JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Bailarina em evolução no Bolshoi

Na sombra do grande cajueiro, Manoel assava o terceiro tacho de castanhas. Castanhas de caju – a mistura não denuncia se o caju é doce ou azedo, amarelo, vermelho ou rosado. É castanha. E tudo está misturado.

Tá bom e tão assadinhas – decide Manoel.

Com a longa vara puxa o tacho das trempes de pedras. Vira. Rebola areia por cima prumode esfriar e possibilitar a quebração.

A poucos metros das trempes, de Manoel e das castanhas assando, Joaninha quebrava as assadas prumode adicionar no peixe salpresado para o almoço, ao tempo que se via despachando bagagens e fazendo o check-in para Joinville, cidade de Santa Catarina. Viajava para fazer matrícula no curso de arte-educação do Bolshoi.

Joaninha sabia tudo daquela escola. Por isso sonhava, mesmo na hora de quebrar castanhas para o dicumê na roça.

Sabia que ficava em Joinville a única escola de ballet ligada ao Bolshoi. Sabia, também que, no Brasil, aquela escola de arte-educação fora fundada em 15 de março de 2000.

Sabia tudo.

Sabia, também, que aquele seria o primeiro passo para a realização dos seus sonhos – mesmo que vivesse em Queimadas, considerado um povoado dos “cafundós do Judas”!

Antes mesmo de se ver fazendo o check-in e despachando a bagagem, Joaninha se viu “quebrando o porquinho de barro” onde juntou todas as moedas de réis para quando chegasse aquele dia. O dia da viagem. O dia do início de tudo.

Manoel acabou de assar a última “tachada” de castanhas.

Virou o tacho e cobriu com areia para esfriar. Foi quando viu Joaninha inerte, sem bater para quebrar a castanha que segurava na mão.

Não falou nada. Preferiu deixa-la viajando nos sonhos.

Joaninha sabia até que, em Joinville, conseguindo a matrícula, não precisaria de ostentação financeira. Tudo que precisava era querer realizar os sonhos. E ela queria!

O avião taxiava. Lágrimas escorriam face à baixo, pela alegria de ter coragem para iniciar um sonho antigo. Outra, pela tristeza de deixar Queimadas, a assação das castanhas, a quebração, o peixe salpresado e parte da família – que vivia fazendo oração e a incentivando para a realização pessoal.

Manoel saiu dali.

Joaninha continuou a viagem, agora com o avião decolando. Decolando para a vida. O verdadeiro voo da liberdade. A liberdade, redundante, da libertação.

Escalas obrigatórias e técnicas. Mais pousos e mais decolagens. Turbulências. Nenhuma turbulência seria maior que a possibilidade da realização dos sonhos. A emoção. A alegria.

Último pouso. O piloto pedia a atenção dos passageiros para o aviso:

– “Em poucos instantes pousaremos no aeroporto de Joinville. A temperatura local é de 19 graus. Agradecemos a sua preferência em viajar conosco.”

Joaninha saíra do Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, com a temperatura de 40 graus – esse era um dos problemas que enfrentaria.

Mesmo debaixo da sombra daquele cajueiro, quebrando castanhas assadas por Manoel, não sentia o calor. Estava acostumada.

No saguão do Aeroporto, ninguém a esperava. Não conhecia nada. Não conhecia ninguém. Tomou um táxi e forneceu o endereço da Pousada Russa – que também não conhecia. Confundia o nome da pousada com o Bolshoi.

Chegou. Pagou a corrida. Foi direto para a “portaria” da pousada e até aceitou “dividir” o aluguel do cômodo com outra ocupante. Humildemente, sabia que precisaria fazer economia para o que teria pela frente.

O cansaço da longa viagem e o frio com o qual não estava acostumada, a fizeram dormir. Dormiu além do previsto. Perdeu o horário do café servido na pousada.

Voltou ao cômodo, trocou de roupa e resolveu partir para o sonho de, algum dia, fazer uma dança com o ídolo Mikhail Baryshnikov. Era chegada a hora.

Novo táxi. O endereço de agora era a Escola do Ballet Bolshoi. No percurso apreciou a beleza da cidade diferente de onde nasceu, cresceu e morava – uma verdadeira capoeira.

Sem estudos, sem as noções necessárias para a vida numa cidade distante da sua, tinha apenas como atender uma exigência da escola e das professoras: a vontade de vencer. Esse foi o único diploma que apresentou.

Chamava a atenção pelo corpo esguio, e, principalmente, pela cor da pele: existe, sim, mas é difícil encontrar uma verdadeira bailarina negra.

Disse de si para ela mesma: “ali estava uma”!

Treinos. Treinos e mais treinos. Muitos treinos. Muitas correções de postura que aceitava humildemente em troca de um objetivo: uma negra vencer como bailarina. Uma bailarina negra, brasileira. Uma bailarina negra, brasileira, nordestina e do Ceará.

Entendeu tudo que valeria à pena.

A Joaninha, a mesma que quebrava castanhas assadas para temperar o peixe salpresado, agora adotaria o nome artístico Joanna Juuas.

Não demorou muito a menina progrediu, motivada por uma força de vontade estranha. Muitos olhares se voltaram para ela. Ganhou matérias jornalísticas promocionais. Muitos confundiam e até esqueciam sua procedência – mas, para ela, com o propósito de vencer, aquilo não importava muito.

Certo dia, meses depois de mudar da Pousada Russa para um flat custeado por patrocínio, o porteiro no edifício onde ficava o flat manteve contato pelo interfone:

– Dona Joanna, está aqui na portaria um casal querendo falar com a senhora. Pelas normas do Condomínio, não posso autorizar a subida deles. A senhora pode descer para recebe-los?

Joaninha….. ops!, desculpas, Joanna Juuas se compôs e desceu.

O casal era uma jovem funcionária da Escola Bolshoi, que acompanhava um emissário do Ballet Bolshoi, de Moscou. O acompanhamento era para facilitar a comunicação, haja vista que Joanna Juuas mal falava o “catarinês”.

Objetivo da visita: a comunicação que Joanna Juuas fora selecionada para especialização em dança clássica no Corpo de Ballet Bolshoi.

Joanna Juuas quase teve um piripaque. Mas conseguiu se controlar.

Não demorou muito e Joaninha, desculpas mais uma vez, Joanna Juuas viajou para a Rússia, mais propriamente para Moscou.

Após horas, dias e meses de muitos ensaios, a estreia.

Na porta do Bolshoi, um banner que cobria parte da parede frontal do Teatro anunciava: “Joanna Juuas, a bailarina negra, faz par com Mikhail Baryshnikov.”

Foi nesse momento que dona Dulce, mãe de Joaninha, postada na porta da cozinha, bradou:

– “Criatura, tu ainda tá quebrando essas castanhas?! O peixe já está na panela e tu ainda vai ter que pilar para fazer o xerém. Cuida mulé.!

Joaninha acordou do sonho e da viagem!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *