PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

Um comentário em “MISTÉRIO – Florbela Espanca

  1. O mistério dos barulhos da chuva, quem nunca ficou a imaginar coisas sob o som da chuva a cair do telhado, eu até sonho com este som.

    Florbela tentava entender o mistério que o ruído da chuva lhe trazia e a fazia voar pelas sensações estranhas e dolorosas.

    Ela, que tinha acesso aos palácios de marfim dos poetas, não compreendia a palavra da chuva. Deixou para talvez no dia que, no cemitério, seu corpo servir de alimento às rosas, junto da água da chuva

Deixe um comentário para João Francisco Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *