CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

CARMEN JONES (1954) (UM MUSICAL OPERÍSTICO)

Cartaz em DVD, lançado em 2000

Essa crônica foi elaborada em parceria com o grande cinéfilo d.Matt., que me guiou e me orientou sobre a origem do enredo e sobretudo pela origem da música, e sua adaptação para o filme, que originalmente foi tirada de uma famosa ópera francesa, (Carmen de Bizet) e belamente adaptada para a cena americana, totalmente dentro dos usos, costumes e comportamentos da comunidade negra daquele país.

* * *

“Diz a sinopse do filme CARMEN JONES (1954), o extraordinário musical operístico: Impulsionado pela poderosa obra musical de George Bizet e as magníficas letras de Oscar Hammerstein II, esta versão americanizada da clássica ópera Carmen de Bizet é ‘um show dinâmico e soberbo’ com uma incandescente Carmen no auge de sua exuberância musical.”

Dorothy Dandridge, indicada ao Oscar de melhor atriz, estrela do papel principal, uma ardente e sexy criatura que cativa Joe, (Harry Belafonte), um soldado atraente, que está longe de sua amada (Olga Jemes).

Após uma briga fatal com seu sargento, Joe deserta (abandona) seu regimento com sua excitante “femme fatale.”

Porém, logo Carmen se cansa dele e se une a um lutador peso pesado (Joe Adams), disparando a trágica vingança de Joe. Ajudando a colocar fogo na tela estão Pearl Bailey e Diahann Carroll, parte do “sensacional” elenco que torna esse maravilhoso musical “difícil de ser batido” (como bem resumiu o Los Angeles Times) na época do lançamento do filme.

Carmen Jones é uma ópera francesa, adaptada e traduzida musicalmente para as terras americanas, com talento e muita criatividade por gente talentosa que conhece o que faz e o faz com muita competência, catilogência, muito talento e muito amor à arte cinematográfica.

O que veio depois desse clássico musical (se é que veio alguma coisa do gênero), foram chanchadas salobras sem qualquer originalidade e não nos vem à memória nada que possa ser citado como produção de qualidade, mesmo a propalada ressurreição do gênero pelo pretensioso musical “LA LA LAND”, que a nosso ver foi um grande fiasco, como já era esperado pelos amantes dos musicais de qualidade e pela crítica de filmes desse naipe.

Esse breve introito serve apenas para lembrar aos possíveis leitores que no passado do cinema, no ano de 1954, foi levado à telona uma obra-prima do gênero musical, uma grande ópera, traduzida e regiamente adaptada pelos experts hollywoodianos, no que resultou em uma das maiores obras do gênero musical de todos os tempos.

Referimo-nos à famosa e muito popular ópera CARMEN DE BIZET. Hoje em dia chamar uma ópera de popular é quase uma falácia, mas creiamos mesmo que a ópera Carmen sempre foi a mais encenada, principalmente nos países latinos ou europeus de língua de origem latina.

Os produtores entregaram ao muito competente diretor Otto Preminger, outrora à frente da direção de Laura (1944), Anatomia de Um Crime (1959), Exodus (1960), O Homem do Braço de Outro (1955), a direção do filme e o resultado ficou acima de todas as expectativas. O diretor, com muita criatividade, exigiu um elenco totalmente de atores negros, pois nem mesmo nas cenas externas de rua das cidades em que foram filmadas, encontra-se uma única pessoa de cor branca. É um mundo black em todos os sentidos, e esse mundo é explorado com precisão em todas as cenas, com o comportamento dos personagens, suas reações, suas falas características, com sotaques “nigger”.

As árias, belamente adaptadas, são cantadas também com sotaques dos “niggers”, como por exemplo, quando Carmen na primeira ária, a famosa “Habanera”, ela canta num inglês crioulo, com gesticulação, sotaque e palavras adaptadas para o regionalismo criado. A ária “Habenera” da ópera é então cantada como “DAT’S LOVE’, exibindo um regionalismo local muito enraizado. Isso acontece em todo o filme, porém com grande qualidade, cujo resultado é acima do esperado.

A atriz principal, Dorothy Dandrige, é um achado, ninguém melhor do que ela seria capaz de interpretar esse papel com tanta criatividade, beleza, sensualidade e um carisma impressionante. Ficou famosa mundialmente e depois desse estrondoso sucesso viajou pelo mundo, se exibindo como cantora, inclusive algumas vezes no Brasil para a exibição de sua arte. Ela foi a primeira atriz negra a ser candidata ao prêmio Oscar como atriz principal.

Acontece que no filme quem dubla a cantora Marilyn Hornen, que a dubla em todas as canções, isto porque a atriz Dorothy Dandrige tem uma voz muito pequena e não poderia dar conta do recado completamente.

O elenco é de astros de grande qualidade, principiando com o trabalho notável do cantor Harry Belafonte que se sai muitíssimo bem em todas as cenas dramáticas exigidas pelo papel.

Uma das principais personagens é interpretada pela ótima cantora Pearl Bailey que usa sua própria voz em algumas oportunidades com excelente resultado.

O ator que faz o papel do boxeador famoso (na ópera, um toureiro), Leverne Hutcherson, tem a sua grande oportunidade ao interpretar a ária (toureador) que no filme foi adaptada com grande criatividade e bela interpretação dublada por um Baixo, e nos dá uma magnífica personificação de um pugilista famoso e interpreta magnificamente a famosa ária que foi intitulada “Stand up and fight”, é um dos pontos altos do filme.

O quinteto operístico também está presente, numa bela composição intitulada “Chicago Train”, muito bem cantada a cinco vozes com precisão notável.

Enfim, todas as fases da ópera foram adaptadas belamente com resultados acima do esperado e quando termina o filme, ficamos deslumbrados com tamanha criatividade artística.

Há que se citar também a presença e voz da cantora Diahann Carrol num papel secundário, mas com uma presença de tela bastante agradável.

CARMEN JONES é um filme musical operístico único. Uma bela obra de arte cinematográfica. Assisti-lo cinqüenta vezes, se necessário for, é um presente para o lado bom gosto do cérebro, que não se cansa de sentir o que é belo.

Carmen Jones (trailer)

* * *

Carmen Jones (1955): “Beat Out dat Rhythm on a Drum” – Pearl Bailey – Full Song/ Dance – Musicals

DEU NO JORNAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

As comunicações que trafegam nas redes sociais são demarcadas por um palavreado pleno de abreviaturas, de neologismos, de códigos, enfim, um “internetês” estranho que desacata, sem-cerimônia, os mandamentos mais elementares da língua nacional.

Enquanto o internetês” tenta sobrepor-se à língua pátria, esta, de ânimo forte, vai resistindo bravamente a todos os reveses.

Porém, não é de estranhar se os professores, premidos pela influência poderosa da força do hábito, retornarem às salas de aula, não para ensinar português, mas para aprender o “internetês”.

DEU NO JORNAL

O BRASIL QUE NÃO APRENDE

Editorial Gazeta do Povo

Poucos problemas são tão persistentes e decisivos para o futuro do Brasil quanto a crônica deficiência na qualidade da educação e da formação dos brasileiros. Há décadas, esse obstáculo impede o país de concretizar seu tão prometido potencial, mantendo-o na incômoda condição de “nação do futuro” que jamais se realiza. As avaliações e os rankings internacionais, com regularidade quase implacável, escancaram o abismo que nos separa das nações que souberam investir com seriedade em formação educacional. A mais recente delas, o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgado nesta segunda-feira (5), mostrou que o Brasil ainda pode ser chamado de um país de analfabetos.

Os números mais recentes do Inquérito Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf) escancaram a gravidade desse cenário. Cerca de 7% da população brasileira entre 15 e 64 anos permanece analfabeta – incapaz de realizar tarefas básicas que envolvam a leitura de palavras, frases simples ou operações matemáticas elementares, ainda que alguns consigam reconhecer números. A maioria desses indivíduos (86%) jamais teve acesso à escola, mas chama a atenção o fato de que 6% dos analfabetos chegaram a frequentar o ensino médio, evidenciando falhas estruturais no próprio sistema educacional.

Além desses, 22% da população encontra-se no nível rudimentar de alfabetismo: são pessoas que conseguem ler e escrever frases curtas, realizar operações matemáticas simples, mas enfrentam sérias dificuldades para compreender textos mais densos ou resolver problemas minimamente complexos. Nesse grupo, a escolarização também não é sinônimo de competência: 31% cursaram o ensino médio e 12% chegaram ao ensino superior. Somando-se os analfabetos e os que possuem apenas conhecimentos rudimentares, chega-se a um alarmante contingente de 29% da população considerada analfabeta funcional.

No nível seguinte, classificado como elementar, encontra-se a maior parcela da população (36%). Esses indivíduos são capazes de interpretar textos de média complexidade, resolver problemas com números até a ordem do milhar e compreender gráficos e tabelas simples – uma capacidade aquém do esperado, sobretudo quando se constata que mais da metade desse grupo (56%) concluiu o ensino médio, e 18% chegou ao ensino superior. Apenas 25% dos brasileiros possuem um nível intermediário de alfabetismo funcional, o que lhes permite lidar com textos mais complexos, aplicar conceitos matemáticos como porcentagem e proporção, e interpretar argumentos e figuras de linguagem. No topo da escala, o nível proficiente – que denota domínio pleno das habilidades de leitura, escrita e raciocínio lógico ­– abrange apenas 10% da população. Um número que, por si só, revela o abismo entre o ideal educacional e a realidade brasileira.

Esses dados sobre o alfabetismo, no entanto, não surpreendem. As edições anteriores do Inaf indicam que a situação tem se mantido praticamente inalterada desde 2002, com variações mínimas ao longo dos anos. A persistência desse quadro revela não apenas a lentidão das políticas públicas voltadas à educação, mas também uma preocupante naturalização do fracasso educacional no país – ou a decisão deliberada de se manter tudo como está.

Um exemplo emblemático dessa inversão de prioridades que contribuiu para o Brasil continuar com grande número de analfabetos funcionais pode ser observado na recente decisão do Ministério da Educação (MEC), sob o governo Lula, de suprimir todas as referências ao uso de “evidências científicas” na formulação de políticas voltadas à recomposição da aprendizagem no período pós-pandemia de Covid-19. O termo, que aparecia de forma recorrente ­– três vezes – na versão anterior do Pacto Nacional de Recomposição das Aprendizagens, publicada em 2022, durante o governo Bolsonaro, foi completamente eliminado do novo texto, divulgado em fevereiro deste ano.

Originalmente, o uso de evidências científicas era apontado como um princípio orientador fundamental, servindo de base para a tomada de decisões e o desenvolvimento de recursos pedagógicos eficazes, voltados a professores e gestores. Na nova versão, esse compromisso com a efetividade foi substituído por diretrizes genéricas como a “promoção da equidade” e o reconhecimento das “diversidades e singularidades” dos estudantes, abrindo espaço para decisões meramente ideológicas na educação, que em nada poderão contribuir para resolver a crítica situação da educação brasileira.

A experiência internacional e a própria lógica do desenvolvimento sustentado demonstram que educação, ciência, tecnologia e domínio dos processos produtivos são os verdadeiros motores do progresso econômico e social ­– muito mais determinantes do que a simples posse de recursos naturais. Um país que negligencia a formação de seu povo está, na prática, abrindo mão de seu futuro. Sem uma educação de fato qualificada, universal e baseada em evidências, capaz de formar brasileiros plenamente capazes de ler, escrever, interpretar e pensar e não apenas analfabetos funcionais, o Brasil continuará preso à retórica do “país do futuro”, eternamente adiado. Passou da hora de tirarmos a educação do papel e colocá-la no centro das prioridades nacionais – não apenas nos discursos, mas nas decisões concretas e, sobretudo, nos resultados.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

DEU NO JORNAL

DEU NO X

DEU NO JORNAL

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA