ALEXANDRE GARCIA

VORCARO VAI ENTREGAR ATÉ QUEM PODERÁ JULGÁ-LO DEPOIS?

daniel vorcaro delação

Daniel Vorcaro pode negociar delação premiada no caso Master

Se Daniel Vorcaro fizer uma delação premiada, a grande pergunta é: qual seria sua atitude? Que garantias ele terá, se tiver de mencionar pessoas que vão julgá-lo, o procurador-geral da República, ministros do Supremo, essas ligações que todos já conhecem. Ou se tiver de falar de Davi Alcolumbre, Hugo Motta, políticos que ele mencionava nas conversas com a namorada… É um dilema: “eu entrego, mas depois ele acaba comigo na hora do julgamento”. É difícil.

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CPMI confirmou que Vorcaro mandou mensagens para celular funcional do STF no dia em que foi preso

Como deve ser difícil para o Supremo, agora, atender ao ofício do presidente da CPMI do INSS, Carlos Viana, sobre o número de telefone para o qual Vorcaro mandou mensagens o dia inteiro quando foi preso pela primeira vez. As respostas desse número se apagavam depois de serem vistas, porque quem estava usando esse número tomou o cuidado de capturar a tela com um texto feito em bloco de notas, e depois mandar a mensagem na condição de ter uma única visualização. Então, quem mandou queria esconder a mensagem.

Esse número para o qual Vorcaro mandou tantas mensagens foi identificado como um telefone funcional do Supremo, que é distribuído a ministros. Então agora a CPMI pediu que o STF informe qual ministro estava naquele dia com aquele telefone. Não sei como o Supremo vai sair dessa, já que na quinta-feira homenagearam Alexandre de Moraes por estar completando nove anos na corte, e o próprio Edson Fachin já se referiu a Moraes como “intimorato”, ou seja, sem medo.

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Depoimento de ex-namorada de Vorcaro não pode servir de distração

Estão anunciando a presença de Martha Graeff, ex-namorada de Vorcaro, na CPMI do INSS e na CPI do Crime Organizado, talvez de forma remota. Muito cuidado com isso, porque pode servir para desviar as atenções. Ninguém está investigando Martha, ninguém quer saber com quem Vorcaro dormiu, com quem namorou, com quem fez festa, com quem conversou. O que interessa são detalhes, como quando ela reclamou: “você não está me dando atenção hoje, está sendo meio frio nessa ligação”, e ele respondeu “Não, é que estou recebendo aqui o Hugo, o Ciro e o Alexandre”.

São essas coisas que ela pode ajudar a esclarecer. Queremos saber se autoridades da República foram às festas em Trancoso, queremos saber para que servir o contrato de R$ 129 milhões, queremos saber dos negócios com o Tayayá. E o advogado de Vorcaro disse que ele tem muito mais a contar além do que já foi descoberto. Não caiam nessa de “Martha Graeff não sei o quê”, porque isso não é importante; isso é acessório, tanto que ela vai depor como testemunha. Isso é só um caminho para se chegar à corrupção da grossa, da grande.

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Trump compara surpresa no ataque ao Irã com Pearl Harbor

Donald Trump recebeu na Casa Branca a primeira-ministra do Japão, a conservadora Sanae Takaichi, e estava ao lado dela quando os jornalistas começaram as perguntas. Havia muitos repórteres japoneses, e uma deles perguntou a Trump: “Por que os Estados Unidos não avisaram seus aliados sobre os planos em relação ao Irã?” Vejam que divertida a resposta dele: “Não queríamos abrir indícios, queríamos surpreendê-los. Agora, quem sabe sobre surpresa é o Japão. Por que não nos avisaram antes de Pearl Harbor?” Sete de dezembro de 1941, o “dia da infâmia”, no dizer de Franklin Roosevelt. Essa foi na lata.

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Atacar centros de fornecimento de energia é coisa comum na guerra

Os iranianos estão atacando depósitos de gás e petróleo do Catar e da Arábia Saudita, e estão noticiando isso como se fosse uma grande novidade, como se nunca tivessem feito isso antes. Quanta ignorância histórica! Ploiești, na Romênia, e Baku, no Azerbaijão (que na época pertencia à União Soviética), eram alvos preferidos da aviação dos Estados Unidos, da Royal Air Force e até dos soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial, porque era grandes centros de abastecimento dos alemães. Os alemães haviam ocupado Baku, e a Romênia estava afinada com os alemães por causa das reservas de petróleo. Eram alvos óbvios.

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Confirmado: sai Fernando Haddad, entra Dario Durigan

Lula confirmou: Fernando Haddad está de saída. Haddad nem sabe direito para quê: ele deve ser candidato ao governo de São Paulo, mas quer saber onde ele tem alguma chance. No seu lugar como ministro entra um desconhecido para todos nós, mas conhecido lá dentro: o número dois do ministério, o secretário-executivo Dario Durigan. Ele trabalhou para a Meta, que, como vocês sabem, é dona do Facebook e do Instagram; Durigan trabalhava no WhatsApp. Eu pensei: “puxa, veio da iniciativa privada, ficou na Meta de 2020 a 2023”. É, mas ele também foi assessor jurídico da Casa Civil no governo Dilma, de 2011 a 2015.

ALEXANDRE GARCIA

SE QUISEREM PEGAR LULINHA, PRECISAM IR ATRÁS DA AMIGA

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Roberta Luchsinger chegou a ser alvo de requerimentos de convocação, mas pedidos foram rejeitados

O Lulinha já tem empresa em Madri. Pediu em janeiro e o registro ocorreu no início de fevereiro. A empresa se chama Synapta, com “y”, que os espanhóis chamam de “i griega”, e, segundo a Folha de S.Paulo, atua com tecnologia, consultoria, informática, soluções digitais e oportunidades de negócios. É bem ampla, diversidade absoluta. O capital é o mínimo exigido pela lei espanhola: 3 mil euros, o que equivale hoje a R$ 18 mil. Conto isso porque já avisei aqui que não adianta quebrar o sigilo do Lulinha; ele está calejado e já toma muitos cuidados.

Quem tem a informação mesmo é a Roberta Luchsinger, o elo entre Lulinha e o “careca do INSS”. Ela tem toda a expertise, foi casada com o ex-delegado federal Protógenes Queiroz e é neta de um ex-acionista do banco Credit Suisse. Sabe tudo sobre bancos e transferência de dinheiro. Existe, por exemplo, uma agência chamada Vulcano Viagens. Nas quebras de sigilo, a Polícia Federal não encontrou nada ligando diretamente o “careca do INSS” a Lulinha, mas encontrou pagamentos de Roberta à agência de viagens, com uma movimentação total de R$ 640 mil, supostamente para pagar viagens de Lulinha.

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Jorginho Mello fez relato assustador sobre saúde de Bolsonaro

Fiz uma palestra na Igreja Evangélica Embaixada, em Balneário Camboriú, e antes de mim palestrou o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello. Ouvi a palestra dele e fiquei impressionado quando ele contou a impressão que teve ao visitar Jair Bolsonaro. Disse que, entre uma palavra e outra, havia soluços e uma espuma na boca. Para conter o soluço, existe uma anestesia do músculo torácico que provoca esse espasmo, mas também faz parar a respiração, e que Bolsonaro está no pior momento físico da vida dele. Jorginho Mello desabafou: “O que ele tem de pagar? Tem de pagar pelo quê?” É a mesma pergunta que todos nós fazemos.

O governador contou outras coisas que eu não sabia. Ele disse que, em Santa Catarina, invasão de propriedade alheia não dura 24 horas: “ou os invasores saem por carinho ou saem por empurrão”, disse ele. Contou também que prestigia a Polícia Militar, elogiou as mulheres da PM e contou que mandou substituir as molas das pistolas das policiais femininas. Imagino que seja a mola do ferrolho, porque muitas vezes o ferrolho é difícil de segurar, a mão escapa e, em uma emergência, se não houver cartucho na câmara, é preciso fazer esse movimento e isso demanda músculo. Ele colocou molas com menos carga de força para as pistolas usadas pelas PMs mulheres. Digo isso aqui para mostrar que há diferença de força física, e não faz sentido colocar alguém que nasceu homem para disputar esportes contra mulheres, porque a musculatura é mais forte. Se jogar vôlei e der uma cortada, sabe lá o que acontece com o rosto da adversária.

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Votação no STF pode agravar fuga de cérebros

O governador ainda contou uma história sobre idosos em uma cidade catarinense chamada Piratuba, disse que são os últimos a descer do ônibus, que descem com dificuldade e ele ajuda na descida. As pessoas olham apenas a capacidade física, e esquecem que a cabeça está a mil, com o máximo de conhecimento adquirido ao longo de uma vida toda. O STF está julgando a aplicação do artigo 201, parágrafo 16, da Constituição, que diz que as pessoas que chegarem aos 75 anos no serviço público devem ser aposentadas. Esse trecho remete a um outro, no artigo 40, que afirma “de acordo com lei complementar”, e essa lei complementar ainda não existe. Existem dois projetos, um de 2022 e outro de 2025, para regulamentar essa exigência constitucional.

O relator Gilmar Mendes já votou pela aplicação imediata do trecho constitucional, sem necessidade da lei complementar. Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin o acompanharam. Qual o perigo disso? A perda de cérebros. Vejam o caso da Mariângela Hungria, pesquisadora da Embrapa que ano passado ganhou o World Food Prize, o “Nobel da agricultura”. A cada dia que passa, ela tem ainda mais conhecimento; quando fizer 75 anos, vai ter de ir embora? Também perdemos o astronauta que ficou trabalhando na Nasa e não aqui no Brasil, porque no Brasil dizem: “você chegou a coronel, mas não fez os cursos, não vai virar brigadeiro”. Não importa se ele esteve lá em cima, se foi pioneiro entrando com a bandeira do Brasil na Estação Espacial Internacional. Há inúmeros jovens brasileiros trabalhando nos Estados Unidos, porque a nação mais poderosa do mundo, que tem mais prêmios Nobel, faz isso. Os americanos disseram “venha para cá, senhor Wernher von Braun”, e botaram o homem na Lua.

ALEXANDRE GARCIA

JUÍZES VÃO AO SENADO PARA GARANTIR A APOSENTADORIA COMPULSÓRIA

flavio dino eliziane gama

Flávio Dino, ocupando cargo de senador, é abraçado por Eliziane Gama, em foto de fevereiro de 2024. Ela é relatora da PEC que acaba com a aposentadoria compulsória para juízes, de autoria de Dino.

Segundo a Coluna do Estadão, juízes estão frequentando os corredores do Senado, porque nesta quarta-feira está na pauta de votação da Comissão de Constituição e Justiça uma PEC que acaba definitivamente com a aposentadoria compulsória como punição para magistrados. Hoje, se o juiz vendeu sentença, cometeu ações gravíssimas contra a lei e a ética, é aposentado e fica recebendo sua aposentadoria pelo resto da vida – sem os penduricalhos, espero.

O ministro do STF Flávio Dino deu uma liminar, dizendo que essa aposentadoria compulsória não pode ser paga, e os juízes protestaram. Agora, colocam essa PEC na pauta. E quem é o autor? Flávio Dino, na época em que era senador. A relatora da proposta, que tira esse prêmio para o juiz desonesto que é condenado, é a senadora Eliziane Gama, que também é do Maranhão e tem muita afinidade com Dino.

Os juízes que estão lá no Senado são da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe). Eles alegam que os magistrados têm uma previdência particular própria, com a qual eles contribuem muito, e que não pagar aposentadoria equivaleria a um confisco dessas contribuições feitas ao longo de anos. Ironicamente, o próprio Dino foi presidente da Ajufe, de 2000 a 2002; eu o entrevistei naquela época.

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Caso Master vai “pegar a República toda”? A Lava Jato não conseguiu, graças ao Supremo

Há quem diga que Dino está apenas querendo desviar a atenção, porque todos estão de olho no Supremo e suas relações com o Banco Master. Alguns dizem: “Não fale muito, vai pegar a República toda”. Pois tem mais é que pegar a República, sim, tirar o que está podre e deixar só as raízes, o que estiver imaculado, cândido.

Enquanto estamos falando de Master, o início da Lava Jato completou 12 anos nesta terça-feira. Começou com o doleiro Alberto Youssef e com o diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa – que acabou morrendo de câncer, mas fez delação premiada. Foram mais de 150 delações premiadas e R$ 25 bilhões recuperados para a Petrobras, dos quais R$ 6 bilhões já estão em caixa. Fora as multas que Dias Toffoli perdoou, da J&F, da JBS.

Na época da Lava Jato também diziam “vai acabar a República”. Não acabou. O problema é que a impunidade também não acabou. Pensávamos que seria o fim da impunidade, mas não: o próprio Supremo mostrou que a impunidade vigorava. Lula foi condenado em três instâncias no caso do tríplex do Guarujá, envolvendo uma empreiteira, e em duas no caso do sítio de Atibaia, com outra empreiteira. Ainda houve os processos do Instituto Lula e dos caças suecos, que não deram em nada. Mas o STF anulou tudo por causa do CEP de Curitiba; só descobriram lá no fim do processo. Isso não existe no dia a dia; quando acontece algo assim, se a sentença já foi exarada, confirmada em segunda instância, em terceira instância, não há mais o que discutir – a menos, claro, que estejamos falando do único que era capaz de impedir a reeleição de Jair Bolsonaro (como acabou mesmo impedindo), nas palavras da ex-corregedora-geral de Justiça Eliana Calmon.

ALEXANDRE GARCIA

“GUERRA CIRÚRGICA” É O COMPLETO OPOSTO DO TERRORISMO

irã eua guerra

Fumaça sobe após bombardeio em Teerã, na semana passada, durante ofensiva dos EUA e Israel contra o regime islâmico

Vocês notaram que as guerras modernas são cirúrgicas? Vocês não viveram isso; eu vivi e me lembro, criança, da destruição completa de cidades. Os alemães primeiro arrasaram Coventry, na Inglaterra, com bombardeio maciço; a resposta dos Aliados foi bombardear Dresden, e não deixaram pedra sobre pedra. Hoje não é assim; os ataques são cirúrgicos. Ataca-se para matar os chefes, o alto comando, os cientistas que estão construindo a bomba atômica, os que comandam a guerra, e os líderes do país. Usam aqueles mísseis penetrantes que perfuram a casamata subterrânea, atravessam o concreto, o aço, seja lá o que for, até chegar ao alvo.

Foi morto, no Irã, o aiatolá Khamenei, e agora ficamos sabendo que seu filho, que o sucedeu, estava por perto. Não morreu, mas diz-se que perdeu uma perna e ficou com o rosto desfigurado. Ele não apareceu mais depois disso. Por outro lado, os iranianos disseram ter atingido Benjamin Netanyahu; em seguida, ele se mostrou tomando café, provavelmente com algum jornal por perto para mostrar que não era uma imagem antiga, e que estava intacto.

Essa guerra moderna é o oposto do terrorismo que mata inocentes para aterrorizar. Eu também vivi isso. Cobri guerras no Oriente Médio e em Angola; cobri o terrorismo na Argentina, quando metralhavam pontos de ônibus. Puseram uma bomba num café embaixo do meu escritório na Calle Florida, ela explodiu e matou todo mundo. Os bombeiros foram chamados para limpar a rua, de tanto sangue que corria pela sarjeta. Fizeram isso para a população ficar intimidada e obedecer aos terroristas. Esse é o outro lado, o lado muito mais cruel de uma guerra.

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Denúncia da PGR mostra elos do Comando Vermelho com Legislativo e Judiciário no Rio

Falando em terrorismo, está chegando ao Supremo uma denúncia da Procuradoria-Geral da República que dá razão ao governo norte-americano sobre as organizações criminosas brasileiras. Os Estados Unidos querem equiparar as facções ao terrorismo. Nós não fazemos equiparação por aqui também? Fala-se em “crime análogo”, o próprio STF considerou a homofobia equivalente ao crime de racismo… Pois o governo norte-americano quer dizer que a organização criminosa que trabalha com narcotráfico faz terror porque destrói os países. Os narcóticos destroem a força nacional principal, que é a própria nação, a população. Destrói a família, destrói as pessoas, destrói as gerações mais jovens. A denúncia da PGR trata de relações com o Comando Vermelho, no Rio de Janeiro; envolve um desembargador – Macário Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região –; o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, deputado Rodrigo Bacellar, e o ex-deputado Thiego Raimundo Oliveira Santos, conhecido como TH Joias.

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Justiça impede uso de patrimônio do Distrito Federal para cobrir rombo do BRB

O governador do Distrito Federal está cada vez mais enrolado no caso Master. Agora está envolvendo judicialmente, porque a 2.ª Vara da Fazenda Pública aqui do Distrito Federal vetou o uso de bens do patrimônio do Distrito Federal – incluindo empresas públicas como a Companhia de Águas e Saneamento e a Terracap, que administra o território do Distrito Federal – como garantia para o BRB, o banco estatal do Distrito Federal, cobrir o rombo que teve com o Banco Master. O governador já havia até sancionado a lei. Além de derrubar a lei, o juiz enviou tudo para o ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo. Vai ser difícil o governador explicar essa.

ALEXANDRE GARCIA

LONGE DE SER UM ESTADISTA, LULA SE POSICIONA CONTRA OS EUA

Lula e o ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro

À medida que o tempo passa, qualquer presidente da República que seja de fato um estadista também é pragmático. Percebe que seus aliados estão se entregando e trata de levar o país para uma senda segura. Não é o que Lula está fazendo.

No momento em que Maduro está na cadeia, o regime venezuelano está abandonando seus tradicionais mantenedores. Irã, China e até Cuba, que também está acabando e já quer negociar com Trump. O Irã está abandonado pelos seus supostos protetores.

Eles estão cuidando de seus próprios problemas: a Rússia com a Ucrânia; a China com seu abastecimento de petróleo, que já não vem mais da Venezuela nem do Irã.

E Lula faz o caminho contrário. Exacerba ainda mais a hostilidade com os Estados Unidos. Foi o caso da visita do conselheiro adjunto de Trump, que tinha marcado presença no Brasil em um seminário sobre minerais raros, em São Paulo. No dia 18, aproveitaria para visitar Bolsonaro e iria ao Itamaraty visitar o Departamento de Europa e América do Norte.

De repente, o Itamaraty disse não ao pedir visto, pois o conselheiro da Casa Branca teria omitido dados. A visita a Bolsonaro já tinha sido concedida, imediatamente, pelo ex-Magnitsky, o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Então, o Lula declarou no Rio: “esse cara não vem para cá porque eu não deixo.” E acrescentou: “enquanto não devolverem o visto para o meu ministro da Saúde, Alexandre Padilha, eu não dou visto para esse cara.”

O Itamaraty apresentava a explicação de que a negativa era por omissão de dados sobre o que ele faria no Brasil. Moraes, sem saber o que fazer, desfez o que havia feito e disse que era por causa do artigo 4º, inciso IV, da Constituição, um dos princípios da República Federativa do Brasil: a não intervenção.

Ou seja, Moraes estaria dizendo que o norte-americano iria intervir no Brasil. Assim como o chanceler Mauro Vieira também havia afirmado que poderia haver intervenção em questões internas do Brasil. Tudo isso por causa da visita a um ex-presidente que está preso e inelegível — uma visita que poderia ser considerada humanitária. Mesmo assim, Lula afirmou que foi ele quem mandou e vetou a visita do conselheiro de Trump ao Brasil.

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Lula x Estados Unidos (parte 2)

Há ainda outra briga envolvendo o presidente Lula. O governo dos Estados Unidos, junto com mais 12 países do continente, quer declarar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, para que possa ser aplicada a lei antiterror. Mas o governo brasileiro não quer, prefere dizer que não são terroristas.

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O depoimento na CPMI do INSS

O ministro do STF André Mendonça lembrou um princípio de direito: ninguém é obrigado a criar prova contra si. Ninguém é obrigado a se incriminar.

Por isso, o ex-presidente da Contag Aristides Veras dos Santos, convocado pela CPMI do INSS, que investiga os descontos nos vencimentos de aposentados e pensionistas — dinheiro dos velhinhos, cerca de R$ 2 bilhões — poderá exercer esse direito.

Segundo o ministro André Mendonça, que é o relator, se ele quiser ir, vai; se quiser ficar em silêncio, fica. Porque ninguém é obrigado a se incriminar.

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Comunicação oficial e língua portuguesa

Há algo curioso na comunicação do governo. Quem acompanha diariamente a agência oficial de notícias percebe que ela publicou recentemente uma espécie de manual sobre ofensas contra mulheres.

A intenção, certamente, é denunciar o problema. Mas o resultado parece quase um guia explicando quais termos podem ser usados para ofender mulheres, inclusive apresentando expressões em inglês.

Isso revela uma ingenuidade jornalística enorme. Aliás, não é só isso. Parece que muita gente simplesmente abandonou o português correto.

Basta ouvir alguns repórteres em entradas ao vivo: “ali, ali, ali”. “O presidente ali disse ali”. A pessoa fica procurando onde está a notícia no meio da frase. Se “Ali” fosse nome próprio, até faria sentido. Mas não é o caso.

ALEXANDRE GARCIA

POBRE MENINO RICO

daniel vorcaro

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master. em foto feita por ocasião de sua prisão

Um banqueiro tradicional, experiente, veterano, me diz que gente como Daniel Vorcaro não é nem estagiário de banqueiro; é apenas um aventureiro bobo tentando entrar no mercado financeiro. Agora que todos podemos ver como vivia Vorcaro, o que se destaca no aventureiro é que, como pessoa, é um bobo. Agora numa cela exígua que contrasta com a vida de luxo que inventou para si, um bobo infeliz. Vida de rico. De novo-rico – e aqui fica mais forte a expressão original: nouveau riche. Raspadas no presídio a melena e a barba feitas por coiffeurs bem pagos, restou a cara original, atrás da maquillage (que em francês significa “disfarce”),cara de adolescente perdido na vida e achando que o mundo se faz em um dia.

Pelos diálogos de pombinhos com Martha Graeff revela-se o namoro adolescente; pela festa de noivado na bela Taormina, entre o príncipe e a princesa, desvela-se a breguice, o exagero de novo-rico expõe mau gosto original. Os R$ 200 milhões jogados na fumaça do vizinho Etna revelam o dinheiro fácil, tirado de fundos de previdência de funcionários públicos, graças à compra de dirigentes venais. Os artistas contratados cobraram milhões de dólares e euros – portanto, famosos e caros. O único que conheço, Andrea Bocelli, cobrou US$ 981 mil. Poverino, bambino Vorcaro…

Seu avô, pastor protestante, veio da Itália; o pai de Daniel Bueno Vorcaro era corretor de imóveis. A irmã é pastora da Igreja Evangélica Lagoinha, assim como o marido dela, Fabiano Zettel – o dos braços assustadoramente tatuados, que também está preso, como operador de negociatas. Vorcaro disse a Martha que seu primeiro emprego fora aos 15 anos, como guia na Disney. Aos 19 anos já estava em negócios: primeiro livro, depois imóveis. Com 24 anos, formou-se em mercado de capitais. Em 2018, adquiriu a opção de compra do Banco Máxima, quando seu dono foi inabilitado pelo Banco Central. O Máxima virou Master e, a partir de então, ele descobriu que podia ser o master de venais. Com a cumplicidade do cunhado pastor, passou a tanger um rebanho pago a seu serviço. Todos cúmplices das espertezas que exploraram ambições e fraquezas de malformados.

O pobre menino se tornou dono de consciências e de bilhões. Fez festas em Trancoso, Brasília, na Europa, Estados Unidos, no mundo árabe. Fingiu-se de filantropo: em Nova York, em maio de 2024, Flávia, mulher de seu sócio Augusto Lima (ex-Arruda, ex-ministra de Bolsonaro), doou um cheque de R$ 5 milhões para os desabrigados das cheias no Rio Grande do Sul – o equivalente a 2,5% da festa de noivado em Taormina ou a 3,8% do contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da família Moraes. Aliás, esse foi seu pior negócio. Primeiro, porque pagou um preço exorbitante; segundo, porque não teve a contrapartida: foi preso assim mesmo, ainda que tivesse trocado muitas mensagens com Moraes no dia da primeira prisão, antes do pretendido voo para Dubai. Enfim, 40 dias depois, sua procuradora Viviane Moraes estava em Dubai – acompanhada pelo marido, para não deixar a mulher sozinha num país árabe. Talvez tenha, como representante legal, feito o que Vorcaro pretendia fazer e não pôde. Talvez. Ou a viagem foi simples curiosidade de saber se Dubai é uma festa. Não valeu R$ 129 milhões. Agora dorme em cama de concreto, numa cela de 9 metros quadrados. Como um Midas, converteu em ouro todos em que tocou. Essas vidas áureas, em alquimia reversa, estão virando pó.

ALEXANDRE GARCIA

CPI DO MASTER

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Cristiano Zanin, ministro do STF, negou pedido para obrigar Câmara a abrir CPI do Master

O deputado Rodrigo Rollemberg, ex-governador do Distrito Federal, do PSB, havia pedido ao STF que mandasse Hugo Motta abrir a CPI do Master, como Luís Roberto Barroso havia mandado o Senado abrir a CPI da Covid. Era o Supremo interferindo na abertura de uma CPI. No sorteio, o caso caiu com Dias Toffoli, ele se declarou suspeito, refizeram o sorteio e a ação caiu com Cristiano Zanin, o ex-advogado de Lula. E Zanin disse que esse não é um assunto do Supremo, é um assunto do Legislativo.

Era assim que o Supremo decidia nos tempos em que eu cobria o STF, no século passado e no início deste século. Vinham assuntos para os quais um grupo não tinha voto suficiente no Congresso, e pediam para o Supremo forçar. E o Supremo dizia que não; como disse o ministro Luiz Fux várias vezes, assuntos políticos decidem-se na arena política, que são os plenários da Câmara e do Senado.

Mas Zanin deu uma dica para os senadores, ainda que de forma implícita. Ao negar o pedido do deputado Rollemberg, o ministro escreveu que “não há provas de que haja omissão ou resistência pessoal da autoridade” – no caso, do presidente da Câmara, Hugo Motta. Mas, se houver provas de omissão e de resistência pessoal de Davi Alcolumbre no Senado, isso significa que o Supremo pode mandar abrir CPI ou CPMI, porque há assinaturas suficientes para CPMI, com deputados e senadores, e também para uma CPI no Senado; ambas dependem de Alcolumbre. É uma boa dica.

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A justificativa absurda de Mauro Vieira para assessor de Trump não visitar Bolsonaro

Mauro Vieira é ministro das Relações Exteriores, passou pelo Instituto Rio Branco. Mas, se ele estivesse fazendo prova no Rio Branco agora, ou a prova para entrar no instituto, e eu fosse um dos avaliadores, ele não passaria. Explico: um assessor importante de Donald Trump, Darren Beattie, vai a São Paulo para um fórum Brasil-Estados Unidos sobre minerais críticos. Ele também queria visitar o Departamento de Europa e América do Norte do Itamaraty, em Brasília, e aproveitaria para visitar Jair Bolsonaro. A defesa de Bolsonaro encaminhou o pedido a Alexandre de Moraes; imagino que Beattie estaria levando um abraço de Trump.

Alexandre de Moraes oficiou ao Itamaraty antes de autorizar a visita, queria saber a agenda dele. E o que disse o ministro das Relações Exteriores do Brasil, o chefe da diplomacia brasileira? Cito aqui: “A visita de funcionário estrangeiro a ex-presidente da República em ano eleitoral pode configurar ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”. Isso daria reprovação no Rio Branco. Isso é diplomacia? Vieira está supondo uma ingerência de um país amigo em uma visita de cortesia a um preso condenado, inelegível em ano eleitoral. Deu para entender? É por isso que há um outro chanceler de facto, o Celso Amorim. Do jeito que está indo a política externa brasileira…

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Musk reage a vídeo de presidente da “Gazeta do Povo” sobre Moraes e Vorcaro

Elon Musk reagiu à manifestação do presidente da Gazeta do Povo sobre a situação do Brasil, em que ele cita o Banco Master, Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. Musk viu isso e postou: “So it goes” (“é assim que as coisas vão”). E acrescentou que, um dia, ainda vai tornar-se real aquela foto que ele postou tempos atrás, com Alexandre de Moraes atrás das grades.

ALEXANDRE GARCIA

FLÁVIO DINO NÃO LIVRA LEILA PEREIRA DE IR À CPMI DO INSS

leila pereira cpmi

Leila Pereira na CPI das Bets, em junho de 2024

De novo apelam para o Supremo para interferir na CPMI do INSS, em quebra de sigilo, em convocações. E novamente o caso foi para o ministro Flávio Dino, em vez de ir para André Mendonça, que é o relator das investigações sobre as fraudes, é o juiz natural. Leila Pereira, presidente do Palmeiras e da Crefisa, tinha sido convocada para depor como testemunha, pois a Crefisa tem crédito consignado com aposentados e pensionistas, mas ela não queria ir. Dino afirmou que ela não vai se livrar dessa convocação; no máximo, pode escolher a data (até agora, o depoimento está marcado para esta sexta-feira), e não pode sofrer condução coercitiva. Ela pode contar muita coisa.

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Fundador da Reag nega ilegalidades, e Ibaneis se complica

Quem esteve na CPI do Crime Organizado foi o fundador da Reag, João Carlos Mansur. A Reag já foi liquidada, tem ligações com Daniel Vorcaro e o Banco Master. Mansur negou qualquer ilícito, disse que apenas realizava operações financeiras entre entidades financeiras. Quem está enrolado com a Reag é o governador de Brasília, Ibaneis Rocha: o escritório de advocacia dele tem uma negociação de R$ 38,2 milhões com a Reag, por venda de honorários de sindicatos que tinham precatórios a receber do governo federal.

Então, Ibaneis contratou o advogado Kakay. Quando alguém contrata o Kakay, já está desesperado, porque ele é o Moisés que tira água da pedra. E Kakay disse que desde 2018, quando Ibaneis se tornou governador, ele está afastado do escritório. Acredita quem quiser: o sujeito vai se afastar do escritório e nem quer saber mais se o escritório está falindo ou não? É impossível que alguém se afaste do escritório dessa forma, a menos que tenha entrado em coma. A pessoa é dona de um escritório de advocacia, se torna governador e vai se desligar assim? No mínimo, deve ter algum poder de veto, o que também implica poder de aprovação.

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“Consultoria” virou a palavra mágica que justifica qualquer pagamento

Quem também teve o nome ligado à Reag é ACM Neto. A empresa que ele tem com a mulher, a A&M Consultoria, recebeu em 2023 e 2024, por consultorias para o Master e a Reag, um total de R$ 3,6 milhões. É o que o escritório da família Moraes recebia por mês. E ACM Neto diz que de fato prestou serviços de consultoria. Consultoria é uma varinha mágica. Abracadabra, basta dizer “consultoria” e o dinheiro sai da cartola – de político, ou do Vorcaro.

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Mais sigilos quebrados no escândalo do Master

A CPI do Crime Organizado quebrou os sigilos do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, que é pastor – embora tenha aqueles braços cobertos de tatuagem e pareça jogador de futebol –, e do “Sicário”, que morreu dias atrás. Também convocou dois diretores do Banco Central que estariam ajudando Vorcaro. E mais: está pedindo para a Anac informar quem usou o jatinho Legacy de Vorcaro durante esse tempo todo, quem pegou caronas aéreas. Muita coisa deve sair daí.

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Erika Hilton presidirá Comissão de Direitos da Mulher da Câmara

Erika Hilton venceu a disputa para a presidência da Comissão de Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. As feministas não vão dizer nada? Estamos vivendo em um mundo de fantasia. Dos 21 votos, 11 foram para Hilton e 10 em branco. “Está decidido por maioria: fui eleita a primeira travesti, mulher trans, presidenta da Comissão das Mulheres, criando um marco histórico”, disse em entrevista. Concordo, é histórico mesmo.

ALEXANDRE GARCIA

“FESTINHA DO UÍSQUE” DE VORCARO EM LONDRES NÃO É CRIME, MAS TAMBÉM NÃO É ÉTICO

uísque daniel vorcaro

“Festinha do uísque” de Vorcaro em Londres teve ministro do STF, diretor-geral da PF, procurador-geral da República e ministro do governo Lula

O excelente Poder360 pesquisou bem, e o Estadão confirmou e publicou também. Sabemos agora os detalhes da famosa degustação de uísque no George Club, em Londres, oferecida por Daniel Vorcaro, com nota fiscal de US$ 640.831,88, ou R$ 3,3 milhões. Vorcaro pagou a degustação de uísque Macallan para Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Andrei Rodrigues (diretor-geral da Polícia Federal) e Paulo Gonet, procurador-geral da República, em 25 de abril de 2024. Também estavam lá o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Benedito Gonçalves, aquele do “missão dada, missão cumprida”; o presidente da Câmara, Hugo Motta; e o ex-ministro do Supremo, ex-contratado por Vorcaro, ex-ministro da Justiça (cargo que ele ocupava quando aconteceu a degustação) e ex-presidente do julgamento de Dilma, Ricardo Lewandowski.

Esse é aquele evento que aparece nas mensagens trocadas entre os dois pombinhos, em que Vorcaro conta para a namorada sobre a reunião. Diz que consultou Moraes sobre os convidados, e que o ministro vetou um: Joesley Batista. Essa o Joesley não vai esquecer, sabendo que ficou de fora do Macallan. Não conheço esse uísque; pelo jeito, é coisa de gente que tem dinheiro sobrando e de deslumbrados.

É crime isso? A priori, não. Mas essa promiscuidade entre autoridades e um banqueiro (“banqueiro” é elogio para Vorcaro, porque banqueiro de verdade acha que ele é apenas um bobo estagiário tentando ser banqueiro, foi o que eu ouvi) pagando mimos caríssimos é algo que a ética não recomenda. Sabe-se lá o que acontece depois da décima dose.

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Hora da verdade para a Segunda Turma, que julgará prisão de Vorcaro

Na sexta-feira a Segunda Turma do STF julga a decisão do relator André Mendonça que mandou prender Vorcaro. A turma é composta por Mendonça, Luiz Fux, Nunes Marques, Gilmar Mendes e Toffoli. Estou curioso para saber se Toffoli vai se declarar impedido, ou se vai votar – e, caso ele queira votar, qual será seu voto. Ele tentou evitar a prisão, tentou congelar o andamento das investigações, tentou botar sigilo total nas provas… ele e Gonet. Como Toffoli votará? E se votar para manter Vorcaro na prisão, o dono do Master ficará irritado a ponto de fazer uma delação? E Gilmar Mendes, vai demonstrar que está do lado de Fux e Mendonça, ou do lado de Moraes? É estranho acharmos esse vínculo com Vorcaro lá no fundo, mas aquele contrato de R$ 129 milhões nos autoriza a pensar assim.

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Dino não podia anular quebras de sigilo decididas por CPMI, diz Advocacia do Senado

A CPMI do INSS acionou a Advocacia do Senado, que está entrando com um agravo regimental contra a decisão de Flávio Dino que, alegando que a votação em bloco não valia, suspendeu a quebra de sigilo de Lulinha e de Roberta Luchsinger, que é o elo entre Lulinha e o “careca do INSS”. Os senadores estão irritados com essa decisão que se meteu em assuntos interna corporis, ou seja, questões internas do Legislativo. A CPMI existe para investigar sem interferência do STF; depois é que os casos vão para o Supremo. Com Fernando Collor foi assim: ele foi julgado no Senado e, depois, passou por um outro julgamento no Supremo, que o absolveu de crimes comuns. No Senado, ele foi julgado e condenado por crime de responsabilidade; é diferente, um julgamento político.

Eu cobri o Supremo numa época em que controvérsias internas da Câmara e do Senado eram consideradas interna corporis, e o Supremo devolvia. Agora, já que o governo não tem maioria no Congresso em geral, usa o STF como seu braço político, e assim essa crise que o Supremo criou está batendo em Lula. A maior parte do eleitorado de Lula acha que o Supremo faz parte do Poder Executivo, e que Lula manda no Supremo; então, se temos essas coisas horríveis no Supremo, o responsável é Lula. Ele está vendo isso e está preocupado, porque sabe que terá problemas na eleição.

ALEXANDRE GARCIA

GOVERNO NÃO QUER QUE CRIME ORGANIZADO SEJA CONSIDERADO TERRORISMO

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Pichação do Comando Vermelho na entrada da Vila da Barca, em Belém

Ontem eu falei sobre o desperdício que é a nossa política externa brasileira. O Brasil só anda em más companhias. Não fomos a uma reunião sobre a defesa da nossa segurança, que ocorreu em Miami e reuniu 12 países. Além de Donald Trump, estavam lá, por exemplo, os presidentes do Paraguai, da Bolívia, da Argentina, e o Nayib Bukele, de El Salvador. José Antonio Kast, do Chile, ainda não tomou posse, mas esteve lá também. O “Escudo das Américas” tem 12 países, mas não o Brasil. Nem o Brasil, nem Cuba, nem a Nicarágua, nem a Colômbia de Gustavo Petro, nem o Peru, que está sem presidente, e nem a Venezuela.

O “Escudo das Américas” servirá para preservar o continente de grupos narcotraficantes e terroristas. Um dos objetivos é considerar terroristas o PCC e o Comando Vermelho, e o Brasil não quer! Soube que o chanceler Mauro Vieira chegou a falar com o secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo que não fosse feita essa classificação. Parece que, mesmo quando a coisa certa é óbvia, sempre escolhemos o lado errado – quer dizer, nós não, mas os que estão no topo do Poder Executivo.

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Interessados em abafar o escândalo do Master estão inventando nulidades e “perigos para a República”

Como o escândalo do Banco Master e de Daniel Vorcaro está pegando muita gente grande de todos os partidos e dos três poderes, estão espalhando uma boataria para enfraquecer as investigações. A pressão está crescendo: o governador Romeu Zema pediu o impeachment de Alexandre de Moraes; o deputado Marcel van Hattem entrou com uma notícia-crime contra Dias Toffoli e Moraes na Procuradoria-Geral da República; o senador Alessandro Vieira está afirmando que os dois, Toffoli e Moraes, fazem obstrução da Justiça e pressionam testemunhas; o senador Eduardo Girão entrou com uma representação no Conselho de Ética para tirar Davi Alcolumbre da presidência do Senado.

Para abafar tudo, estão espalhando que os vazamentos vão tornar os processos todos nulos. Vá lá, houve o vazamento de conversas de dois pombinhos, mas estamos falando de um crime de alto nível, um escândalo que pega a suprema corte do país. E isso foi só a pontinha do iceberg. Ainda temos outros celulares, de Vorcaro e de outras pessoas envolvidas. Imaginem o que há no celular do “Sicário”, que se asfixiou na Polícia Federal; vamos ver mais conversas sobre “quebrar os dentes” do jornalista Lauro Jardim e “moer” a secretária?

Ainda dizem que não podemos ir fundo porque “isso vai derrubar a República”. Mais vale derrubar e limpar a República que mantê-la com essa súcia, com essa sujeira. Não é preferível passar um lava-jato na República? Para que proteger consciências venais que se venderam a Daniel Vorcaro?

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Envolvidos ainda não desistiram de botar tudo em sigilo

E continua o esforço para deixar tudo oculto. A ocultação, a blindagem, o sigilo é uma espécie de confissão de culpa. A defesa de Vorcaro está pedindo ao ministro da Justiça para que nada seja gravado quando advogados visitarem o banqueiro; eles querem visitá-lo a qualquer hora, mas sem gravar nada em áudio e vídeo. Mas a regra da prisão de segurança máxima é gravar tudo. A Associação Nacional da Polícia Penal Federal fez uma nota de protesto contra o pedido, e inclusive encaminhou um ofício para o Ministério da Justiça, mostrando os perigos de abrir uma exceção para Vorcaro.