DEU NO JORNAL

CONDENADO POR PIADAS

Editorial Gazeta do Povo

Condenação Léo Lins

Humorista Léo Lins foi condenado a 8 anos de prisão por show de comédia lançado no YouTube

A cada dia, o Brasil parece se consolidar como o paraíso das aberrações jurídicas. Aqui, um humorista pode ser punido por suas piadas com mais severidade do que um sequestrador – algo tão inusitado que desafia qualquer lógica. Infelizmente, a condenação do humorista Léo Lins a mais de oito anos de prisão – além do pagamento de multa equivalente a 1.170 salários mínimos e indenização de R$ 300 mil por danos morais coletivos – por piadas feitas durante um show de stand-up em 2022 não é um episódio isolado ou acidental. Trata-se de um símbolo preocupante de um país que passou a tratar o riso como ameaça e a sátira como delito.

Segundo a sentença, ainda em primeira instância, Léo Lins teria cometido crime de violação dos direitos da pessoa com deficiência e de racismo durante um show, posteriormente disponibilizado no YouTube. A base legal da condenação está na chamada “Lei Antipiada” – a Lei 14.532/23, sancionada pelo presidente Lula, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo e previu penas mais severas quando a suposta ofensa ocorre em contexto de humor. Com isso, o ordenamento jurídico brasileiro corre o risco de ter inaugurado um precedente perigoso: o de dar brecha para punir com mais rigor quem fala com o intuito de divertir do que quem o faz com real animosidade. Como apontam diversos juristas, não há qualquer razoabilidade na sentença proferida contra o humorista.

O show de Léo Lins alvo da condenação, de fato, estressa os limites da liberdade de expressão, e pode gerar desagrado pela forma com que brinca com vários aspectos da natureza humana – incluindo os mais desagradáveis, controversos ou mesmo repulsivos –, mas a intenção do humorista não nos parece ser caluniar, difamar, injuriar ou ferir algum grupo específico ou quem quer que seja. E a doutrina penal é clara ao reconhecer a relevância da intenção do agente – o chamado animus. No campo da liberdade de expressão, é particularmente importante distinguir o animus jocandi, ou seja, a intenção de fazer humor, do animus discriminandi, a intenção deliberada de ofender ou promover discriminação. Quando a análise do conteúdo se dissocia desse elemento subjetivo essencial, corre-se o risco de criminalizar opiniões, posturas artísticas ou formas de expressão que não guardam correspondência com o dolo exigido pela lei penal. Apenas quando a piada é utilizada como meio para levar a cabo uma intenção criminosa – seja caluniar, injuriar, estimular preconceito ou desumanizar – ela pode e deve ser punida. Mas, não havendo essa intenção, trata-se de mero exercício da liberdade de expressão, o que se aplica mesmo quando a piada é exagerada, de mau gosto ou insensata.

O cerne da crítica à sentença contra Léo Lins reside exatamente nesse ponto: é difícil sustentar, com seriedade, que o humorista tenha agido com intenção discriminatória. As piadas foram proferidas em um espetáculo cômico, pago, com plateia voluntária, dentro dos limites do gênero stand-up, que se baseia justamente em provocações e exageros. A existência do animus jocandi, a intenção de brincar, nesse caso, parece evidente – o que deveria funcionar como excludente de ilicitude. No entanto, o Judiciário tratou o comediante como se tivesse praticado um atentado deliberado contra a dignidade humana.

Léo Lins já havia sido alvo de decisões questionáveis da Justiça por conta de suas piadas. Em maio de 2023, o humorista foi submetido a uma série de medidas cautelares, incluindo restrições a viagens, remoção de conteúdos nas redes sociais e, o mais absurdo, a censura prévia – pela proibição de fazer novas menções aos grupos “ofendidos” em seus futuros shows. À época, a Justiça atendeu a um pedido do Ministério Público de São Paulo, que denunciou Lins alegando que o humorista estaria “reproduzindo discursos e posicionamentos que hoje são repudiados”, mencionando em suas piadas temas como escravidão, perseguição religiosa, minorias e pessoas idosas e com deficiência. Mais tarde, o humorista foi tornado réu e, agora, condenado.

A liberdade de expressão, ainda que não seja absoluta, é um dos pilares da democracia. Seu exercício pode ser regulado quando colide com outros direitos fundamentais, como a dignidade da pessoa humana. Mas essa regulação deve ocorrer com critérios justos, equilibrados, orientados pela deferência ao direito à liberdade de expressão, em respeito ao devido processo legal e à proporcionalidade. O combate à discriminação e ao preconceito é tarefa necessária, mas não pode servir de justificativa para fazer do Estado o árbitro do que pode ou não ser dito em um palco de comédia. Como bem pontuou o jurista André Marsiglia: “Piada é discurso ficcional comparável à arte, e a arte não pode estar submetida a quem se ofende com ela. Sentir-se ofendido não significa que houve intenção de ofensa – e o que o direito pune é a intenção de quem fala, não o sentimento de quem ouve”.

Rir, por vezes, incomoda. Mas o incômodo não pode se tornar critério penal. A sociedade que permite que a Justiça condene um comediante por fazer piadas é a mesma que aceitará calar colunistas, artistas, professores e, por fim, cidadãos comuns. O humor, mesmo quando incômodo ou de gosto duvidoso, faz parte da pluralidade democrática. Ninguém é obrigado a rir das piadas de Léo Lins, e qualquer um que não goste do tipo de humor que ele faz pode se mobilizar, individual ou coletivamente, para manifestar essa rejeição, por meio da crítica, do debate e da rejeição social. A condenação a Léo Lins é equivocada e exagerada – mais um duríssimo golpe contra a liberdade de expressão no país. Que as instâncias superiores da Justiça brasileira possam ter a sensibilidade – e o bom senso – de reverter essa decisão absurda.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

RODRIGO CONSTANTINO

CHEGA DE PIADINHA!

Show Léo Lins

Humorista Léo Lins foi condenado a 8 anos de prisão mais indenização de R$ 300 mil por danos morais coletivos. Defesa apresentará recurso

Eu entendo: fazer piada ou troça de tudo é uma válvula de escape, um instrumento de gente desesperada, que ao menos tenta rir da própria tragédia. Eu mesmo sempre digo que posso perder tudo, menos o senso de humor. A vida já é muito dura para ficarmos ainda mais taciturnos no dia a dia. Rir faz bem. E o humor tem seu papel social também, de chacoalhar as estruturas enrijecidas, mexer com os poderosos. Por isso todo ditador odeia humorista iconoclasta – o único que presta.

Mas as coisas chegaram num patamar no Brasil que não justificam mais levar na brincadeira o que se passa. O país já é uma tirania, virou um narcoestado, e isso é grave demais, sério demais, triste demais para virar piadinha. “Brasil é o país que leva piada a sério e política na brincadeira”, resumiu o deputado Nikolas Ferreira. Enquanto seguimos na toada do humor, os tiranos avançam cada vez mais.

Ana Paula Henckel escreveu: “Brasil 2025: o país que prende comediantes por piada. Para se tornar um regime totalitário de vez, só falta perseguir jornalistas, bloquear redes sociais e contas bancárias de críticos, censurar cidadãos e a imprensa, perseguir dissidentes e oposição política… Oh, wait…” Pois é, não falta mais nada. E constatar que já somos uma ditadura tem consequências sérias, que não podem ser transformadas em comicidade.

Vejam o caso do Rio de Janeiro: muitos cariocas se acham malandros, descolados, mas no fundo vivem num inferno, num estado dominado pelo tráfico, pela violência. O Brasil todo pode ser como o Rio amanhã. Silvio Navarrou comentou: “As imagens do MC sei lá quem em cima de um ônibus que carrega trabalhador, o filho do traficante, os fuzis em punho, provam que o Rio de Janeiro já é um narcoestado. Não tem mais volta”. Isso não é pessimismo, mas sim realismo. O Rio acabou!

E o Brasil vai pelo mesmo caminho. Alba, do Pânico, apelou para a ironia para falar coisa séria: “A condenação do Léo Lins me deixou mais confiante. Essa condenação diminuiu o tráfico de drogas, melhorou a economia, segurança, consigo comprar mais coisas no supermercado e saio de casa com celular na mão sem medo. O Brasil está no caminho certo”. Qualquer pessoa sensata já se deu conta de que o Brasil desce ladeira abaixo numa velocidade incrível. A degradação moral e institucional é impressionante.

Deltan Dallagnol, quem tanto lutou contra a corrupção e acabou vítima dos bandidos, fez um desabafo legítimo:

Só nos últimos dias: Jornalistas foram condenados pelo Judiciário a pagar uma indenização de mais de R$ 600 mil a uma desembargadora por noticiarem o salário da magistrada, informação verdadeira e pública; STF abre inquérito contra Eduardo Bolsonaro por denunciar violações de direitos humanos no exterior; PGR admitiu na imprensa que inquérito não tem motivação jurídica e foi aberto só pra colocar pressão no Eduardo para parar de pedir sanções a Moraes. Só hoje: Léo Lins condenado a 8 anos de prisão e multa milionária por piadas em show de comédia; Carla Zambelli vira alvo de pedido de prisão da PGR por sair do Brasil alegando perseguição política; Juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato do Rio de Janeiro, é afastado da magistratura para sempre por decisão UNÂNIME do CNJ e punido com aposentadoria compulsória, mesmo sem que nenhuma prova tenha vindo a público de qualquer irregularidade; Luciano Hang declarado inelegível pelo TSE; E amanhã o STF vai censurar as redes sociais. O Brasil acabou. Tá tudo dominado.

Sei que não devemos perder a esperança jamais. Mas confesso que me espanta alguns colegas liberais que mantêm certa visão otimista com nosso futuro próximo! Tarcísio vai vencer em 2026 e tudo será diferente, alegam as Polianas. Em que mundo essa turma vive? Deve ser melhor ter tanta ilusão mesmo. Mas no final do dia o wishful thinking não vai salvá-los do destino coletivo de uma nação que claramente naufraga diante de todos, por ter abandonado os valores éticos mais básicos.

Diante de tudo isso, o que espanta mesmo é o Brasil não ter mergulhado ainda numa guerra civil. Mas aí lembramos que o povo de bem foi desarmado, e que uma parcela nada desprezível da população não liga a mínima para essas coisas. Da elite ao povão, não faltam pessoas idiotizadas que acham cool o filho do traficante cantando músicas com apologia ao crime. Fosse o contrário e esse tipo de porcaria não tocava em festinha da própria elite. O Brasil deu errado. O Brasil é uma piada de mau gosto. Mas é hora de parar com as piadinhas se quisermos sonhar com uma mudança para valer algum dia…

DEU NO X

ENFRENTAR O TOTALITARISMO

J. Sepúlveda

Hoje, dia 4 de junho, completam-se 36 anos do massacre da Praça Tiananmen.

A ditadura comunista chinesa esmagava brutalmente, sob os tanques, os anseios de liberdade do povo.

Curiosamente, hoje, 4 de junho, o Supremo tentará esmagar sob os tanques da censura a liberdade nas redes, enquanto Lula, ensandecido esbraveja ter pedido ao ditador comunista chinês a vinda de mestres da perseguição política daquele regime.

Como o herói chinês da foto, o Brasil precisa enfrentar o totalitarismo que avança.

Imagem

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

LULA INTERPRETA A VONTADE DIVINA

Guilherme Fiuza

“Deus deixou o sertão sem água porque sabia que eu ia ser presidente da República”, disse Lula durante a cerimônia de entrega do 1º Trecho do Ramal do Apodi, próximo a Cachoeira dos Índios (PB)

Lula disse que Deus deixou o sertão sem água porque sabia que ele iria trazer. Pelo visto, são informações exclusivas que o presidente vai revelando aos poucos. Alguma hora ele dá mais detalhes sobre a vontade divina. Vontade e paciência, considerando-se que já são cinco mandatos do PT no Planalto e mais de 20 anos desde a sua chegada, para resolver o problema.

Não dá para dizer que se trata de um encantador de pessoas simples e com menor nível de instrução. Parcela expressiva das pessoas mais instruídas do país fez o L em 2022. Não só fez o L, como pregou o voto em Lula como a única garantia de evolução contra o obscurantismo. Só faltou dizerem que Deus deixou o Brasil sem democracia porque sabia que Lula iria trazê-la.

De fato, só uma explicação mística daria conta da presença de Fernando Haddad no cargo de ministro da Fazenda, com boa parte do PIB nacional fingindo que aquilo era normalíssimo. 

Enquanto isso, o salvador da pátria dá mais uma garfada via IOF para tapar o buraco e providenciar mais um qualquer para gastar, que ninguém é de ferro.

E segue o baile com essa burguesia endinheirada pagando caro por ingresso de artista com patrocínio milionário dos Correios, que por sua vez amargam um déficit bilionário – com iminência de colapso de serviços e até suspensão de atendimento hospitalar. Mas essa elite vai ao show e ainda consegue se emocionar com canções que falam sobre liberdade do povo contra a opressão. Olhos fechados e alma cheirando a talco.

Em nome do combate ao fantasma da ditadura – que, como todo fantasma, só vê quem quer – mandaram às favas os escrúpulos de consciência. Passaram uma borracha no passado recente, na política econômica responsável, nas tenebrosas transações expostas pela Lava Jato. Lado a lado com o revanchismo e a perseguição, se emocionam com a canção “Cálice”. Contando, ninguém acredita. 

Haddad disse que Lula traz estabilidade emocional ao Brasil. De fato, é tranquilizadora a escolha de um ministro da Fazenda que, além de tocar violão para a imprensa amiga, ainda faz análises psicológicas. Todo mundo calmo. Se desse então para distribuir aquele chapeuzinho presidencial por toda a população, aí o país alcançaria a paz absoluta (até com algum risco de descambar para o tédio).

Parabéns a todos os fiadores desse conto-de-fadas. Assim como os céus deixaram uns sem água, a terra deixou outros sem vergonha.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

A PALAVRA DO EDITOR

POEMA

Futucando aqui nos meus arquivos, encontrei um poema que escrevi nos anos 70, quando era professor de Matemática.

Não sou poeta, minha área é a prosa.

Mas perpetrei esse desmantelo.

* * *

CIRCUNQUADRATURAÇÃO – Luiz Berto

um quadrado
encontrou um dia
(como nos contos)
uma linda circunferência sobre um mesmo plano.

e era tal sua linha
que o quadrado inibiu-se e desandou;
mas vendo que ela lhe dava uma corda
quis demonstrar sua potência
e chamou-a à sua área:

– eu sou o quadrado: simétrico, perfeito, acabado
e por ti posso ser dois (e até quatro)
se me quiseres triangular.

– ah! suspirou ela, não da pé: nossas formas não se assemelham.

– pois sim, voltava o quadrado, os extemos se completam, os opostos formam um todo, os paradoxos são uma constante no universo e,
bem sabes, até as paralelas se encontram no infinito.

e decompõe-se a circunferência
em lágrimas
redondas
e ovais,
tal a força do falar do quadrado.

– pois bem…

e antes que completasse,
seu olhar de aquiescência
excitou o Don Juan
já subtraído de qualquer raciocínio,
matematicamente excitado.

– … vem, dizia ela, e elevarei teu membro
à potencia máxima, e assim o colocarei entre
parênteses para reduzi-lo a zero
no emaranhado das minhas
cordas,
arcos
e tangentes.

foi tal
e tanta
a paixão do quadrado
que se viu com a diagonal em fúria
numa tentativa heróica
de extravasar o débil limite do vértice.

– atravessa-me com tua diagonal…

a voz rouca da circunferência
era geometricamente tentadora:

– sim, atravessa-me com tua diagonal,
pois meu diâmetro e ela são congruentes.

engano:
congruentes sim, porém
o comprimento dela e o lado dele.

e vendo ele
que o comprimento deitado sobre o diâmetro
concebeu um filho
(que ela chamou de Pi)
berrou-lhe na redonda cara:

– hermafrodita!

e a circunferência,
vendo que seu jogo fora descoberto,
que sua tentativa de arranjar um pai para o monstrinho
ia de agua baixo,
suspirou chorosa:

– pois se a ordem dos fatores
não altera o produto,
pouco importa
que seja meu comprimento
ou tua diagonal
o pai deste irracional
que, ao contrario das outras crianças,
nasce, cresce e não morre.

mas o quadrado
enganado,
esverdeado,
cobriu a quadratura do rosto
e se bipartiu
e depois
se decompôs
em oito triângulos equiláteros

e assim foi
seguidamente
ate que lá no infinito
só restassem os seus
pontos.

DEU NO JORNAL