ALEXANDRE GARCIA

SOLUÇOS

Bolsonaro está se recuperando. Imagino que não foi uma noite fácil com soluços, mas há uma bateria de prescrições clínicas para ver se acertam um tratamento para o soluço sem precisar de algo mais grave. Eu vi uma declaração falando até em não buscar outras alternativas.

E hoje é dia de se falar da língua portuguesa, porque “alternativa”, alter, já é outro, né? “Outra alternativa” é pleonasmo. O correto é “outras opções” ou “alternativas”, mas vá lá.

O que a gente exige do médico não é obedecer à língua portuguesa, mas seguir a medicina, que ele seja bom.

E, no caso de Bolsonaro, que tenha dado tudo certo: foi preciso colocar uma tela na hérnia inguinal direita, porque estava saindo por baixo, acima da aponeurose. Aproveitou e também corrigiu a hérnia do lado esquerdo, que ainda estava incipiente.

Mas a recuperação é prejudicada pela musculatura torácica e abdominal. É bom não mexer no que comanda isso, porque é o mesmo comando das batidas do coração e do pulmão. São movimentos involuntários. Vamos ver se eles acham isso.

* * *

O Supremo e o papel que não é dele

Dei uma olhada em todas as decisões do Supremo neste ano. E, sem entrar em saída do Barroso, Magnitsky e em Moraes, eu fiz uma listinha da quantidade de vezes em que o Supremo ou foi contra a Constituição ou cumpriu o papel de legislador, que não é dele.

O Poder Legislativo é outro: é o Congresso Nacional.

Em fevereiro, ele considerou inconstitucionais leis municipais que proibiam a tal linguagem neutra, que nem sei o que é isso. Com isso, desafina do artigo 13.

O artigo 13 da Constituição diz que a língua no Brasil é a língua portuguesa, e a língua portuguesa não tem linguagem neutra, não tem gênero neutro. O inglês tem, mas o português não tem.

Então, se uma lei municipal proíbe que se infrinja o artigo 13 da Constituição, o Supremo só deveria estar aliado a essa lei municipal e não ficar preso à burocracia de “não, legislação sobre língua é federal”. Deixem as pessoas obedecerem à Constituição.

As Câmaras Municipais que fizeram essas leis seguiram o artigo 13 da Constituição: a língua no Brasil é a língua portuguesa, e a língua portuguesa não tem linguagem neutra. O Supremo foi contra a Constituição. Depois, acesso a dados do celular. Se a polícia pega um celular de alguém, de um bandido, ou encontra um celular no chão, ou pega o celular daquele funcionário de confiança de Moraes que está na Itália agora, que vai lá e abre o celular e descobre um monte de coisa, não foi ele que mostrou.

Mas o Supremo legislou a respeito, não deixou que o Congresso fizesse lei sobre isso. Ele é que legislou.

Depois, responsabilidade das plataformas digitais: legislou também. No julgamento do 8 de janeiro, não era o juiz natural. O tribunal para isso era a primeira instância. O Supremo só depois de passar pela segunda, terceira, e se houvesse alguma questão constitucional.

Mas, por fim, de novo não seguiu a Constituição no artigo 231, que diz que são dos índios as terras que eles ocupam no dia 5 de outubro de 1988, dia da promulgação da Constituição. E o Supremo não consegue entender isso.

* * *

Erros de português

Falei de língua portuguesa agora, eu quero falar de novo. Houve uma fuga de 14 detentos de um presídio regional do estado do Amazonas. O G1, que é a maior agência nacional de notícias, disse que foi uma “fuga em massa”.

Eu não entendo que uma fuga de 14 pessoas seja uma fuga em massa. Uma fuga em massa é uma fuga em massa, não é? Se tivesse 100 detentos e fugissem 80, é uma fuga em massa. Agora, fugir 14 não é.

Mas tem coisa pior aí. Diz assim: que depois daquele banho de sol no pátio, conseguiram “cerrar” uma grade — e escreveram “cerrar” com “C”.

Ora, se uma grade está “cerrada” com “C”, ninguém consegue fugir.

DEU NO JORNAL

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (49) ‒ ARTISTAS

Mais conversas, hoje só com artistas e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Num fim de ano que, temos fé, será de melhores dias. E já me despedindo por algum tempo dos leitores, seguem:

BADEN POWELL, músico. Depois do jantar, na casa do primo Romildo Souza (Recife), pegou no violão. E, antes de começar a tocar, lembrou que Caymmi, nesses casos, dizia sempre

‒ Agora vou pagar minha janta.

CAETANO VELOSO, músico. Estava o amigo Zé Cláudio posto em sossego quando ligou. Queria conhecer nosso grande pintor. Marcaram encontro às três da tarde na casa do próprio (que me contou essa história), em Olinda (Pernambuco). Mas chegou tarde, já escuro, e encontrou lá somente Cícera

– Zé Cláudio está?

Aqui, parêntese para dizer quem é Cícera, personagem de romance. Soberana, em sua cozinha. Tanto que se alguém chegar, e não for logo cumprimentá-la, está perdido. Zé Cláudio pede para servir cafezinho, ela traz só um e diz

– Esse é do senhor. Seu amigo sirvo não que ele é muito mal-educado.

Está explicado, pois. Mais ou menos, vá lá. Voltando à pergunta de Caetano, Zé Cláudio está?, Cícera respondeu sem maiores preocupações

– No dentista.

– Posso esperar por ele aí dentro?

– Não.

E voltou a se preocupar com sua sopa. Uma resposta natural, para ela. Pouco antes, por exemplo, não deixou entrar Chico Buarque. Só que Chico se conformou logo, pedindo apenas o acesso à casa para uma dama que precisava fazer suas necessidades

– Ela que faça aí fora mesmo.

Nesse ponto da conversa bom dizer que a casa fica no alto de um morro, a quase 10 minutos da rua em que passam táxis. E o músico teve a infeliz ideia de não ficar com aquele no qual chegou. Já se preparando para descer o ladeirão, com risco até de ser assaltado, insistiu

– A senhora, pelo menos, diz a ele que estive aqui?

– Claro.

Desconfiado, e sem certeza de que seu recado seria mesmo transmitido por aquela mulher tão estranha, fez uma última pergunta

– A senhora desculpe, mas sabe quem sou?

– Sei, é Caetano Veloso, mas eu prefiro Tarcísio Meira.

CAPIBA, compositor. Consultório de tio João Suassuna (cirurgião plástico, irmão de Ariano), vizinho do nosso escritório de advocacia no então edifício Brasil. Secretária dele era Zezita, com quem depois Capiba casou e foi feliz para sempre. Quase toda tarde ia lá pra namorar. Numa dessas vezes

‒ Seu Zé Paulinho, entrar na conversa dos outros não é coisa boa.

E deu esse exemplo

‒ Fomos, ao aeroporto dos Guararapes, buscar aquele que vinha para ser o chefe de nosso departamento no Banco do Brasil. Avião atrasado. Sem ter o que fazer fiquei perambulando e, de repente, vejo cidadão que dizia

‒ Já tentou amicacina, canamicina, penicilina e não resolveu.

Foi quando Capiba sugeriu

‒ E por que não experimentou tomar no cu?

Resumindo, quem usou aqueles medicamentos foi a mulher (que acabara de falecer) do tal chefe, o mesmo que passou a lhe perseguir até o dia em que se aposentou. Ficou a lição.

CHICO ANYSIO, humorista. Disse que não conseguia viver sozinho, por isso casou tantas vezes. E nos contou episódio de quando se encantou por conhecida jogadora de basquete, da seleção (disse o nome). Como iria fazer show na cidade onde morava, telefonou

– Querida, aqui é Chico Anysio. Queria convidá-la para jantar. Por favor não ria, mas estou perdidamente apaixonado por você. E quem sabe, nesse encontro, algo possa nos unir.

– É um prazer, Chico. Mas já digo que não tenha esperanças porque nós dois gostamos da mesma fruta.

FLÁVIO CAVALCANTI, apresentador de televisão. Em seu programa, Um Instante Maestro!, quebrava discos e dizia o diabo do cantor. Para delírio do público. Um dos mal-amados preferidos era o gaúcho Vítor Mateus Teixeira, para seu público Teixeirinha. Que fez sucesso, nos anos 1960, com a canção Coração de luto. No mundo real, uma história trágica. Que a mãe do Teixeirinha, por sofrer de epilepsia, teve uma convulsão e desmaiou sobre fogueira que fazia para queimar alguns livros. E foi, literalmente, incinerada. Razão pela qual Flávio passou a chamar a música, e assim ficou mais conhecida no Brasil todo, como Churrasquinho de Mãe. Passa algum tempo e liga, para ele (relato de Flavinho, filho do apresentador), o próprio Teixeirinha

– Amigo Flávio, estou numa fase ruim, saí da mídia, não faço mais shows e preciso muito de sua ajuda.

– O que posso fazer por você?, amigo.

– Queria só que, no seu programa, você quebrasse mais uns disquinhos e falasse mal de mim. Seria um grande favor.

GENINHA ROSA BORGES, atriz. A Primeira-dama do teatro pernambucano me convidou para contracenar, com ela, no auditório da Cultura Francesa (era, então, diretor de lá). Num dia 21 de junho, seu aniversário (em 2022, completou 100 anos bem vividos). Tratava-se de um poema que recitaria em francês, Déjeuner du matin, de Jacques Prévert (nome daquele auditório). E o papel que me reservou era simples, sem falas. Na mesinha, tomando chá, ela falaria de suas mágoas. Quando fizesse um sinal lhe serviria chá, colocaria um chapéu, vestiria capa e iria embora (assim diziam os versos). Para que, sozinha, pudesse continuar sua encenação dramática. Não tinha como dar errado. Só que, novato no ramo, fiquei encantado com seu talento. E não prestei atenção nos gestos. Ela parou de falar, fez mil sinais e nada. Foi quando pegou a xícara, levantou até a altura dos olhos e entregou na minha mão. Surpreso disse no palco, em português mesmo,

– Desculpe, Geninha. esqueci.

Um desastre. A plateia passou rindo cinco minutos. E, eu, constrangidíssimo. Servi o tal chá, pus o tal chapéu, levantei para vestir a tal capa e desaparecer da cena. Tudo providenciado por Maria Lectícia. Era uma de chuva, Burberry, com 28 botões. Atacados, todos. Tive que ir desabotoando, um por um. O tempo correndo e Geninha, calada, esperando minha saída. O público desatou a rir, de novo, agora por conta da minha visível angústia. Foi quando entendi que deveria me justificar

– Os senhores por favor desculpem, mas a culpa é de dona Lectícia (apontei), que deveria ter-me entregado essa capa já pronta.

Foi pior. A plateia trocou risos discretos por gargalhadas. Até que, já vestido com a dita capa, me despedi da atriz com uma reverência e saí de cena, para que Geninha pudesse continuar sua trágica história. No fim do espetáculo, fui falar com ela

– Geninha, desculpe. Mas não subo de novo, num palco, até o fim da vida.

– Faz bem, Zé Paulo, faz muito bem.

E, agora, quem começou a rir foi ela.

JOSÉ CLÁUDIO, pintor. Quando fez 71 anos, respondeu pergunta do Jornal do Commercio (O que é fazer 71 anos?) com as duas primeiras frases dessa décima, sem nem perceber que tinham a métrica das cantorias de nossos interiores nordestinos. Completei os versos, no próprio papel do jornal, e mandei para ele

– “71 é desgraça
A pior coisa do mundo”
Nosso corpo vagabundo
Se arreia em qualquer praça.
Mas Zé Cláudio sua graça
Atente ao que vou dizer
Se alternativa é morrer
Ir para lugar nenhum
Pior que 71
Na verdade é nem fazer.

ROBERTO CARLOS, cantor. Dona Lectícia faria 60 anos. E era (ainda é) sua maior fã. Pensei lhe fazer uma surpresa. Na noite da festa de seu aniversário RC apareceria na sala, de surpresa; e, apenas ele mais seu violão, cantaria Parabéns pra você. Só. Pedi ao amigo Saulo Ramos, que era seu advogado, para saber qual seria o preço. Resposta do astro

‒ Nunca fiz isso na vida. E, se Deus quiser, vou morrer sem fazer.

SÍLVIO CALDAS, cantor. E autor (junto com Oreste Barbosa) de Chão de Estrelas. Em 1950, assinou contrato exclusivo com a Rádio Excelsior (São Paulo) e veio comemorar no Recife. Véspera da estreia do programa e nada, onde andaria Sílvio? Seus contratantes pediram a Esmaragdo Marroquim (diretor de redação do Jornal do Commercio) que o localizasse para que viajasse. Ele escolheu seis bares, onde acreditava poderia estar, e mandou um jornalista para cada. No Maxime (Pina) foi Rui (Amélio) Cabral, que encontrou o cantor (já cheio de batidas com cachaça) e avisou que deveria pegar um avião. Silvio lhe deu algum dinheiro e pediu que enviasse telegrama para seus patrões, esse

– Impossível retornar, safra cajus começando.

ZIRALDO, artista plástico. Estávamos com as crianças no hotel, em Buenos Aires, voltando de Las Leñas

– Lectícia, sabe de quem deu saudades?

– Não.

– Ziraldo.

– Telefone para ele.

Tudo bem prático, as usual. Liguei. Fone do escritório sem atender, liguei para o da casa

– Ziraldo está?

– Não.

– E Vilma?

– Também não.

– Quando voltam?

– Não voltam, estão fora do país.

Só para saber

– Onde?

– Buenos Aires.

Inacreditável coincidência

– Hotel, por favor.

– Hotel não, hospital.

Digo, a Lectícia,

– Vamos ver nosso amigo.

– Não dá, tenho que ficar com as crianças.

Fui sozinho. Estava se tratando de um pneumotórax, algo assim. No quarto, depois das conversas, disse que voltaria no dia seguinte e perguntei

– Precisa de alguma coisa?

– Uma garrafa de uísque.

Vilma

– E outra, para mim.

Na portaria do hospital, disseram que álcool e fumo não podiam entrar, mas amigos são para essas coisas. Consegui duas garrafas de Passport, escondi no casaco e entrei no quarto com elas. Zira pegou a dele, jogou a tampa fora e bebeu metade, no gargalo, em 15 minutos. Cowboy, como se diz. Nos despedimos. O resto deve ter bebido logo depois. Dia seguinte, antes de viajar, liguei para me despedir. Atendeu uma enfermeira, no quarto dele,

– Ziraldo, por favor.

– Teve uma piora inesperada e está na UTI.

– Tícia, vai ver que matei Ziraldo.

Felizmente escapou. Viva Zira.

* * *

PS. E 2025 se vai, amigo leitor. Um ano a mais, ou a menos, dependendo de como se veja. Aproveito a coluna para desejar que seja venturoso, e que corresponda a tudo que seja razoável esperar dele. Abraços fraternos (sem distinções, e com o coração), a todos e cada um. E paro por aqui, agora, de escrever. Algo bom. Que o leitor, imagino, já não aguentava mais. Só que, como todo bem não dura para sempre, volto depois do carnaval. Para nosso encontro semanal. Até a volta, se Deus quiser. E, espero, Ele vai querer.

DEU NO JORNAL

TUDO CERTO

O governo do RN, sob Fátima Bezerra aliada de Lula, cria uma bolsa de R$ 500 para jovens que cometeram infrações, enquanto ignora milhões que estudam, trabalham e cumprem a lei sem qualquer apoio.

A mensagem é perigosa, pois o erro é premiado, o esforço é desprezado.

Políticas assim invertem valores, enfraquecem a autoridade do Estado e alimentam a sensação de injustiça social.

Reintegrar é necessário, mas jamais às custas de quem faz o certo.

* * *

Nada de surpreendente.

Tudo normal.

A gunvernadora agiu conforme o regulamento do bando.

Aguardemos a piora.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

MANOEL XUDU, UM GÊNIO DO REPENTE

O grande poeta paraibano Manoel Lourenço da Silva, o Manoel Xudu (1932-1985)

O meu verso é como a foice
De um brejeiro cortar cana.
Sendo de cima pra baixo,
Tanto corta, como abana,
Sendo de baixo pra cima,
Voa do cabo e se dana.

***

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranquilo
E a lua chora com pena
Por não poder mais ouvi-lo

***

Eu admiro um caixão
Comprido como um navio
Em cima uma cruz de prata
No meio um defunto frio
E um cordão de São Francisco
Torcido como um pavio.

***

Nessa vida de amargura
O camponês se flagela
Chega em casa à meia-noite
Tira a tampa da panela
Vê o poema da fome
Escrito no fundo dela.

***

Uma novilha amojada
Ao se apartar do rebanho,
Quando volta, é com uma cria
Que é quase do seu tamanho;
Ela é quem lambe o bezerro,
Por não saber lhe dar banho.

***

Carneiro do meu sertão,
Na hora em que a orelha esquenta,
Dá marrada em baraúna
Que a casca fica cinzenta
E sente um gosto de sangue
Chegar à ponta da venta.

***

Uma galinha pequena
Faz coisa que eu me comovo:
Fica na ponta das asas,
Para beliscar o ovo,
Quando vê que vem, sem força,
O bico do pinto novo.

***

Tem coisa na natureza
Que olho e fico surpreso:
Uma nuvem carregada,
Se sustentar com o peso,
De dentro de um bolo d’água,
Saltar um corisco aceso.

***

O ligeiro mangangá
Passa, nos ares, zumbindo;
As abelhas do cortiço
Estão entrando e saindo,
Que, de perto, a gente pensa
Que o pau está se bulindo.

***

A raposa arrepiada
Se aproxima do poleiro,
Espera que as galinhas
Pulem no meio do terreiro;
A que primeiro descer,
É a que morre primeiro.

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VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A NOITE DE NATAL

A Noite de Natal é sagrada para todos os lares. Noite de encanto e mistério para as crianças e de terno e carinhoso desvelo para os pais.

Antigamente, os presentes para as crianças eram simples, limitando-se a bonecas para as meninas e carrinhos e jogos para os meninos.

Atualmente, os presentes são caríssimos, com vantagem disparada para os celulares e brinquedos eletrônicos.

Mergulhando no passado, encontramos a inocência das crianças, que sonhavam com presentes simples e de fácil aquisição por parte dos pais.

Antigamente, no profundo silêncio da noite, quando tudo repousava na calma e bem-estar do sono, nas belas cabecinhas infantis surgia, na véspera de Natal, a resplandecente imagem do Menino Jesus, que lhes sorria e lhes apontava os mais lindos e engraçados brinquedos. Eram bonitas bonecas, empertigados soldados, esquisitos palhaços, airosos cavalos com abundantes crinas; ruidosos tambores e estridentes cornetas. Tudo isso agradava às crianças, como também esplêndidos doces, caixas de confeitos e chocolates, latas de biscoitos e um mundo de desejadas guloseimas que fizeram a ventura dos nossos primeiros anos.

Os meninos colocavam embaixo das camas seus chinelos ou sapatos, pensando na grande surpresa da manhã seguinte. Os presentes sempre agradavam, pois eram dados por “Papai Noel”.

Reinava a inocência das crianças e o sono chegava logo cedo.

Diz uma antiga lenda:

“Tinha eu oito anos”, disse certo escritor, “e lembro-me que, na manhã do dia de Natal, depois de ter saltado apressadamente da cama para ver o que o Menino Jesus tinha posto no meu sapato, fui encontrar duas grossas moedas de dez tostões. O meu desapontamento foi terrível. Por que o Menino Jesus, que distribui por todas as chaminés tão bonitas lembranças, me daria um presente tão repugnante?

Instintivamente, me veio a ideia de que o meu pai , no intuito de desvanecer a minha fé em tal lenda, tivesse metido no meu sapato aquele repugnante dinheiro. Ele deve ter se sentido feliz, pois conseguiu realizar os seus desejos, já que da minha mente, a partir de então, desapareceu a visão do Menino Jesus tão nosso amigo, e, pela primeira vez, entrou na minha alma o veneno da dúvida.”

Essa lenda, na sua cândida invenção, encerra um drama familiar, onde havia um tesouro de afetos em jogo, brotados dos corações dos pais. Quantos sonhos destruídos na cabeça de uma criança que acreditava em Papai Noel!

No Natal, em alguns países, os meninos costumam arrumar presépios, que é o lugar onde nasceu Jesus, colocando-os numa paisagem que representa o país de Bethleem, por cujos caminhos surgem os Reis Magos, com incenso, ouro e mirra, em homenagem ao Deus Menino; pastores tocando flauta e uma multidão de homens e animais que bebem num pequenino lago, cavalos, cães e galinhas, figuras que dão vida à paisagem. O chão coberto de musgo verde aparece rodeado de montanhas nevadas (de farinha).

Este é um costume que vem da Idade Média, e que se tornou costume popular por São Francisco de Assis.

Em muitos países, há o hábito de se arrumar a árvore de Natal. Há sítios em que todas as famílias, sejam ricas ou pobres, arranjam o seu ramo de pinheiro e o enfeitam de brinquedos e luzes.

Escritores e poetas contam histórias interessantes sobre a origem desse costume. Falam -nos das belas coisas que aparecem na gelada e dura terra na noite de Natal, da Rosa de Jericó que se abriu debaixo dos pés da Virgem Maria, das árvores que se vestiram de linda folhagem e deliciosos frutos.

A comemoração do Natal é essencialmente familiar.

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

O ETERNO BAIXO CRESCIMENTO

Editorial Gazeta do Povo

Banco Central

Autoridade monetária afirma que crescimento menor se dará por causa da taxa básica de juros ainda “restritiva”

A economia nacional deve ter anos difíceis pela frente. Além da dívida pública galopante e do risco concreto de o Estado enfrentar um shutdown, projeção do Banco Central aponta que o Produto Interno Bruto (PIB) deverá crescer apenas 1,6% em 2026, o pior resultado em seis anos. A previsão foi divulgada na quinta (18) no Relatório de Política Monetária do quarto trimestre.

O PIB não é um indicador abstrato. Ele traduz a capacidade da economia de produzir riqueza, criar empregos e ampliar oportunidades. Quando o crescimento é baixo, os efeitos se espalham por toda a sociedade: empresas investem menos, produzem menos, vagas formais de trabalho encolhem, a renda per capita cai e até o Estado arrecada menos. Números do PIB muito aquém do esperado são alerta de que o país continua incapaz de gerar expansão consistente de sua atividade produtiva, condição indispensável para elevar a renda e a qualidade de vida da população.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, com o Brasil tendo iniciado seu ciclo de industrialização nos anos 1930, o mundo começou a acreditar que nosso país entraria em fase de crescimento econômico em razão de seu extenso território e amplas riquezas naturais, desde que houvesse abertura ao comércio internacional e redução da alta dependência de suprimentos internacionais.

Apesar das dificuldades, a partir de meados dos anos 1950, o Brasil conseguiu superar algumas vulnerabilidades e teve crescimento econômico a taxas consideradas boas para a época, até os anos iniciais da década de 1970. Esse crescimento levou os meios políticos, as entidades empresariais e a imprensa nacional a espalharem a crença de que o Brasil adentraria os anos 2000 com progresso material suficiente para eliminar a miséria, reduzir a pobreza e caminhar para entrar no grupo dos países desenvolvidos. Mas não foi o que se viu. A análise dos indicadores mostra que, ainda que em alguns momentos a economia brasileira tenha obtido boas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a rigor o crescimento por habitante não foi tão expressivo quanto poderia ser.

Problemas econômicos internos, somados às duas crises do petróleo de 1973 e 1979, também puxaram a economia para trás. A taxa de crescimento médio caiu e, no início dos anos 1990, o Brasil já estava sendo visto pelo mundo como um país rico em recursos naturais, mas condenado ao atraso econômico e social. Nesse cenário, a pobreza continuou sendo grande, os níveis educacionais continuaram sofríveis, a violência urbana explodiu, a inflação explodiu e parecia incurável mesmo após cinco planos econômicos, as leis seguiam complexas e instáveis, a Justiça continuou lenta e o setor público na União, estados e municípios seguia marcado por elevada corrupção e ineficiência administrativa.

Em 1994, as expectativas começaram a mudar para melhor na esteira do sucesso do Plano Real, que conseguiu debelar a inflação alta e crônica. O cenário econômico tornou-se favorável ao Brasil, especialmente pela boa situação internacional e pela sequência de elevação dos preços internacionais das commodities exportadas. Esse ciclo de alta durou oito anos, as contas externas foram melhoradas, a dívida externa foi substancialmente reduzida e foi aberto espaço importante para melhorar as políticas de distribuição de renda.

Aquela impressão de que o Brasil poderia ter um ciclo longo de crescimento começou a se desfazer já na primeira gestão de Dilma, que adotou uma “nova matriz econômica” baseada em estímulo ao consumo e elevação irresponsável do gasto público. Dilma foi reeleita em 2014 e os dois anos seguintes, 2015 e 2016, foram desastrosos na economia, com grave recessão que fez o PIB cair mais de 7% nesse período. Depois tivemos os governos de Temer e Jair Bolsonaro – quando a epidemia de Covid-19 derrubou as economias mundiais – e, mais recentemente, Lula, que ressuscita a desastrosa política de que “gasto é vida”.

Um governo que insiste em gastar como se não houvesse amanhã e que força a economia a rodar muito acima do seu limite obriga o BC a adotar política monetária restritiva. Como a missão do Banco Central é proteger o valor da moeda, ele reage da única forma que está ao seu alcance: elevando juros para frear a economia e, ao menos, conseguir o chamado “pouso suave”, em vez de uma nova e traumática recessão.

Ainda que a política monetária restritiva não seja o único motivo apontado para a baixa projeção do PIB de 2026 – o próprio BC cita também o baixo nível de ociosidade dos fatores de produção, a perspectiva de desaceleração da economia global e a ausência do impulso agropecuário observado em 2025 –, é inegável que o governo federal não tem feito sua parte. Em vez de fomentar investimento e proporcionar aumento da competitividade do setor produtivo brasileiro, o governo segue superaquecendo a economia com uma política fiscal irresponsável e, quem paga a conta, como sempre, são os brasileiros.

PENINHA - DICA MUSICAL