecho que o design de som deixa bem nítido essa revolta: o som do choro do animal.
Tomada pelo sentimento de tristeza, a orca começa o seu projeto de vingança e a ideia é destruir a tudo e a todos. Objetivos gerais? Vingar-se pela morte da companheira. Objetivos específicos? Destruir a cidade, matar a todos e dar aos humanos o que eles merecem. Justificativa? Não se deve fazer mal aos animais, principalmente aos que estão praticamente em extinção. Procedimentos metodológicos? Infernizar a cidade, destruir as possibilidades de curtição dos turistas, vingar-se de todos e atrair os diretamente culpados pelo massacre da “família arca” para um terceiro ato similar ao colega de gênero cinematográfico – Tubarão (1974) – dirigido pelo magno Spielberg, mais experiente, o que designa uma espécie de referências consultadas.
A Ooca não vai conter qualquer instinto e destruirá boa parte da cidade, algo que pede a suspensão da crença por parte do espectador. Com cenas gravadas num tanque e com a presença de alguns animatrônicos em determinados trechos, o filme possui uma narrativa arrastada, mas não absurda. A trilha sonora é do genial Ennio Morricone, aclamado compositor italiano de western e dramas edificantes, dá dignidade ao filme, adaptado do romance Tubarão, do escritor americano Peter Benchley.
Há uma polêmica que envolve o filme, similar ao título do clássico O Massacre da Serra Elétrica (2003). Quando divulgado no Brasil com o título traduzido, espectadores alegaram que o instrumento criminal de Leatherface (personagem fictício da série de filmes Slasher The Texas Chain Saw Massacre), é um motosserra, haja vista a impossibilidade de um maníaco utilizar uma serra elétrica nas circunstâncias apresentadas pelo filme.
No caso de Orca – A Baleia Assassina, a questão é polêmica pelo fato da Orca ser parte integrante da família dos golfinhos, não das baleias, o que traz toda uma confusão biológica em torno do animal. A confusão não chega a atrapalhar o roteiro de Luciano Vincenzoni e Sergio Donati, tampouco a direção de Michael Anderson.
Em seus 92 minutos, Orca – A Baleia Assassina nos mostra que é uma história de revanche e vingança justificada. A referência ao clássico Moby Dick, de Herman Melville, (romance publicado em 1851), é evidente. O capitão Nolan é uma versão do Capitão Ahab da obra literária, numa prova de como os fios que entrelaçam essa narrativa são oriundos de uma rede que lembra um rizoma, com colaborações de todos os lados e uma maneira de se espalhar que segue direções variadas e toma de empréstimo elementos da literatura clássica, como textos bíblicos, de histórias da vida real e do próprio cinema, como é o caso desta narrativa que se firmou como o derivado de Tubarão, com maior projeção na época.
Cartaz em Blu-Ray de “Meu Ódio Será Sua Vingança.”
“The Wild Bunch,” EUA, (1969), ou “Meu Ódio Será Sua Herança,” possui uma abertura intrigante onde a uniformidade com a longa e antológica sequência final do longa-metragem. O filme começa com um grupo de policiais uniformizados, montados a cavalo, entrando numa pequena cidade norte-americana decadente. O bando cruza com crianças que brincam no meio da rua, perto dos trilhos de um trem. Algumas tomadas esparsas mostram que a brincadeira infantil é um bocado cruel: os meninos jogaram escorpiões no meio de um formigueiro, e os bichos venenosos estão sendo devorados pelas formigas. Junto, há uma tenda onde um pastor exaltado prega a salvação da alma, ignorando a crueldade infantil contra os animais indefesos.
“Meu Ódio Será Sua Herança” encerra enfocando os remanescentes do mesmo grupo de homens que aparece no princípio. Eles não são policiais, e sim uma quadrilha de assaltantes de banco; aquele era apenas um disfarce, como o espectador logo vai descobrir na movimentada e sangrenta sequência que abre o filme com gosto de pólvora. Não há heróis aqui, nem vilões. Todo o longo espectro de personagens é moralmente questionável.
Na ocasião do fim do longa os foras da lei estão no México, e se dirigem para resgatar um dos membros do grupo, preso por um rebelde paramilitar chamado General Mapache (Emilio Fernandez). O violentíssimo tiroteio que se segue não apenas encerra o filme de maneira brilhante, mas fecha um círculo e explica a cena dos escorpiões da abertura; os escorpiões são uma metáfora para os bandidos.
Os escorpiões são intrigantes porque jamais estiveram no roteiro do longa-metragem. Na verdade, eles foram uma sugestão de Emilio Fernandez, que contou ao cineasta Sam Peckinpah como se divertia no deserto mexicano, quando era menino. Peckinpah percebeu a fascinante simetria e filmou o ataque das formigas aos escorpiões abusando de planos-detalhes. Ao fazê-lo, acabou concebendo uma das aberturas mais estranhas, criativas e interessantes do cinema contemporâneo.
Enquanto filmava nos sets poeirentos do México, é possível que o diretor não soubesse que estava colocando uma pá de cal no já combalido gênero western. Adepto dos chamados westerns crepusculares, que lamentavam a proximidade do fim do gênero por causa do crescente desinteresse das novas gerações de espectadores, “Meu Ódio Será Sua Herança” transportava para a história este lamento. Foi uma despedida honrosa e adequada, já que o filme não é ambientado nos anos de ouro do Velho Oeste, mas em 1913.
Às vésperas da Revolução Mexicana, o antigo código de honra dos homens violentos e beberrões já não valia mais nada. O mundo agora era urbano. Botas viravam sapatos engraxados, revólveres transformavam-se em metralhadoras. A violência migrava dos descampados empoeirados para as cidades grandes. O Velho Oeste dava os últimos suspiros. Esse é o grande tema da obra de Sam Peckinpah, e também o pano de fundo do mais controverso e impactante dos filmes que dirigiu.
Em 1969, “Meu Ódio Será Sua Herança” foi recebido da mesma forma que “Clube da Luta” foi em 1999: sob acusações pesadas de ser hiperviolento e gratuito, até mesmo fascista. Para alguns, Peckinpah glorificava a violência. Reza a lenda que o astro William Holden teve uma violenta briga com o cineasta, após ver o filme pronto e odiar o resultado final. A verdade é que o filme é tremendamente violento mesmo: somente no verdadeiro balé de sangue que é o duelo final, Peckinpah gastou doze dias e mais de 10 mil cartuchos de bala de festim.
Sim, é verdade que o filme apresentou uma nova maneira de representar a violência no cinema, utilizando pela primeira vez a câmera lenta para mostrar mortes. Caprichando no sangue e no estilo, Peckinpah enfatizava o sangue e fazia as mortes ganharem um significado simbólico e poético que ultrapassa a morte em si. No cinema dele, morrer dói pra caramba. Mas muita gente não entendeu.
A péssima recepção do filme pelas plateias no mundo foi ajudada pela estrutura narrativa incomum. Um filme tradicional enfatiza o enredo ou os personagens; “Meu Ódio Será Sua Herança” não faz nenhum dos dois. Pike (William Holden) lidera o bando de assaltantes que se encaminha para uma última missão, que é roubar um trem carregado de armas para um rebelde mexicano. Eles são perseguidos por um grupo, liderado por Deke Thornton (Robert Ryan), cujo objetivo é capturar ou matar Pike.
Os dois já foram parceiros, anos antes, mas algo separou seus caminhos. Nenhum deles é retratado com profundidade; Peckinpah só oferece fragmentos do passado. Pike e Deke são homens duros, que mostram nos rostos cansados e nos ombros caídos o peso dos anos. Ambos são melancólicos. Sabem que estão ultrapassados pelo tempo. Sabem que o fim está próximo.
O grupo de Pike bebe o tempo todo e frequentemente cai na gargalhada com piadas bobas, como se estivesse à beira da histeria. O personagem de William Holden, ruminando as palavras e com o olhar perdido no horizonte, resume perfeitamente o clima do filme: eles pertencem ao passado. Não há futuro possível para gente assim.
“Meu Ódio Será Sua Herança” documenta a melancolia do fim de uma era, a troca de guarda entre duas gerações muito diferentes. À medida que encerrou o tempo dos faroestes e inaugurou a fase da hiper-violência, representou a mesma coisa para Hollywood. Pouquíssimos filmes têm essa honra de serem marcos divisórios. Por isso, este aqui é um clássico inesquecível.
Para tentar compreender por que o western não foi mais o mesmo depois do filme do Poeta da Violência e outros clássicos que vieram depois de cineastas comprometidos com a Arte Cinematográfica, é obrigatório assisti-lo por várias vezes para absorver a ironia refinada do diretor Sam Peckinpah nas cenas de violências, pré-anunciando a morte do gênero, sem contar que a tecnologia está aí para idiotizar as histórias fascinantes dos antigos THE END westernianos. “A Mulher Rei” (2022) é um exemplo cagado e cuspido dessa idiotice tecnológica feminal. Transformou-se uma história rica de fatos bélicos, sangrentos, numa luta de porrinha de boteco na Champs-Élysées de Paris do século XIX, com Goiano Braga Horta servindo CACHAÇA TURMALINA DA SERRA, FABRICADA NA PARAÍNA DE ZÉ LIMEIRA, VESTIDO DE AGROBOY.
a) Trailer MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (The Wild Bunch), de Sam Peckinpah, WARNER, 1969
b) MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969) – Um dos últimos épicos do Faroeste – Minha Crítica
Francis Ford Coppola, com 50 quilos a menos, no cenário da loucura
Assim se pronunciou Francis Ford Coppola quando estava filmando APOCALYPSE NOW no inferno selvagem das Filipinas: Tudo que podia dar errado na filmagem saiu pior. Mergulhamos na brumosa, esquizofrênica e arriscada história de uma gestação cinematográfica nunca igualada.
No caso de Apocalypse Now, a façanha é que quase todos os membros da equipe envolvidos nas filmagens tenham conseguido terminar os trabalhos não enlouquecidos e vivos.
O diretor, Francis Ford Coppola, acompanhou seu protagonista, o capitão Willard, no mergulho à loucura: se a missão do soldado era caçar o coronel Kurtz, a de Coppola era a de concluir um filme que havia começado sem roteiro e sem final. O diretor reconheceria ter contemplado o suicídio por três ocasiões ao longo dos quatro anos de produção, quando tudo o que podia dar errado deu errado. E quando tudo o que ninguém pensado em ocorrer, saiu pior. Acredita ele que, se não tivesse levado a família ao set nas Filipinas para lhe compartilhar as loucuras das filmagens, teria se suicidado.
Apocalypse Now, que estreou no verão de 1979, portanto há 46 anos, era segundo o diretor de fotografia Vittorio Storaro, “um quadro da imposição de uma cultura sobre a outra e da vontade que os americanos têm de transformar tudo em espetáculo”: se os soldados reais colocavam rock and roll para bombardear povoados vietnamitas, os do filme escutavam Cavalgada das Valquírias, de Wagner. Se o exército arrasou com o Vietnã com explosões de napalm, Coppola rodaria a maior explosão já produzida fora de uma guerra. Com 11 milhões de dólares de orçamento (mesma quantia de Star Wars, de George Lucas), Apocalypse Now seria o primeiro blockbuster de arte e ensaio.
Tudo era loucura nas filmagens de Apocalypse Now: Steve McQueen, Al Pacino, Robert Redford e Jeck Nicholson recusaram o papel do protagonista principal Willard. Coppola contratou o ator Harvey Keitel, mas depois de três semanas de filmagens o dispensou, após perceber que o estilo do ator não se encaixava ao do personagem. Pegou o avião e viajou aos Estados Unidos e lá encontrando no Aeroporto Martin Sheen e o levou para o inferno das Filipinas para travar sua batalha com os demônios do coronel Kurtz.
A possibilidade de perder tudo provocava uma euforia poderosa em Copolla, que parecia ser mais criativo e produtivo sobre pressão – segundo afirmava Eleonor Coppola, a esposa. A última etapa da rodagem ficou a cargo de Francis Ford Coppola, 50 quilos mais magro, que insistia em prosseguir na iniciativa, apesar dos sinais de advertência. Os trabalhadores tinham disenteria quase diariamente, o ator que interpretava o surfista Lance (Sam Bottoms) aparecia sempre chapado com speed, maconha ou LSD, porque toda a equipe caia na farra de madrugada, os animais selvagens espreitavam as tendas de campanha durante a noite, as associações de defesa dos animais haviam denunciado o sacrifício de um búfalo para a filmagem da cena final e a United Artists pretendia reduzir o valor do seguro de vida de Coppola. Sua vida já não valia tanto quanto no início da empreitada de Apocalypse Now, mas era preciso terminar “Coração das Trevas”, ainda que fosse (literalmente) a única coisa que fizesse na vida. Só assim o investimento seria justificado ante os credores. A essa altura, Coppola já estava convencido de que o filme seria espantoso.
Depois de 238 dias na selva das Filipinas, com muita loucura na mata e muita gente pirada, cinquenta por cento mais magros, Martin Sheen infartado sem os executivos da United Artists saberem, Francis Ford Coppola termina as filmagens de Apocalypse Now se livrando dum problema sério chamado Marlon Brando. Num dos diálogos mais interessante dos bastidores das filmagens, Francis diz a Eleanor Coppola, sua esposa: “Eu tenho três semanas de filmagem com Brando e Hopper e cheguei à conclusão de que não vale a pena tentar seguir nenhum roteiro. Vou simplesmente pedir que eles improvisem e vamos filmar tudo. Com muita sorte, vamos conseguir algo que se assemelhe a um final. Porque eu não tenho um final para esse filme! É um desastre completo!”…
No dia do lançamento do filme, Coppola aproveitou a oportunidade para fazer uma advertência sobre Hollywood que foi recebida com escárnio: a imprensa o ridicularizou, concluindo que tinha ficado definitivamente pirado por culpa da filmagem de Apocalypse Now. Qual foi a aberração que Coppola se atreveu a profetizar? “Preparem-se, porque a tecnologia digital está a ponto de mudar o cinema para sempre.”
Felizmente, o tempo não deu razão a Francis Ford Coppola: Apocalypse Now é uma obra-prima, filosófica, eterna. Mas a tecnologia digital imbecilizou os filmes de arte, que antes eram feitos na raça, na tora, na coragem, beirando a loucura. Hoje o mouse substituiu o set de filmagem.
A cinebiografia de Margaret Thatcher da diretora britânica Phyllida Lloyd, com Meryl Streep numa interpretação memorável, impagável, inesquecível de A Dama de Ferro, se utiliza da velha forma de apresentar a protagonista já idosa e, a partir de suas lembranças, exibir seus feitos do passado, com flashbacks não sequenciais da personagem. Uma tática explorada à exaustão no cinema.
Antes de se posicionar e adquirir o status de verdadeira Dama de Ferro na mais alta esfera do poder britânico, Margaret Thatcher (Meryl Streep) teve que enfrentar vários preconceitos na função de primeira-dama do Reino Unido em um mundo até então dominado por homens. Durante a recessão econômica causada pela crise do petróleo no fim da década de setenta, a líder política tomou medidas impopulares, visando à recuperação do país. Seu grande teste, entretanto, foi quando o Reino Unido entrou em conflito com a Argentina na conhecida e polêmica Guerra das Malvinas. Eventos como os confrontos com os trades unions (os sindicatos britânicos), também foram relevantes para sua biografia, mas foram esquecidos no filme.. Lançado em 2012, A Dama de Ferro é a biografia cinematográfica desta figura magna, controversa, que foi chefe de estado de 1979 a 1990, e era conhecida por seus posicionamentos firmes e inflexíveis, não por ser uma megera horrível, mas porque precisava se impor dentro do universo masculino. O grande triunfo da produção foi ter escolhido Meryl Streep para interpretar a personagem principal, uma atuação que lhe valeu, por mérito, o Oscar, o Globo de Ouro e o Bafta de Melhor atriz em 2012.
No roteiro de Abi Morgan, a trama segue a estrutura tradicional de transitar entre o presente e o passado da vida da Baronesa Thatcher. Neste caso, há um interessante dado biográfico que justifica algumas transições de cena e tempo: Lady Thatcher estava senil, apresentando sinais de demência nos últimos anos. A primeira cena do longa-metragem apresenta uma idosa de lenço na cabeça comprando uma garrafa de leite, caminhando por uma Inglaterra que ela desconhece, em um misto de confusão mental e de uma país que não mais lhe pertence. A imagem pontua bem o distanciamento da primeira ministra nos últimos anos de vida.
É nas idas e vindas entre passado e presente que Meryl Streep e Jim Broadbent brilham. Mesmo em poucas cenas, o velhinho Denis conquista pelo carisma, demonstrando o companheirismo da relação com Thatcher e, em nenhum momento é eclipsado pelo talento de Steep, sem dúvida a grande estrela que brilha neste filme.
Parte do sucesso desta interpretação se deve à maquiagem esmerada da também vencedora do Bafta e Oscar, Marese Langan, que não só a transformou em uma Thatcher mais jovem como desenvolveu uma maquiagem realista para a velhice, dando total credibilidade física à personagem. Enquanto Streep compõe a personagem desde sua postura, na velhice curvada e com dificuldades de andar, para a forte senhora de passos firmes do parlamento.
Definitivamente não é uma obra prima. No entanto, para quem acompanhou um pouco da história no período em que Margaret Thatcher foi primeira ministra, o filme tem a virtude de manter a atenção do público. A excelente interpretação de Meryl Streep com certeza é o ponto alto.
Quanto a forma de apresentar a primeira ministra, não estou certo de que seja a melhor. Partindo de sua senilidade e intercalando trechos da história da premier, de alguma maneira, o filme deixa nublada a extensão de sua influência, ao deixar de fora a possibilidade de discutir os pontos de vista que a fizeram tão controversa.
Quem vive de ilusão é urubu de curtume – Jessier Quirino.
Capa do LP Encontro com Adelino Moreira (1967)
Nascido em Gondomar, Portugal, em 28 de março de 1918, Adelino Moreira de Castro, nome artístico Adelino Moreira, veio morar no Brasil, Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro, com apenas um ano de idade. Foi o maior compositor luso-brasileiro interpretado por Nelson Gonçalves. Entre suas obras-primas destacam-se Última Seresta (a primeira a ser gravada), A Volta do Boêmio, A Deusa do Asfalto (reinterpretada magistralmente por Xangai), Boêmia, Negue, Escultura, Flor do Meu Bairro, Fica Comigo Esta Noite, Devolvi (esta gravada por Núbia Lafayette), Ciclone (interpretada por Carlos Nobre), Cinderela, Beijo Roubado, Êxtase, Última Serenata, e tantas outras excelentes composições de amores suburbanos dramáticos gravadas principalmente por Nélson Gonçalves, seu intérprete maior.
Iniciou sua carreira musical a convite do compositor Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, então diretor artístico da Continental, onde gravou, em 1944, os fados Saudades e Olhos d’alma, de Campos e Morais. Em 1945, começou a tocar violão. Nesse mesmo ano, gravou seu segundo disco com as primeiras composições: o samba Mulato Artilheiro e a marcha Nem Cachopa, Nem Comida!. Esta, uma parceria com Carlos Campos. Em 1946, gravou as canções A Minha Oração e Perdoa, de Moreno e Ferreira e as marchas Num Coração, duas Pátrias, de Renato Batista e O Expresso Continua, de sua autoria com Américo Morais. Em 1948, voltou a Portugal, gravando canções brasileiras. Lá, participou como cantor da revista Os Vareiros. Retornando ao Brasil, no início dos anos 1950, abandonou a carreira de cantor, intensificando sua atividade de compositor.
Em 1952, conheceu o cantor Nelson Gonçalves e iniciaram uma intensa parceria. Em geral Adelino compunha e Nelson gravava, mas em algumas músicas como o bolero Fica Comigo Esta Noite, os dois assinaram em dupla. A primeira canção gravada por Nelson foi Última Seresta (1952), seguida de inúmeras outras que passaram a dominar os discos do cantor – normalmente sambas-canções dramáticos – dos quais se destacam o clássico A Volta do Boêmio (que vendeu a astronômica cifra de um milhão de cópias), Meu Dilema, Meu Vício É Você, Doidivana, Flor do Meu Bairro, entre outras.
Durante uma década (1955-1965) Adelino Moreira foi uma máquina de sucessos, provando que era mais forte do que seus intérpretes. Quando se afastou de Nelson Gonçalves, em 1964, num período conturbado da biografia do cantor, Adelino começou a distribuir composições para outros intérpretes. Um dos maiores sucessos de 1959 foi o samba-canção Ciclone que fez para Carlos Nobre, um dos muitos imitadores de Nelson Gonçalves, com quem reataria a amizade dois anos depois. Adelino alegou, na época, que só deu a música para Carlos Nobre para que Nelson Gonçalves entendesse que não era insubstituível.
Foi uma amizade de ótimos resultados financeiros para Adelino Moreira. O sucesso de Argumento, Meu Desejo, Êxtase, Meu Vício é Você e, sobretudo, A Volta do Boêmio, renderam a Adelino Moreira, em 1960, o suficiente para comprar, à vista, um palacete por seis milhões de cruzeiros na Zona Norte carioca, andar de carro importado e deixar de lado os “bicos” (como aprendiz de teatrólogo, sem muito êxito, e radialista).
Sabia como ninguém a fórmula do sucesso e seus limites. Não aderia a modismos. Suas composições eram basicamente do samba-canção (e marchinhas carnavalescas). Em suas letras pintavam cenários suburbanos, habitados por manicures, mariposas (mulheres atraídas pelas luzes das casas noturnas), cinderela e uma fartura de desencontros amorosos.
Em 1962, num programa de TV, sendo entrevistado pelo cultuado e admirado compositor de Aquarela do Brasil, Ary Barroso, este se queixou a Adelino Moreira de não fazer mais sucesso e perguntou se ele poderia lhe explicar o motivo. Mesmo estando de ante de um mito da música popular brasileira, que morreria dali a dois anos, Adelino Moreira não se deixou por rogado, e fulminou naturalmente: “O senhor começou a compor músicas para meia dúzia de criaturas que o endeusam e colocam o senhor no lugar em que o senhor não se encontra. O senhor se esqueceu completamente daquela massa que o elegeu como o maior compositor brasileiro até dez anos atrás. Se o senhor volta a compor para essa massa popular, voltará a fazer o mesmo sucesso.”
O compositor Fernando César, de grandes sucessos no início dos anos 1960, especialistas em versões (fez, por exemplo, a de Marcianita para Sérgio Murilo), definiu com precisão a música de Adelino Moreira: “O Adelino escreve pra gente que toma traçado (coquetel de cachaça com vermute), frequenta botequins, vai ao enterro de todos os amigos, dá cabeçadas nas vitrinas, usa sapato preto com meia branca, diz ‘com o perdão da palavra’ quando fala em suínos, e ‘Deus te ajude’ quando alguém espirra, ou seja, escreve para a grande maioria.”
Adelino Moreira morreu em 2002, com 84 anos, de um infarto, um óbito que ganhou grande cobertura da imprensa. Àquela altura, sua obra tinha sido reavaliada e ele desfrutava o status de mestre da MPB. Artistas de nichos diferentes o regravaram. Maria Bethânia deu uma interpretação definitiva a Negue, trazendo-a de volta às paradas e ao estrelato merecido em 1983 (no álbum Álibi). Em 2001, Negue foi incluída no CD São Vicente di Longe, de Cesária Évora. A banda mineira Pato Fu gravou A Volta do Boêmio, em 1995, no CD Gol de Quem? Sem contar as interpretações feitas pelo grupo Camisa de Vênus, em 1991, Ney Matogrosso e o genial violonista Rafael Rabelo. Em 1980, Ângela Ro Ro fez uma releitura de Fica Comigo Esta Noite – música que foi faixa-título do CD da cantora Simone em 2000 – e, em 1998 as irmãs Alzira e Tete Espíndola reviveram Garota Solitária.
Adelino Moreira não era bem visto pela crítica high society da burguesia metida a bunda da bossa nova, tanto é que o produtor Valter Silva, conhecido como Pica Pau, recusava-se a apresentar as músicas dele no programa que tinha na Rádio Bandeirantes. Mas o grande compositor de ‘Deusa no Asfalto’ e ‘A Volta do Boêmio’ não perdeu a pouse e a classe e o fulminou nos versos do samba-canção ‘Seresta Moderna’ cantada por Nelson Gonçalves: ‘Um gaiato cantando sem voz/um samba sem graça/desafinado que só vendo/e as meninas de copo na mão/fingindo entender/mas na verdade, nada entendendo.’
Deusa do Asfalto, em excelente interpretação de Xangai
Quando Clint Eastwood encarnou seu “pistoleiro sem nome” na célebre Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, o gênero western ganhou um novo padrão. Não mais o cowboy bom-moço de outros clássicos do gênero, como os interpretados por John Wayne. Agora o protagonista demonstrava claramente sua moral duvidosa e seus óbvios traços de cinismo. Não é segredo para ninguém que ali o protagonista de western ganhou contornos bem mais humanos e quase que fronteiriços entre o herói e o anti-herói. Também seria óbvio dizer que os irmãos Coen conheciam muito bem essa evolução quando filmaram Onde Os Fracos Não Tem Vez. Mas a obra-prima de 2007 é muito mais que um simples padrão modernizado do gênero. Os diretores adicionaram elementos que modificaram sua estrutura e seu espírito. Se o longa-metragem o subverte ao dar o protagonismo a um anti-herói inequívoco, ele acaba também por modificar os próprios moldes dos vilões tradicionais, já que Anton Chiguhr é em tudo atípico.
Qualquer análise sobre Onde Os Fracos Não Tem Vez gravitará necessariamente em torno de seu anti-herói – um dos grandes vilões da história do cinema. Javier Bardem interpreta Chiguhr de modo assombrosamente inspirado e o compõe de uma série de maneirismos que revelam sua frieza, sua soberba e sua completa loucura. Seu corte de cabelo excêntrico parece ser usado por ele como uma ironia ou um deboche. Impressiona seu ritualismo a cada cena. Ele caminha calmamente até suas vítimas e dialoga com elas sem jamais se exaltar. O personagem decide com lances de uma moeda se seu interlocutor morrerá ou viverá.
Anton Chiguhr nega o livre arbítrio. Seus atos são reflexos de uma força que não demora a se revelar – o psicopata dos irmãos Coen encarna a própria força da morte. Irreprimível e atemporal. Nenhum dos personagens do longa-metragem apresenta registros de historicidade. Nada sabemos sobre eles. Nem suas motivações nem seus objetivos. Presente, passado e futuro tornam-se um só.
Texas, década de 80. Um traficante de drogas é encontrado no deserto por um caçador pouco esperto, Llewelyn Moss (Josh Brolin), que pega uma valise cheia de dinheiro mesmo sabendo que em breve alguém irá procurá-lo devido a isso. Logo Anton Chigurh (Javier Bardem), um assassino psicótico sem senso de humor e piedade, é enviado em seu encalço. Porém para alcançar Moss ele precisará passar pelo xerife local, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones). Excelente filme que demorei muito para assisti. Um filme bem tenso e para deixar mais tenso ainda o telespectador o filme não tem trilha sonora e com uma brilhante atuação de Javier Bardem, com uma boa fotografia soberba. Oscar merecido.
“Onde os Fracos não têm Vez” é, sem dúvida o auge dos irmãos Coen, que aqui fazem um trabalho de mestre em um filme que faz uma reflexão sobre os tempos de violência.
O filme acompanha um ex militar Llewelyn Moss que encontra em um cenário de crime uma maleta contendo 2 milhões de dólares. Ele decide levar para casa mesmo sabendo que vai dar errado. Um psicopata sem senso de humor e que mata com frieza é contratado para achar o dinheiro e inicia sua caçada deixando rastos de morte por onde passa, paralelamente o Xerife Bell está na caçada não só pelo assassino quanto por Llewelyn.
O filme é uma adaptação do livro escrito em 2005 por Cormac McCarthy chamado de No Country For Old Men, É escrito e dirigido pelos saudosos irmãos Coen que aqui achamacha seu melhor trabalho. É um filme profundo e cheio de camadas, definitivamente não é para todos já que os diretores adotam um ritmo lento e os diálogos são feitos para serem interpretados. Aliás eles estão muito inspirados aqui, cada personagem é brilhantemente bem escrito.
O filme tem como protagonismo o personagem Bell, veterano da polícia, o filme abre com um “voice over” com ele relembrando o pai e avô dele na época que eles trabalhavam na polícia, desse diálogo podemos tirar a sacada do filme, de que os tempos mudaram (ou não já que temos outro diálogo lá para o fim), agora o mundo é cheio de violência, o ser humano não possui mais bondade, são todos cheio de maldade e frieza, não se importando com o bem estar da sociedade, lá para o fim existe uma conversa entre Bell e seu tio onde podemos refletir se os tempos realmente mudaram ou se sempre nos humanos fomos violentos. São diálogos simples com grandes significados e as atuações são perfeitas.
Tommy Lee Jones está extraordinário. É uma atuação simples, mas que passa muita sinceridade. Josh Brolin é outro com grande atuação, é um homem comum que não se distanciou da guerra e que vê no dinheiro uma forma de mudar seu destino. É outro com muitas camadas. Temos boas participações de Woody Harrelson e Kelly Macdonald. Mas a alma do filme é Javier Bardem, aqui ele incorpora um dos maiores psicopatas da história do cinema e uma das melhores atuações masculinas da história. É um personagem muito frio, intenso e que tem uma “conduta de moral” distorcida para praticar suas atrocidades.
Os Irmãos Coen criaram um visual e fizeram uma escolha de ator para o papel na medida. O ator possui uma caracterização marcante com um cabelo e exótico e uma arma de crime absolutamente fora dos padrões. É a atuação do Bardem é assustadora. O olhar dele é assustador e passa muito de suas emoções, sua maneira de cometer os crimes é banal e fria, um fascinante estudo de personagem. Para auxiliar no suspense da obra, os Coen preferiram não adicionar trilha sonora, e com isso temos um filme tenso e bem trabalhado nesse western moderno.
O roteiro para variar é brilhante, sabendo dar profundidade nos personagens e na história em si em cima dos diálogos e das metáforas presentes no filme. A fotografia é excele, o design de produção é muito bom e o trabalho com o som é outro destaque da parte técnica além dos enquadramentos de câmera.
O longa concorreu em 8 categorias, saindo vencedor em melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator coadjuvante para Javier Bardem. “No Country For Por Men” é um filme brilhante, cheio de profundidade dos personagens e com uma grande mensagem de um mundo onde é dominado pelos fortes e os fracos realmente não tem vez, um mundo caótico onde a injustiça infelizmente reina.
Onde os Fracos Não Têm Vez – Trailer Legendado
A História Por trás de Onde os Fracos Não Têm Vez!
“Diz a sinopse do filme CARMEN JONES (1954), o extraordinário musical operístico: Impulsionado pela poderosa obra musical de George Bizet e as magníficas letras de Oscar Hammerstein II, esta versão americanizada da clássica ópera Carmen de Bizet é ‘um show dinâmico e soberbo’ com uma incandescente Carmen no auge de sua exuberância musical.”
Dorothy Dandridge, indicada ao Oscar de melhor atriz, estrela do papel principal, uma ardente e sexy criatura que cativa Joe, (Harry Belafonte), um soldado atraente, que está longe de sua amada (Olga Jemes).
Após uma briga fatal com seu sargento, Joe deserta (abandona) seu regimento com sua excitante “femme fatale.”
Porém, logo Carmen se cansa dele e se une a um lutador peso pesado (Joe Adams), disparando a trágica vingança de Joe. Ajudando a colocar fogo na tela estão Pearl Bailey e Diahann Carroll, parte do “sensacional” elenco que torna esse maravilhoso musical “difícil de ser batido” (como bem resumiu o Los Angeles Times) na época do lançamento do filme.
Carmen Jones é uma ópera francesa, adaptada e traduzida musicalmente para as terras americanas, com talento e muita criatividade por gente talentosa que conhece o que faz e o faz com muita competência, catilogência, muito talento e muito amor à arte cinematográfica.
O que veio depois desse clássico musical (se é que veio alguma coisa do gênero), foram chanchadas salobras sem qualquer originalidade e não nos vem à memória nada que possa ser citado como produção de qualidade, mesmo a propalada ressurreição do gênero pelo pretensioso musical “LA LA LAND”, que a nosso ver foi um grande fiasco, como já era esperado pelos amantes dos musicais de qualidade e pela crítica de filmes desse naipe.
Esse breve intróito serve apenas para lembrar aos possíveis leitores que no passado do cinema, no ano de 1954, foi levado à telona uma obra-prima do gênero musical, uma grande ópera, traduzida e regiamente adaptada pelos expertis hollywoodianos, no que resultou em uma das maiores obras do gênero musical de todos os tempos.
Referimo-nos à famosa e popular ópera CARMEN DE BIZET. Hoje em dia chamar uma ópera de popular é quase uma falácia, mas creiamos mesmo que a ópera Carmen sempre foi a mais encenada, principalmente nos países latinos ou europeus de língua de origem latina.
Os produtores entregaram ao muito competente diretor Otto Preminger, outrora à frente da direção de Laura (1944), Anatomia de Um Crime (1959), Exodus (1960), O Homem do Braço de Outro (1955), a direção do filme e o resultado ficou acima de todas as expectativas. O diretor, com muita criatividade, exigiu um elenco totalmente de atores negros, pois nem mesmo nas cenas externas de rua das cidades em que foram filmadas, encontra-se uma única pessoa de cor branca. É um mundo black em todos os sentidos, e esse mundo é explorado com precisão em todas as cenas, com o comportamento dos personagens, suas reações, suas falas características, com sotaques “nigger”.
As árias, belamente adaptadas, são cantadas também com sotaques dos “niggers”, como por exemplo, quando Carmen na primeira ária, a famosa “Habanera”, ela canta num inglês crioulo, com gesticulação, sotaque e palavras adaptadas para o regionalismo criado. A ária “Habenera” da ópera é então cantada como “DAT’S LOVE’, exibindo um regionalismo local muito enraizado. Isso acontece em todo o filme, porém com grande qualidade, cujo resultado é acima do esperado.
A atriz principal, Dorothy Dandrige, é um achado, ninguém melhor do que ela seria capaz de interpretar esse papel com tanta criatividade, beleza, sensualidade e um carisma impressionante. Ficou famosa mundialmente e depois desse estrondoso sucesso viajou pelo mundo, se exibindo como cantora, inclusive algumas vezes no Brasil para a exibição de sua arte. Ela foi a primeira atriz negra a ser candidata ao prêmio Oscar como atriz principal.
Acontece que no filme quem dubla a cantora Marilyn Hornen, que a dubla em todas as canções, isto porque a atriz Dorothy Dandrige tem uma voz muito pequena e não poderia dar conta do recado completamente.
O elenco é de astros de grande qualidade, principiando com o trabalho notável do cantor Harry Belafonte que se sai muitíssimo bem em todas as cenas dramáticas exigidas pelo papel.
Uma das principais personagens é interpretada pela ótima cantora Pearl Bailey que usa sua própria voz em algumas oportunidades com excelente resultado.
O ator que faz o papel do boxeador famoso (na ópera, um toureiro), Leverne Hutcherson, tem a sua grande oportunidade ao interpretar a ária (toureador) que no filme foi adaptada com grande criatividade e bela interpretação dublada por um Baixo, e nos dá uma magnífica personificação de um pugilista famoso e interpreta magnificamente a famosa ária que foi intitulada “Stand up and fight”, é um dos pontos altos do filme.
O quinteto operístico também está presente, numa bela composição intitulada “Chicago Train”, muito bem cantada a cinco vozes com precisão notável.
Enfim, todas as fases da ópera foram adaptadas belamente com resultados acima do esperado e quando termina o filme, ficamos deslumbrados com tamanha criatividade artística.
Há que se citar também a presença e voz da cantora Diahann Carrol num papel secundário, mas com uma presença de tela bastante agradável. CARMEN JONES é um filme musical operístico único. Uma bela obra de arte cinematográfica. Assisti-lo cinqüenta vezes, se necessário for, é um presente para o lado bom gosto do cérebro, que não se cansa de sentir o que é belo.
Carmen Jones (trailer)
Carmen Jones (1955): “Beat Out dat Rhythm on a Drum” – Pearl Bailey – Full Song/ Dance – Musicals
José Bezerra da Silva, nome artístico Bezerra da Silva, nasceu no Recife. Era filho de Hercília Pereira da Silva e Alexandrino Bezerra da Silva, que abandonou a mãe quando esta estava grávida do filho, e se mandou para o Rio de Janeiro para se aventurar na Marinha Mercante e raparigar, o que era muito comum na época.
Aos quinze anos, percebendo que o Recife não teria futuro para ele, Bezerra da Silva, também se foi para o Rio de Janeiro tentando encontrar o pai, viajando no navio cargueiro transportador de açúcar. Lá o encontrou, mas com poucos meses de convivências começaram a ter atritos e o jovem Bezerra da Silva escafedeu do lar paterno em busca do seu fado.
Começou a trabalhar no ramo da construção civil, já que não sabia fazer outra coisa. Nessa época começou a desenvolver a verve musical a partir do coco de Jackson do Pandeiro, e logo ingressou no bloco carnavalesco Unido do Canta Galo, tocando tamborim. Em 1950, conheceu José Alves, ou Doca, conhecido como um dos autores da música “General da Banda”, ao lado de Tancredo Silva e Sátiro de Melo, todos moradores do Morro do Cantagalo, que logo convidaram Bezerra da Silva para participar do “Programa da Rádio Clube do Brasil” como ritmista.
Boêmio e malandro, Bezerra da Silva foi detido por várias vezes, que acabou sendo demitido do programa. Durante muitos anos viveu como morador de rua em Copacabana. Nessa época chegou a tentar o suicídio, mas foi salvo e acolhido por um Terreiro de Umbanda. Lá, descobriu sua mediunidade e soube, através de uma mãe de santo, que o seu destino era a música.
Com o nome artístico de José Bezerra, teve suas primeiras composições “Acorrentado” e “Leva teu Gereré”, em parceria com Jackson do Pandeiro, lançadas no primeiro álbum da carreira do paraibano, em 1959. Na primeira metade da década de 1960, ingressou na orquestra da gravadora Copacabana Discos, que acompanhava vários artistas de renome, e também teve novas composições, assinadas com outros músicos, gravadas por Jackson do Pandeiro, como “Meu Veneno” (com Jackson do Pandeiro e Mergulhão), “Urubu Molhado” (com Rosil Cavalcanti), “Babá” (com Mamão e Ricardo Valente, “Criando Cobra” (com Big Bem e Orlandes Rodrigues) e “Preguiçoso” (com Jackson do Pandeiro). Acrescendo ainda que em 1965, a cantora Marlene gravou “Nunca Mais” (uma parceria de Bezerra da Silva e Norival Reis).
Em 1967, compôs seu primeiro samba, chamado de “Verdadeiro Amor”, que foi gravado por Jackson do Pandeiro. No final daquela década, mudou o nome artístico para Bezerra da Silva e, em 1969, gravou um compacto simples pela Copacabana Discos, com as músicas “Mana, Cadê meu Boi?” e “Viola Testemunha”; no seu primeiro LP, “Bezerra da Silva – O rei do Coco, Volume I”, seria apenas lançado em 1975, pela gravadora Tapecar, e teve como destaque a canção “O Rei do Coco”. No seguinte, pela mesma gravadora, lanço “Bezerra da Silva – O Rei do Coco II”, cuja música de maior destaque foi “Cara de Boi”.
Anos depois, Bezerra da Silva conheceu a mulher que mudava completamente sua vida pessoal e artística, Regina do Bezerra, pseudônimo de Regina de Oliveira, compositora e produtora musical, nascida em 1953 no Rio de Janeiro, mas só se casando com ele em 2004, um ano antes da morte de Bezerra.
Bezerra da Silva, após a união com Regina de Oliveira, teve sua carreira artística deslanchada, pois ela foi a grande responsável por composições que marcaram a vida artista do sambista dos morros e das favelas.
A conferir:
Compôs a música “Meu Pai é General de Umbanda” junto com Jorge Garcia e 1000tinho, a música foi gravada por Bezerra da Silva e ele a lançou em 1987 no seu Álbum “Justiça Social.”
Compôs a música “O Bom Pastor” junto com Pedro Butina, a música foi gravada pelo Bezerra da Silva e ele lançou a música em 1989 no seu Álbum “Se Não Fosse o Samba.”
Compôs a música “O Filho de Jurema” junto com o próprio Bezerra da Silva, a música foi gravada pelo Bezerra da Silva e ele lançou a música em 1990 no seu Álbum “Eu Não Sou Santo.”
Compôs a música “Instinto Traíra” junto com Pedro Butina, a música foi gravada pelo Bezerra da Silva e ele lançou a música em 1992 no seu Álbum “Presidente Caô, Caô.”
Compôs a canção “O Segundo Nazareno” e a canção foi gravada pelo Bezerra da Silva e ele lançou a música em 1993 no seu Álbum “Cocada Boa.”
Compôs a música “O Juramento Jurou” junto com Mário Gogó e Gil de Carvalho, dentre várias composições que ela fez esta música se destaca.
Compôs a música “Tem Coca Aí Na Geladeira” e a música foi gravada pelo Bezerra da Silva e ele lançou a música no ano 2000 no seu Álbum “Malandro é Malandro e Mané é Mané.”
Em 2004 fez a produção do primeiro Álbum gospel do cantor Bezerra da Silva que se chama “Caminho da Luz.”
Henry Fonda, Claudia Cardinale, Sergio Leone, Charles Bronson e Jason Robars no set de filmagem da obra-prima Era Uma Vez no Oeste
Nascido em Roma, Itália, em 03 de janeiro de 1929 e encantado em Roma, Itália, em 30 de abril de 1989, Sergio Leone teve uma carreira curta, mas extremamente profícua, legando-nos uma filmografia invejável que, dentre outras qualidades, revelou grandes artistas, como o desconhecido ator americano Clint Eastwood e o maestro italiano Ennio Morricone, que devem sua vitoriosa carreira a Leone que, basicamente consolidou, sozinho, uma subcategoria cinematográfica batizada carinhosamente de spaghetti western.
Filho de Vincenzo Leone, um dos pioneiros do cinema e de Edvige Valcarenghi, atriz do cinema mudo, Sergio Leone nasceu no seio da Sétima Arte e ainda teve a oportunidade de estudar na escola, durante um tempo, com ninguém menos do que Ennio Morricone com quem faria uma inesquecível parceria. Assim, já com 18 anos, o futuro diretor de “Era Uma Vez no Oeste” começou a trabalhar com cinema, largando a faculdade de Direito e se tornando assistente do lendário Vittorio de Sica quando este filmava o clássico “Ladrões de Bicicletas”, em 1948. Melhor professor ele não poderia ter!
Sua carreira na Cinecittà, famoso estúdio italiano, lar de nomes como o do mestre Federico Fellini e então centro das atenções das produções audiovisuais épicas americanas, o levou a trabalhar em produções do gênero “espada e sandálias”, como “Quo Vadis” e “Ben-Hur,” tendo inclusive a oportunidade de escrever alguns roteiros menores. Em 1959, durante o final das filmagens de “Os Últimos Dias de Pompeia”, Mario Bonnard, o diretor, ficou doente e Sergio Leone teve a oportunidade, com trinta anos, de sentar na cadeira de diretor, apesar de nunca ter recebido créditos na tela pelo trabalho.
Em 1964 o genial diretor Sergio Leone transpôs o clássico de Akira Kurosawa, Yojimbo, para o oeste selvagem e lançou, com “Por Um Punhado de Dólares,” primeiro filme da consagrada Trilogia dos Dólares, os fundamentos do subgênero spaghetti western. Leone, na direção, Clint Eastwood, um ator americano na época de segunda e cuja popularidade devia-se apenas a um enlatado de TV, a série da CBS Rawhide, e a trilha de Ennio Morricone. Com Leone, o western spaghetti virou ópera, porque ele adorava os planos próximos, na cara dos atores. Para criar tensão, estendia a duração da cena e utilizava a música como personagem suspense.
Seu personagem marcante é o “Homem sem Nome”, nem de longe um herói. No geral, um caçador de recompensas. Foi assim que Clint Eastwood atravessou “Por Um Punhado de Dólares”, “Por Uns Dólares a Mais” e “Três Homens em Conflito”, virando astro consagrado. Em 1968, com a obra-prima “Era Uma Vez no Oeste”, Leone fez a súmula do seu spaghetti western.
Na década seguinte, em 1971, Sergio Leone dirigiu o filme mais político e violento de sua carreira e o menos compreendido pela crítica e público, situado na fase mais brutal da Revolução Mexicana: “Quando Explode a Vingança”, que ele queria apenas produzir, mas acabou dirigindo por se desentender com o então diretor Sam Peckinpah. Em seguida, ele partiu apenas para a carreira de produtor, ocasionalmente voltando à direção parcial, especificamente em duas direções não tendo seu nome creditado: “Meu Nome é Ninguém” e “Trinitty e Seus Companheiros.”
Somente treze anos depois de dirigir seu último filme completo, Sergio Leone encerraria sua carreira cinematográfica em 1984, com uma das melhores obras de gângster já produzida na história do cinema – “Era Uma Vez na América” – e isso depois de recusar a direção de nada menos do que “O Poderoso Chefão.” Acontece que “Era Uma Vez na América,” que originalmente tinha quatro horas de duração, foi selvagemente cortado pelo estúdio e, além disso, foi mal recebido pelo público. Isso deixou Leone desgostoso, o que acabou afastando-o de Hollywood.
Um ataque cardíaco, em 1989, levou esse genial diretor provavelmente para uma planície desértica, cercada de homens barbados de olhos azuis penetrantes, tipo o matador de ERA UMA VEZ NO OESTE, mulheres lindas, poeira e música de fundo com vozes e gaitas. Um lugar que certamente ele ajudou a criar e onde sempre se sentiu muito bem!
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O cineasta que ousou reinventar o faroeste americano na Itália e o pau da crítica arrogante