FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

REFLEXÕES SEMENTEIRAS

Num sábado do mês passado, um feirante do Mercado da Encruzilhada, cristão espiritista de linha quase explicitamente mediúnica, proclamava para seus derredores ouvintes: “O sempre amado Dom Hélder Câmara, que ainda hoje do Além continua a nos orientar, sempre dizia que o elemento mais importante da existência humana é a Esperança, um tesouro que nenhum poderoso pode retirar de dentro de nós.” Foi aplaudido pelos que o assistiam e pelos que por ali passavam, sendo eu um deles.

Como testemunha de momento, logo percebi que ele portava um livro bastante conhecido nos meios cristãos espiritualistas e espiritistas brasileiros: NOVAS UTOPIAS, Espírito Dom Hélder Câmara, psicografia de Carlos Pereira, 5ª. edição, Belo Horizonte, MG, Editora Luminus, 292 p.

Adquirido um exemplar na Estante Virtual, de quem sou cliente há muitos anos, já o li e reli rabiscando sempre, encarecendo licença ao Luiz Berto Filho, criador do JBF, para explicitar, abaixo, algumas reflexões remetidas do Além pelo saudoso Dom, psicografadas pelo médium Carlos Pereira, de elevado conceito moral no meio espírita brasileira. São mensagens que bem subsidiam caminhadas racionais dos que militam por um Brasil sem manadas, feminicídios, preconceitos e sectarismos políticos inconsequentes que não respeitam seres humanos, animais e recursos ambientais. Eis as mais significativas, no meu critério:

a. Muitos irmãos, mesmo faltando o mínimo, responderiam que são felizes, apesar da pobreza que os cerca.

b. A violência não nos leva a lugar nenhum, a não ser para a destruição total. Ela deixa carcomida as estruturas da sociedade mediante o conflito, o desrespeito ao direito do outro, pela falta de fraternidade que, no fundo, é o que une povos, nações e religiões.

c. Pensem no que vocês têm de melhor dentro de si e coloquem à disposição da humanidade. Cada talento bem empregado será de grande valia no trabalho do Senhor, que perceberá os mínimos sinais de toda contribuição efetiva no engrandecimento do bem na Terra.

d. A inquietude de nossos dias é algo preocupante. As pessoas já não têm tempo para nada, nem para elas mesmas. É um corre-corre, é um vai-lá-pra-cá sem fim. Tudo em nome do dinheiro. Será que vale a pena toda essa correria?

e. Morrer é partir para nossa verdadeira casa, embora a casa de Deus seja em todo lugar, mas o nosso habitat natural é do lado d’Ele.

f. Um dos elementos mais importantes da existência humana é a esperança. Sem ela, são roubados os nossos sonhos de vida. E a vida em si, sem os sonhos, fica sem sentido algum.

g. As bem-aventuranças proclamadas por Jesus clareiam-se de maneira estupenda quando inserimos nela a mensagem sempre gratificante do amor.

h. Na verdade, nos preocupamos demasiadamente conosco mesmo, com as ilhas de egoísmos que construímos em torno de nó e moramos nela. Enquanto vivermos em ilhas, não poderemos formar continentes.

i. As pessoas têm uma pressa danada para que as coisas aconteçam logo, parecendo que todo mundo nasceu de oito meses. Resultado: não pensa na vida. Passa a ser um autômato, um robô humano. Tudo tem uma hora certinha de acontecer, basta ter paciência e esperar. Façamos a nossa parte e deixemos o resto nas mãos de Deus.

j. O homem é um ser espiritual por excelência. Na verdade, somos espíritos. Viver na condição de espírito imortal que somos, deveria ser a prioridade das prioridades.

k. Seja você também, meu irmão, um pacificador, para juntos fazermos desta maravilhosa Casa de Deus um paraíso constante onde reine harmonia e o amor entre todos os seres humanos!

l. Não vamos entrar “de cabeça” em qualquer coisa que esteja aparecendo. É preciso questionar qual a sua serventia. Os modismos, já se tem provado por aí, são danosos e ridículos quando não são usados com consciência e senso crítico.

m. Somente o Bem poderá vencer o Mal. Não há outro caminho na implantação de uma mundial Justiça e Paz. E todo ser humano cidadão deverá saber fazer a sua parte, cuidando de si sempre na perspectiva dos outros.

Percebamo-nos sempre, eis a lição deixada pelos ensinamentos acima, uma MAE – Metamorfose Ambulante Evolucionária, construindo pontes, jamais muros, sem mundanismos estéreis e bundanismos ridículos, exibicionismos marqueteiros, demonstrações fingidas de religiosidade, favorecendo sempre a multiplicação de manadas irracionais.

Sejamos brasileiros apaixonadamente mundializantes, jamais proprietários de currais eleitorais, sempre estendendo a mão solidária para os quatro cantos do planeta, onde todos são igualmente oriundos de um mesmo Todo.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SCHIRLEY – CURITIBA-PR

Tá preocupado?

Pois vou dizer as duas únicas coisas na vida com as quais você deve se preocupar:
Se você é saudável ou se você está doente.
Se é saudável não tem nada com que se preocupar.
Mas se está doente você tem duas coisas pra se preocupar.
Se você vai melhorar ou se vai piorar.
Se melhorar não tem nada com que se preocupar.
Mas se você piorar tem duas coisas para se preocupar.
Se você viver não tem nada com que se preocupar.
Mas se você morrer tem duas coisas pra se preocupar.
Se você vai para o céu ou se vai para o inferno.
Se você for para o céu não tem com o que se preocupar.
Mas se for para o inferno você tem duas coisas para se preocupar.
Se vai querer manter o corpinho original ou se vai querer tostado!

Aqui é hora de dar risada, viu?

Posso até perder o amigo mas jamais perderei a piada.

Digo isso porque o original está gravado em vídeo que segue abaixo.

Agora é hora (depois de ouvir o vídeo) de refletir.

Um ótimo domingo a todos.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

DEU NO X

DEU NO JORNAL

O DEUS DO SERTÃO E O MESSIANISMO QUE VOLTA PELO AVESSO

Jean Marques Regina

“Deus deixou o sertão sem água porque sabia que eu seria presidente da República”. A frase não saiu de um pregador exaltado em praça pública, tampouco de algum personagem bíblico tomado por visão profética. Saiu da boca do presidente da República — e deveria preocupar mais do que divertir.

O que se ouviu naquele palanque foi mais do que um exagero retórico. Foi uma insinuação teológica de que o sofrimento histórico do povo sertanejo teria servido de palco providencial para a ascensão de um líder político. Como se a seca — realidade dura e milenar — tivesse sido escrita nos céus em função de um projeto de poder terreno. A metáfora, neste caso, não embeleza. Expõe.

E expõe porque escancara o velho vício do messianismo político, disfarçado de humildade. Não é a primeira vez que governantes tentam vestir o manto da providência divina para legitimar sua trajetória. Mas há algo de particularmente inquietante quando esse gesto vem justamente de quem, por anos, acusou seus adversários de fazer o mesmo.

A esquerda brasileira, especialmente em tempos recentes, fez da crítica à retórica religiosa de Jair Bolsonaro quase um princípio. Rejeitou com vigor qualquer invocação pública do nome de Deus por parte do então presidente. Acusou, com frequência, o uso indevido da fé como mecanismo de dominação simbólica. Mas o que dizer agora, quando a narrativa divina volta à cena, sob nova roupagem?

A incoerência salta aos olhos. Não porque falar de Deus na política seja, por si só, ilegítimo — não é. Mas porque o critério de julgamento parece mudar conforme a conveniência ideológica. Quando um adversário cita a Bíblia, é teocracia. Quando um aliado se diz resultado de uma providência divina, é sensibilidade popular.

Sob a ótica do Direito Religioso, a questão não é apenas moral ou estética. É institucional. A Constituição brasileira estabelece um modelo de laicidade colaborativa: o Estado não se confunde com nenhuma fé, mas reconhece a relevância da religião na vida coletiva e na sociedade, estabelecendo um diálogo com as confissões religiosas em benefício do bem comum. A laicidade brasileira não é militante, nem hostil, nem agnóstica. Ela é aberta, dialógica e respeitosa — mas impõe limites. Especialmente quando o discurso religioso deixa de ser testemunho de fé e se torna alegoria de campanha.

E é justamente esse o alerta: estamos diante de um reposicionamento estratégico do campo político que historicamente rejeitou qualquer aproximação com o universo evangélico. Nos últimos dias, vimos a Advocacia-Geral da União ser usada como peça de campanha institucional em temas de valores — com seu chefe, Jorge Messias, sendo apresentado como evangélico em propaganda oficial sobre o mês da família. Também, o PT vai lançar a iniciativa Fé e Democracia, um programa de formação voltado à base cristã a partir da ótica de teólogos alinhados com a visão progressista, uma iniciativa voltada a “reconectar” o partido com o eleitorado religioso que perdeu nos últimos anos.

Nada disso seria problema se fosse feito com honestidade intelectual, reconhecimento de erros passados e real disposição ao diálogo. Mas há algo de pragmático nessa reaproximação súbita — uma tentativa de capturar a linguagem da fé sem internalizá-la. Como se bastasse adotar o vocabulário evangélico para resgatar votos perdidos. Mas a linguagem da fé não é apenas estética. Ela tem raiz, doutrina, coerência. É tradição, não expediente.

A liberdade religiosa possui duas funções que se complementam: a subjetiva, que garante a cada pessoa o direito de crer, não crer ou mudar de crença; e a objetiva, que assegura às confissões religiosas o exercício público, institucional e comunitário de sua fé. Ambas são pilares indispensáveis da dignidade humana, mas também oferecem um contributo essencial à própria ordem pública. Ao reconhecer a legitimidade da religião na formação moral, na coesão social e na mediação de conflitos, o Estado não apenas protege a consciência de cada um, mas fortalece o tecido democrático, promovendo um ambiente de pluralismo estável, onde o dissenso não degenera em hostilidade.

Há, por fim, um risco mais profundo. Quando a religião é transformada em código político, em veículo de comoção eleitoral, ela deixa de ser um bem público e passa a ser instrumentalizada como ferramenta de influência. E isso vale tanto para a esquerda quanto para a direita. A fé não deve servir a nenhum projeto de poder — deve ser respeitada, compreendida e protegida como expressão da liberdade mais íntima do indivíduo e da identidade mais profunda de uma coletividade.

A fala de Lula não foi apenas infeliz. Ela foi sintomática. Mostra que, nas eleições de 2026, o campo religioso será novamente palco de disputa — e não por seus valores, mas por sua capacidade de gerar afeto e fidelidade. Transformar Deus em cabo eleitoral é o atalho retórico mais perigoso de uma democracia que se pretende plural.

A seca do sertão, tão real quanto injusta, nunca precisou de culpados sobrenaturais nem de salvadores autoproclamados. Ela precisa de água, de dignidade e de políticas públicas eficazes. Deus, por sua vez, segue soberano — e não se presta a slogans.

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MENTIRAS – Florbela Espanca

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

Florbela Espanca, Portugal (1894-1930)

DEU NO JORNAL

ERRO

A conta é da Federação de Bancos (Febraban):

Se for mantido o aumento do IOF, de Fernando Haddad (Fazenda), para bancar gastos do governo Lula, o custo do crédito pode subir 44%.

Um crime.

* * *

Essa nota aí de cima foi fechada com um erro crasso: a expressão “um crime”.

Nada que se comete no gunverno atual é crime.

É rotina administrativa.

DEU NO X