CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

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O DEVER DE TODA BOA AULA: SER CHATA E ENTEDIANTE

Francisco Razzo

Sou professor de ensino médio há mais de vinte anos. Tempo suficiente para ter assistido à chegada do celular na sala de aula. Primeiro como novidade, depois como ruído, hoje como vício. Antes dos aplicativos, antes dos fones, antes da hiperconexão, havia uma presença silenciosa que marcava o tempo da escola: o tédio.

Sim, havia tédio. E o tédio era formativo. Adolescente precisa de tédio. Tédio é o intervalo entre o estímulo e o sentido. É no tédio que o olhar se perde no teto, que se desenha no canto do caderno, que o pensamento divaga até tropeçar numa dúvida, numa pergunta. Era no tédio que se descobria que aprender não é prazer imediato. Compreender é fricção entre o que se sabe e o que não se entende. Ou seja, esforço. Tão chato quanto cansativo.

Na semana passada, participei do Fronteiras do Pensamento, em São Paulo. Fui ouvir Jonathan Haidt, psicólogo social americano e autor de A Geração Ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. Sua tese é simples, mas devastadora: a infância foi radicalmente reconfigurada pela cultura digital. Deixou de ser tempo de descobertas no mundo físico para se tornar um estágio de exposição contínua ao mundo virtual.

Haidt chama esse processo de “A Grande Reconfiguração” — a ascensão da infância baseada no celular. A partir de 2010, a curva de ansiedade e depressão entre adolescentes — especialmente meninas — dispara. Segundo ele, o problema está no ambiente em que os jovens passaram a crescer: um mundo real superprotegido, onde nada pode dar errado, e um mundo digital sem proteção alguma, onde tudo pode dar errado o tempo inteiro. Haidt apresenta dados sólidos que mostram que não se trata de mera correlação. Ele demonstra que a explosão dos transtornos mentais coincide com mudanças concretas no modo de vida digital e que os piores indicadores aparecem justamente nas populações com maior exposição às redes. Há um nexo causal e o argumento dele é muito convincente.

De qualquer forma, a infância baseada no celular transformou as relações sociais. Os pais restringiram a liberdade na rua, mas abriram mão de qualquer limite nas telas. A criança perdeu o corpo e ganhou um perfil. Perdeu a experiência direta da vida social e ganhou o feed. E, nesse processo — e aqui me intrometo — perdeu também o direito de se entediar.

A lógica da hiperconectividade não tolera silêncio, nem demora, nem vazio. Cada segundo sem estímulo é tratado como falha. A escola, então, passou a ser medida por esse padrão. Foi assim que a ideia da “aula agradável” se impôs. Lembro de uma mãe me dizendo: “Professor, minha filha precisa de aulas mais divertidas, mais leves.” Ora, isso é um sintoma. Um erro de diagnóstico sobre o que é, afinal, uma sala de aula.

Com todo respeito a quem pensa o contrário, aula não é entretenimento. Saber não é algoritmo. A inspiração não vem de agradar, mas de provocar. De ferir suavemente a inteligência. De deixar uma pergunta corroendo em silêncio. Aula boa é a que exige do aluno aquilo que ele ainda não sabe que tem: atenção. E isso, em outras palavras, exige esforço — e esforço, sejamos honestos, cansa.

De forma categórica, Haidt propõe o mínimo: tirar os celulares das escolas. Não por nostalgia ou moralismo, mas por uma questão de saúde pública. Ele elogiou, inclusive, a legislação brasileira sobre o tema — que, embora pouco aplicada, reconhece o problema com clareza. Aqui, mantenho alguma distância. Não creio que a proibição, por si só, resolva o desequilíbrio. Mas reconheço o ponto: onde o celular sai, o sono melhora, o rendimento aumenta, a ansiedade recua. Onde há menos tela, há mais gente. E mais tédio.

Por isso insisto. O que está em jogo é ainda mais fundamental: precisamos devolver o tédio à escola. O tédio é o que antecede o pensamento. É ele que prepara o terreno da curiosidade. O filósofo Martin Heidegger, em Os Problemas Fundamentais da Metafísica, dedicou longas páginas ao tédio como experiência decisiva na busca de sentido. Quando nada nos distrai, algo mais essencial pode se mostrar. O tédio inquieta a alma. Sem ele, tudo vira estímulo passageiro — e nada permanece.

A escola tem o dever de frustrar. De não se adequar ao ritmo da tela. De exigir espera. De ensinar que o pensamento precisa de tempo, de cansaço, de esforço. Nenhuma ideia se fixa sem lentidão. Ensinar, afinal, é desacelerar o mundo. É repetir. É sustentar o silêncio até que a palavra venha. O professor não pode ser um animador de plateia. Ele é a pausa inquietante entre o ruído e o sentido. O intervalo entre o mundo e a alegria genuína de aprender. E o sentido do conhecimento só aparece quando aceitamos o vazio que o precede.

Então, mais do que nunca, antes de resistir ao celular, é preciso resistir à pedagogia do agrado. Resistir a essa aversão patológica à frustração. E essa resistência começa com algo simples: devolver à escola o direito de ser chata, lenta, silenciosa — e, por isso mesmo, fecunda.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

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ESCANCARADO

José Dirceu afirmou com segurança que Jair Bolsonaro “será preso em outubro” pelo Supremo Tribunal Federal.

Ele deixa claro conhecer bem a corte que o descondenou, após se enrolar no mensalão e no petrolão.

* * *

Nada mais precisa ser dito.

A fala do descondenado petralha diz tudo.

Este é o nosso Brasil Brasileiro 2025.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

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PRA FAZER INVEJA AOS POBRES

Lula chegou ontem em Salgueiro-PE com mais um par de sapatos de luxo.

Desta vez Zegna, R$ 7.500 o par.

E isso enquanto discursava para os pobres e aposentados que seu INSS ajudou a roubar.

* * *

Quando li essa nota aí de cima, pensei que o redator havia exagerado no preço do sapato.

Ou digitado errado.

Aí fui futucar na internet e confirmei: existe mesmo um tênis de luxo por esse preço.

Esse que está a seguir:

Ou seja, nada de anormal.

O larápio andou no interior aqui de Pernambuco conforme o padrão usual.

Tudo compatível com os gastos da Primeira Esbanjanjeira.

ALEXANDRE GARCIA

ELEITOS PELO POVO, GUIADOS POR INTERESSES

Hoje, começo com uma pergunta de uma ouvinte que me acompanha no meu canal do YouTube: a Jaqueline. Ela reclama, dizendo o seguinte: “Olha, você toda hora fala do poder do povo, que o povo é a origem do poder, que isso está na Constituição. Em uma democracia, o povo é a origem do poder e exerce esse poder por meio de seus representantes eleitos.”

Aí ela pergunta: será que os representantes eleitos — deputados, senadores, vereadores — estão realmente representando o seu povo, seus eleitores, seus estados, seus municípios? É uma pergunta muito boa. Ou será que eles estão obedecendo aos partidos? Eu acrescento: aos financiadores de campanha. Estão a serviço de si próprios, de suas famílias, dos amigos que têm empresas? Ou estão realmente representando, conseguindo sentir as aspirações de seu povo, de seus eleitores?

Bom, eu respondo para a Jaqueline o seguinte: em primeiro lugar, para que isso aconteça, teria que haver voto distrital. Cada representante deveria representar o seu distrito, para ser reconhecido na rua, para ser cobrado de perto. Voto distrital.

Segundo, eu acho que as redes sociais ajudam, porque está mais fácil cobrar do representante. O representado pode dizer: “Isso não foi o que você prometeu na campanha. Não voto mais em você. Você não está a serviço do povo; está a serviço do seu partido ou de algum grupo econômico.”

Por outro lado, acho que a censura estraga tudo isso. A censura quer manter pouquíssimas fontes de informação, que entregam apenas aquilo que acham que o povo deve receber — e não aquilo outro —, e, ao mesmo tempo, quer calar aqueles que discordam das autoridades. A autoridade é um prestador de serviço, vive dos impostos da nação, mas tem que prestar serviços. É assim que funciona.

Jaqueline, obrigado pela participação.

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Assistência sob suspeita

Tem outra coisa aqui: descobriu-se agora que o Ministério do Trabalho pagou, três dias depois de assinar um convênio, R$ 15,8 milhões — quase R$ 16 milhões — para uma ONG chamada Unisol Brasil, lá do ABC Paulista, ligada a um sindicato, que é ligado ao PT, para tirar lixo lá em Roraima, no território Yanomami. E qual é o lixo no território Yanomami? Há cestas básicas que foram entregues lá e que geram embalagens plásticas — deve ser isso.

Gente, eu estive olhando: dá mais de 3.500 quilômetros de distância. Vocês não acham que seria muito mais fácil ensinar os indígenas a reciclar o plástico? Ou, sei lá, enterrar, ou vender para quem quer reciclar, e não deixar jogado lá? Aliás, eles viviam de quê antes? Antes de aparecerem os doadores, viviam do que encontravam na natureza.

O interessante é que vi aqui, na notícia, o tamanho da reserva: equivale à soma do Espírito Santo com o Rio de Janeiro, onde vivem 21 milhões de brasileiros. Segundo amigos que circulam por lá, em toda a área vivem 7 mil indivíduos. Ou seja, para alcançar os 21 milhões, seria necessário multiplicar 7 mil por 3 mil. É incrível.

E esse dinheiro, claro, é o seu dinheiro — vem do imposto que você paga.

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IOF sob pressão

Aliás, falando em imposto, o Ministério da Fazenda, sem rumo, agora está dizendo que, se encontrarem alternativa, vão cancelar tudo do IOF. O Brasil inteiro está contra — desde a Fiesp até a menor associação comercial. E, com isso, os congressistas se mobilizam para fazer um decreto legislativo que derrube o decreto de Lula.