A HORA DA POESIA

A DOR – Augusto dos Anjos

Chama-se a Dor, e quando passa, enluta
E todo mundo que por ela passa
Há de beber a taça da cicuta
E há de beber até o fim da taça!

Há de beber, enxuto o olhar, enxuta
A face, e o travo há de sentir, e a ameaça
Amarga dessa desgraçada fruta
Que é a fruta amargosa da Desgraça!

E quando o mundo todo paralisa
E quando a multidão toda agoniza,
Ela, inda altiva, ela, inda o olhar sereno

De agonizante multidão rodeada,
Derrama em cada boca envenenada
Mais uma gota do fatal veneno!

Colobaração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

LIVRO PERDIDO – João Lins Caldas

Eu tinha o livro irmão desses cadernos,
Que tenho hoje espalhados na gaveta
Era escrito por mim com tinta preta
Tinha sonetos amorosos, ternos…

Branco, continha os madrigais eternos
Que nos lembra a saudade de um poeta…
Nele brilhava, lânguida, secreta
Toda min’halma de gelidez de invernos…

Um dia o livro me caiu dos dedos…
Arrastando consigo os meus segredos
Foi-se esse raio do meu morto brilho…

Fui procurá-lo loucamente aflito
E pela estrada ressoou meu grito
Lembrando um pai que procurasse o filho…

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

SONETO DO PREGADOR PECCADOR – Bocage

Bojudo fradalhão de larga venta,
Abysmo immundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na sciencia burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:

No pulpito um domingo se apresenta;
Prega nas grades espantoso murro;
E acalmado do povo o grão sussurro
O dique das asneiras arrebenta.

Quattro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas [qu’rendo]
Um peccador dos mais desaforados:

“Não (diz uma) tu, padre, não me engodas:
Sempre me ha de lembrar por meus peccados
A noite, em que me deste nove fodas!”

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

SONETO DO DIALOGO CONJUGAL – Bocage

Não chores, cara esposa, que o Destino
Manda que parta, à guerra me convida;
A honra prezo mais que a propria vida,
E si assim não fizera, fora indigno.

“Eu te acho, meu Conde, tão menino
Que receio…” — Ah! Não temas, não, querida;
A franceza nação será battida,
Este peito, que vês, é diamantino.

“Como é crivel que sejas tão valente?…”
Eu herdei o valor de avós, e paes,
Que essa virtude tem a illustre gente.

“Porem si as forças forem deseguaes…?”
Irra, Condessa! És muito impertinente!
Tornarei a fugir, que queres mais?

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

MORENINHA – Casimiro de Abreu

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

(…)

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
— Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!..

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má;
— Como tu ficas bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Eu disse então: — “Meus amores,
“Deixa mirar tuas flores,
“Deixa perfumes sentir”
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã;
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste, feiticeira,
E de certo mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta….
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?…

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te — rosa da aldeia —
Como mais linda não há.
— Jesus! Como eras bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

SONETO DO PRAZER MAIOR – Bocage

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

SONETO DE TODOS OS CORNOS – José Anselmo Correa Henriques

Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Cornissimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes cornos teem reinado.

Sicheu foi corno, e corno de um soldado:
Marco Antonio por corno perdeu c’roa;
Amphitryão com toda a sua proa
Na Fabula não passa por honrado;

Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga lettra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso;

Tudo no mundo está sujeito à greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso,
Pois isto de ser corno é tudo peta.

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

ABANDONADA – Augusto dos Anjos

Bem depressa sumiu-se a vaporosa
Nuvem de amores, de ilusões tão bela;
O brilho se apagou daquela estrela
Que a vida lhe tornava venturosa!

Sombras que passam, sombras cor-de-rosa
– Todas se foram num festivo bando,
Fugazes sonhos, gárrulos voando
– Resta somente uma alma tristurosa!

Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,
Hoje ela habita a erma soledade,
Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!

Seu rosto triste, seu olhar magoado,
Fazem lembrar em noite de saudade
A luz mortiça de um olhar nublado.

Colobaração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

EU FUI ELA – Benedicta de Mello

Eu fui “ela”. Uma quadra em tua vida,
Uma palavra simples e era tanto,
Que andando à farta no teu riso e pranto,
Não se gastou jamais, de repetida…

“Ela”… dizias. “Ela”… a mais querida,
Quando me deito e quando me levanto…
E assim cresceu por mim o teu encanto,
Sem reservas, sem tréguas, sem medida…

Alguns anos depois que nos casamos,
Amando outra mulher, escreves: “ela”…
“Ela” não quer que juntos estejamos…

Aquela “ela” era eu, noutro sentido…
Numa palavra breve como aquela,
Pudeste ser sincero e ser fingido…

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

SONETO DE TODAS AS PUTAS – Bocage

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d’um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Colaboração de Pedro Malta