JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A literatura de cordel, no Nordeste brasileiro, nasceu da poesia Ibérica. Por mãos de poetas “que esculpiam versos em chamas de fogo”, palavras de um cronista (historiador) hebreu do século X. À nossa região veio dar, só bem depois do descobrimento, por conta das Grandes Navegações. Em torno de 1830/40, nova leva de imigração ocorreu aqui por conta de pragas agrícolas e das guerras liberais de Portugal.

Na bagagem vieram o descante e as cantigas de desafio, tão comuns nos arraiais populares desde o tempo em que era rei Dom José. E folhetos como A história da donzela Teodor, A tragédia da imperatriz Porcina, Carlos Magno e os 12 pares de França, História do marquês de Mantra, O cavaleiro Roldão, O Testamento do galo e da galinha, Roberto o Diabo.

Sem esquecer A história do naufrágio de Jean de Calais (recitado esse nome, por aqui, como João de Ca–la–is, longe de como se pronuncia na língua francesa), que vem do século XVIII e assim começa:

– Vou narrar uma história
Que no século aconteceu
Numa corte imperial
Que o reino comoveu
O sequestro de duas jovens
Por um pirata judeu.

Embora tenhamos cordéis populares impressos desde 1842, como A história da princesa Megalona (autor desconhecido), nossos primeiros registros assinados vieram só mais tarde por conta de Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista que, em 1893, imprimiram poemas do trovador Agostinho Nunes da Costa. Nascia um outro tipo da literatura, basta comparar.

Na clássica, temos a erudição; enquanto, na que veio dos mais humildes, o improviso. Com diferentes linguagens. Uma contaminada por metáforas, hipérboles e adjetivos muitos; e já na outra, reino da oralidade, se vê “a língua errada do povo, língua certa do povo”, como se tem na Evocação de Manuel Bandeira.

Faltando apenas dizer que Silvio Romero, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em Estudos sobre a poesia popular brasileira, comparava a poesia clássica de seu tempo a “banho morno em bacia com sabonete simples e esponja”; enquanto, a dos cantadores, é “água farta, rio que corre, mar que estronda”.

Cantador, só para lembrar, anda sempre acompanhado por sua viola. Menos o negro (que nasceu e morreu escravo, 1845/1879) Inácio de Catingueira e Fabião das Queimadas (também negro escravo que comprou sua alforria, a da mãe e de uma sobrinha com quem casou, 1848/1928), no século XIX, usando pandeiros. E até se encantar não faz tanto tempo, na rabeca, o cego Aderaldo. Essa viola veio só depois da rabeca medieval e antes da atual família dos violinos. Diniz Vitorino, cantador de Monteiro (Paraíba), fala dela nessas quadras:

– Viola adorada, instrumento tão rude,
Divino alaúde de sons encantados,
Tu gemes no peito, escutando os gemidos
Dos risos feridos, dos sonhos frustrados…

– Cantai, cantadores, fazei vossa festa!
A vida só presta com cantos assim.
Se fordes expulsos por gênios perversos,
Cantai vossos versos somente pra mim.
(Continua).

PS. ELEIÇÃO. A escolha do tema, para a última coluna antes da eleição, prova só que gosto mais de cantoria que de política. Seja como for, domingo vamos às urnas. Com a esperança de que, na próxima semana, possamos todos os brasileiros voltar a conviver fraternalmente. Como antes. E já que de cantorias falo, por aqui, encerro com essa décima do cantador Tião Lima: “Gente que alguém admira/ Com honestidade pouca/ Na hora que abre a boca/ Tudo que fala é mentira/ Não passa de um traíra/ Querendo lhe enganar/ E já vou lhe avisar/ Para você aprender/ Tem que saber escolher/ Na hora que for votar”.

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