Lá quando em mim perder a humanidade Mais um daqueles, que não fazem falta, Verbi-gratia – o teólogo, o peralta, Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:
Não quero funeral comunidade, que engrole sob-venites em voz alta; Pingados gatarrões, gente de malta, Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada idosa Sepulcro me cavar em ermo outeiro, Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
“Aqui dorme Bocage, o putanheiro: Passou a vida folgada, e milagrosa: Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”
Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setubal, Portugal (1765-1805)
Que noite fria! Na deserta rua tremem de medo os lampiões sombrios. Densa garoa faz fumar a lua, ladram de tédio vinte cães vadios.
Nini formosa! Por que assim fugiste? Embalde o tempo à tua espera conto. Não vês, não vês?… Meu coração é triste, como um calouro quando leva ponto.
A passos largos eu percorro a sala, fumo um cigarro que filei na escola… Tudo no quarto de Nini me fala, embalde fumo… tudo aqui me amola.
Diz-me o relógio, cinicando a um canto: — Onde está ela que não veio ainda? – Diz-me a poltrona: por que tardas tanto? Quero aquecer-te, rapariga linda.
Em vão a luz da crepitante vela de Hugo clareia uma canção ardente; tens um idílio — em tua fronte bela… um ditirambo — no teu seio quente…
Pego o compêndio… inspiração sublime! Pra adormecer… inquietações tamanhas… Violei à noite o domicílio, ó crime!, onde dormia uma nação… de aranhas…
Morrer de frio quando o peito é brasa. . . quando a paixão no coração se aninha?! Vós, todos, todos, que dormis em casa, dizei se há dor que se compare à minha!…
Nini! o horror deste sofrer pungente só teu sorriso neste mundo acalma… Vem aquecer-me em teu olhar ardente… Nini! Tu és o cachenê dest’alma.
Deus do Boêmio! São da mesma raça as andorinhas e o meu anjo louro… Fogem de mim se a primavera passa, se já nos campos não há flores de ouro…
E tu fugiste, pressentindo o inverno, mensal inverno do viver boêmio… Sem te lembrar que por um riso terno mesmo eu tomara a primavera a prêmio…
No entanto ainda do Xerez fogoso duas garrafas guardo ali… Que minas! Além, de um lado, o violão saudoso guarda no seio inspirações divinas…
Se tu viesses… de meus lábios tristes rompera o canto… Que esperança inglória!… Ela esqueceu o que jurar-lhes vistes, ó Paulicéia, ó Ponte Grande, ó Glória!…
Batem!… Que vejo! Ei-la afinal comigo… Foram-se as trevas… fabricou-se a luz… Nini! Pequei… dá-me exemplar castigo! Sejam teus braços… do martírio a cruz.
Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)