DEU NO X
CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA
MARINA VALENTIM – ARAGUARI-MG
MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS
ESCRITÓRIOS SEM PAREDES
Houve um tempo em que certas atividades exigiam portas fechadas. Conversas profissionais, reuniões estratégicas, discussões financeiras ou jurídicas costumavam ocorrer em salas reservadas, onde a discrição era considerada parte da própria civilização.
Então veio o notebook. Depois o smartphone. Em seguida os fones sem fio. E, assim, surgiu uma nova variante da espécie humana: o profissional nômade do viva-voz.
É bem verdade que, no tempo em que os celulares eram apenas telefones, já havia quem fizesse questão de demonstrar que os seus negócios não podiam esperar por momentos de maior privacidade. Mas, com o avanço da tecnologia, as exibições de alta conectividade ficaram cada vez mais frequentes e explícitas.
Hoje, qualquer cafeteria vira facilmente uma filial improvisada de multinacional. Aeroportos tornaram-se coworkings permanentes. Restaurantes já não servem apenas comida: oferecem também, às vezes involuntariamente, ambiente para reuniões corporativas e alinhamentos de equipe.
Outro dia, enquanto eu e Natália – minha mulher – almoçávamos no restaurante de um shopping, observamos que um rapaz de seus vinte e poucos anos ocupou a mesa ao lado, posicionou o laptop diante de si e fez dois pedidos: um chope e a senha do wi-fi.
Até aí, nada demais. Afinal, eram quase duas da tarde de uma sexta-feira, e muita gente que estava naquele restaurante não voltaria mais ao trabalho naquele dia.
Mas, ao contrário do que deduzimos, ainda não havia “sextado” para ele. Minutos depois da chegada do rapaz, nossa atenção foi novamente atraída para a mesa vizinha: agora ele falava alto, em uma aparente discussão sobre relatórios, metas e medidas de compliance.
Natália olhou para mim com um sorriso de surpresa, e seu olhar já me encontrou sorrindo de volta e abrindo os braços – como o clássico emoji de “fazer o quê?”.
Já havíamos presenciado situações semelhantes e trocado impressões sobre o assunto, mas daquela vez fomos arrastados para uma videoconferência não agendada. Sem ninguém nos indagar sobre nosso interesse, fomos praticamente integrados ao conselho administrativo da empresa!
Esse não é um caso isolado. Certas pessoas parecem acreditar que a mera abertura de um notebook em local público lhes concede uma espécie de imunidade acústica. Como se o restante da humanidade automaticamente deixasse de existir diante da relevância transcendental de suas demandas profissionais.
E não se trata apenas de falar alto. Há também a teatralidade. O sujeito franze a testa para a tela. Faz pausas longas. Suspira. Concorda balançando a cabeça, mesmo quando ninguém ao redor perguntou absolutamente nada.
Há também os que caminham de um lado para o outro, com o celular na mão, reproduzindo em escala reduzida a energia de um CEO prestes a decidir os rumos da economia mundial — embora, às vezes, esteja apenas discutindo o atraso de uma planilha.
Alguns sequer se dão ao trabalho de usar fones de ouvido. O cidadão posiciona o celular sobre a mesa, ativa a câmera e passa quarenta minutos debatendo metas, contratos e indicadores, impondo a dezenas de desconhecidos a condição involuntária de plateia corporativa.
E o mais curioso: muitos desses assuntos parecem exigir sigilo absoluto. O tom de voz sugere alta complexidade estratégica. Mas tudo é compartilhado publicamente entre cappuccinos, garçons, ruídos de xícaras e, no específico caso aqui referido, goles em canecas de chope.
Longe de mim querer impor a alguém a maneira como trata os negócios de sua empresa. Estou apenas compartilhando com o leitor minha perplexidade – e confesso, incômodo – diante de um comportamento que parece ser o novo normal.
Pode ficar tranquilo o leitor que chegou até aqui e se reconhece como um desses executivos de escritórios sem paredes.
Talvez o verdadeiro símbolo dos tempos atuais não seja a inteligência artificial, mas a capacidade humana de transformar qualquer ambiente em escritório — e qualquer pessoa próxima em testemunha compulsória de sua produtividade.
Há algo de curiosamente paradoxal nessa nova etiqueta social: nunca se falou tanto em empatia, respeito aos espaços coletivos e convivência civilizada, mas jamais foi tão comum tratar o ambiente compartilhado como uma extensão irrestrita da própria sala, do próprio escritório e, sobretudo, da própria importância.
DEU NO X
NUM VAI ACHAR NUNCA MAIS…
JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE
O NÃO DO AMOR
Uma caboca faceira
Esqueletou meu juizo
Pousou sem nenhum aviso
No corpo nu da paixão.
Uma fofinha malvada
Uma fofura morena
Uma almofada de pena
De sobre-cu de pavão.
Meu tangedor de viver
Ganhou um trote seguro
Escutando com apuro
A fala dessa mulher
Nem escura nem acesa
Água quebrada a frieza
Na fonte do bem-me-quer.
Contorniei as fronteiras
Do corpo da caboquinha
Que nem a fada madrinha
Com varinha de condão
Que mesmo dizendo NÃO
Só parecia que sim
Pois NÃO de amor é assim
Se engana com o coração.
Porque o NÃO do amor
Tem sentido diferente
Um NÃO bem forte diz: NÃO!
Depois um NÃO displicente
Traz dez NÃOZINHOS manhosos
Pra bem juntinho da gente.
LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA
É HOJE QUE TRUMP TREME
SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO
XIQUE-XIQUE
DEU NO X
POR ISSO ESBANJANJA NÃO FOI…
COMENTÁRIO DO LEITOR
METÁFORA DA POESIA
Comentário sobre a postagem BORDANDO VERSOS
Jairo Juruna:
Achei bacana encontrar nesta roda de glosas um timaço de estilistas da poesia popular CELEBRANDO a literatura de cordel não apenas como entretenimento, mas como uma forma de trabalho amoroso.
Eles transformam o ato de fazer poesia em algo palpável — ora fio, ora semente, ora oração — mas sempre movido pelo binômio amor e paixão, que garante a sobrevivência dessa arte no tempo.
Gostei de tudo, com destaque para a poesia de Jesus de Ritinha na qual o poeta introduz uma ideia diferente, uma metáfora da poesia como cultivo, plantação e colheita.
Falar em “agricultar poesia” passa a ideia de que o poeta prepara/cultiva a terra (no caso, a mente), planta a semente (a ideia) e colhe os frutos (os versos primorosos), reforçando a ligação intrínseca entre o homem do campo e a literatura de cordel.
ALEXANDRE GARCIA
COMO É QUE AINDA NOS DEIXAMOS ENGANAR PELOS PROGRAMAS ELEITOREIROS?

O presidente Lula discursa no lançamento do novo Desenrola
Eu tenho falado aqui sobre esse Desenrola, e os números mostram como a situação piorou. Hoje, há 82,3 milhões de brasileiros endividados; isso equivale a 49% dos brasileiros adultos. É muita gente! E então, quando chega a época da eleição, Lula vem com esses programas. Quando lançou o primeiro Desenrola, os endividados eram 15 milhões. Como a renegociação facilita, as pessoas se endividam mais. Mas eu não imaginava que o salto fosse tão grande. Pensei que o número de endividados havia dobrado, mas não: mais que quintuplicou, quase sextuplicou. O programa abrange quem ganha até R$ 8.105 por mês, e a dívida média é de R$ 6,3 mil – mesmo assim, é dívida que não está sendo paga.
E falam em usar dinheiro do Fundo de Garantia. Mas o FGTS é para comprar o que chamamos “bem de raiz”. A pessoa usa o FGTS se ficar doente, ou se aposentar, precisar do dinheiro, não tiver mais renda, ou para comprar um imóvel, um bem de raiz que não vai se deteriorar – pelo contrário, em geral vai se valorizar. Agora, usar para pagar dívidas? Isso se chama volatização do Fundo de Garantia. É mais uma das muitas irresponsabilidades do governo, que vão se somando por causa das medidas eleitoreiras, demagógicas e populistas. Nós conhecemos essa história há quase 30 anos, mas continuamos insistindo. Será que não usamos o cérebro que Deus e a natureza nos deram, para pensar a respeito? Estamos sendo enganados; não somos gente, somos cordeirinhos conduzidos.
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Alguém vai bancar o Desenrola; você imagina quem é?
Também não sabia que, além do Fundo Garantidor de Crédito – aquele que vai ter R$ 50 bilhões de prejuízo com Daniel Vorcaro –, existe um outro, o Fundo de Garantia de Operações, que deve ser usado no novo Desenrola. É claro que você sabe de onde vêm esses fundos. Não é de Marte, nem de Taiwan. Vêm das pessoas que investem no mercado financeiro. Sempre se retira um pouquinho para bancar esses fundos garantidores. Alguém sempre vai pagar o almoço, porque não existe almoço grátis.
Isso tudo deveria nos mostrar a importância de administrar a nossa vida financeira. Eu vejo tanta gente devendo e lembro do meu avô, que sempre me ensinou: não dê o passo maior que as pernas, porque senão rasga as calças. Há momentos em que talvez seja necessário fazer uma dívida, mas o ideal é a emprestarmos dinheiro para o banco; o banco empresta para os outros e nos paga juros. Viramos sócios do banco – mesmo que um sócio menor, já que o banco sempre fica com a melhor parte.
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Deputado petista segura pedidos de informação na Câmara
O editorial do Estadão, um dos mais importantes jornais do país, está falando de um deputado do PT que faz parte da Mesa Diretora da Câmara como primeiro-secretário: Carlos Veras. O jornal fez um levantamento e apurou que, de 1 mil pedidos de informações sobre coisas do governo – incluindo o escândalo do Master – feitos por deputados, 600 estão parados na gaveta dele. E o Estadão pergunta no editorial: sem informação, como haverá fiscalização? Isso é uma espécie de censura, uma blindagem ilegal, porque o artigo 37 da Constituição menciona a publicidade como um dos princípios do serviço público. Tudo é público, e a fonte do poder e do dinheiro tem todo o direito de saber o que estão fazendo com o dinheiro e com o poder.



