Sou formada em Letras, Pedagogia, Direito e Secretariado Executivo.
Estou realizando uma pesquisa sobre Benício de Abreu Tranca citado na coluna de Marcos Mairton, intituladaA CERTIDÃO, publicada em 9 de abril de 2025.
Se eu conseguir material suficiente, pretendo escrever um artigo.
Será que poderia me ajudar a conseguir mais textos do falecido oficial de justiça?
Desde já, agradecida.
R. Cara leitora, gratíssimo pela generosa apreciação que você fez sobre nossa gazeta.
Vou encaminhar sua solicitação para o nosso colunista Marcos Mairton, competente profissional do Direito e um cearense talentoso, cronista, compositor, cordelista, músico, blogueiro, uma figura humana muito especial.
Mairton é Juiz Instrutor no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em Brasília.
É um privilégio editar uma página que tem um colaborador desse porte.
O senador Sérgio Moro (União-PR) fez questão de registrar que três dos presos nesta quinta-feira (13), foram nomeados por Lula: “a história se repete”.
Todos afastados dos cargos por decisão da Justiça, não de Lula.
* * *
Que coincidência…
As prisões foram feitas no dia 13, o número do bando luloso.
E os três prisioneiros foram nomeados pelo descondenado.
FAVELA era o nome dado a uma comunidade construída para moradia de pessoas menos favorecidas, no Rio de Janeiro. O nome era simplesmente FAVELA. Depois, criaram-se outras comunidades, acrescentando ao nome favela outro adjetivo.
A origem da palavra “favela” remonta à história do Brasil, especialmente à Guerra de Canudos, no final do século XIX. O termo é derivado da planta “favela”, que crescia abundantemente nas regiões áridas do Nordeste Brasileiro. A partir de 1920, o nome passou a ser utilizado para se referir a conjuntos habitacionais informais, surgindo quando ex-escravos e migrantes rurais se instalaram em morros e encostas das grandes cidades brasileiras.
As primeiras favelas no Brasil surgiram no final do século XIX, principalmente depois da Guerra de Canudos, com a formação do Morro da Providência, no Rio de Janeiro.
O conflito resultou no retorno de cerca de 10 mil soldados ao Rio de Janeiro, que se instalaram em uma área já habitada por ex-escravos. A falta de moradia adequada levou à formação de uma comunidade informal.
A urbanização desordenada e a falta de políticas habitacionais adequadas contribuíram para o crescimento das favelas. Muitas pessoas migraram do campo para as cidades em busca de trabalho, mas sem recursos para alugar ou comprar casas, acabaram ocupando terrenos baldios e áreas de risco.
As favelas, como o Morro da Providência, representam um fenômeno complexo que resulta de uma combinação de fatores históricos, sociais e econômicos. O processo de favelização continua a ser um tema relevante no Brasil, refletindo as lutas por moradia e direitos urbanos até os dias de hoje.
As favelas são uma expressão da desigualdade social, refletindo a exclusão de grupos mais pobres da sociedade urbana. A falta de infraestrutura e serviços básicos são característica marcantes dessas comunidades.
Por outro lado, o lirismo aproveitou a favela, e um número considerável de poetas teve nela a inspiração de belos poemas musicados, que ainda hoje enriquecem o nosso cancioneiro.
Muitas composições romantizaram e ainda romantizam as favelas.
O termo Favela está presente na música brasileira desde a primeira ocupação clandestina dos morros cariocas, sendo cantado pelos mais diferentes pontos de vista, que resultaram nos estereótipos de favela que conhecemos hoje. (ZALUAR; ALVITO, 2004). Após um século de história, tanto preconceito e estigma não retratam mais sua verdadeira face (SILVA; BARBOSA, 2005). A música deu voz às favelas, e hoje o tema fala por si mesmo.
Favela – Francisco Alves
Favela oi, favela, Favela que guardo no meu coração Ao recordar com saudade A minha felicidade Favela dos sonhos de amor E do samba-canção. {Bis}
Hoje tão longe de ti Se vejo a lua surgir Eu relembro a batucada E começo a chorar Favela das noites de samba Berço dourado dos bambas Favela é tudo que eu posso falar.
Favela oi…{Bis}
Minha favela querida Onde eu senti minha vida Presa a um romance de amor Numa doce ilusão E uma saudade bem rara Na distância que nos separa Eu guardo de ti esta recordação.
Luís Vaz de Camões veio da pequena nobreza – assim se dizia, na época, dos nobres sem casas nem títulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos por puro prazer, quando possível e, às vezes, em troca de gorjeta. Ou comida.
Era conhecido, pelas incontáveis rixas em que se metia, como Trinca-Fortes. Em uma delas, na noite da procissão de Corpus-Christi, golpeou com espada o pescoço de Gonçalo Borges, cárrego (responsável) dosarreios do rei. Acabou preso no tronco. Libertado por Carta Régia de Perdão, em 7 de março de 1553, teve que pagar quatro mil réis para caridade e foi obrigado a ir servir na Índia. Seria mudança definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais – Simão Vaz de Camões, capitão de nau; e Ana de Sá, dos Macedo de Santarém, doméstica.
Em torno dele, quase tudo é incerto. Sabe-se, dos serviços que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa – ou Coimbra, ou Santarém, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda quem sugira começos de 1525). Tendo a lei portuguesa 1540, de 02/02/1924, definido que teria sido em 05.02.1524. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz. Até que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas opções que lhe restavam.
Para cumprir aquela sentença de perdão embarcou pouco dias depois, em 24 de março, na poderosa armada do capitão-mor Fernão Álvares Cabral, filho de um Pedro que conhecemos bem. Para Goa (Índia). Ali, naquele mundo para ele novo, sofreu todas as agruras. Numa expedição a Ceuta, perdeu o olho direito em batalha. Mais tarde, em 1558, naufragou na foz do rio Mekong – costa do Sião (hoje, Tailândia). Salvou-se despido, como todos os demais sobreviventes, tendo em uma das mãos os primeiros versos de seu Os Lusíadas.
Nesse episódio teria morrido uma chinesa, a quem Camões deu o nome poético de Dinamene, para quem depois escreveria uma série de poemas. Entre eles o famoso Soneto 48, que todos conhecem, começando assim:
“Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida, descontente, Repousa lá no Céu eternamente E viva eu cá na terra sempre triste”.
Foi Provedor dos defuntos nas partes da China. Desempenhando suas funções com não muita lisura, é de justiça reconhecer. E, vez por outra, frequentaria prisões. Por dívidas. Ou rixas. Como dizia o próprio Camões, “Erros meus, má fortuna, amor ardente/ Em minha perdição se conjuraram”. Mas, sobretudo, nunca parou de escrever.
Em 1570, afinal, estava novamente de volta a Lisboa. Com as carências financeiras de sempre. Segundo se conta, sobreviveu durante algum tempo graças ao fiel Jau, trazido das Molucas. Esse escravo esmolava, de noite, pedindo pão para seu mestre. Importante é que Os Lusíadas avançava. Sob o patrocínio de dom Manuel de Portugal, devotou-se então à sagração de seu país – naquela que é considerada, consensualmente, a mais bela epopéia do século XVI.
A edição princeps – assim se diz das primeiras edições de um livro – foi impressa na tipografia de António Gonçalves, em Lisboa, no ano de 1572. Com privilégio real de impressão por 10 anos e publicada com um benévolo (e corajoso) parecer censório de frei Bartolomeu Ferreira, sem data. Terá tido também licença da Mesa Inquisitorial – que, todavia, não consta da impressão.
Tem aparato paratextual simples, 8.816 versos e 1.102 estrofes divididas em 10 cantos. Utilizando a divisão da divina Comédia, de Dante – que assim tem, como cantos, seus 100 livros. Há, hoje, cerca de 25 exemplares ainda existentes, em bibliotecas ou nas mãos de colecionadores, talvez menos que 10 completos.
Até fins do século XIX, se acreditava ter havido duas edições princeps, um mito devido a Manuel Faria e Souza – que (em 1639), ao comentar Os Lusíadas, confrontou dois volumes daquele mesmo ano em que o livro foi lançado, 1572; e verificou haver, neles, pequenas diferenças. Depois se comprovando terem sido bem mais que duas. Restando hoje assente que assim ocorreu pelo desejo de Camões, ou seu editor, em corrigir pequenas incorreções das impressões anteriores.
Dando-se que, em alguns casos, foram sendo aproveitados conjuntos de páginas já impressas, antes, e não utilizadas. Fazendo-se, as correções, nas novas páginas impressas. Uma explicação que só se pode compreender pelos rudimentares sistemas de impressão daquela época.
Apesar de numerosos indicativos dessa edição princeps na comparação com as demais, e curiosamente, o que a identifica é um pelicano, à primeira página, com o bico virado para a esquerda do leitor. Além do pelicano, também um detalhe no terceiro verso da primeira estrofe, que começa por “E entre”; enquanto nas versões posteriores, já corrigidas, começa por “Entre” apenas. Essas edições de 1572 tornaram-se conhecidas, por isso, como “Ee” e “E”.
Camões tinha com ele, ao morrer, aquela que acabou tida como a primeira edição autêntica, deixada ao frei Joseph Índio, que o acompanhou num hospital de Lisboa. Esse volume é conhecido como Holland House – por ter estado em casa do general Lord Holland, em Londres, a partir de 1812 e por mais de cem anos.
Outra edição famosa, em Portugal, é a segunda ‒ conhecida como dos piscos. Surgida, em 1584, dois anos após o fim do prazo do alvará que protegia a primeira (de 1572). Impressa pela tipografia Manuel de Lira (em Lisboa), e com licença do mesmo frei Bartolomeu Ferreira, responsável pela autorização da edição princeps. O nome jocoso dado à edição vem de uma citação, nos Lusíadas (Canto III, 65), sobre a “piscosa Cizimbra”.
Sezimbra é uma vila portuguesa no distrito de Setúbal. Abundante em peixes, bom lembrar. Trata-se da primeira edição comentada de Os Lusíadas. Explicando a citação, o comentador, como referência aos pássaros que ali se juntam em passagem para a África, provavelmente se referindo ao Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus Rubecula).
Camões segue a trilha de outras epopéias do passado. Sobretudo a Eneida, de Virgílio; o que se vê até na comparação dos versos iniciais dos poemas: Canto as armas e o varão, Virgílio; e As armas e os Barões assinalados, Camões. Também a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Bem como a divina Comédia, de Dante.
Além de numerosas epopéias surgidas em Portugal, no mesmo século XVI de Os Lusíadas, mas antes dele – como as de André de Resende, Manuel da Costa ou José de Anchieta; e manuscritos que circularam, também antes de 1572, como os de António Ferreira e Jerónimo Corte-Real.
Nele temos o passado, com a exaltação das conquistas em que o povo português foi muito além do Mar Tenebroso. O presente, com o lamento pelo abandono das terras africanas por Portugal – de Safim a Azanos, de Azila a Alcácer Cequer. Sem contar a ameaça turca, conjurada só na batalha naval de Lepanto, em 7 de outubro de 1571.
Mas é, sobretudo, a antevisão de um futuro grandioso, na linha da Utopia do Quinto Império. E ninguém cantou Portugal como Camões. Ver Canto X, 155,
“Pera servir-vos, braço às armas feito, Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece ser a vós aceito, De quem virtude deve ser prezada. Se me insto o Céu concede, e o vosso peito Dima empresa tomar de ser cantada, Como a pressaga mente vaticina Olhando a vossa inclinação divina”.
Pouco antes, em Desenganos, escreveu “Nascemos para morrer/ Morremos para ter vida/ Em ti morrendo”. Assim foi. Luís Vaz de Camões morreria só em 10 de junho de 1580, pouco depois do desastre de Alcácer Quibir – em que desapareceu dom Sebastião, o Desejado, e Portugal passou a ter um rei espanhol.
Foi enterrado na igreja de Santa Ana e seus restos acabaram transferidos, em 1894, ao mosteiro dos Jerônimos, onde repousam num túmulo esculpido em mármore bem na entrada. Consta que disse, ao morrer, “Ao menos morro com a pátria”.
* * *
Há uma razão para falar em Camões agora, amigo leitor, É que, nesta quarta, o Gabinete Português de Literatura me distinguiu com o “Colar do Mérito Luiz Vaz de Camões”. Como complemento, “Em reconhecimento à sua destacada contribuição à cultura e à língua portuguesa”. Homenagem enorme, da qual nem me sinto merecedor. Deve ser por conta da idade…
O Gabinete (com 80 mil livros) está celebrando, agora, seus 175 anos. Um marco importante na história literária e intelectual de nosso estado. Por tudo, pois, grato a seu presidente, o eminente Celso Stamford; e a seu vice-presidente, o caro Alexandre Reis de Melo.
Agradeço, também, ao conselheiro da Embaixada de Portugal no Brasil, o Excelentíssimo senhor doutor Francisco Duarte de Azevedo. E logo encareço permitam uma observação pessoal. Para dizer que se trata de alguém que cultua a exatidão. Por exemplo lembro que foi ao Shopping Center Recife para comprar meias. A balconista desejou ter informações complementares, para melhor atender seu pedido. Reconhecendo aquele cliente como português, e forçando um sotaque lusitano,
‒ Diga mais.
E ele, preciso em tudo,
‒ Mais.
Muito grato a todos. E viva pelos seus méritos, por todos reconhecidos, o Gabinete Português de Leitura.
Haroldo Lima é um homem que orgulha-se de sua dignidade, esteio de nossa sociedade, homem probo, advogado emérito, conhecedor profundo das leis. É meu primo, nos damos bem desde os tempos de colégio. Um apologista aos bons costumes e à moral da educação ocidental. Nunca teve problemas financeiros, conhece o mundo, hoje é um sessentão conservado. Caminha diariamente, não relaxa na musculação da Academia. Semana passada caminhando na praia, eu fui abraço por trás, era Haroldo, alegre, sorrindo, andou a meu lado conversando descontraidamente, com ar de felicidade, filosofou.
– Tudo pode acontecer com qualquer cidadão do mundo, com qualquer cristão, com qualquer homem de bem.
Fiquei surpreso com o pensamento espontâneo e tempestivo, perguntei o que havia acontecido. Haroldo colocou a mão em meu ombro, diminuímos a caminhada, ele confidenciou-me sua história quase sussurrando.
– O Cão está me provocando! Veja você meu primo, um homem como eu, crente em Deus, assisto à missa todo domingo, temente ao castigo divino, caí na tentação do Satanás. O Diabo tomou forma de uma morena da cor de mel, de um sorriso cativante, de uma tentação encantadoramente diabólica. Leonor, minha querida e santa mulher, contratou um jovem para trabalhar em casa. A capeta veste uma bermuda desfiada, esburacada para suas faxinas. Normal para ela, para mim, uma loucura. O sangue ferveu em minhas veias ao me deparar com as pernas roliças, perfeitas, daquela mulher. Todo dia Leonor sai para a casa dos filhos, ver os netos, eu fico sozinho trabalhando no quarto que transformei em escritório. Chica, a jovem, é esperta, na cozinha prepara um gostoso almoço, ela tem mãos de ouro, mãos encantadas, em tudo que pega, dá vida. Até engordei, contrariando meu zeloso médico. A diabinha em forma de mulher percebeu meus olhares para seu corpo fascinante. Certo dia, por volta das dez da manhã, ela entrou no meu gabinete, eu trabalhava em cima de um processo difícil. Chica varria distraída, vestia a bermuda jeans desfiado salientando o maravilhoso traseiro. Acabou-se minha concentração, eu olhava com o rabo do olho para a endiabrada, o sangue esquentava. O Demônio conhece bem as fraquezas humanas. Ela se aproximou, perto do birô, perguntou se eu era advogado, se soltava preso da cadeia. Foi direta, contou-me que um amigo estava preso, roubou o celular de um menino, deu azar, era filho de um sargento, no outro dia estava preso. No maior dengo, me chamando de patrão, disse que faria tudo, tudo mesmo (outra provocação da diabinha) para soltar o amigo e quanto eu cobrava para soltar o rapaz. Eu me contive, a satânica de voz angelical, chegou-se bem junto, o decote mostrava os seios pequenos e duros. Levantei-me respirando fundo, disse que iria pensar no caso, evitei continuar olhando, estava à beira de uma besteira. Sai do escritório.
À noite contei à Leonor sobre o namorado da moça, claro que omiti os detalhes do Demônio acendendo fantasias libidinosas. No sábado fui com a jovem Leonor à cadeia conversar com o marginal. Como não houve ferimento e ser primário, solicitaria habeas-corpus para o preso esperar o julgamento em liberdade. O Delegado de plantão, meu amigo, olhou para mim e para jovem e deu as ordens.
– Vou soltar esse bandido que roubou um celular, o Presidente já disse que não é crime. Pode ir Dr. Haroldo daqui para o meio-dia ele estará solto. Vou apenas dá-lhe uns conselhos e três palmadas.
Pegamos meu carro de volta ao meu santo lar, fiquei surpreso quando ela falou no maior descaramento que notava meus olhares e queria agradecer com amor, pelo que fiz por ela. Entramos num motel da Via Expressa. Foi uma tarde maravilhosa. A diabinha sabe tudo na cama, me ensinou o caminho do purgatório. Ainda não tive coragem de me confessar, se eu morresse hoje, iria para o inferno!
Uma vez por semana, num motel, a diabinha me deixa no céu. Nunca pensei que um dia poderia ser envolvido pelos caprichos do Demônio. O Cão sabe provocar nossas fragilidades. Até se veste com bermuda esfarrapada.
Perto de casa nos despedimos, atravessei a avenida pensando, avaliando como o Diabo se aproveita da fraqueza de um homem.
1971, EUA : Em Washington, vários governadores estão reunidos com o presidente Nixon para discutir o aumento do consumo de drogas, especialmente maconha. O presidente apresenta um relatório preparado pelo governo federal que recomenda tratar a questão como um problema de saúde pública. Silêncio na sala, rostos constrangidos, até que um governador se anima e diz: “Presidente, esse seu relatório é muito bonito, mas o problema na prática é que se eu não prender ninguém eu não me reelejo!”. Todos os demais governadores se apressam em apoiar o colega. A reunião acaba com a seguinte conclusão: o problema das drogas será tratado como caso de polícia.
2025, Brasil : A Guerra às Drogas já dura mais de meio século; o consumo de drogas nunca parou de crescer, e propiciou o surgimento de grupos organizados que começam a desafiar o poder do governo. A luta contra o tráfico de drogas confunde-se com a luta pelo controle das favelas, em especial no Rio de Janeiro. As tradicionais operações policiais, conhecidas como “subir o morro”, já não convencem a opinião pública. Sentindo a necessidade de algo novo, e de olho, como todo político, na próxima eleição, o governo estadual parte para algo maior, instantaneamente batizado de “megaoperação”. Com um saldo de 121 mortos, a operação foi declarada um sucesso e aprovada com entusiasmo pela maior parte da população.
Baixada a poeira, porém, algumas dúvidas surgem sobre o que vai acontecer daqui para frente:
Algum “chefe do tráfico” ou “líder de facção” foi preso ou morto? Não, até porque é notório que os membros do primeiro escalão não moram nas favelas, moram nos bairros nobres da cidade.
Algum membro do segundo ou terceiro escalão foi preso ou morto? Não, parece pouco provável que algum deles vá para as ruas enfrentar a polícia.
Então quem morreu? Os funcionários de último escalão, facilmente substituíveis.
Então a tal “megaoperação” fez algo para acabar com o crime organizado e com o tráfico de drogas? Não, porque não existe a menor intenção de fazer isso.
A atual política dos governos pelo mundo segue uma lógica simples: Criar algo que deixe a população com medo, e apresentar-se como a solução para esse medo. Isso funciona melhor com uma combinação entre “medos permanentes” e “medos temporários”. Por exemplo, a crise do COVID-19 foi um medo temporário que levou muita gente à beira da paranóia. Já a ameaça da “saúde cara” é um medo permanente onde o governo mantém os hospitais e os planos de saúde particulares próximos da inviabilidade para que a população tenha medo de ficar sem o SUS. Da mesma forma, o governo mantém a criminalidade como um medo permanente e complementa o sentimento com crises periódicas que elevam a retórica a níveis de “o mundo vai acabar”, novamente levando a população à beira da paranóia.
O salário de muita gente no governo depende da existência da Guerra às Drogas. Alguns são empregos fixos, na polícia, ministério público, justiça e diversos departamentos federais, estaduais e municipais. Outros são cargos eletivos, ocupados por políticos que fazem da retórica da guerra sua eterna plataforma de campanha.
Também há gente cujos rendimentos vêm do outro lado: são todos os que fazem parte da estrutura dos tão falados cartéis.
E é óbvio que existe gente que recebe dos dois lados, ou seja, combinam o salário recebido do governo com a propina recebida dos criminosos, em troca de conivência e ajuda nos mais diversos graus.
Por isso, é extremamente ingênuo acreditar que existe, em algum governo, a intenção de acabar com o tráfico de drogas, simplesmente porque, acabando o tráfico, acaba a guerra, e nenhum dos interessados quer acabar com algo tão conveniente e tão lucrativo.
Se os governadores que participaram da reunião com Nixon estivessem aqui, iriam sorrir satisfeitos: se a questão é manter a Guerra às Drogas, a reeleição de todos eles está garantida.