A HORA DA POESIA

QUANDO – Benedicta de Mello

Quando as tardes sentires mais bonitas…
E vires nas manhãs, luzes estranhas…
E os domínios das forças infinitas
Te atraírem acima das montanhas…

Quando esqueceres íntimas desditas…
Quando ficares a sonhar façanhas
Ou tiveres idéias esquisitas…
Quando perderes e pensar que ganhas…

Quando mentiras te fizerem crer,
E tanto em ti teu eu se vá mudando,
Que até mais um sentido logres ter…

Quando adorares quem te vai matando…
Quando teu já não for o teu querer,
Não há dúvida alguma, estás amando!…

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

ESCÁRNIO PERFUMADO – Cruz e Sousa

Quando no enleio
De receber umas notícias tuas,
Vou-me ao correio,
Que é lá no fim da mais cruel das ruas,

Vendo tão fartas,
D’uma fartura que ninguém colige,
As mãos dos outros, de jornais e cartas
E as minhas, nuas – isso dói, me aflige…

E em tom de mofa,
Julgo que tudo me escarnece, apoda,
Ri, me apostrofa,

Pois fico só e cabisbaixo, inerme,
A noite andar-me na cabeça, em roda,
Mais humilhado que um mendigo, um verme…

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

SONETO DO PRAZER EPHEMERO – Bocage

Dizem que o rei cruel do Averno immundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para metter do cu na aberta greta
A quem não foder bem ca neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixae essas lições, sabida peta,
Foda-se a salvo, coma-se a punheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Si pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Sinão para foder com liberdade?

Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto ja; que é curta a edade,
E as horas do prazer voam ligeiras!

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

RESPOSTA A UM AMIGO EM MATÉRIA AMOROSA – Gregório de Matos

Fábio, que pouco entendes de finezas!
Quem faz só o que pode, a pouco obriga:
Quem contra os impossíveis se afadiga,
A esse cede amor em mil ternezas.

Amor comete sempre altas empresas:
Pouco amor, muita sede não mitiga;
Quem impossíveis vence, este me instiga
Vencer por ele muitas estranhezas.

As durezas da cera o Sol abranda,
E da terra as branduras endurece,
Atrás do que resiste o raio se anda.

Quem vence a resistência se enobrece;
Quem pode, o que não pode, impera e manda,
Quem faz mais do que pode, esse merece.

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

O POETA DESCREVE A BAHIA – Gregório de Matos

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

A INCONSTÂNCIA DOS BENS DO MUNDO – Gregório de Matos

Nasce o Sol e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

A UMA DAMA QUE TINHA UM CRAVO NA BOCA – Gregório de Matos

Vossa boca para mim
não necessita de cravo,
que sentirá o agravo
boca de tanto carmim:
o cravo, meu serafim,
(se o pensamento bem toca)
por ele fizera troca:
mas, meu bem, não aceiteis,
porque melhor pareceis
não tendo o cravo na boca.

Quanto mais que é escusado
na boca o cravo: porque
prefere, como se vê
na cor todo o nacarado:
e o mais subido encarnado
é de vossa boca escravo:
não vos fez nenhum agravo
ele de vos dar querela,
que menina, que é tão bela,
sempre tem boca de cravo.

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

AO DIA DO JUÍZO – Gregório de Matos

O alegre do dia entristecido,
O silêncio da noite perturbado
O resplendor do sol todo eclipsado,
E o luzente da lua desmentido!

Rompa todo o criado em um gemido,
Que é de ti mundo? Onde tens parado?
Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.

Soa a trombeta da maior altura,
A que a vivos e mortos traz o aviso
Da desventura de uns, d’outros ventura.

Acabe o mundo, porque é já preciso,
Erga-se o morto, deixe a sepultura,
Porque é chegado o dia do juízo.

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

A UM INGRATO – D. Pedro de Alcântara

Não maldigo o rigor de minha sorte,
Por mais feroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte

Do jugo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos da contínua felicidade
E amanhã nem um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e quase o mata,

É ver na mão cuspir, à extrema hora,
A mesma boca, aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela deu outrora.

Colaboração de Pedro Malta

A HORA DA POESIA

O POETA NA ÚLTIMA HORA DA SUA VIDA – Gregório de Matos

Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém, pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.

Colaboração de Pedro Malta