DEU NO JORNAL

BURACO VERMELHO

O Instituto Millenium fez as contas:

Entre 2022 e 2026, o déficit nominal mais que duplicou (de 4,57% do PIB para 9,34%), juros nominais cresceram 5,82% para 8,67% do PIB e a dívida bruta cresceu 9% do PIB.

* * *

Nada de espanto.

Tá tudo dentro dos conformes.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VIVA A CANTORIA (1 de 3)

A literatura de cordel, no Nordeste brasileiro, nasceu da poesia Ibérica. Por mãos de poetas “que esculpiam versos em chamas de fogo”, palavras de um cronista (historiador) hebreu do século X. À nossa região veio dar, só bem depois do descobrimento, por conta das Grandes Navegações. Em torno de 1830/40, nova leva de imigração ocorreu aqui por conta de pragas agrícolas e das guerras liberais de Portugal.

Na bagagem vieram o descante e as cantigas de desafio, tão comuns nos arraiais populares desde o tempo em que era rei Dom José. E folhetos como A história da donzela Teodor, A tragédia da imperatriz Porcina, Carlos Magno e os 12 pares de França, História do marquês de Mantra, O cavaleiro Roldão, O Testamento do galo e da galinha, Roberto o Diabo.

Sem esquecer A história do naufrágio de Jean de Calais (recitado esse nome, por aqui, como João de Ca–la–is, longe de como se pronuncia na língua francesa), que vem do século XVIII e assim começa:

– Vou narrar uma história
Que no século aconteceu
Numa corte imperial
Que o reino comoveu
O sequestro de duas jovens
Por um pirata judeu.

Embora tenhamos cordéis populares impressos desde 1842, como A história da princesa Megalona (autor desconhecido), nossos primeiros registros assinados vieram só mais tarde por conta de Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista que, em 1893, imprimiram poemas do trovador Agostinho Nunes da Costa. Nascia um outro tipo da literatura, basta comparar.

Na clássica, temos a erudição; enquanto, na que veio dos mais humildes, o improviso. Com diferentes linguagens. Uma contaminada por metáforas, hipérboles e adjetivos muitos; e já na outra, reino da oralidade, se vê “a língua errada do povo, língua certa do povo”, como se tem na Evocação de Manuel Bandeira.

Faltando apenas dizer que Silvio Romero, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em Estudos sobre a poesia popular brasileira, comparava a poesia clássica de seu tempo a “banho morno em bacia com sabonete simples e esponja”; enquanto, a dos cantadores, é “água farta, rio que corre, mar que estronda”.

Cantador, só para lembrar, anda sempre acompanhado por sua viola. Menos o negro (que nasceu e morreu escravo, 1845/1879) Inácio de Catingueira e Fabião das Queimadas (também negro escravo que comprou sua alforria, a da mãe e de uma sobrinha com quem casou, 1848/1928), no século XIX, usando pandeiros. E até se encantar não faz tanto tempo, na rabeca, o cego Aderaldo. Essa viola veio só depois da rabeca medieval e antes da atual família dos violinos. Diniz Vitorino, cantador de Monteiro (Paraíba), fala dela nessas quadras:

– Viola adorada, instrumento tão rude,
Divino alaúde de sons encantados,
Tu gemes no peito, escutando os gemidos
Dos risos feridos, dos sonhos frustrados…

– Cantai, cantadores, fazei vossa festa!
A vida só presta com cantos assim.
Se fordes expulsos por gênios perversos,
Cantai vossos versos somente pra mim.
(Continua).

PS. ELEIÇÃO. A escolha do tema, para a última coluna antes da eleição, prova só que gosto mais de cantoria que de política. Seja como for, domingo vamos às urnas. Com a esperança de que, na próxima semana, possamos todos os brasileiros voltar a conviver fraternalmente. Como antes. E já que de cantorias falo, por aqui, encerro com essa décima do cantador Tião Lima: “Gente que alguém admira/ Com honestidade pouca/ Na hora que abre a boca/ Tudo que fala é mentira/ Não passa de um traíra/ Querendo lhe enganar/ E já vou lhe avisar/ Para você aprender/ Tem que saber escolher/ Na hora que for votar”.

PROMOÇÕES E EVENTOS

DEU NO X

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

“SAPATEIRO, NÃO VÁS ALÉM DE TUAS SANDÁLIAS!”

APELES, célebre pintor da Grécia antiga (século IV A.C), destacava-se pelo seu grande senso de humor e presença de espírito. Segundo a História, partiu dele o inteligente provérbio: “SAPATEIRO, NÃO VÁS ALÉM DE TUAS SANDÁLIAS”.

Após terminar a pintura de um belo quadro, o famoso pintor APELES, desejoso de conhecer a opinião do homem da rua sobre a sua obra, colocou-a exposta num lugar público, onde os transeuntes pudessem apreciá-la à vontade. Procurou, então, esconder-se atrás do quadro, de forma que lhe fosse possível ouvir os eventuais comentários.

Um sapateiro, que passava pelo local, parou para observar a pintura, e fez uma crítica em voz alta, a um possível erro cometido pelo pintor, com relação às sandálias de uma das personagens. A crítica chegou aos ouvidos do artista, que a considerou construtiva, ao saber que aquele homem era um sapateiro profissional.

APELES saiu do esconderijo, agradeceu a observação do sapateiro e ali mesmo procurou corrigir o seu erro. Modificou, então, as sandálias da personagem.

O sapateiro, lisonjeado com o resultado da sua crítica, procurou voltar ao local no dia seguinte, e depois de observar novamente o quadro, fez outro comentário, que, dessa vez, nada tinha a ver com o seu ofício de sapateiro. O homem fez, então, uma crítica às pernas da personagem.

Diante do incabível comentário, APELES ficou indignado, irritou-se profundamente, e gritou em alto e bom som:

“SAPATEIRO, NÃO VÁS ALÉM DE TUAS SANDÁLIAS”!

O grande artista APELES repreendeu, então, o sapateiro, aconselhando-o a somente emitir opinião sobre assuntos da sua competência. O sapateiro retirou-se contrariado, e nunca mais teve a ousadia de opinar em assuntos dos quais não entendesse.

Essa história tem atravessado séculos e continua se propagando até os dias atuais.

A célebre frase de APELES ainda hoje é empregada, quando alguém, que se considera a pessoa mais inteligente do mundo, insiste em emitir opinião sobre temas que fogem à sua capacidade intelectual. Esse é o tipo de pessoa que se acha capaz de ensinar, até, o “Pai-Nosso” ao Vigário.

Como acontece com várias outras figuras de destaque dessa época remota, poucas informações sobre Apeles chegaram até os dias atuais. Não se sabe o nome exato da sua terra natal, nem suas datas de nascimento e morte. Além disso, nenhuma de suas pinturas sobreviveu.

Apesar de todas essas lacunas em sua biografia, sabe-se que Apeles se tornou um célebre discípulo do pintor Pânfilo, na escola dórica de Sicion, no sul da Grécia. Seus trabalhos são descritos como uma combinação da precisão dórica com a elegância jônica. Foi pintor na corte de Filipe da Macedônia e depois na de seu filho, Alexandre o Grande, executando diversos retratos deste, com o intuito de perpetuar sua imagem.

Plínio, o Velho (em sua História Natural), Estrabão, Luciano de Samósata, Ovídio, Petrônio e outros autores deixaram informações suficientes sobre sua vida, todos considerando-o o mais importante pintor da antiguidade.

Tais descrições permitiram ainda que Apeles exercesse uma influência de modo indireto nos pintores da Renascença, pois é graças a esses textos que temos uma ideia, ao menos bem construída, sobre suas principais obras: foi, por exemplo, através de uma descrição detalhada feita por Luciano de Samósata, que Sandro Botticelli, quase 1800 anos depois, buscou recriar uma das pinturas do mestre grego, na sua obra intitulada “Calúnia de Apeles”.

Além dessa recriação, acredita-se, hoje em dia, que duas obras escavadas em Pompeia, a Afrodite Anadyomene (Afrodite emergindo do mar) e o mosaico retratando Alexandre, investindo contra as tropas de Dario I, sejam réplicas de obras suas, famosas em todo o mundo antigo. A pintura decora uma parede de uma das casas e o mosaico estava na soleira de outra casa. Atualmente, encontra-se em um museu).

Segundo Plínio, o Velho, Apeles era bastante receptivo às críticas, desde que fossem feitas por alguém capacitado para isso. Daí, a sua célebre frase, que se tornou um provérbio, e que, já tendo atravessado séculos, continua sendo muito verdadeira.

“Ne supra crepidam sutor judicare”, ou seja:

“SAPATEIRO, NÃO VÁS ALÉM DE TUAS SANDÁLIAS”!

DEU NO JORNAL

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A FESTA DO NORDESTE INDEPENDENTE

O imperador Pedro II, certa vez, prometeu: “Venderei todas as joias de minha coroa, mas resolverei os problemas do Nordeste”. Finalmente depois de tanto tempo, na campanha eleitoral desse ano, um jovem deputado mineiro, um piá, com coragem e inteligência conseguiu mostrar com depoimentos dos próprios nordestinos a situação de miséria do povo há mais de séculos. Foi a peça mais interessante nessa eleição de 2026, seja qual for o resultado.

Impressionado com o trabalho do deputado mineiro, fui dormir e sonhei com um Nordeste desenvolvido, sem analfabeto, o povo com emprego e renda, a família morando em sua casa com água e saneamento, fartura e saúde. O Nordeste havia se tornado um país independente.

Sonho fantástico, o povo feliz, reunido, dançando na praia da Avenida da Paz, comemorava a Independência. Aqui nas Alagoas a festa varou a noite, continuou pelo outro dia e mais dias. Foi armado um palco na praia, de repente entrou um animado e colorido pastoril cantando e acenando para o povo. De um lado, o cordão encarnado, uma coluna com sete pastoras, moças charmosas e bonitas com seus vestidos de chita, fantasias de saias rodadas. Do outro lado, o cordão azul, mais sete meninas, louras, morenas, mulatas, todas acenavam para o povo na praia com seus pequenos pandeiros fantasiados de fitas. Entre as duas colunas, entre os dois cordões dançava a única Diana vestida de minissaia de chita, dividida entre as cores azul e encarnado. E cantavam a primeira jornada:

“Boa noite meus senhores todos, Boa noite senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas… Que alegremente vamos a Belém.”

A moçada ia ao delírio, ajudada pelo animador, o poeta Aldemar Paiva, que gritava no microfone:

Viva a cordão encarnado! Viva o cordão azul! Viva o Nordeste! Viva a Independência!!!!!

A festa continuou com o homem da cultura popular Ranilson França apresentando um exuberante grupo de Guerreiro da Viçosa, com suas fantasias coloridas e chapéu cheio de espelhos. Eles cantavam: Guerreiro, cheguei agora, Nossa Senhora é nossa defesa… Foram se apresentando fandangos, folguedos, coco de roda, baiana, caboclinho, reisado, nega da costa, chegança, boi e muitas outras danças populares nordestinas.

No Clube Fénix acontecia um agitado e divertido baile de frevo carnaval. A orquestra do maestro Passinha tocou durante toda noite. O dia foi despertando. A orquestra saiu do ginásio para a rua, puxando os foliões em direção à praia. Continuavam os gritos: “Viva a Independência! Viva o Nordeste!” A festa da Independência durou dez dias. Estendeu-se por todas as praias da cidade. O povo dançou na praia de Pajuçara, onde o mar beija as areias, com mais alma e mais amor.

A partir da Bahia até o Maranhão estava formado um novo país. O delirante sonho continuava com um show de Elba Ramalho no Marco Zero do Recife, cantando os versos de Bráulio Tavares e Ivanildo Vila Nova.

“Já que existe no Sul esse preconceito… Que o Nordeste é ruim, seco e ingrato… Já que existe a separação de fato… É preciso torná-lo de direito… Quando um dia qualquer isso for feito… Todos os dois vão lucrar imensamente… Começando uma vida diferente… Da que a gente até hoje tem vivido… Imagine o Brasil ser dividido… E o Nordeste ficar independente.”

Nesse momento, caí da cama, acordei. Mas ficou a esperança de um dia o povo nordestino, tão rico em sua cultura popular, tenha uma vida digna, todos com casa, água, saneamento, emprego, alfabetizados e saudáveis. Só isso. E que os governantes cuidem dos nordestinos, estão esperando melhoria de vida desde o tempo do Império, desde Dom Pedro II.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

ABERTURA DE SIGILOS NÃO PASSA DE TEATRO

Editorial Gazeta do Povo

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Membros da campanha de Lula levam documentos sobre o levantamento de sigilo telefônico e fiscal do presidente ao TSE

O petismo e sua rede virtual de apoiadores têm andado em polvorosa graças a um desafio feito pelo presidente e candidato à reeleição Lula a seu adversário, Flávio Bolsonaro, relativo à abertura de sigilos bancário e telefônico de ambos. Na terça-feira, a equipe do petista entregou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um pedido de abertura dos próprios sigilos, incluindo também a primeira-dama Janja; os filhos do presidente, entre os quais o investigado Lulinha; e da empresa de palestras de Lula. Flávio respondeu com mais condições para abrir seus dados, que teriam sido aceitos pelo petista – as duas campanhas disseram ter chegado a um acordo para entregar documentos até o fim da noite desta quinta-feira. No entanto, uma análise legal e o mero bom senso são suficientes para atestar que tudo não passa de mero teatro.

A colunista Roseann Kennedy, do jornal O Estado de S.Paulo, ouviu criminalistas que apontaram várias falhas no documento inicial entregue pela campanha petista ao TSE, a começar pelos fatos, bastante evidentes, de que a corte eleitoral não é o foro correto para esse tipo de medida, e de que ninguém pode autorizar a exposição de dados de outras pessoas, mesmo que sejam parentes, e ainda que eles tenham concordado informalmente com a medida. Além disso, nem seria necessário um ato legal para que Lula expusesse as próprias contas, bastando que ele o fizesse publicamente, o que já caracteriza todo o episódio como uma encenação com o único objetivo de constranger um adversário, criando obrigações inexistentes. E não escapa a ninguém o fato público e notório de que Lula, embora tenha prometido o fim de seu sigilo telefônico, nem sequer tem celular, usando como intermediários Janja e seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola – outro que teria o sigilo levantado, segundo a campanha petista.

Limitações legais à parte, apenas os muito ingênuos acreditariam que, a essa altura do campeonato, alguém haveria de encontrar dinheiro sujo nas contas bancárias regulares de titularidade de Lula ou de qualquer um de seus familiares. Recorde-se, a esse respeito, o acordo de delação premiada feito pela J&F, de Joesley Batista, no qual o executivo dizia, ainda em 2017, ter aberto contas no exterior para o depósito de propinas destinadas ao petista. A Lava Jato pode ter sido desmontada, as condenações de Lula podem ter sido anuladas, mas isso não transformou em falso todo o robustíssimo conjunto probatório levantado pela força-tarefa do Ministério Público Federal contra Lula. Seria de uma primariedade desconcertante que alguém com esse histórico ainda usasse uma conta bancária regular para guardar qualquer valor ilícito – e o mesmo se aplica, é claro, a seus familiares.

Enquanto isso, muitos sigilos cujo fim seria muito mais interessante continuam em pé. Os cartões corporativos da Presidência – e não apenas o de Janja –, as listas de passageiros dos aviões de Daniel Vorcaro, e os registros de entrada e saída de participantes de encontros e eventos oficiais na Alvorada e no Planalto estão entre os dados aos quais os brasileiros continuarão sem ter acesso, e que poderiam revelar muito, quando não sobre ilegalidades, ao menos sobre imoralidades, como gastos exorbitantes e desnecessários do primeiro casal presidencial.

A transparência é um valor que de fato anda em falta na política brasileira, mas não é com desafios juridicamente capengas e jogadas de marketing que o eleitor terá mais elementos para fazer uma escolha consciente no próximo domingo. A fanfarra sobre o levantamento de sigilos pessoais não passa de truque para desviar a atenção do eleitor sobre os temas mais relevantes da campanha – o apoio do petismo à juristocracia autoritária que tomou conta do Brasil, a condução irresponsável da economia, a leniência petista para com a criminalidade –, com o objetivo de produzir um esperado resultado negativo (pois, como dissemos, é evidente que não aparecerá nada comprometedor no que Lula se dispôs a entregar) e criar uma armadilha para seu adversário e para o eleitor, que precisará de muito discernimento para perceber o estratagema.

PENINHA - DICA MUSICAL