Dos lábios que me beijaram, Dos braços que me abraçaram Já não me lembro, nem sei… São tantas as que me amaram! São tantas as que eu amei! Mas tu – que rude contraste! Tu, que jamais me beijaste, Tu, que jamais abracei, Só tu, nesta alma, ficaste, De todas as que eu amei.
Paulo de Oliveira Leite Setúbal, Tatuí-SP, (1893- 1937)
Nos dias de tristeza, quando alguém Nos pergunta, baixinho, o que é que temos, Às vezes, nem sequer nós respondemos: Faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.
Nos dias dolorosos e supremos, Sabe-se lá donde a tristeza vem?!… Calamo-nos. Pedimos que ninguém Pergunte pelo mal de que sofremos…
Mas, quem é livre de contradições?! Quem pode ler em nossos corações?!… Ó mistério, que em toda parte existes…
Pois, haverá desgosto mais profundo Do que este de não se ter alguém no mundo Que nos pergunte por que estamos tristes?!
Vamos, meu anjo, fugindo, A todos sempre sorrindo, Bem longe nos ocultar… Como boêmios errantes, Alegres e delirantes Por toda a parte a vagar.
Há tanto canto na terra Que uma vida inteira encerra!… E que vida!… Um céu de amor! Seremos dois passarinhos, Faremos os nossos ninhos Lá onde ninguém mais for.
Uma casinha bonita, Lá na mata que se agita Do vento ao mole soprar, Com as folhas secas da selva Com o lençol verde da relva Oh! quanto havemos de amar!…
De manhã, inda bem cedo, Hás de acordar, anjo ledo, Junto do meu coração… Ao canto alegre das aves As nossas canções suaves, Quais preces se ajuntarão.
Passearemos à sesta… Sonharemos na floresta, Sempre felizes, meu Deus!… N’alma lânguida esteira, Quanta cantiga faceira Ouvirei dos lábios teus!…
E à noite, no mesmo leito Reclinada no meu peito, Hei de ouvir os cantos teus. A cada estrofe bonita No teu seio, que palpita, Terás cem beijos, por Deus!
Farei poesias ou versos Aos teus olhinhos perversas Aos teus “anhos, meu bem! Tu cantarás, é Manola, Aquela moda espanhola Que tantos requebros tem!
Depois, que lindas viagens!… Veremos novas paisagens, No sul, no norte, onde for… Voando sempre, querida, Coa primavera da vida, Coa primavera do amor.
Vamos, meu anjo, fugindo, A todos sempre sorrindo Bem longe nos ocultar. Como boêmios errantes Que repetem delirantes: “Pra ser feliz basta amar”!
Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)