Estamos a uma semana do segundo turno da eleição e o processo de eleitoral será, extremamente, mais rápido porque agora só um cargo a ser disputado. Eu confesso que me assusta, não apenas o que pode acontecer ao longo da semana, mas, principalmente, o que pode acontecer a partir do dia 26 e, mais ainda, a partir do dia 1º de janeiro de 2027, independente de quem seja eleito.
Duas coisas tenebrosas chamaram a atenção e foram tratadas na surdina, mas ganharam corpo. A 1ª é uma pretensa reformar eleitoral a ser votada ainda este ano, cuja iniciativa vem do bloco chamado “Centrão” e o efeito seria substituir o sistema proporcional por algo como um modelo distrital. Tudo isso para não permitir que fenômenos como a votação extraordinária do “piá de bosta” e de Lucas Pavanato modifiquem a hegemonia – seja lá o que porra isso quer dizer – da casa. Como se sabe, a votação de Nikolas e de Pavanato, elegeu 13 e 7 deputados, respectivamente, nos seus estados.
Mudar isso tem implicações e obviamente que qualquer mudança aprovada nas regras constitucionais deve ser respeitada. O problema, às vezes, não é a proposta. É o momento em que se coloca a proposta. Estamos a ponto de uma mudança no governo, temos um congresso, relativamente, renovado, e esta proposta visa frustrar o eleitor que foi às urnas para escolher um representante, porque ao chegar no congresso esse representante vai encontrar um ambiente contrário.
É nesse ponto que chega a 2ª questão: a indicação para a vaga do STF que o senado recusou Jorge Messias. Ao que se fala, a ideia do atual presidente do congresso, Alcolumbre, é defender a indicação do seu aliado Rodrigo Pacheco que foi acomodado no Tribunal de Contas da União. Isso representaria a manutenção atual da irresponsabilidade jurídica que assola o país e daria tranquilidade para que a impunidade se perpetuasse. Quando André Mendonça foi indicado, o Alcolumbre presidia o senado e demorou mais de 3 meses para agendar a sabatina. Propositadamente. Ao que parece ele estava prevendo que Mendoça seria uma pedra no seu sapato. Até 31 de dezembro, estamos no fio da navalha.
A posse do novo governo também não nos dá tranquilidade. Se o presidente for reeleito, o Brasil vai cair numa desgraça econômica sem precedentes e com pouca chance de se recuperar em 2030. As benesses anunciadas como o reajuste do Bolsa Família, a isenção dos impostos federais no combustível, o perdão de R$ 12 bilhões de passivo tributário para MEI’s e de um Pix de R$ 5 mil, não são ações gratuitas. Isso vai lascar um orçamento que já está lascado.
Caso o eleito seja Flávio as dificuldades serão de governabilidade. A relação com Alexandre de Morais não será nada fácil e, pela disposição dos eleitos, a possibilidade de perdão para Alexandre é igual a atingir a temperatura de -273,15 K, chamada de zero absoluto. Temer tem atuado para amenizar o risco que seu indicado corre de perder o cargo, mas é muito difícil que esse novo congresso apresente qualquer disposição para conviver, pacificamente, com Alexandre de Morais.
Uma questão que se sobressai – e que o mercado já entendeu – são as propostas de redução do déficit orçamentário. Recentemente o presidente do Banco Central declarou que o governo precisa parar de gastar, mas não encontra eco, haja vista o pacote de bondades acima citado. No entanto, enquanto não há ninguém do governo defendendo sua política econômica – até mesmo porque ela não existe – do outro lado você encontra propostas sólidas anunciadas por Daniella Marques.
As propostas são ousadas e nenhuma absurda. Encerramento de empresas criadas para abrigar simpatizantes do PT, como a tal TV Estatal que Cissa Guimarães ganha R$ 100 mil por mês, e a otimização de gastos com aluguéis, posto que o governo tem imóveis subutilizados. Em meio a tudo isso, uma questão fundamental: o comportamento dos juros futuros! Com o resultado do 1º turno, a taxa de juros futuros caiu um ponto percentual e isso representa uma economia fantástica para os cofres públicos.
Na sombra do grande cajueiro, Manoel assava o terceiro tacho de castanhas. Castanhas de caju – a mistura não denuncia se o caju é doce ou azedo, amarelo, vermelho ou rosado. É castanha. E tudo está misturado.
Tá bom e tão assadinhas – decide Manoel.
Com a longa vara puxa o tacho das trempes de pedras. Vira. Rebola areia por cima prumode esfriar e possibilitar a quebração.
A poucos metros das trempes, de Manoel e das castanhas assando, Joaninha quebrava as assadas prumode adicionar no peixe salpresado para o almoço, ao tempo que se via despachando bagagens e fazendo o check-in para Joinville, cidade de Santa Catarina. Viajava para fazer matrícula no curso de arte-educação do Bolshoi.
Joaninha sabia tudo daquela escola. Por isso sonhava, mesmo na hora de quebrar castanhas para o dicumê na roça.
Sabia que ficava em Joinville a única escola de ballet ligada ao Bolshoi. Sabia, também que, no Brasil, aquela escola de arte-educação fora fundada em 15 de março de 2000.
Sabia tudo.
Sabia, também, que aquele seria o primeiro passo para a realização dos seus sonhos – mesmo que vivesse em Queimadas, considerado um povoado dos “cafundós do Judas”!
Antes mesmo de se ver fazendo o check-in e despachando a bagagem, Joaninha se viu “quebrando o porquinho de barro” onde juntou todas as moedas de réis para quando chegasse aquele dia. O dia da viagem. O dia do início de tudo.
Manoel acabou de assar a última “tachada” de castanhas.
Virou o tacho e cobriu com areia para esfriar. Foi quando viu Joaninha inerte, sem bater para quebrar a castanha que segurava na mão.
Não falou nada. Preferiu deixa-la viajando nos sonhos.
Joaninha sabia até que, em Joinville, conseguindo a matrícula, não precisaria de ostentação financeira. Tudo que precisava era querer realizar os sonhos. E ela queria!
O avião taxiava. Lágrimas escorriam face à baixo, pela alegria de ter coragem para iniciar um sonho antigo. Outra, pela tristeza de deixar Queimadas, a assação das castanhas, a quebração, o peixe salpresado e parte da família – que vivia fazendo oração e a incentivando para a realização pessoal.
Manoel saiu dali.
Joaninha continuou a viagem, agora com o avião decolando. Decolando para a vida. O verdadeiro voo da liberdade. A liberdade, redundante, da libertação.
Escalas obrigatórias e técnicas. Mais pousos e mais decolagens. Turbulências. Nenhuma turbulência seria maior que a possibilidade da realização dos sonhos. A emoção. A alegria.
Último pouso. O piloto pedia a atenção dos passageiros para o aviso:
– “Em poucos instantes pousaremos no aeroporto de Joinville. A temperatura local é de 19 graus. Agradecemos a sua preferência em viajar conosco.”
Joaninha saíra do Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, com a temperatura de 40 graus – esse era um dos problemas que enfrentaria.
Mesmo debaixo da sombra daquele cajueiro, quebrando castanhas assadas por Manoel, não sentia o calor. Estava acostumada.
No saguão do Aeroporto, ninguém a esperava. Não conhecia nada. Não conhecia ninguém. Tomou um táxi e forneceu o endereço da Pousada Russa – que também não conhecia. Confundia o nome da pousada com o Bolshoi.
Chegou. Pagou a corrida. Foi direto para a “portaria” da pousada e até aceitou “dividir” o aluguel do cômodo com outra ocupante. Humildemente, sabia que precisaria fazer economia para o que teria pela frente.
O cansaço da longa viagem e o frio com o qual não estava acostumada, a fizeram dormir. Dormiu além do previsto. Perdeu o horário do café servido na pousada.
Voltou ao cômodo, trocou de roupa e resolveu partir para o sonho de, algum dia, fazer uma dança com o ídolo Mikhail Baryshnikov. Era chegada a hora.
Novo táxi. O endereço de agora era a Escola do Ballet Bolshoi. No percurso apreciou a beleza da cidade diferente de onde nasceu, cresceu e morava – uma verdadeira capoeira.
Sem estudos, sem as noções necessárias para a vida numa cidade distante da sua, tinha apenas como atender uma exigência da escola e das professoras: a vontade de vencer. Esse foi o único diploma que apresentou.
Chamava a atenção pelo corpo esguio, e, principalmente, pela cor da pele: existe, sim, mas é difícil encontrar uma verdadeira bailarina negra.
Disse de si para ela mesma: “ali estava uma”!
Treinos. Treinos e mais treinos. Muitos treinos. Muitas correções de postura que aceitava humildemente em troca de um objetivo: uma negra vencer como bailarina. Uma bailarina negra, brasileira. Uma bailarina negra, brasileira, nordestina e do Ceará.
Entendeu tudo que valeria à pena.
A Joaninha, a mesma que quebrava castanhas assadas para temperar o peixe salpresado, agora adotaria o nome artístico Joanna Juuas.
Não demorou muito a menina progrediu, motivada por uma força de vontade estranha. Muitos olhares se voltaram para ela. Ganhou matérias jornalísticas promocionais. Muitos confundiam e até esqueciam sua procedência – mas, para ela, com o propósito de vencer, aquilo não importava muito.
Certo dia, meses depois de mudar da Pousada Russa para um flat custeado por patrocínio, o porteiro no edifício onde ficava o flat manteve contato pelo interfone:
– Dona Joanna, está aqui na portaria um casal querendo falar com a senhora. Pelas normas do Condomínio, não posso autorizar a subida deles. A senhora pode descer para recebe-los?
Joaninha….. ops!, desculpas, Joanna Juuas se compôs e desceu.
O casal era uma jovem funcionária da Escola Bolshoi, que acompanhava um emissário do Ballet Bolshoi, de Moscou. O acompanhamento era para facilitar a comunicação, haja vista que Joanna Juuas mal falava o “catarinês”.
Objetivo da visita: a comunicação que Joanna Juuas fora selecionada para especialização em dança clássica no Corpo de Ballet Bolshoi.
Joanna Juuas quase teve um piripaque. Mas conseguiu se controlar.
Não demorou muito e Joaninha, desculpas mais uma vez, Joanna Juuas viajou para a Rússia, mais propriamente para Moscou.
Após horas, dias e meses de muitos ensaios, a estreia.
Na porta do Bolshoi, um banner que cobria parte da parede frontal do Teatro anunciava: “Joanna Juuas, a bailarina negra, faz par com Mikhail Baryshnikov.”
Foi nesse momento que dona Dulce, mãe de Joaninha, postada na porta da cozinha, bradou:
– “Criatura, tu ainda tá quebrando essas castanhas?! O peixe já está na panela e tu ainda vai ter que pilar para fazer o xerém. Cuida mulé.!
Emma Brepohl Costet de Cheville nasceu na Baviera, Alemanha, em 1903. Astróloga, espiritualista e precursora do “movimento hippie”, passou a infância no Monte Veritá, na fronteira entre a Suíça e a Itália e sede do famoso centro de cultura alternativa em fins do séc. XIX e início do séc. XX, frequentado por artistas, pensadores e idealistas em busca de uma vida mais simples e em harmonia com a natureza.
Buscavam um estilo de vida baseado em valores como simplicidade, igualdade, cooperação e liberdade individual. Por lá passaram Hermann Hesse, Carl Jung, Thomas Mann, Bernard Shaw, Isadora Duncan e Rudolf Steiner (fundador da Antroposofia) entre outros. Em 1889, os teósofos Alfredo Pioda, Franz Hartmann e a condessa Constance Wachtmeister estiveram lá e fundaram um convento laico vegetariano, intitulado “Fraternitás”.
Em seguida, surge o artista plástico Karl Graser, propondo uma reforma de vida baseada em Rousseau e Tolstói, pregando que o homem deveria viver segundo seu próprio juízo, levando a uma série de práticas saudáveis, como como yoga, vegetarianismo, exercícios físicos e terapias através da arte. Assim adotaram práticas, como o nudismo e o uso de terapias naturais, como a hidroterapia, aromaterapia, acupuntura e a meditação. Seus moradores eram conhecidos por suas crenças políticas progressistas e na defesa de ideais como o pacifismo, feminismo e anarquismo.
O movimento não prosperou e em 1920 Doma Emy e sua tia se mudaram para Buenos Aires. 5 anos depois foram viver no Brasil, estabelecendo-se na região do Palmital (SC), onde já havia outras comunidades, que hoje se chama “ecovila”, como o ”Falanstério do Saí”. Trata-se de uma tentativa de criar uma comunidade autossustentável baseada em princípios anarquistas e socialistas, liderada pelo médico homeopata Benoit Jules Mure, hoje conhecido como Bento Mure. Ali conheceu seu futuro marido, Albert Raymond Costet, conde de Mascheville, também conhecido como Cedajor, astrólogo, violonista, escritor e adepto do “Martinismo”, filosofia inspirada no cristianismo exotérico.
Antes de falecer, em 1943, Cedajor previu que, no futuro, uma “nova humanidade” surgiria na Califórnia, EUA, “como ponta de lança da Era de Aquarius, que já dava sinais de sua aparição no horizonte. Segundo a profecia, essas pessoas iriam praticar o vegetarianismo e o pacifismo, vestindo-se com roupas coloridas e muita música, o que veio ase confirmar com o fenômeno hippie, nas décadas de 1960 e 1970”.
Em 1930 passaram a viver em Porto Alegre e dedicaram-se ao estudo da astrologia, tendo realizado mais de 10 mil mapas astrológicos. Difundiu seus estudos no livro Luz e Sombra: elementos básicos de astrologia, único livro que lançou em vida, publicado em 1980 pela Editora Hipocampo e relançado em 1997 pela editora Teosófica. Para ela, a astrologia é uma área de conhecimento e crescimento pessoal. 12 anos após enviuvar, casou-se com o astrólogo e egiptólogo Walter Pery Klippel. Dona Emy faleceu em 27/12/1981 e deixou um legado de ensinamentos na área astrológica.
Na condição de pioneira dos hippies, recebeu em meados da década de 1970, um bando de jovens cabeludos, vestindo túnicas de algodão e sandálias de couro, querendo conhecer mais sobre astrologia: A recepção foi majestosa:
– “Estou esperando por vocês há mais de 30 anos”.
Ela encara a astrologia de um modo diferenciado. Desenvolveu uma doutrina pessoal sobre a relação do cosmos com a vida humana, baseada em estudos teóricos e na observação da natureza a partir de sua própria vivência, utilizando a astrologia como uma ferramenta de autoconhecimento.
Costumava dizer: “Aos que nos perguntam se acreditamos na astrologia, devemos responder: Não, apenas a observamos”. Boa parte de sua vida e pensamento foram reunidas no livro O que o céu e os homens me ensinaram: antologia para a Era de Aquário, numa edição independente organizada por Amanda Costa e Antônio Carlos Bola Harres (ambos seus discípulos), lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, em 2023 e disponível no site da Amazon.