Vamos, meu anjo, fugindo,
A todos sempre sorrindo,
Bem longe nos ocultar…
Como boêmios errantes,
Alegres e delirantes
Por toda a parte a vagar.
Há tanto canto na terra
Que uma vida inteira encerra!…
E que vida!… Um céu de amor!
Seremos dois passarinhos,
Faremos os nossos ninhos
Lá onde ninguém mais for.
Uma casinha bonita,
Lá na mata que se agita
Do vento ao mole soprar,
Com as folhas secas da selva
Com o lençol verde da relva
Oh! quanto havemos de amar!…
De manhã, inda bem cedo,
Hás de acordar, anjo ledo,
Junto do meu coração…
Ao canto alegre das aves
As nossas canções suaves,
Quais preces se ajuntarão.
Passearemos à sesta…
Sonharemos na floresta,
Sempre felizes, meu Deus!…
N’alma lânguida esteira,
Quanta cantiga faceira
Ouvirei dos lábios teus!…
E à noite, no mesmo leito
Reclinada no meu peito,
Hei de ouvir os cantos teus.
A cada estrofe bonita
No teu seio, que palpita,
Terás cem beijos, por Deus!
Farei poesias ou versos
Aos teus olhinhos perversas
Aos teus “anhos, meu bem!
Tu cantarás, é Manola,
Aquela moda espanhola
Que tantos requebros tem!
Depois, que lindas viagens!…
Veremos novas paisagens,
No sul, no norte, onde for…
Voando sempre, querida,
Coa primavera da vida,
Coa primavera do amor.
Vamos, meu anjo, fugindo,
A todos sempre sorrindo
Bem longe nos ocultar.
Como boêmios errantes
Que repetem delirantes:
“Pra ser feliz basta amar”!

Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)
Acho mque de todos os poetas brasileiros, no aspecto da boemia, o que mais se aproximou da Florbela Espanca foi Castro Alves.
Alguns dirão que foi o contrário, pois quando Florbela surgiu no início do século XX, Castro Alves já tinha falecido.
O que há de comum entre os dois? Viveram pouco e intensamente. Castro Alves morreu com 24 anos e Florbela, com 35.
Mas o como viveram é que faz toda a diferença. Castro alves era um sedutor galanteador romântico e passou por muitos lugares (Savador, Recife, RJ e SP) deixando amantes e aventuras. Historicamente viveu o auge da escravidão e dos movimentos abolicionistas. Foi muito profícuo em sua obra. Morreu em consequência da tuberculose, doença comum na época que acometia os boêmios.
Florbela foi diferente. Até mesmo por ser mulher, não tinha a mesma libertade romântica que Castro Alves usufruia. Era mais intensa em seus relacionamentos, possessiva o que se refletia em seus versos da fase mais jovem. Jamais teve pretenções políticas ou seguiu tendências em sua obra.
Ela era a tendência.
Teve um fim difícil, com tendências depressivas e ansiosa; ficou doente e cometeu suicídio. Mesmo nesta fase derradeira e triste tinha um domínio artístico sobre as palavras em forma de versos, que eu ainda não vi em outro artista.
Castro Alves e Florbela Espanca marcaram definifivamente as culturas do Brasil e Portugal como nenum outro.
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