Eu bato, eu bato, eu bato à tua porta, bato sem ver que a porta está aberta. Sem ver-te, sei, tua presença é certa, e tento orar, mas minha voz é torta.
A luz que vem de ti em dois me corta,, e do que fui e sou outro desperta. Não posso, assim, a ti dar-me em oferta, pois já nem sei que ser meu ser comporta.
Tudo o que busco dás, dás de sobejo, pois sabes mais do que eu o que desejo, e estás comigo e em mim, sempre a meu lado.
Comigo estás na paz e nas pelejas. Por tudo o que me dás louvado sejas, por tudo o que não dás sejas louvado.
Ai, há quantos anos que eu parti chorando deste meu saudoso, carinhoso lar!… Foi há vinte?… Há trinta?… Nem eu sei já quando!… Minha velha ama, que me estás fitando, canta-me cantigas para me eu lembrar!…
Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida… Só achei enganos, decepções, pesar… Oh, a ingénua alma tão desiludida!… Minha velha ama, com a voz dorida. canta-me cantigas de me adormentar!…
Trago de amargura o coração desfeito… Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! Nunca eu saíra do meu ninho estreito!… Minha velha ama, que me deste o peito, canta-me cantigas para me embalar!…
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho pedrarias de astros, gemas de luar… Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!… Minha velha ama, sou um pobrezinho… Canta-me cantigas de fazer chorar!…
Como antigamente, no regaço amado (Venho morto, morto!…), deixa-me deitar! Ai o teu menino como está mudado! Minha velha ama, como está mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…
Canta-me cantigas manso, muito manso… tristes, muito tristes, como à noite o mar… Canta-me cantigas para ver se alcanço que a minha alma durma, tenha paz, descanso, quando a morte, em breve, ma vier buscar!
Abílio Manuel Guerra Junqueiro, Portugal, (1850-1923)
Eu sou a terra, eu sou a vida. Do meu barro primeiro veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor. Veio a árvore, veio a fonte. Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida. Sou o chão que se prende à tua casa. Sou a telha da coberta de teu lar. A mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranquila ao teu esforço. Sou a razão de tua vida. De mim vieste pela mão do Criador, e a mim tu voltarás no fim da lida. Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal. Tua filha, tua noiva e desposada. A mulher e o ventre que fecundas. Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu. Teu arado, tua foice, teu machado. O berço pequenino de teu filho. O algodão de tua veste e o pão de tua casa.
E um dia bem distante a mim tu voltarás. E no canteiro materno de meu seio tranquilo dormirás.
Plantemos a roça. Lavremos a gleba. Cuidemos do ninho, do gado e da tulha. Fartura teremos e donos de sítio felizes seremos.
Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cora Coralina), Cidade de Goiás (1889-1985)