A PALAVRA DO EDITOR

Futucando aqui nos meus arquivos, encontrei um poema que escrevi nos anos 70, quando era professor de Matemática.

Não sou poeta, minha área é a prosa.

Mas perpetrei esse desmantelo.

* * *

CIRCUNQUADRATURAÇÃO – Luiz Berto

um quadrado
encontrou um dia
(como nos contos)
uma linda circunferência sobre um mesmo plano.

e era tal sua linha
que o quadrado inibiu-se e desandou;
mas vendo que ela lhe dava uma corda
quis demonstrar sua potência
e chamou-a à sua área:

– eu sou o quadrado: simétrico, perfeito, acabado
e por ti posso ser dois (e até quatro)
se me quiseres triangular.

– ah! suspirou ela, não da pé: nossas formas não se assemelham.

– pois sim, voltava o quadrado, os extemos se completam, os opostos formam um todo, os paradoxos são uma constante no universo e,
bem sabes, até as paralelas se encontram no infinito.

e decompõe-se a circunferência
em lágrimas
redondas
e ovais,
tal a força do falar do quadrado.

– pois bem…

e antes que completasse,
seu olhar de aquiescência
excitou o Don Juan
já subtraído de qualquer raciocínio,
matematicamente excitado.

– … vem, dizia ela, e elevarei teu membro
à potencia máxima, e assim o colocarei entre
parênteses para reduzi-lo a zero
no emaranhado das minhas
cordas,
arcos
e tangentes.

foi tal
e tanta
a paixão do quadrado
que se viu com a diagonal em fúria
numa tentativa heróica
de extravasar o débil limite do vértice.

– atravessa-me com tua diagonal…

a voz rouca da circunferência
era geometricamente tentadora:

– sim, atravessa-me com tua diagonal,
pois meu diâmetro e ela são congruentes.

engano:
congruentes sim, porém
o comprimento dela e o lado dele.

e vendo ele
que o comprimento deitado sobre o diâmetro
concebeu um filho
(que ela chamou de Pi)
berrou-lhe na redonda cara:

– hermafrodita!

e a circunferência,
vendo que seu jogo fora descoberto,
que sua tentativa de arranjar um pai para o monstrinho
ia de agua baixo,
suspirou chorosa:

– pois se a ordem dos fatores
não altera o produto,
pouco importa
que seja meu comprimento
ou tua diagonal
o pai deste irracional
que, ao contrario das outras crianças,
nasce, cresce e não morre.

mas o quadrado
enganado,
esverdeado,
cobriu a quadratura do rosto
e se bipartiu
e depois
se decompôs
em oito triângulos equiláteros

e assim foi
seguidamente
ate que lá no infinito
só restassem os seus
pontos.

14 pensou em “POEMA

  1. Grande mestre Berto.

    Infelizmente vosso genial poema geométrico não pode ser compreendido pela geração Paulo Freire:

    Não sabem ler; não sabem interpretar e, mesmo que num esforço supremo lessem, não lhes faria sentido. Jamais foram apresentados a quadrados, circunferências, cordas e diagonais. Muito menos ao Pi.

    São analfabetos sob todos os ângulos e vivem sendo redondamente enganados.

    Um abraço de teu fã de máxima potência.

  2. Rapaz! E não é que tu leva jeito para a poesia! Parou por quê? Só que essa é uma verdadeira aula de matemática e não é para essa meninada semi analfa que temos por aí!

  3. Dr. Berto,

    Já rebolei por todas as folhas do Aurelião, procrando um superlativo para sua genialidade e não encontrei.

    Receba um matemárico aplauso.

    Carlos Eduardo.

  4. Muito bom. Fosse você, alternaria versos com sua tão exitosa e reconhecida prosa. Complementaria-se, assim, sua habilidade literária, já reconhecida por todos.

  5. Inspiradp em seu inspirado Poema, não me contive e ‘bestarejei’ os versos a seguir:

    O quadrado,
    quadrado e todo igual
    qualquer que seja o lado,
    bissetrizou-se
    por um trapézio
    que já namorava o retângulo.
    Formou-se aí
    um amoroso triângulo …

  6. Adorei sua inspiração e criatividade, querido Berto. Somente quem tem o QI tão elevado quanto você é capaz de uma construção desta, usando a Matemática e todas as suas figuras, resultando num poema inteligente e bem-humorado. Parabéns!
    É pra gente ler e reler, diversas vezes, pois ativa a mente, distrai e torna-se uma verdadeira higiene mental!

    Grande abraço!

    • Minha querida amiga e colunista fubânica, receber um comentário assim de uma pessoa talentosa como você, é uma alegria enorme para esse editor.

      Ganhei o dia com sua apreciação!!!!

      Gratíssimo do fundo do coração.

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