PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A GENIALIDADE DE DEDÉ MONTEIRO

José Rufino da Costa Neto, o Dedé Monteiro, “O Papa da Poesia”, Tabira-PE

* * *

Dedé Monteiro declamando o poema “As Quatro Velas“, de sua autoria

* * *

A VOZ DO ESPELHO – Dedé Monteiro

Triste e espantado, sem sorriso algum,
Diz, frente ao espelho (velho amigo seu):
– Não, não me diga, de jeito nenhum,
Que tudo passa e que esse aí sou eu…

Quem foi que disse que esse vulto é meu?
Que eu virei “isso”… e que nós somos um?
Por que meu riso, que era tão comum,
Do seu semblante desapareceu?

Será um sonho, um pesadelo, enfim…
Ou foi a idade que passou por mim?…
Responde o espelho: – Disse muito bem!

Por que o tempo, esse carrasco mudo,
Que a todos muda e que transforma tudo,
Não passaria por você também?

* * *

SOU DO PAJEÚ DAS FLORES – Dedé Monteiro

Se eu morasse muito além,
Onde nada me faltasse,
Talvez que nem precisasse
Cantar pra me sentir bem.
Sofro, mas canto também
Pra tristeza se mandar.
Se ela insistir em ficar,
Eu canto a canção das dores…
Sou do Pajeú das flores,
Tenho razão de cantar!

Tive a sorte de nascer
Num chão que tanto me inspira,
Minha querida Tabira
Que me dá tanto prazer.
Se a seca me faz sofrer,
O verso me faz gozar,
Pois trago n’alma um pomar
Com frutos de mil sabores!
Sou do Pajeú das flores,
Tenho razão de cantar!

* * *

FIM DE FEIRA – Dedé Monteiro

O lixo atapeta o chão
Um caminhão se balança
Quem vem de fora se lança
Em cima do caminhão
Um ébrio esmurra o balcão
No botequim da esquina
O gari faz a faxina
Um cego ensaca a sanfona
E um vendedor dobra a lona
Depois que a feira termina.

Miçanga, fruta, verdura,
Milho feijão e farinha,
Bode, suíno, galinha,
Miudeza, rapadura.
É esta a imagem pura
De uma feira nordestina
Que começa pequenina,
Dez horas não cabe o povo
E só diminui de novo
Depois que a feira termina.

Na matriz que nunca fecha
Muito apressado entra alguém
Mas sai vexado também
Se não o carro lhe deixa
O padre gordo se queixa
Do calor que lhe domina
E agita tanto a batina
Quem que vê fica com pena
Toca o sino pra novena
Depois que a feira termina.

A filhinha do mendigo
Sentada a seus pés, num beco,
Comendo um pão doce seco
Diz: papai, coma comigo.
E o velho pensa consigo
Meu Deus, mudai sua sina
Pra que minha pequenina
Não sofra o que eu sofro agora
Ria a filha, o velho chora
Depois que a feira termina.

Um pedinte se levanta
Da beira de uma calçada
Chupando uma manga espada
Pra servir de almoço e janta
Um boi de carro se espanta
Se o motorista buzina
Um velho fecha a cantina
Um cachorro arrasta um osso
E o pobre “azavessa” o bolso
Depois que a feira termina.

Continue lendo →

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

XICO COM X, BIZERRA COM I

DIA DO NORDESTINO

Ontem, 8 de outubro, foi comemorado o Dia do Nordestino.

Para homenagear este dia, fiz, em 2003, a música ROMEIROS DO DESTINO, gravada por Israel Filho:

Sou a casca da bala do fuzil de Lampião
Uma conta do rosário em que rezou Frei Damião
Sou o barro que escorria pelas mãos de Vitalino
Eu sou nordestino, sou dessa nação

Sou o pé de pau que deu o cajado ao Conselheiro
Palavra que Patativa transformou em verso inteiro
Sou o eco do aboio no cantar de Marcolino
Eu sou nordestino, sou dessa nação

Sou da terra do vaqueiro, cantador
Violeiro, embolador, beatas e rezadeiras
Do arraial dos poetas sonhadores
Que enxergam os seus amores pra cantar uma canção
Do sertão em que a lua é mais bonita
Porque a gente acredita na grandeza do perdão
Onde todos são romeiros do destino
Têm coração de menino, nordestino, eu sou nação

Sou o fiapo da batina do Padim Ciço Romão
Poeira do pé-de-serra que pariu o Gonzagão
Na poesia de Aderaldo sou um verso clandestino
Eu sou nordestino, sou dessa nação

Sou a linha das rendeiras, sou a corda da viola
Sou águas do pajeú, sou fogueira, bandeirola,
Sou o som de u’a sanfona, sou um terreiro junino
Eu sou nordestino, sou dessa nação

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CONTA E TEMPO – Laurindo Rabelo

Deus pede estrita conta do meu tempo;
é forçoso do tempo já dar conta;
mas como dar, sem tempo, tanta conta,
eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo,
dado me foi bem tempo e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta;
quero hoje fazer conta, e falta tempo.

Ó vos, que tendes tempo sem ter conta,
não gasteis vosso tempo em passatempo,
cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta.

Ah! Se aqueles que contam com seu tempo
fizessem desse tempo alguma conta,
não choravam como eu, o não ter tempo…

Laurindo José da Silva Rabelo, Rio de Janeiro (1826-1864)

 

DEU NO JORNAL

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA