PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SE EU FOSSE UM PADRE – Mário Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
– muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas.

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
… a um belo poema – ainda que de Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus!

Mário de Miranda Quintana, Alegrete-RS (1906-1994)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO PRINCIPALMENTE DO CARNAVAL – Carlos Pena Filho

Do fogo à cinza fui por três escadas
e chegando aos limites dos desertos,
entre furnas e leões marquei incertos
encontros com mulheres mascaradas.

De pirata da Espanha disfarçado
adormeci panteras e medusas.
Mas, quando me lembrei das andaluzas,
pulei do azul, sentei-me no encarnado.

Respirei as ciganas inconstantes
e as profundas ausências do passado,
porém, retido fui pelos infantes

que me trouxeram vidros do estrangeiro
e me deixaram só, dependurado
nos cabelos azuis de fevereiro.

Carlos Souto Pena Filho, Recife-PE, (1929-1960)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O CARNAVAL – Zito Batista

Põe a máscara e vai para a folia,
Na afetação de uns gestos singulares,
Esquecida dos íntimos pesares
Que te atormentam todo santo dia…

Mulher doente, perdida nesses mares
Tenebrosos da dúvida sombria,
Vê que há lá fora um frêmito de orgia,
Mesmo através das coisas mais vulgares!

Põe-te a cantar, desabaladamente!
Vai para a rua aos trambolhões, às tontas,
Como se enlouquecesses de repente…

Agarra-te à alegria passageira:
Olha que o que te espera, ao fim de contas,
É o triste Carnaval da vida inteira…

Raimundo Zito Baptista, Monsenhor Gil-PI (1887-1926)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DA MINHA JANELA – Florbela Espanca

Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
Num soluçar aflito, murmurado…
Voo de gaivotas, leve, imaculado,
Como neves nos píncaros nascidas!

Sol! Ave a tombar, asas já feridas,
Batendo ainda num arfar pausado…
Ó meu doce poente torturado
Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!

Meu verso de Samain cheio de graça,
Inda não és clarão já és luar
Como um branco lilás que se desfaça!

Amor! Teu coração trago-o no peito…
Pulsa dentro de mim como este mar
Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

HERANÇA – Patativa do Assaré

Querida esposa que ouvindo está
Roubou-lhe o tempo a jovial beleza,
Mas tem o dote da maior nobreza
Sua bondade não se acabará.

Morrerei breve, porém Deus lhe dá
Força e coragem com a natureza
De no semblante não mostrar tristeza
Quando sozinha for viver por cá.

Não tenho terra, gado, nem dinheiro,
Só tenho o galo dono do terreiro
Que a madrugada nunca ele perdeu.

Conserva esposa, minha pobre herança,
Seja bem calma, paciente e mansa,
Você não chore, que este galo é seu.

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DO DESMANTELO AZUL – Carlos Pena

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Carlos Souto Pena Filho, Recife-PE, (1929-1960)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VERSO E REVERSO – Padre Antonio Tomás

Essa mulher, de face escaveirada,
Que vês tremendo em ânsias de fadiga,
Estendendo a quem passa a mão mirrada,
Foi meretriz antes de ser mendiga.

Fugiu-lhe breve, desta vida airada,
A mocidade, a doce e quadra amiga,
E chegou a ser velha e desgraçada,
Antes do tempo, a quanto o vício obriga!

Ontem, de gozo e de volúpia ardente
Fosse a quem fosse, dava a qualquer hora
O seio branco e o lábio sorridente

Hoje – triste sina! – embalde chora,
Pedindo esmola àquela mesma gente
Que de seus beijos se fartara outrora.

Padre Antônio Tomás de Sales, Acaraú-CE (1868-1941)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

LUA CHEIA – Miguel Jansen Filho

Quando o céu todo se enfeita
Para uma paz satisfeita
E o mundo inteiro se deita
Nos braços da escuridão,
Aparece a lua cheia,
A fulgurante candeia
Que pelo espaço vagueia,
Clareando a imensidão!

Sutil e cariciosa,
Dentro da nuvem garbosa,
Ela se eleva ditosa,
Num soberbo alumbramento!
É o espelho da beleza,
Refletindo a natureza,
No seu trono de princesa
Do salão do firmamento!

O céu – lindos alabastros!
Vive marcado de rastros
Da enamorada dos astros
E poetisa do azul!
Quando ela passa sombria,
Distribuindo alegria
E recitando poesia
Para o Cruzeiro do Sul!

E na sua claridade
Que há tanta serenidade,
Existe a sublimidade
Da transparência de um véu…
A lua que algo retrata,
Jogando luz sobre a mata,
Parece um olho de prata
No rosto imenso do céu!

Miguel Jansen Filho, Monteiro-PB, (1925-1994)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ALVORECER – Florbela Espanca

A noite empalidece. Alvorecer…
Ouve-se mais o gargalhar da fonte…
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.

Há andorinhas prontas a dizer
A missa d’alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.

Passos ao longe… um vulto que se esvai…
Em cada sombra Colombina trai…
Anda o silêncio em volta a q’rer falar…

E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MIGALHA DE VENTURA – Olegário Mariano

Tirem-me a luz que os olhos me alumia,
O ar que me enche os pulmões e o céu que adoro;
Tirem-me esses momentos de alegria,
Tirem-me a voz de pássaro canoro;

Tirem-me a paz do espírito, a harmonia
Da vida, e o mar que canta, quando eu choro
Tirem-me a noite e, ao luar da noite fria,
O sonoro esplendor do céu sonoro;

Tirem-me a glória de viver, o encanto,
A lágrima, o sorriso, a mocidade
Que faz com que eu na vida engane tanto!

Tirem-me o manto, deixem-me desnudo,
Mas não me tirem da alma esta saudade,
Que é meu sangue, meu ser, meu pão, meu tudo!

Olegário Mariano, Recife-PE, (1889-1958)