CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Texto escrito em parceria com o especialista em filme de faroeste D.Matt

Burt Lancaster/Alain Delon e Claudia Cardinale em cena clássica de baile

O Leopardo (1963), a obra-prima de Luchino Visconti é uma mistura de sensações, que faz conviver elementos tensionados sem resolvê-los completamente, sempre respeitando a complexidade do que não se unifica.

O filme reconstrói, com uma fotografia magistral, o período da atmosfera vivida nos palácios da aristocracia durante o conturbado reinado de Francisco II das Duas Sicílias e o “Risorgimento,” longo processo de unificação dos estados autônomos que originaram o Reino da Itália, em 1870.

O cenário político italiano é reconstituído com o intuito de interferir em dilemas dos personagens ficcionais, o confuso processo de unificação italiana, do príncipe Don Fabrizio Salina (Burt Lancaster) testemunha da decadência da nobreza e da ascensão da burguesia. Num cenário caótico de fortes contradições políticas ele luta para manter seus valores.

Em meio à opulência e ruína, jogo de forças entre a nostalgia do passado e a mola propulsora que dirige o presente ao futuro. Bailes aristocráticos, quadros valorosos, tapeçarias cuidadosas, bustos estatuários, cômodos intermináveis, a grandeza, o encanto visual; em paralelo, o pó, a melancolia, o vagar paralítico, a indefinição, o tédio, a morbidez, a iminência do fim.

A experiência de apreciar o filme é única, visto que a grandiosidade de Visconti é potencializada, o primor de sua direção é destacado e o talento da composição musical de Nino Rota se realça pelo poder sonoro. Quando o desfecho é anunciado pela legenda do “fim” (“fine”, em italiano), a gente aplaude, entusiasmado. Que beleza, que ternura, que tessitura encantadora do estilo Visconti! Filmes como esse renovam o contrato de amor do cinéfilo com sua arte. Mais ainda: justificam a razão de ser da nossa espécie.

O cineasta Luchino Visconti (um nobre italiano “Conde de Lonate Pozzolo”,) um artista de grande sensibilidade, criador de obras de arte, no cinema e no teatro italiano, entregou-se de corpo e alma na criação deste filme que é a versão cinematográfica do livro clássico italiano Il Gattopardo. O filme, apesar de toda produção e direção de arte ser genuinamente italiana, por questões comerciais imposta pelos produtores, tem versão falada em italiano e versão em inglês, assim como, devido a imposição dos financiadores americanos, Visconti foi obrigado a aceitar como astro principal o ator norte americano Burt Lancaster, que não era a sua escolha prevista.

Sorte do Visconti, pois neste filme o ator americano Burt Lancaster premia o telespectador com um desempenho memorável, talvez o maior da sua gloriosa carreira, quando personaliza o Príncipe, vivendo em um esplendor já agonizante da nobreza Italiana, que continua escondendo a crua realidade da decadência, com um Fausto desgastado e ilusório.

A produção de arte é de extremo bom gosto, a montagem é de excelente qualidade, pois durante todo o filme intercala cenas do fausto atual, com cenas dos aposentos vazios, empoeirados e mobiliário desgastado mostrando que na atualidade é o que restou da esplendorosa e luxuosa “corte” dos nobres retratados.

O elenco escolhido a dedo pelo requintado diretor, é composto por ótimos atores, todos muito convincentes nos seus personagens, atores consagrados como Alain Delon e a magnífica Claudia Cardinale.

A presença de Claudia Cardinale é um prêmio, não só para o filme, como também para os expectadores, sua simpatia, beleza e grande presença em cena. Dá ao filme e em particular em todas as cenas em que participa uma demonstração de que estamos diante de uma estrela maior. As suas cenas com o príncipe são magníficas. Ela demonstra sua versatilidade com grande lance e olhares sedutores, o modo como ela seduz o príncipe, para obter o seu apoio e ser aceita na nobre família como uma igual, é simplesmente impagável.

A saga relatada e exposta no filme é bem explícita, quando demonstra, sem discursos, poucos fatos e ações e apenas comportamentos, de todos os personagens e principalmente do príncipe de que a nobreza está decrépita e que é preciso uma revolução, mudar tudo, para que possa continuar existindo teimosamente como sempre existiu. “Algo deve mudar para que continue como está”, diz o personagem Tancredi Falconeri, interpretado por Alain Delon.


5 pensou em “O LEOPARDO

    • Grazie Pancho que é um aficionado do cinema mundial e
      sabe dar o valor devido a esse grande filme.
      Não é um filme histórico, mas retrata um certo período da historia italiana, o qual, incrivel como pareça teve também a participação de uma brasileira, a nossa heroina Anita Garibaldi que participou dessa guerra civil para unificação da Itália.

      Quem entende de cinema e sabe dar valor a formosura de uma mulher, fica se babando com a beleza da Claudia Cardinale.
      O filmne é belíssimo, mas confesso que já o assisti para mais de
      vinte vezes. Porque ? Pela Claudia é claro.

  1. Grande, magistral, excepcional resenha cinematográfica de um dos clássicos filmes de todos os tempos. Deveria estar inscrita na antologia do cinema mundia para deleite dos cinéfilos que o viram e daqueles não o viram, mas que a partir de sua leitura desejarão ve-lo.

    Parabéns aos meus amigos Cicero e D. Matt, cinéfilos e documentalistas de raiz.

    • A generosidade é um dos atributos dos gênios, e o nosso
      Arqueólogo Literário comprova o seu título, não só de gênio, como também de expert em assuntos de arte.
      A nossa resenha não tem a pretenção de estar inscrita na antologia do cinema mundial, ela foi elaborada com carinho para ser lida
      pelos leitores do jornal A Besta Fubana, pois cremos piamente que
      todos aqueles que acessam diariámente o JBF são pessoas muito
      inteligentes que sabem apreciar bons redatores, ótimas colunas
      que comprimem todos os assuntos , desde poesia em verso e ou
      em prosa, até a poesia extravagante, mas verdadeira e sem preconceito do genial português Bocage.

      A nossa intenção, minha e do Ciço, é de trazer aos leitores, ,uma
      forma de fustigar a sua curiosidade , de tentar conhecer obras raras da arte cinematográfica mundial, pois já o fizemos algumas vezes com resultados bastante reconhecidos, pois os nossos
      amigos, via e-mail nos agradecem e pedem mais informações
      sobre grandes filmes, que os temos já listados para serem resenhados oportunamente.
      Damos preferência aos clássicos, de qualquer gênero, podem ser
      coloridos ou em glorioso preto e branco, o importante é que sejam
      obras de arte que contribuíram para o acervo mundial da arte cinematográfica e que são válidos até hoje, mesmo após 50 ou até
      100 anos.
      Vou dar um exemplo : Quem conhece 0 filme de John Ford
      COMO ERA VERDE O MEU VALE ? é um filme magnífico, com ótima adaptação para o cinema, do livro do mesmo título que ganhou O PREMIO NOBEL para o escritor Richard
      Llewellyn que descreve a vida de um a pequena cidade mineira na Escocia. Esse filme, filmado em belíssima fotografia em preto e branco, ganhou cinco OSCAR.: Melhor filme, Melhort diretor J.Ford.,
      Melhor ator coadjuvante Donald Crisp, Melhor diretor de arte e melhor fotografia.
      É um filme para ser assistido ” rezando ” Eu já o assisti no mínimo umas vinte vezes e se tiver tempo vou repetir a dóse.
      Entre os meus vícios, dois são cultivados com carinho: Ler livros já li milhares, nem sei quantos ) Ver filmes , já assisti aprx. 10.ooo
      filmes, i.e., alguns assisti até 50 vezes, como o filme SHANE, que
      tem mais de 50 anos e o assisto no mínimo 2 vezes ao ano.
      O que posso fazer ? Vou continuar até aonde der.

      Como diz aquele comediante no final do filme “Some like it hot ”

      Ninguém é perfeito.

      Obrigado Brito, aproveitei o seu espaço para jogar conversa fóra.

      Abraços mestre.

  2. O D.Matt., comentando novamente esse grandioso filme na parte que foi suprimida a presença da valente Anita Garibaldi, me orgulha sobremaneira.

    Também me orgulha o nordestinado Ciço, típico do Nordeste Brasileiro.

    E para o Brito e Sancho Pança, com suas eloquências? Eu só tenho é de ficar orgulho com tamanhos encômios!

    Obrigado a todos!

    O Leopardo vale a pena!

    O tema é fantástico! É fascinante!

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