Eu bato, eu bato, eu bato à tua porta, bato sem ver que a porta está aberta. Sem ver-te, sei, tua presença é certa, e tento orar, mas minha voz é torta.
A luz que vem de ti em dois me corta,, e do que fui e sou outro desperta. Não posso, assim, a ti dar-me em oferta, pois já nem sei que ser meu ser comporta.
Tudo o que busco dás, dás de sobejo, pois sabes mais do que eu o que desejo, e estás comigo e em mim, sempre a meu lado.
Comigo estás na paz e nas pelejas. Por tudo o que me dás louvado sejas, por tudo o que não dás sejas louvado.
Acabo de estudar – da ciência fria e vã, O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente, Acabo de arrancar a fronte minha ardente Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.
Bem triste e bem cruel decerto foi o ente Que este Saara atroz – sem aura, sem manhã, A Álgebra criou – a mente, a alma mais sã Nela vacila e cai, sem um sonho virente.
Acabo de estudar e pálido, cansado, Dumas dez equações os véus hei arrancado, Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz.
É tempo, é tempo pois de, trêmulo e amoroso, Ir dela descansar no seio venturoso E achar do seu olhar o luminoso X.
Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha, Cantagalo-RJ, (1866-1909)
Por mais que aspire ou queira, anele ou tente Esquecer-me de ti – jamais me esqueço, Ó bem amado ser por quem padeço, Por quem tanto soluço inutilmente!
Bem que eu te peça, foges de repente, E só me fica a dor que te não peço; E eis tudo, ó céus! eis tudo o que eu mereço, Em paga deste amor tão puro e crente.
Se te não move, pois, um desafeto E se te apraz ao menos consolar A desventura amarga deste afeto,
Ilumina com teu divino olhar Esta alma que os teus pés, anjo dileto, Vem, banhada de lágrimas, beijar.
Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada, Entra, e, sob este teto encontrarás carinho: Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho, Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada, E a minha alcova tem a tepidez de um ninho. Entra, ao menos até que as curvas do caminho Se banhem no esplendor nascente da alvorada.
E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa, Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua, Podes partir de novo, ó nômade formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha: Há de ficar comigo uma saudade tua… Hás de levar contigo uma saudade minha…
Alceu de Freitas Wamosy, Uruguaiana-RS (1895-1923)
Minha viola querida, Certa vez, na minha vida, De alma triste e dolorida Resolvi te abandonar. Porém, sem as notas belas De tuas cordas singelas, Vi meu fardo de mazelas Cada vez mais aumentar.
Vaguei sem achar encosto, Correu-me o pranto no rosto, O pesadelo, o desgosto, E outros martírios sem fim Me faziam, com surpresa, Ingratidão, aspereza, E o fantasma da tristeza Chorava junto de mim.
Voltei desapercebido, Sem ilusão, sem sentido, Humilhado e arrependido, Para te pedir perdão, Pois tu és a joia santa Que me prende, que me encanta E aplaca a dor que quebranta O trovador do sertão.
Sei que, com tua harmonia, Não componho a fantasia Da profunda poesia Do poeta literato, Porém, o verso na mente Me brota constantemente, Como as águas da nascente Do pé da serra do Crato.
Viola, minha viola, Minha verdadeira escola, Que me ensina e me consola, Neste mundo de meu Deus. Se és a estrela do meu norte, E o prazer da minha sorte, Na hora da minha morte, Como será nosso adeus?
Meu predileto instrumento, Será grande o sofrimento, Quando chegar o momento De tudo se esvaicer, Inspiração, verso e rima. Irei viver lá em cima, Tu ficas com tua prima, Cá na terra, a padecer.
Porém, se na eternidade, A gente tem liberdade De também sentir saudade, Será grande a minha dor, Por saber que, nesta vida, Minha viola querida Há de passar constrangida Às mãos de outro cantor.
Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, Assaré-CE (1909-2002)
Amo-te tanto, meu amor… não cante O humano coração com mais verdade… Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante, E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente, De um amor sem mistério e sem virtude Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde, É que um dia em teu corpo de repente Hei de morrer de amar mais do que pude.
Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, Rio de Janeiro-RJ (1913-1980)