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AS FALÁCIAS PRÓ-ABORTO DE BARROSO

Editorial Gazeta do Povo

O agora ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso usou as suas últimas horas como membro da suprema corte brasileira para promover um espetáculo deprimente na forma e no conteúdo para deixar seu voto na ADPF 442, em que se pede a descriminalização do aborto nas primeiras 12 semanas de gestação. Na forma porque, como explicamos neste espaço, ele não tinha a menor necessidade de pedir uma sessão virtual extraordinária instalada às pressas, na véspera de sua aposentadoria, em uma noite de sexta-feira – poderia tê-lo feito muito antes, quando ainda presidia o Supremo, ou mesmo nos dias que antecederam sua saída da corte. E no conteúdo porque, como veremos agora, seu voto, apesar de breve, não economizou em falácias e na arte de fugir do que mais importa: o que está em jogo quando ocorre um aborto.

Barroso afirmou: “Acompanho o voto da relatora [Rosa Weber], por seus bem lançados fundamentos” – fundamentos esses que a Gazeta do Povo também mostrou serem falaciosos, ao analisar o voto da ex-ministra em 2023. Ele continua dizendo que “minha posição na matéria é conhecida” – de fato, não faltaram ocasiões em que Barroso se manifestou sobre tema pendente de julgamento, contrariando a Lei Orgânica da Magistratura – e que “já a manifestei ao julgar o Habeas Corpus nº 124.306”, ocasião em que sequestrou o julgamento de um habeas corpus de médicos e funcionários de uma clínica clandestina de aborto para defender que a legislação atual seria inconstitucional por “violar direitos fundamentais da mulher”. Por isso, afirma, em seu voto na ADPF 442 ele apenas faria uma síntese, em nove pontos, de sua “visão e sentimento sobre o tema”.

Percebe-se a “visão e sentimento” que Barroso tem quando, em nenhum momento, ele descreve do que, afinal, estamos falando. “Interrupção da gestação”, o termo que ele alterna com “aborto” no texto, é assepsia semântica para evitar a dura realidade de que tal “interrupção” consiste na eliminação voluntária de um ser humano indefeso e inocente, que a mãe traz em seu ventre. O fato de esse ser humano, a principal vítima de todo e qualquer aborto, ser mencionado de passagem em apenas dois dos nove pontos já é bastante sintomático do desprezo de Barroso pelo nascituro – o mesmo desprezo que Rosa Weber demonstrou, embora em seu voto ela tenha ao menos reconhecido que havia uma vida em jogo, precisando por isso recorrer a todo tipo de truque para desumanizar aquele que, segundo a ciência, pertence indubitavelmente à espécie humana desde seu início, no encontro dos gametas masculino e feminino.

Tanto falta a Barroso coragem para encarar de frente a natureza do aborto provocado que ele foge do tema dizendo que “a discussão real não está em ser contra ou a favor do aborto”. Será mesmo tão irrelevante assim discutir se é bom ou mau, certo ou errado que uma mãe elimine seu filho voluntariamente? Essa, sim, é a discussão real – se não for a única discussão que importa. Mas, para Barroso, a única coisa que importa é debater “se a mulher que passa por esse infortúnio deve ser presa” – como se não houvesse mais alguém envolvido no aborto, e que passa por um “infortúnio” ainda pior, motivo pelo qual a pergunta mais exata e honesta seria “se a mulher que elimina seu filho indefeso e inocente deve ser presa”.

Quanto a isso, é preciso lembrar que o legislador brasileiro, ainda nos anos 40, compreendeu que existem situações-limite em que a mãe de fato vive um enorme drama, e por isso ela não deveria ser punida após um aborto: os casos de gestação resultante de estupro, e as gestações que representariam um risco de vida para a mãe – em 2012, o Supremo decidiu liberar o aborto para casos de fetos anencéfalos. Mas esse tipo de diferenciação não importa para Barroso, pois interessa-lhe o acesso total ao aborto, inclusive aquele dito “sob demanda”, em que o “infortúnio” maior para a mulher é o de ter engravidado, e não o de ter abortado, ato do qual não poucas se orgulham publicamente na imprensa. É evidente que, ao falar assim, Barroso está dando seu juízo moral sobre o aborto, que se torna algo não muito diferente da remoção cirúrgica de um tumor.

Sem enfrentar o tema, o que sobra a Barroso são clichês baratos como “se os homens engravidassem, aborto já não seria tratado como crime há muito tempo” e o slogan do “aborto como tema de saúde pública”; a falácia do argumentum ad populum, com uma listinha de países onde o aborto no primeiro trimestre de gestação é legal; e a afirmação de que “a criminalização é uma política pública que não atinge o objetivo de reduzir o número de ocorrências”, algo que vale para praticamente todo crime, contravenção ou ilícito, da corrupção ao homicídio – embora não ocorra a ninguém pedir a legalização da propina ou do assassinato para que eles ocorram “com segurança”. Há, ainda, espaço para o surrado argumento da oposição religiosa ao aborto, como se ele fosse meramente uma questão de fé e como se não houvesse inúmeros argumentos éticos, filosóficos e científicos em defesa da vida humana desde a concepção.

Barroso iniciou seu voto com um brevíssimo lampejo de sensatez, dizendo que “o papel do Estado e da sociedade é o de evitar que ele [o aborto] aconteça”. Mas sua defesa de um suposto direito ao aborto contradiz a frase inicial. É difícil, quando não impossível, entender como a legalização enviaria à sociedade a mensagem de que o aborto é algo reprovável e que deve ser evitado, especialmente quando se trata de um ato tão bárbaro quanto a eliminação de um ser humano indefeso e inocente – e repetiremos essa expressão tantas vezes quanto for necessário, porque ela é a melhor explicação do que ocorre em um aborto. O agora ex-ministro fala em “amparar a mulher que deseje ter o filho e esteja em circunstâncias adversas”, mas não apenas ela; também a mulher desesperada que – em alguns casos por motivos razoáveis – não deseje a criança, e que ouve da militância que a única solução é matar o filho, precisa ser abraçada pela sociedade, para que veja que o aborto está longe de ser a resposta. Proteger a vida do nascituro e apoiar a mãe em dificuldades econômicas e/ou emocionais, salvando as duas vidas, é a melhor resposta ao abortismo, e é tarefa de toda a sociedade, inclusive daqueles encarregados de elaborar e fazer cumprir as leis.

PENINHA - DICA MUSICAL

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A PALAVRA DO EDITOR

OUTUBRO

Esta postagem foi feita há quatro anos, em outubro de 2021.

Atendendo pedido do meu xeleléu Walter Portela, amigo e conterrâneo de Palmares, vai ser repetida hoje, neste outubro de 2025.

Como costumava dizer Dona Quiterinha, minha saudosa mãe, “tu é muito amostrado, menino besta”.

Vamos rever.

* * *

NUM OUTUBRO HÁ MUITOS  ANOS

Em outubro de 1986 – já lá se vão 35 anos -, este pernambucano de Palmares foi honrado com um convite para representar o Brasil no Festival Internacional de Autores de Toronto (International Festival of Authors), no Canadá, um dos maiores eventos do gênero no mundo.

Entre várias outras celebridades literárias, naquele ano também participaram a inglesa Angela Carter, o best-seller americano John Irving (Irving teve vários romances transformados em filmes), a canadense Alice Munro (Prêmio Nobel de Literatura de 2013) e o israelense Amos Oz, todos grandes nomes da literatura mundial. 

Amos Oz, o mais importante escritor israelense, indicado para o Prêmio Nobel de Literatura em 2002 e que encantou-se em 2018, era um dos meus dois colegas na mesa de refeições, no hotel onde ficamos todos hospedados, e se tornou um grande amigo. Além de talentoso ficcionista, era também um excelente contador de histórias.

Antes de mim, outros escritores brasileiros já haviam participado do evento: João Ubaldo Ribeiro, Lígia Fagundes Telles,  Moacir Sclicar e Gianfrancesco Guarnieri.

Pois naquele ano em que estive lá, uma produtora canadense realizou um documentário sobre o festival intitulado “Voices on the Water“.

Detalhe: a produtora me pediu permissão para filmar minha apresentação no evento. Lembro-me que assinei um documento autorizando e que me pagaram um excelente cachê. Coisa de país de primeiro mundo, que dá muito valor a esse importante detalhe chamado direito autoral.

Pra todo lugar que a gente ia, lá estava a equipe de filmagem nos seguindo. Nos filmaram até nas Cataratas de Niagara, durante um passeio providenciado pela direção do festival.

Este Editor inxirido passeando de barco nas Cataratas de Niagara, ao lado da colega Argentina

Isso sem falar na mordomia completa, que não deixava faltar nada. Como não tinha cachaça, aí eu enchia a cara de uísque!!! Tudo por conta da casa.

O evento, realizado no Teatro Harbourfront, às margens do Lago Ontario, durou uma semana, de segunda a sexta. Minha apresentação aconteceu logo no primeiro dia. Ingresso caro e casa lotada, público finíssimo.

O Festival consistia na apresentação de quatro autores a cada noite. Dois, um intervalo, e mais dois.

Conforme o regulamento, os autores que não eram de língua nativa inglesa, como era o meu caso, liam um pequeno trecho de um livro seu em sua língua nativa. Segundo me informaram, para que o público sentisse o que eles chamavam de “musicalidade do idioma”. Mesmo sem entender nadinha!

Depois, um leitor, um “reader”, providenciado pela direção do festival, lia a tradução em inglês de um trecho da obra daquele escritor.

Eu tinha um capítulo d’O Romance da Besta Fubana traduzido pro inglês por uma professora da Universidade de Iowa, nos EUA. Uma americana, professora de português. E foi um trecho dessa tradução que foi lido naquela ocasião.

O documentário sobre o festival dura 58 minutos e está linkado no final desta postagem.

Na abertura, logo nos primeiros dois minutos, aparecem os nomes de todos os participantes.

Prestem atenção e vejam que o nome deste pernambucano inxerido está lá. No meio de um monte de gente importante.

Eu apareço em alguns trechos do documentário, falando meu inglês com sotaque palmarense, aprendido no Curso Ginasial com o saudoso professor Amaro Matias.

No vídeo abaixo, com duração de pouco mais de dois minutos, temos a abertura e algumas cenas que Aline selecionou onde eu apareço.

Para assistir ao vídeo completo, com 58 minutos de duração, clique aqui.

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CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

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PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SINFONIAS DO OCASO – Cruz e Sousa

Musselinosas como brumas diurnas
descem do ocaso as sombras harmoniosas,
sombras veladas e musselinosas
para as profundas solidões noturnas.

Sacrários virgens, sacrossantas urnas,
os céus resplendem de sidéreas rosas,
da Lua e das Estrelas majestosas
iluminando a escuridão das furnas.

Ah! por estes sinfônicos ocasos
a terra exala aromas de áureos vasos,
incensos de turíbulos divinos.

Os plenilúnios mórbidos vaporam …
E como que no Azul plangem e choram
cítaras, harpas, bandolins, violinos …

João da Cruz e Sousa, Florianópolis-SC (1861-1898)

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