De onde vem esta voz, este fundo lamento com vagas vibrações de violino em surdina? De onde vem esta voz que, nas asas, o vento me traz, na hora violácea em que o dia declina?
Esta voz vegetal, que o meu olfato atento ouve, certo é a expansão de uma mágoa ferina, é o odor que os manacás soltam, num desalento, sempre que a brisa os plange e as frondes lhes inclina.
Creio, aspirando-o, ouvir, numa metempsicose, a alma errante e infeliz de uma extinta criatura chamar ansiosamente outra alma que a despose…
Uma alma que viveu sozinha e incompreendida, mas que, mesmo gozando uma vida mais pura, inda chora a ilusão frustrada noutra vida.
Gilka da Costa de Melo Machado, Rio de Janeiro-RJ (1893-1980)
Altiva e couraçada de desdém, Vivo sozinha em meu castelo: a Dor! Passa por ele a luz de todo o amor … E nunca em meu castelo entrou alguém!
Castelã da Tristeza, vês? … A quem? … – E o meu olhar é interrogador – Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr … Chora o silêncio … nada … ninguém vem …
Castelã da Tristeza, porque choras Lendo, toda de branco, um livro de horas, À sombra rendilhada dos vitrais? …
À noite, debruçada, plas ameias, Porque rezas baixinho? … Porque anseias? … Que sonho afagam tuas mãos reais? …
Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
A vez primeira que eu fitei Teresa, Como as plantas que arrasta a correnteza, A valsa nos levou nos giros seus… E amamos juntos… E depois na sala “Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala…
E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”
Uma noite… entreabriu-se um reposteiro… E da alcova saía um cavaleiro Inda beijando uma mulher sem véus… Era eu… Era a pálida Teresa! “Adeus” lhe disse conservando-a presa…
E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”
Passaram tempos… sec’los de delírio Prazeres divinais… gozos do Empíreo… …Mas um dia volvi aos lares meus. Partindo eu disse — “Voltarei! … descansa! …” Ela, chorando mais que uma criança,
Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”
Quando voltei… era o palácio em festa! … E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra Preenchiam de amor o azul dos céus. Entrei! … Ela me olhou branca… surpresa! Foi a última vez que eu vi Teresa! …
E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”
Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)
Desejo um ano porreta Deus lhe dê tudo o que quer Peleja, trabalho, treta, Os carim duma mulher Desarrede o negativo Abufele o positivo Tenha o horizonte por régua Num tenha medo da vida Tenha o céu como medida E um sucesso pai d’égua!
Macho véi, felicidade, É pra se pegar de unha Num aceite a falsidade Que é onde a maldade acunha Num se agonie no camim Nem permita o farnizim Num esmoreça seje macho Corra o mundo, ande légua E até na baixa da égua Que o buraco é mais embaixo
Vá anotano os seus querê Tudo o que você deseje Dipendure onde se vê Leia pra que num fraqueje! Seja um cão chupano manga Teja de terno ou de tanga Nunca espere vá buscar Persistência atrai sucesso Que vai fazer seu progresso Quando menos se esperar
No amor num se arrelie Nem só fique arrodiano Num bata fofo, se avie Se avexe e faça um bom plano Mas fique limpo na nota Num pegue qualquer marmota Nem viva de fulerage Cachorro é quem pega peba Num viva de mistureba Nas grota da vadiage
Amor é uma corralinda Mas num seje um farofêro Num peça pinico ainda Seja o galo do terrêro Pastore que a hora chega Gato gosta é de mantêga Dê seu bote devagar Mas dêxe as unhas de fora Que o seu cabresto tóra Antes do ovo gorar
Comece esse novo ano Sem os erros do passado Chô mundiça! É o novo plano Chame a sorte pro seu lado Muche as orêia e rebole No mato tudo que é mole Grite do alto do nordeste – Eu sou herdeiro de Deus E os mundos também são meus Oxente, cabra da peste!
Agora qui tás mais forte Seje feliz dicumforça Nosso Sinhô sendo o norte Brinque, dance, grite e torça Nada há de lhe derrubar Comece logo a sonhar Com a Paz e nunca dê trégua O poeta ainda lhe diz CABRA VÉI, SEJE FELIZ, E UM ANO NOVO PAI D’ÉGUA!
Ano novo é tudo novo no sentimento da gente, porém preserve do antigo o que lhe empurrou pra frente junte tudo que prestou misture com muito amor e faça um mundo diferente.
Preserve os beijos, os cheiros, os chamegos de amor, as gargalhadas mais altas, as piadas que contou, e se a tristeza apertar basta você se lembrar dos sorrisos que arrancou.
O meu ou o seu caminho não são muito diferentes, tem espinho, pedra, buraco pra mode atrasar a gente. não desanime por nada pois até uma topada empurra você pra frente!
Continue sendo forte tenha fé no criador fé também em você mesmo não tenha medo da dor siga em frente a caminhada saiba que a cruz mais pesada o fí de Deus carregou.