Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.
Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.
Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…
Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
O mistério dos barulhos da chuva, quem nunca ficou a imaginar coisas sob o som da chuva a cair do telhado, eu até sonho com este som.
Florbela tentava entender o mistério que o ruído da chuva lhe trazia e a fazia voar pelas sensações estranhas e dolorosas.
Ela, que tinha acesso aos palácios de marfim dos poetas, não compreendia a palavra da chuva. Deixou para talvez no dia que, no cemitério, seu corpo servir de alimento às rosas, junto da água da chuva