Bom dia.
Tempo estranho este que estamos vivendo.
Está todo mundo criticando o governo Lula.
Mas é preciso reconhecer que hoje estamos muito melhor do que no mês que vem.
Os funças dos Correios pedindo ajuda para quem afundou os Correios.
Lulaaaaa, lulaaaaa, lulaaaaa
🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣 pic.twitter.com/hu1LSiHzGZ
— Tumulto BR (@TumultoBR) December 11, 2025
Viraliza nas redes sociais, com fundo preto, uma nota de falecimento, aos 95 anos, do conselho federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
Deve ter morrido mesmo: há um tempão não dá sinal de vida.
* * *
É mesmo…
Faz tempo que não vemos esse órgão se manifestar.
Nem me lembrava mais que existia…
Guilherme Fiuza

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad: Correios e Eletrobras pedem socorro ao Tesouro, o que complica ainda mais as contas do governo
Tudo indica que o governo do PT já se esqueceu como foi que Dilma Rousseff perdeu o cargo no Palácio do Planalto – evento que em breve completa uma década. Dez anos é passado remoto para quem confia na amnésia nacional (a espontânea e a induzida).
Talvez por terem passado tempo demais repetindo a versão de que Dilma sofreu um golpe – e não um impeachment legítimo, presidido pela Suprema Corte na pessoa de um aliado político do PT – os partidários de Lula talvez tenham se esquecido do crime de responsabilidade que levou ao afastamento da presidente em 2016. E esse afastamento se deu por irregularidades contábeis – popularmente conhecidas como pedaladas fiscais.
A semântica sempre foi uma aliada dos políticos fisiológicos. Ou pelo menos eles assim a consideram. Caixa dois virou “dinheiro não contabilizado”, por exemplo. De fato, é bem mais simpático. Por que não investir na fraude de boa aparência? Não custa nada passar a chamar vultuosas comissões em negociatas de “pixuleco”. Ou melhor: custar, custa. Mas o bolso alheio está aí pra isso mesmo. Agora, o governo Lula parece estar disposto a um novo investimento nas aparências – o perigoso banho de loja nas contas públicas.
Segundo o Tribunal de Contas da União, o poder Executivo está atuando de forma reiterada para suprimir despesas do quadro contábil. O último lance dessa ação foi a proposta de exclusão de uma quantia da ordem de 10 bilhões de reais – referente a despesas de empresas estatais – do cálculo do resultado primário das contas governamentais.
“A prática reiterada da exclusão de despesas contribui para a elevação do endividamento público, para a redução da transparência das estatísticas fiscais e para a perda da credibilidade das regras fiscais vigentes”, alertou o TCU. De acordo com o Tribunal de Contas, esse tipo de expediente fere os princípios da Lei de Responsabilidade Fiscal. Será que o governo petista acha que o impeachment é como um raio que não cai duas vezes no mesmo lugar?
É um drama visível a olho nu. Essa última cartada foi dada no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias – ou seja, à luz do dia, para quem quiser ver. O Tesouro Nacional e o Ministério da Fazenda estão discutindo diante de todos se podem injetar recursos públicos no rombo dos Correios, e de onde virão esses recursos. Circula aos olhos de todos um cálculo de 20 bilhões de reais como valor necessário para esse socorro. E é notória a cogitação por parte da equipe econômica da retirada do balanço das estatais do resultado fiscal do governo. Seria a oficialização do que o TCU está chamando de exclusão de despesas.
Em tradução livre, o que o Tribunal de Contas está dizendo ao governo poderia ser fixado numa placa na entrada do Palácio do Planalto: é proibido pedalar. Ou seja: tentar fazer a conta fechar artificialmente, no puxa-estica de balanços, não pode.
Como o grupo político que se encontra hoje no Planalto está cansado de saber disso – inclusive pela experiência dolorosa de 2016 – talvez esteja apostando que a atual onda de indulgência irá se estender ao ciclismo contábil. Quem ousa duvidar?
Há histórias que parecem ter sido escritas pela mão caprichosa do destino; outras, pela ironia do universo; e algumas, raras, só podem ter sido compostas por um romancista bêbado que tropeçou nos próprios delírios.
A que vou narrar pertence ao último grupo.
Era meados de 2006, em Arcoverde-PE — esse enclave sertanejo onde o sol não nasce: ele incendeia.
O calor não é uma condição climática; é uma sentença metafísica. Ali, a luz não ilumina: ela interroga.
E foi sob esse holofote solar que ocorreu o mais improvável espetáculo do ultra-romantismo tardio da história brasileira.
Eu, professor de Literatura, recém saído de uma aula sobre o Ultra-Romantismo — essa febre sombria que transformou jovens sensíveis em cadáveres imaginários — caminhava em direção à rua, quando, como numa epifania teatral, a cena se abriu diante de mim.
Dois jovens. Dois espectros.
Dois personagens que pareciam ter emergido diretamente das páginas de Álvares de Azevedo, mas com um detalhe que faria o próprio poeta descer do além para pedir uma explicação:
Eles estavam usando sobretudos pretos no Sertão, ao meio-dia.
Sobretudos, meu amigo. Em Arcoverde. Com o sol derretendo placas tectônicas. E não parava aí: Botas pretas; Camisas pretas; Lábios pretos; Unhas pretas; A pele branca ganhando um brilho quase radioativo sob a luz inclemente. Era como se dois vampiros decaídos tivessem sido deportados para uma penitência tropical.
Quase dava para ouvir o sol rindo deles.
Eu, naturalmente, aproximei-me com o espanto de quem encontra Byron perdido num açude, e perguntei — com toda a simplicidade de quem ainda acredita que o mundo faz algum sentido:
— O que significa isso?
E então veio a resposta.
A resposta que não deveria existir.
A resposta que nenhum escritor ousaria inventar.
A resposta que coloca essa história no panteão das grandes narrativas humanas:
“Somos góticos.
Vamos ao cemitério ouvir música clássica nas sepulturas.”
Meus amigos… ali, naquele exato instante, o Ultra-Romantismo renasceu.
Não nas cortes europeias, não nos salões iluminados por velas, não nos poemas sobre tuberculose e amores impossíveis: mas no coração incandescente de Pernambuco, no bairro mais improvável, sob o sol assassino.
Era o triunfo da contradição.
Era o triunfo da estética sobre a lógica.
Era a celebração da adolescência enquanto teatro absoluto.
E, então, eu senti, uma mistura de espanto, riso, ternura, incredulidade e vontade de dizer:
“Meus filhos, cuidem-se.
Até os mortos suariam nesse calor.”
Mas havia, ali, naquelas botas escaldantes e naquelas caras pintadas de treva em pleno meio-dia, uma beleza estranha — a beleza de quem leva a sério aquilo que não faz o menor sentido. Uma fidelidade à própria fantasia que, de tão absurda, torna-se quase poética. Porque somente o ser humano é capaz dessas façanhas: vestir o imaginário como quem veste uma armadura, desafiar o sol com sobretudo, e transformar um cemitério em sala de concerto.
Somente o homem — esse animal trágico, lírico e ridículo — poderia decidir que a vida será gótica, mesmo que o calor diga o contrário.
E eu testemunhei isso.
Uma cena tão improvável que só se conta depois de anos — e ainda assim com a sensação de que é preciso um pouco de coragem para admitir que, sim, o Sertão já teve seus vampiros solares.