CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

TRÊS IRMÃOS EM CONFLITO

Tipo de armazém de secos e molhados da época, a semelhança do Seu Cirilo

Seu Cirilo era um comerciante mulherengo. Em cada bairro onde tinha um armazém de secos e molhados, possuía um rabo de saia para “furar o couro” a cada dia da semana.

De todas as mulheres com quem teve “um caso”, só Dona Dóris teve três filhos dele, um macho e duas fêmeas. Até hoje não se sabe por que as outras não embucharam dele…

Seu Cirilo não era agiota, mas desenvolveu um método infalível de se apossar das casas dos devedores do seu armazém: quando percebia que o devedor estava com a caderneta de débito a perigo, intimava-o a trazer “a escritura da casa” como garantia do débito e, quando este chegava a determinado patamar, pagava a diferença do valor do imóvel previamente combinado e expulsava o devedor. Por causa desse modo de pressão infalível, Seu Cirilo conseguiu angariar um patrimônio que dava inveja a qualquer comerciante da redondeza.

Antes de falecer, Seu Cirilo havia deixado dois imóveis “apalavrados” para cada filho. Três para a esposa, fora os três armazéns de secos e molhados que, um ano depois de sua morte, fecharam as portas porque os filhos não se entendiam na condução gerencial.

Após a falência dos três armazéns por falta de direção, cada filho, de posse de suas casas e apartamentos dados verbalmente pelo pai em vida, tomou seu rumo na estrada, e passaram a se desentender cada vez que um falava para o outro que queria vender um imóvel “doado” pelo pai para tocar a vida. Nenhum assinava em favor do outro qualquer termo de renúncia, mesmo sabendo que isso era condição necessária para dirimir qualquer dúvida e dar segurança jurídica para quem estava comprando.

Interessante é que os filhos de Seu Cirilo viviam socados na igreja todos os sábados e domingos justamente orando às pessoas que estivessem passando por esse tipo de situação. ”Oh! Pai! Antecedei junto a teus filhos para que não haja desavença entre eles!” “Que eles vivam em harmonia! Amém!” – suplicavam ajoelhados!

Enquanto oravam para Deus para mostrar um caminho, Maria procurava João para que assinasse um termo de anuência e esse se negava terminantemente! João procurava Josefa para que assinasse um termo de concordância para ele vender a casa e esta dizia não! Josefa procurava João e Maria para que assinassem um termo de anuência e estes diziam também não! E assim foram levando a vida nessa discussão interminável, com um colocando a culpa no outro por não fechar o negócio. Enquanto isso os três armazéns pertencentes, em vida, a Seu Cirilo, o tempo ruiu. Até que um dia também Dona Dóris encantou-se e tiveram de procurar a Justiça para dividirem os bens. Contrataram um advogado “especialista” e este, autorizado pelos três irmãos, entrou na Justiça para partilhar os bens.

O tempo passou e a Justiça sem dar um ponto final ao processo. A espera foi tanta que morreram João e Maria. Josefa caminhava para o paletó de madeira por causa do sério diabetes. “Vai chegar o dia em que, quando a Justiça disser ‘de quem é de quem na partilha’ até os netos terão viajado para a cidade de pés juntos!” – Sentenciou um vizinho gaiato que trabalhava no Tribunal.

Bem feito para os três conflitantes que não chegaram a um consenso arbitral antes de procurar a Justiça, que no Brasil só não é lenta para quem é ladrão, assassino, criminoso, latrocida, estuprador, pedófilo e corrupto, porque tem proteção constitucional.

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NUKUCHU, O HOMEM TRABALHO

Modelo de caminhão da época do capotamento

Nukuchu era um imigrante japonês baixinho, perna fina, cabelo preto, mão de vaca, desse que dá um peido e cheira a catinga toda. Veio morar no distrito de Lagoa do Carro (PE) no início do Século XX, fugindo do horror nazista.

Sem eira nem beira, procurou guarida no sítio de Zuzuku, parente distante também fugido do nazismo, que logo lhe providenciou “umas terras” para cultivar e o enganchou com a sobrinha de sua esposa, Maria Peitão, apelidada pelos peões de Zacumida, por ser completamente despudorada.

Nos primeiros dias de contato com a terra, Nukuchu já provara a que veio. Procurou saber das necessidades do povo de Lagoa do Carro, comprou todo tipo de bugigangas e começou a vender de sítio em sítio.

Apôs vender suas mercadorias a prestação na vizinhança, Nukuchu voltava para cultivar o sítio dele, plantando tomate, melancia, pepino, coentro, alfaces, cenoura, cebola, para vender a grosso e vareja nas feiras de Carpina e Lagoa do Carro, no sábado.

Logo Nukuchu foi ficando endinheirado. Comprou à vista as terras cedidas por Zuzuku e cresceu os olhos em outras de proprietários que não queriam plantar, preferindo migrarem para o Sul em busca de trabalho na construção.

Nukuchu comprou mais terras e os compromissos foram aumentando ao ponto de não ter tempo para ele nem para Zacumida. Aliás, diziam os peões de Zuzuku que ele não tinha tempo para “visitar” a patroa, pois esta vivia se queixando, dizendo que ele “só pensava em dinheiro, deixando-a seca.”

Quando comprou o terceiro sítio para cultivar produtos variados, Nukuchu pediu a mulher, Zacumida, que contratasse dois peões para trabalhar a lavoura, deixando bem claro que só pagaria a metade do salário mínimo e que tudo que o empregado consumisse do sítio seria descontado.

Zacumida contratou um primo distante, malandro, que há muito tinha os olhos nele, para trabalhar com ela. Comprou um caminhão Mercedes Benz L 312 – 1957 para carregar os mangalhos para a feira dia de sábado. Nukuchu se encarregava ele mesmo de por os produtos no caminhão. Anotava tudo numa caderneta e despachava a mulher e Adamastor, o malandro, levar para as feiras os produtos e entregá-los aos feirantes já contratados.

Trabalhando muito e se alimentado pouco, Nukuchu teve um piripaque no meio do canavial e, dias depois, bateu as botas, deixando os três sítios prontos para Zacumida e o malandro Adamastor usufruírem das benesses.

Como não teve filhos, toda a fortuna deixada por Nukuchu ficou para Zacumida, cuja alegria era-lhe visível no brilho dos olhos. Enfim só, para alguém acender a boca do fogão que o de cujus nunca riscou o fósforo.

Mas, a alegria de Adamastor e Zacumida durou pouco. Um dia, após o fim de uma feira de sábado, depois de entregar todas as mercadorias e vender o resto no banco de feira, encheu o caminhão de mantimentos para os animais dos sítios, chamou os feirantes de Lagoa do Carro que negociavam na feira de Carpina para ir no caminhão, e partiram em desabalada carreira. 80 km por horas. Quando chegou na ladeira do Juá, marco divisório entre Carpina e Lagoa do Carro, o caminhão faltou freio e, na curva da morte, capotou por três vezes, vindo a falecerem todos, acabando o sonho de Adamastor e Zacumida de desfrutarem da riqueza deixada pelo de cujus.

Triste fim que pôs fim a um sonho que se acabou antes de começar. A vida tem dessas coisas que não se explica.

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SEU MANOEL, O TEIMOSO

Para o Mestre Goiano, com o carinho do Seu Manoel Teimoso

Começou a chover forte no território do teimoso.

Seu Manoel morava com a esposa e dois vira-latas numa casa construída à beira do rio, onde todas as vezes que chovia a residência era inundada a ponto de a água subir a três palmos do piso.

Um dia começou a chover forte. Chuva que não acabava mais. E a previsão meteorológica era de que iria chover mais forte do que os anos anteriores. Seu Manoel foi alertado pelas autoridades a abandonar a casa com a família assim que a água começasse a subir.

Como Seu Manoel era um homem extremamente religioso, devoto cego, acreditava que Deus o protegia de qualquer risco, por isso teimava em ficar na casa, mesmo com os alertas das autoridades de que, em permanecendo, poderia ser arrastado pela enchente.

Nesse dia choveu muito. Os moradores que moravam junto a Seu Manoel começaram a abandonar suas casas quando a água começou a subir. Cada família que passava em seus botes chamava Seu Manoel para que lhe acompanhasse, pois o alerta era de que haveria muita chuva. Tudo no entorno do rio seria inundado e destruído.

Seu Manoel, teimoso, preferiu ficar na casa sozinho. Mandou levar a esposa e os cachorros. Quanto a ele, acreditava piamente que Deus o protegia. Que nada lhe ia acontecer de grave.

“Deus está no comando!” “Ele me salva!” – murmurou ao umbigo!

Aumentou o volume das chuvas e, em conseqüência, a casa inundou acima da metade da parede por causa do volume de água, e Seu Manoel teve de ir para o primeiro andar.

Percebendo que Seu Manoel corria risco de ser tragado pela enchente, os vizinhos chamaram o Corpo de Bombeiros para salvá-lo. A guarnição chegou, implorou para Seu Manoel deixar a casa, mostrando o perigo iminente, com o alerta de que ia chover mais ainda. Seu Manoel não cedeu aos apelos desesperados da equipe do Corpo de Bombeiro, e esta se foi antes de ser tragada pela enchente.

Súbito aumentou a correnteza, com a água chegando à cumeeira da casa de Seu Manoel. Os vizinhos telefonaram para a emergência, e esta veio por meio de um helicóptero que ficou em cima da casa de Seu Manoel, com o piloto implorando ao gramofone para que ele deixasse a casa com urgência pôs logo-logo ela iria ser tragada pela enchente. Mais uma vez Seu Manoel relutou e não cedeu aos apelos do piloto do helicóptero, preferindo seguir suas convicções religiosas.

“Deus é fiel! Não vai me deixar só!” – disse para si mesmo, convicto.

Mal o helicóptero bateu em retirada a casa de Seu Manoel desabou e ele foi engolido pelas águas e seu corpo nunca foi encontrado.

Ao chegar ao céu, Seu Manoel foi inquirido por Deus que lhe perguntou por que não atendeu aos apelos dos homens para que fugisse da cheia. Ao que Seu Manoel, teimoso, retrucou:

– Mas, Senhor, eu lhe esperei a ajuda. O Senhor não é onipotente, onipresente e onisciente? Pai e protetor dos pobres?

– Sim, meu filho, Eu sou! Mas eu lhe mandei ajudas. Você é que as ignorou, preferindo acreditar em milagres. Mandei o barco, o corpo de bombeiro e, em seguida, o helicóptero, e você disse não a todos! Como castigo por sua teimosia, vou mandá-lo para a profundeza do quinto dos infernos onde está preste a chegar um sujeito que se diz ser a alma mais honesta do mundo! E tem gente que acredita nele! Você e ele vão fazer uma pareia da porra! Um teimoso como uma mula e o outro que se diz “uma viva alma mais honesta do que Eu!”

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KAKAY – O INIMIGO DE SERGIO MORO

O repugnante Kakay de bermuda nos corredores do STF, o puteiro de Brasília

Em artigo abjeto publicado na imprensa no dia 26.12.2019, o estapafúrdio, espalhafatoso, cínico e repulsivo defensor de criminosos e políticos ladrões ricos que assaltaram o Brasil, Antônio Carlos de Almeida Castro – conhecido nas noites cariocas e brasilienses como Kakay -, diz que a derrota de Sergio Moro, com seu pacote anticrime querendo moralizar o Brasil, foi acachapante na câmara, onde Rodrigo Botafogo Maia relincha e todos murcham a orelha. Segundo Kakay, o projeto de lei anticrime do Ministro da Justiça e Segurança foi apresentado sem nenhuma discussão séria com a “sociedade” por isso todos os seus pontos inibidores da criminalidade foram acachapados na Câmara pela comissão instalada para estudá-lo, seguindo as ordens do ministro do STF, o Kinder Ovo, Alexandre Cabeça de Pica Moraes.

Segundo o salafrário defensor de bandidos ricos, o projeto de lei aprovado pela câmara foi fruto do enorme esforço do Grupo de Trabalho (GT) criado pelo presidente Rodrigo Maia, que teve a “hombridade de ouvir a sociedade e especialistas honestos, técnicos e capacitados para elaborarem uma lei sintonizada com os anseios da sociedade, contra o crime organizado.”

Chamando Sergio Moro de estrategista político, marqueteiro de si mesmo, disse que o ex chefe da Força Tarefa da operação Lava Jato, continua a investir em marketing. Segundo Kakay, “o ministro Sergio Moro tem o apoio de sempre dos setores conhecidos e continua posando como se seu projeto tivesse sido vitorioso. Porém, para quem entende do assunto sabe que, felizmente, a realidade é outra. Ganhou a sociedade, o cidadão e o estado democrático de direito,” concluiu.
Essa dor de cotovelo do espalhafatoso Kakay sobre o herói nacional, Sergio Moro, me lembra a observação irônica feita pelo cel. Tibério Vacariano, personagem do romance Incidentes em Antares de Érico Veríssimo, quando um jovem estudante classe média local, depois de estudar na Europa, retorna à cidade cheio de prosódia, tachando de caretas os costumes locais:

– Esse rapaz parece que é fresco!

FELIZ 2020 A TODA COMUNIDADE FUBÂNICA!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

“JÁ VELHO” – UMA COMOVENTE HISTÓRIA DO CANGAÇO

O tenente João Gomes de Lira (1913-2011), policial militar, nascido na fazenda Jenipapo, Nazaré do Pico, Floresta, Pernambuco, ex volante da tropa do comandante cel. Manoel Neto que combatia Lampião pela Caatinga do Nordeste, em depoimento emocionante ao pesquisador do Cangaço, o cearense Aderbal Nogueira, conta uma história comovente vivida por ele e os ex volantes quando perseguiam os cangaceiros na aridez do Sertão em Fogo.

Homem tosco, rude, acostumado, pelas circunstâncias dos fatos, a cometer todo tipo de atrocidades contra os fazendeiros, “os coiteiros”, para “arrancar-lhes” a ferro informações sobre o paradeiro dos cangaceiros, em depoimento gravado em 1996, relembra uma história de companheirismo fraternal e amor incondicional entre o cachorro “Já Velho” e a volante do cel. Manoel Neto.

Na época do cangaço, eram muitas as fazendas abandonadas pelos fazendeiros por causa dos cangaceiros que metiam o terror na região. Nas muitas propriedades que chegavam, os volantes encontravam gados, bodes, galinhas, cavalos, cachorros, abandonados. Morrendo de fome e sede porque seus donos os haviam abandonado temendo as represálias cruéis dos cangaceiros e volantes. Era uma verdadeira guerra de guerrilha, onde os inocentes eram torturados para confessar o que não sabiam e ninguém ouvia seus lamentos! Até Deus tapava o ouvido para não lhes ouvir os gritos de socorro!

Um dia a volante do cel. Manoel Neto chegou à fazenda Arueira, abandonada, e encontrou um cachorro grande, magro, cambaleante, só na pele e no osso. Não tiveram coragem de matá-lo. Comeram carne seca e farinha na fazenda e depois seguiram viagem a pé. Quando iam bem distante perceberam que o cachorro os seguia por dentro do mato! Ficaram impressionados com a atitude do cachorro em segui-los e resolveram incorporá-lo à volante. Tornaram-se amigos inseparáveis! Homens rudes, acostumados a matar e morrer no sertão em brasa, se curvaram à ternura de um cão fiel! E puseram-lhe o nome de “Já Velho.”

Um dia, retornando à fazenda Arueira, onde tinham combatido com Lampião e seus cangaceiros, havia um porco enorme que partiu para cima do cachorro e este, para defender seus amigos fiéis, partiu para cima do porco e este lhe deu uma rasgada no bucho que o abriu, ficando o cachorro no chão, vísceras para fora, olhos arregalados sentido a presença da morte e olhando para os volantes, um a um, numa despedida emocionante. Nenhum volante quis dar o tiro de misericórdia. Ao contrário, quando “Já Velho” fechou os olhos, encantando-se, todos os volantes ficaram a chorar de tristeza pela perda do fiel amigo!

Homens toscos, rudes, brutos, acostumados com a barbárie, chorando a morte de um cachorro companheiro!

Isso é um pedacinho da História do Cangaço com todos os seus mistérios, que precisa ser explorado pelo TURISMO.

A linda História do cachorro “Já Velho”, relembrada pelo tenente João Gomes de Lira, 80 depois!

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SEVERINO BIL E A CABRITA MIMOSA

Severino Bil era um adolescente bem-afeiçoado, corpanzil escultural, apesar de filho de neta de escrava. Sua atividade era pastorar as cabritas do avô materno nos canaviais de Lagoa do Carro, distrito de Carpina, Pernambuco. No colégio estadual do distrito onde estudava era cobiçado pelas meninas que viam nele um galã de cinema, um Jemes Dean, um Marlon Brando, mas ele nunca dava atenção a elas, pôs não tinha a malícia de sacar as pretensões astuciosas das adolescentes assanhadas, que ficavam toda molhada só em imaginá-lo pelado na frente delas.

Olhos azuis, cabelos pretos e lisos, rosto afilado, Severino Bil puxou à genética do pai de origem alemã, que deixou a mãe assim que soube que ela estava prenha dele, depois de uma convivência amancebada de mais de dois anos, morando num barraco de dois vãos que ficava nos fundos do sítio Padre Cícero Romão Batista do avô materno, seu Zé de Maria.

Quando completou dezessete anos aí é que o adolescente despertava suspiros alucinados nas alunas do Colégio Joaquim Nabuco mesmo!, principalmente na professora balzaquiana Chiquinha, cabaço absoluto, que, segundo ela às colegas de profissão, todo dia sonhava com o rapagão com ela na posição meia nove!…

– Minhas meninas, dizia Chiquinha às colegas professoras na hora dos intervalos das aulas, é impressionante o poder de sedução que aquele adolescente exerce em mim! Que Olhos! Que boca! Vocês acreditam que todo dia eu sonho com aquele safadinho me comendo? Ao passo que as colegas, ouvindo tais confissões indecentes de Chiquinha, arregalavam os olhos e a censuravam, mas desejando o mesmo para elas:

– Mas, Chiquinha, isso é pecado capital! Quem já se viu uma educadora feito tu teres tesão por um adolescente que é teu aluno, mulher? Deus te castiga, visse?…

Como resposta às surpresas das colegas, Chiquinha respondia com todas as forças da paixão e desejos avassaladores:

– Minhas meninas, se vocês imaginassem os sonhos eróticos que tenho com aquele adolescente, as posições com que ele me pega, as sacanagens que ele me faz nos sonhos, vocês não diziam isso!… Desconfio que Deus não se preocupe com isso não!…

Depois dessa conversa com as colegas em classe, Chiquinha nunca mais quis tocar no assunto referente ao adolescente nem as colegas perguntavam.

É que, segundo as más línguas, Chiquinha resolveu visitá-lo no sítio do avô materno no período de férias escolares com pretexto de conhecer a família e matar a saudade da paixão avassaladora que a devorava nos sonhos eróticos com ele.

Quando chegou ao sítio Padre Cícero Romão Batista encontrou Dona Maria das Dores, mãe de Severino Bill e perguntou onde estava o rapaz e esta respondeu, apontando para o canavial: “Está lá em guentão dentro do canavial pastorando as cabritas do avô.”

Ansiosa, Chiquinha, pede licença a Dona Maria Das Dores e adentra ao mato, indo ao encontro de Severino Bill, enquanto as professoras que vieram com ela ficaram com a mãe do adolescente no alpendre da casa grande, conversando.

Para sua surpresa e decepção, Chiquinha, quando adentra no mato para descobrir o local onde está Severino Bil pastorando as cabritas ouve um sussurro, um fungado, um “ai mimosa, ui mimosa”. Para sua decepção e nojo, era Severino Bill pastorando a cabrinha Mimosa por trás e a chamando de “minha doce cabritinha!”

A decepção da professora Chiquinha foi tão grande, tão avassaladora com a cena a que assistiu que ela saiu correndo em desabalada carreira por dentro do canavial que até hoje se a procura nas imediações e não se a encontra, passados mais de quarenta anos do flagra do “hidden love” entre Severino Bill e a cabrita Mimosa.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

BARRACO NO ÔNIBUS DO ALTO DA FOICE

Era uma quarta-feira enluarada, o vento tarado soprando os cabelos dos transeuntes que voltavam do trabalho e invadindo as saias das jovens para mostrar-lhes a bunda. Depois de mais de oito horas de labuta era natural que as pessoas estivessem cansadas, exaustas, com o nervo à flor da pele, se alterando com qualquer incidente cotidiano, levando-os ao extremo do debateboca por simples aborrecimento efêmero.

Era dia de clássico das multidões. Primeiro jogo das quartas de final do campeonato pernambucano envolvendo Santa Cruz e Sport. Para azar de todos os trabalhadores que retornavam do trabalho àquela noite o inferno já começava na Encruzilhada. Ônibus parados, carros particulares, táxi. Tudo. Pessoas descendo e caminhando a pé porque não havia a mínima possibilidade do transporte prosseguir. Um inferno – diziam todos os passageiros dos coletivos. Torcidas corais e rubro-negras se engalfinhando no meio da rua feito gladiadores nos anfiteatros romanos.

O ônibus que seguia a linha Alto da Foice/Subúrbio travou na Encruzilhada, cheio de gente entupido. Dele ninguém descia. Ninguém subia. Um calor infernal. Gente descendo de outros ônibus e caminhando a pé ao Mundão do Arruda pela Avenida Beberibe, porque o trânsito travou e carro nenhum se locomovia.

Neste exato momento sobe no ônibus do Alto da Foice uma senhora morena, baixinha, peitos enormes, cabelos com um pitó atrás, parecendo uma casa de marimbondo. E se esfregando por entre os passageiros, chega a se encostar no senhor sessentão que está sentado na quarta cadeira do lado esquerdo do ônibus. E passa gente daqui e passa gente de lá, se esfregando na bunda da baixinha que já está virada no penteio de barrão com tanta esfregação no seu traseiro avantajado.

Nesse exato momento toca o celular do senhor sessentão que ela dele ficou perto: Trililililililili! Aí o homem se estica todo para tirar o celular do bolso direito da calça. Era a mulher dele ao telefone.

– Oi, minha fia! Eu ainda não cheguei porque tá um engarrafamento danado aqui na Encruzilhada. Ninguém sai! Ninguém chega! É o jogo do Santa Cruz e Sport! Tá um inferno! Desliga e guarda o telefone no bolso. Enquanto isso, a mulher dos peitões fica junto dele, e a cada pessoa que passa esfregando sua bunda ela eleva os peitões na cara do velho, quase o sufocando.

Dois minutos após ter justificado à mulher por que não havia chegado ainda em casa, o celular toca novamente: Trilililililili! E o velho mais do que depressa, faz um esforço da porra, estica as pernas e tira o celular do bolso:

– Alô! Oi minha fia! O ônibus ainda tá parado! Ninguém sai. E eu não cheguei ainda por causa desse transtorno. E volta a guardar o celular no bolso, impaciente porque o ônibus não dava sinal de que ia seguir em frente. E a cada minuto mais gente chegava e a bagunça dava lugar à desordem.

Quando menos se espera, o telefone do sessentão volta a tocar novamente: Trilililili!! Era a mulher do outro lado da linha reclamando novamente por que o velho estava demorando tanto para chegar, e com a dificuldade de sempre, começa a tirar o celular do bolso para justificar o óbvio ululante:

– Oi, minha fia! O ônibus ainda tá parado! Ninguém sai! Tá tudo travado devido à grande quantidade de torcedores se dirigindo ao campo! Me espere que já já eu tou chegando! E torna a guardar o celular no bolso novamente.

Não deu dois minutos, e o telefone do velho toca novamente. Aí a senhora espivitada que estava ao lado dele, puta da vida com os esfregões da pessoas no bundão dela, olha para o velho, com a boca esfumaçando, os olhos vermelhos, e fulmina:

– Ô meu senhor! O senhor não tem moral para essa pessoa não! O senhor não respeita esse pá de ovo que tem entre as pernas não?! Porque se fosse comigo eu já teria mandado essa porra se lascar, ir pra puta que o pariu! Essa pessoa não tá “veno” que o senhor está no ônibus preso! Por que fica enchendo seus cuiões? Olhe, se fosse comigo eu já teria mandado quebrar a cara dessa rapariga! Ora porra! A gente já tá puta da vida com um engarrafamento do caralho desses, doida pra chegar em casa e tem de aguentar uma aporrinhação dessas!

Mal a mulher termina de falar, o telefone do velho toca novamente: Trililililili! E aí a mulher puta da vida, de saco cheio, com os pentelhos arrebitados, perde as estribeiras e parte pra cima do velho, toma-lhe o celular, põe no ouvido, e grita:

– Minha senhora! A senhora não tá vendo que esse velho tabacudo está no engarrafamento da porra por que não para de encher o saco dele e da gente também?!

Foi quando do outro lado da linha a mulher, barraqueira, perguntou quem era aquela rapariga que estava ao telefone do velho dela. Sem papas na língua, a baixinha, fumaçando de raiva, agarrada com o celular, berra:

– Eu sou a puta dele que tá lhe butando gaia! E não fale nada mais não porque, puta da vida como eu tou, eu vou aí lhe quebrar os dentes e dar-lhe uma surra de cipó de goiabeira nesse seu tabaco veio, e nele também para ele aprender a respeitar esse par de ovos murchos que tem entre as pernas que não servem mais pra porra nenhuma!

Nesse momento se ouve uma gargalhada geral no ônibus, com assobios, aplausos e gritos gaiatos de “é isso aí dona Maria! Pau nela! Valeu!” Nesse momento os passageiros esqueceram que estavam sofrendo num engarrafamento de mais de duas horas e riram-se a bandeiras despregadas!

A zoeira feita pela baixinha instigando o coroa tirou a tensão do povo que sirria de se mijar com a presepada! A confusão hilária provocada por ela tirando a tensão dos passageiros angustiados, provou que o bom humor é universalmente generoso: Faz bem a todo mundo! Dá mais do que recebe!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

NELSON PORTELLA, UM HOMEM HONRADO

Nelson Portella/1997

“A dignidade pessoal e a honra, não podem ser protegidas por outros, devem ser zeladas pelo indivíduo em particular.” Mahatma Gandhi

No princípio do século XX, o empresário Herman Theodor Lundgren (1835-1907), sueco naturalizado brasileiro, comprou da firma Rodrigues Lima & Cia uma fábrica de tecidos situada em Paulista, (PE), até então um distrito de Olinda. A Companhia de Tecidos Paulista, a qual originou a rede de estabelecimento de vendas a retalho, a maior e mais promissora que se tinha conhecimento no Brasil à época, as famosas Casas Pernambucanas, denominadas também de Lojas Paulista, mas após a derrota de São Paulo na Revolução de 1932, passou a prevalecer, por decisão dos herdeiros dos lundgrens, a denominação Casas Pernambucanas para todos os estabelecimentos que a compunham por todo o país.

Em 1915 a rede das Casas Pernambucanas já tinha estabelecimentos em Porto Alegre, Florianópolis e Teresina… Expandiu-se rapidamente por vender abaixo dos preços artigos têxteis populares, recorrendo com freqüência à publicidade para se tornar mais conhecida. Tornaram-se famosas no interior de vários estados do Brasil as pichações que se faziam em pedras, barrancos e porteiras em beiras de estrada, muros, viadutos, com seus anúncios.

Conta-se que de certa feita, num domingo, uma das Casas Pernambucanas pintou seu anúncio na porteira principal de um sítio em Itu (SP), local de muito movimento. O Brás hoje. No dia seguinte, quando a loja foi aberta, diante dela estava o dono do sítio, com tinta, pincel e escada na mão, perguntando onde poderia pintar o nome da sua propriedade.

Na década de 1970 as Casas Pernambucanas atingiram seu auge, com mais de 800 lojas e mais de 40.000 funcionários. Hoje tem mais de 295 lojas, em sete estados brasileiros.

Pois bem, nessa época começa a trabalhar como caixa da empresa, primeiro na Companhia de Tecidos Paulista e depois transformada em Lojas Pernambucanas, o jovem Nelson Portella que, se fosse hoje, seria proibido pelo escroto Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Logo começa a ganhar a confiança e simpatia do chefe por sua eficiência, dedicação, pontualidade, honestidade e destreza.

Durante doze anos que ficou como caixa, nunca uma auditoria feita pela empresa a qual ele era vinculado, encontrou irregularidades na prestação de contas. Tudo batia rigorosamente, de moeda a moeda…

Determinado dia, o chefe de outro setor das Casas Pernambucanas, estava a procura de um funcionário eficiente, pontual e, principalmente, honesto para operar num determinado setor sensível da empresa que requeria essa qualidade. E indicaram o jovem caixa Nelson Portella para gerenciar o setor.

O chefe, ao qual ele era subordinado, relutou em cedê-lo, só o fazendo se lhe fosse apresentado de dentro da empresa um funcionário de confiança, pois ia mexer com dinheiro!…

Certo dia ele estava no caixa pela manhã e chegou à sua frente um sujeito alto, magro, bigode de falsete à lá Clark Gable, com uma carta-recomendação do chefe, que dizia o seguinte:

Sr. Nelson Portella:

Esse é o caixa que vai substituí-lo a partir de hoje. Faça-me a gentileza de repassar-lhe as responsabilidades.

Respeitosamente.

Nelson Portella, que fora promovido e iria galgar outro posto na empresa, começou a passar os serviços do caixa ao seu substituto, tintim por tintim, por ordem do chefe.

Determinado momento, explicando ao seu substituto como funcionava o ativo e passivo da empresa e como o caixa deveria proceder nas anotações das entradas e saída de dinheiro e como deveria anotar no caderno de ativo e passivo, o caixa transmitido olhou para o caixa transmitente e, com olhar brilhando de espanto como se tivesse encontrado uma mina de ouro, disse: mais desse jeito eu posso ROUBAR!

O jovem Nelson Portella não deu ouvido à curiosidade do substituto e continuou lhe explicando os mecanismos contabilísticos do caixa.

Terminada a tarefa da transmissão, se despediu do substituto, lhe desejando boa sorte e foi se apresentar ao chefe do outro setor onde havia sido promovido.

Duas semanas depois de assumir o caixa da empresa o substituto de Nelson Portella fora demitido por justa causa. Uma auditoria feita pela empresa constatou que no primeiro dia que começou a trabalhar o Clark Gable já pôs em ação o plano guabiru. Ele já possuía no DNA a áurea de ladrão, pôs em prática no momento que a ocasião lhe foi favorável. O ladrão já nasce feito; a ocasião o faz, dizia o Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, com a genialidade que lhe era peculiar.

LULA É O EXEMPLO CAGADO E CUSPIDO DESSA MÁXIMA!

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

LIDIANE LEITE, A EX PREFEITA OSTENTAÇÃO

Lidiane Leite em três momentos de ostentação com o dinheiro roubado da Prefeitura

A justiça do Maranhão condenou pela segunda vez em primeira instância a ex prefeita ostentação do município de Bom Jardim (MA), Lidiane Leite, a seis anos e quatro meses de reclusão no regime semiaberto “por superfaturamento em licitação de obras de infraestrutura em estradas vicinais e esquemas criminosos de desvio de dinheiro de merenda escolar.”

Lidiane já havia sido condenada antes a catorze anos de reclusão em outro processo por fraude em licitação, falsidade ideológica, associação criminosa e crime de responsabilidade. Segundo denúncia do (MP-MA) “a ex prefeita desviou dos cofres públicos mais de R$ 3,5 milhões de reais.”

Nessa segunda condenação, além de Lidiane, também foram condenados Humberto Dantas dos Santos, o “Beto Rocha” (o ex comedor dela), Antônio Oliveira da Silva, José Ribamar Oliveira Rego Júnior, Rodolfo Rodrigo Costa Neto, Márcio Magno Ferreira Pontes e Macson Mota Sá.

As penas ficaram assim distribuídas pela Justiça de Primeiro Grau:

Humberto Dantas dos Santos, o “Beto Rocha” – oito anos e sete meses de reclusão no regime fechado, mas está solto.

Era o responsável por montar o esquema criminoso para fraudar licitações no município e desviar o dinheiro dos cofres públicos. Uma empresa disposta a participar do esquema era escolhida, vencia a licitação e em seguida os documentos eram falsificados. Apesar de não ser o prefeito, tinha influência sobre Lidiane Leite, sua companheira e então prefeita municipal.

Rodolfo Rodrigo (condenado a quatro anos e 10 meses de reclusão no regime semiaberto) e José Ribamar Oliveira Rego (condenado a quatro anos e dez meses de reclusão no regime semiaberto). Eram os “proprietários” da empresa ganhadora das licitações e sabiam que tudo era realizado de forma ilegal. Eram cúmplices dos demais réus para se beneficiarem das verbas que seriam destinadas ao Município pelos contratos entre sua empresa e a Prefeitura.

Márcio Magno Ferreira Pontes, (condenado a cinco anos de reclusão no regime semiaberto). Era o presidente da CPL à época dos fatos e confessou que não tinha nenhuma experiência na área. Afirmando ainda que não cumpriu as determinações legais, como publicação de editais, observância de requisitos essenciais da empresa contratada, dentre outros, e que mesmo assim assinava a documentação toda como se estivessem totalmente de acordo com a legislação. Cada ação era ordenada pelo acusado Antônio Oliveira, de alcunha “Zabar”, e que, apesar de não ser funcionário do Município, era amigo de Beto Rocha e Lidiane Leite e comandava o setor de licitação.

Antonio Oliveira da Silva, o ‘Zabar’, e Macson Mota, (ambos condenados a quatro anos e dez meses de reclusão no regime semiaberto). Eram os homens de confiança de Beto Rocha e foram agraciados com vitórias de empresas suas e de aliados em licitações. Para o MP, eles ‘davam as cartas’ no setor de licitação do Município e a RJ Construções LTDA era de propriedade de dois conhecidos seus, os acusados Rodolfo Rodrigo e José Ribamar Oliveira.

Todos estão livres, leves e soltos para roubarem, assaltarem o erário municipal, delinquirem, matarem (se for o caso), ocultarem patrimônios, coagirem testemunhas, concorrerem a quaisquer cargos eletivos, participarem de novas licitações fraudulentas, assumirem cargos de confiança e comissionados, graças à decisão de seis ministros canalhas, bandidos, marginais, do Supremo Tribunal de Favores (STF), que decidiram que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória ad infinitum.”

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

SÉRGIO, O MALANDRO QUE SE DEU BEM NA POLÍTICA

Praça dos Leões de Carpina, onde fica localizado o Clube Lenhadores

Sérgio era um rapazola que odiava trabalhar. Sempre que o pai mandava fazer algum serviço, tergiversava com desculpas esfarrapadas, dizendo estar doente para não cumprir as obrigações lhe impostas pelo Velho.

Foi crescendo nessa mamata. No colégio onde estudava, sempre bolava algum artifício para dizer a professora por que não havia feito o trabalho de classe. Simulava uma doença – seu álibi preferido – e os colegas caiam na lábia dele e colocavam o seu nome no trabalho.

Bom vivant, Sérgio sempre frequentava o “Clube Lenhadores” de Carpina, PE, onde havia reunião todas as sextas-feiras com a nata da malandragem da política local. E se identificava com os discursos inflamados dos opositores à “Ditadura Militar”, enxergando ali uma chance de um dia se candidatar a alguma coisa e fazer carreira política, Seu lema: Não fazer nada. Não ser responsável por nada. E sempre jogar a culpa dos males do povo nos que estavam “Lá em Cima.”

De tanto frequentar o “Clube Lenhadores” e enxergar naquele ambiente sua verdadeira vocação, Sérgio iniciou sua peregrinação às casas das pessoas carentes, dissimulando sua revoltada, indignação, inconformismo, por aquele estado de miséria em que se encontravam, jogando sua revolta nos homens do poder, prometendo que se um dia entrasse na política e fosse eleito tudo aquilo iria mudar para melhor. Seu povo ia ter dignidade e respeito.

Quando completou dezoito anos, se filiou a um partido de oposição ao governo. Procurou sempre estar do lado daqueles candidatos majoritários que lhe pudessem ser úteis, dando-lhe voto, dinheiro e munição para enganar o povo.

Já com dezoito anos completo, Sérgio se candidatou à primeira eleição para vereador e ganhou, prometendo o paraíso à população. Quando alguém mais esclarecido o procurava para saber que havia gastado muito dinheiro na campanha, dizia:

– Não gastei porra nenhum! O dinheiro que recebi, embolsei. Os eleitores idiotas foi que me puseram aqui por causa das minhas lábias, mentiras, embromações, promessas vãs, discursos vazios e estar sempre ao lado daqueles que estão no poder.

Mal Sérgio assumiu a cadeira de vereador e já começou a pensar num cargo mais substantivo. Expandir suas lábias, enganando o povo porque ele estava sofrendo e que tudo ia melhorar. Distribuía sopa à população carente à noite; visitava casas de xangô; se benzia à frente da cabocla Jurema; frequentava os cabarés; defendia traficantes e maconheiros ralés acompanhado-os à delegacia. Em síntese: fazia de tudo para estar de bem com o povo pobre e miserável e bajulando os endinheirados: os senhores de engenho influentes na política.

Sentindo que o cargo de vereador já não era mais sua praia. Candidatou-se para deputado federal no próximo escrutínio. Para isso, investiu pesado numa campanha infalível: a lábia, o poder de persuasão, jogando a responsabilidade que também era sua para os outros pares e puta que o pariu.

Nos comícios utilizava-se de argumentos ardis, afirmando que o ladrão, o inimigo do povo era sempre o outro lado. Com isso era aplaudido de pé e idolatrado por todos os adoradores que se aglomeravam na Praça no entorno do palanque.

Vieram as eleições, e Sérgio se candidatou a deputado federal. Ganhou com uma votação expressiva. Quando perguntado se havia gasto dinheiro na campanha, era curto e grosso, sem constrangimento:

– Não gastei porra nenhuma! O dinheiro da campanha, embolsei. E quem me elegeu foi esse povo tabacudo, vendo em mim um milagreiro, que vou resolver as coisas deles. Dá um basta às suas mazelas. Picas!

No “Clube Lenhadores, quando estava se vangloriando da vitória para deputado federal, e rindo à toa do povo que o elegeu, não percebeu que atrás dele havia um jovem que o observava atentamente as embromações, os deboches, os sarcasmos, a ironia. A partir daquele escárnio externado por Sérgio, o jovem começou a perceber que não havia comunismo, socialismo, marxismo, leninismo, nazismo, fascismo. O que havia mesmo nos políticos, com raríssima exceção, eram interesses pessoais, ascensão de poder para se locupletar a qualquer custo, dar uma banana para o povo e mandá-lo à puta que o pariu.

Luís Inácio Lula da Silva é o maior exemplo do mundo desse engodo político!